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25 jul2006

Rui Parada

CARBÚNCULO

O pedinte, antes de ser pedinte, era um corpo inteiramente distorcido. No entanto, cada parte distorcida ocupava um lugar justo, pois, de uma a outra se distribuía e comunicava uma força vital e motriz. Essa força permitia-lhe navegar na cidade e no tempo, desfilando no interior da aversão alheia. Aliás, “pedinte”, era um atributo que se devia apenas à aversão alheia, que assim determinava o modo de participação do grotesco na esfera das coisas, maior e unanimemente incompreensível. O pedinte era um espectáculo dentro de outro espectáculo. E o acto de pedir era a sua plateia.

*

Sentado na esplanada coberta, sentia uma brisa de avenida soprar no mesmo sentido do tráfego. Enquanto lia sem grande interesse aquilo que lia, percebeu que algo tinha entrado no seu campo de visão a uma velocidade diferente do normal. Porém, simultaneamente, um rápido pensamento lhe tinha dito para não levantar a cabeça, para não examinar, nem sequer num habitual gesto de disfarçada distracção, o lento objecto.

De cada vez que os seus olhos mudavam de linha, descendo lentamente a página do folheto luxuosamente impresso, a mancha parecia também mudar de posição para um ponto mais próximo, ao longo do passeio que se estendia paralelo ao seu lugar.

A certo ponto, compreendeu que se tratava de uma forma humana, situada, agora, no interior da moldura formada pela lente esquerda dos seus óculos escuros.

Percebeu, também que o ruído da esplanada repleta deixara de o envolver no seu casulo rítmico de vozes. Na verdade, as vozes tinham deixado de se ouvir. Sobrava a partitura indecisa de talheres, pratos e copos.

Dentro de instantes, a mancha de invulgares contornos passaria mesmo à sua frente.

Susteve a respiração. Algo de obscuro e premente dizia-lhe que se não respirasse a sua presença passaria desapercebida, como um animal camuflado pela selva, ou um insecto acossado fingindo a morte. À sua frente, a mancha tinha-se tornado suficientemente permanente para lhe sentir a sombra sobre a mesa, preenchendo a chávena de café vazia, banhando-lhe as costas da mão que deixara sobre o linho num gesto paralisado.
O pequeno concerto de talheres havia cessado. Nas suas costas era óbvio que já ninguém levava comida à boca. Os seus olhos, tenazmente fixos no papel brilhante, liam pela terceira vez: «Sushida Gems kindly invites you to the launching party of its new collection of diamond jewelry.»

*

Quando a luz regressou, permaneceu ainda na mesma posição durante um interminável momento antes de erguer a cabeça. O ar que lhe enchia os pulmões tinha o artificial e delicado gosto da curiosidade não saciada. Observou os dedos que a sombra tocara como se admirasse um anel invisível.


Publicado às 12:11 | Comente [1]


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