" /> Cidades Crónicas: julho 2006 Archives

« junho 2006 | Main | agosto 2006 »

julho 25, 2006

CARBÚNCULO

O pedinte, antes de ser pedinte, era um corpo inteiramente distorcido. No entanto, cada parte distorcida ocupava um lugar justo, pois, de uma a outra se distribuía e comunicava uma força vital e motriz. Essa força permitia-lhe navegar na cidade e no tempo, desfilando no interior da aversão alheia. Aliás, “pedinte”, era um atributo que se devia apenas à aversão alheia, que assim determinava o modo de participação do grotesco na esfera das coisas, maior e unanimemente incompreensível. O pedinte era um espectáculo dentro de outro espectáculo. E o acto de pedir era a sua plateia.

*

Sentado na esplanada coberta, sentia uma brisa de avenida soprar no mesmo sentido do tráfego. Enquanto lia sem grande interesse aquilo que lia, percebeu que algo tinha entrado no seu campo de visão a uma velocidade diferente do normal. Porém, simultaneamente, um rápido pensamento lhe tinha dito para não levantar a cabeça, para não examinar, nem sequer num habitual gesto de disfarçada distracção, o lento objecto.

De cada vez que os seus olhos mudavam de linha, descendo lentamente a página do folheto luxuosamente impresso, a mancha parecia também mudar de posição para um ponto mais próximo, ao longo do passeio que se estendia paralelo ao seu lugar.

A certo ponto, compreendeu que se tratava de uma forma humana, situada, agora, no interior da moldura formada pela lente esquerda dos seus óculos escuros.

Percebeu, também que o ruído da esplanada repleta deixara de o envolver no seu casulo rítmico de vozes. Na verdade, as vozes tinham deixado de se ouvir. Sobrava a partitura indecisa de talheres, pratos e copos.

Dentro de instantes, a mancha de invulgares contornos passaria mesmo à sua frente.

Susteve a respiração. Algo de obscuro e premente dizia-lhe que se não respirasse a sua presença passaria desapercebida, como um animal camuflado pela selva, ou um insecto acossado fingindo a morte. À sua frente, a mancha tinha-se tornado suficientemente permanente para lhe sentir a sombra sobre a mesa, preenchendo a chávena de café vazia, banhando-lhe as costas da mão que deixara sobre o linho num gesto paralisado.
O pequeno concerto de talheres havia cessado. Nas suas costas era óbvio que já ninguém levava comida à boca. Os seus olhos, tenazmente fixos no papel brilhante, liam pela terceira vez: «Sushida Gems kindly invites you to the launching party of its new collection of diamond jewelry.»

*

Quando a luz regressou, permaneceu ainda na mesma posição durante um interminável momento antes de erguer a cabeça. O ar que lhe enchia os pulmões tinha o artificial e delicado gosto da curiosidade não saciada. Observou os dedos que a sombra tocara como se admirasse um anel invisível.

julho 18, 2006

Essa Mulher

"(...) a cidade que eu não conheço, que você não conhece; são as ruas que nós não atravessamos, são os outros caminhos possíveis."
Jorge Luis Borges


Italo Calvino escreveu "As Cidades Invisíveis" e batizou todas as cidades do seu livro com nomes femininos. Não por acaso. Uma cidade, qualquer cidade, mesmo uma como "o" Rio de Janeiro, maltratada pela violência urbana, humilhada pelo descaso, por ruas cansadas de multidões que não distiguem seu povo de turistas, é mulher, brejeira, encantadora, tendenciosamente charmosa mostrando sempre e melhor o que lhe cai bem. E como lhe caem bem os contrastes de mulher que não esquece o jeito de ser menina, com seus morros sinuosos, suas montanhas esguias, praias bocudas ensaiando sorrisos manhosos. Como toda mulher, também tem labirintos curvilíneos que vão dar em recantos misteriosos ou em lugar nenhum. É da natureza das cidades, faz parte deste mundo feminino.

Tenho fascínio por ela, a cidade do Rio que adotei como minha, porque além de mulher ela é madura, e pensa -- mas só pensa -- que já viveu tempos melhores. Uma mulher, ansiosa e enérgica que passa noites em claro cuidando dos filhos famintos e desorientados, dos amigos mortos, dos amantes esfolados. E como toda mulher que carrega tantos anos, que já viu de um tudo - até do que Deus duvida -, e que já sofreu um tanto, nem sempre consegue esconder suas cicatrizes de calçadas indigentes, de muros raspados de balas perdidas. Mas, o que ela guarda mesmo são os fogos das viradas de ano, os carnavais em que ela é destaque e especialmente, os dias de glória. Então, depois dessas noites famigeradas e insones, essa mulher generosa sorri para o sol beijando-lhe as faces, lança uma piscadela de olho por sobre o pessimismo, sobre as manchetes dos jornais e das más línguas, oferecendo tendenciosa beleza aos amigos, caloroso conforto aos seus filhos e um gingado apimentado aos amantes.

Como uma bela mulher, cuja beleza tanta a deixou mundialmente famosa, atrai gente de muito longe para apreciar seus contornos. Uma mulher tão linda -- e dizem que toda a mulher linda demais é perigosa -- enlouquecendo estrangeiros, maravilhados ou ingênuos, em noitadas de amor ou em ciladas viciadas. A cidade do Rio, charmosa e sensual, inspira sambas nos morros, faz bossa em Ipanema, cantarola no Leblon, passeia pelo Jardim Botânico, dança sob os Arcos da Lapa, banha seu corpo em Copacabana, Praia Vermelha -- rubra de encanto. Passa pela Enseada de Botafogo e, sinuosa, pelo Aterro do Flamengo. E de quebra, tempera Pão com Açúcar onde por ela se arrasta um bonde. Rio é mulher sestrosa, às vezes escancaradamente indecorosa, mas cujos pecados parecem ser reduzidos por um Cristo sempre Redentor.

Quem a conhece não pode deixar de amá-la mesmo sabendo de seus perigosos caminhos, dos seus insidiosos atalhos, pois quem a vê iluminada de noite ou iluminando um dia, por ela se enamora quase assustadoramente. Quem nunca lhe viu de tão perto e idealiza sua beleza tão exposta, tem um pé atrás do otimismo, acha que ela é
bandida, traiçoeira como sereia que canta e encanta para atrair marinheiros desavisados. O contrasenso é certo. Mulheres sempre despertam sentimentos contrários, confusos e inseguros. As regras são simples para entender esse mistério: morar com uma mulher, seja ela qual for, exige adoração pelo seu calor e desprendimento. Já, para um visitante ela oferece alegria, mas pede cautela e um punhado de respeito -- e pré-disposição para conhecê-la de perto. É bom ter sempre um mapa à mão, mas apenas como indicativo porque mapear uma mulher, especialmente uma como essa, é tarefa inconclusiva.

Por isso, peço licença para alterar o fragmento de poema de Jorge Luis Borges, falando de outra mulher bonita, com outros contornos e adornos, a noturna Buenos Aires, para dizer a quem na cidade do Rio de Janeiro ainda não conseguiu pôr os pés, por falta de oportunidade ou receio e, ainda para aqueles que não conhecem todos os seus (re)cantos:

"A mulher que não se conhece são as ruas não atravessadas, são os outros caminhos possíveis."

Das Propriedades Terapêuticas da Feira do Livro de Porto Alegre

Aproveito a(s) Feira(s)s do Livro - não sei se foi uma ou se foram várias - para comentar sobre a Feira do Livro de Porto Alegre.

Nossa querida Feira do Livro - que já passou dos 50 anos - é uma grande reunião de livreiros e instituições em uma praça aberta no centro de Porto Alegre. Vende-se livros, ministram-se palestras, há uma área para a literatura infantil (com livrarias especializadas e teatro), há oficinas de literatura, há as empresas de comunicação que transferem seus estúdios para lá e há o coração da cidade, que passa a pulsar pela literatura em lugar de mover-se de acordo com a pressa, a violência ou o medo. Nossa Feira é incomum sob vários aspectos: é gratuita, é realizada em praça aberta, é visitada por milhões de pessoas - não é exagero - e é quase impossível caminhar entre as barracas nos finais de tarde e de semana. Os amigos estão todos lá, conheço gente que vai todos os dias da Feira à Praça da Alfândega, no centro da cidade. Ela começa sempre na última sexta-feira de outubro e acaba por volta do dia 15 de novembro.

Há coisas ruins nela: nos últimos anos, as barracas da Feira tornaram-se uma imensa livraria convencional. Os tradicionais balaios de saldos estão cada vez mais raros e a variedade dos livros é a mesma de qualquer megastore, ou seja, é mínima. Até os sebos estão dedicando metade de seu espaço a livros novos que são os mesmos da barraca vizinha... Vou dar um exemplo: no ano passado, procurei o premiado Nove Noites de Bernardo Carvalho, publicado Companhia das Letras. Perguntei em mais de 50 barracas e nada. Ou seja, todos vendem as mesmas coisas e acabei na Internet. Já Paulo Coelho e nossos best-sellers gaúchos estão em todo lugar. Não há diversidade. É monótono. Talvez as únicas exceções sejam a Livraria Bamboletras e a Ventura Livros. O resto é shopping.

Há coisas ótimas nela: os eventos periféricos. As carradas de seminários gratuitos com os escritores que estão lançando seus livros são excelentes de se acompanhar. Sentamo-nos confortavelmente nos bons salões do Santander Cultural, do Clube do Comércio e do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo a fim de ouvir os autores. Ao final, podemos fazer perguntas e debater a obra ou outras obras, a vida, a política, o futebol, o amor, qualquer coisa. As pessoas saem eufóricas destes encontros. Também, nos últimos anos, estão sendo apresentados ciclos também gratuitos de filmes baseados em livros em salas próximas ("É tudo free!", como diria Raul Seixas) e a parte internacional da Feira tem estado mais interessante, com os argentinos e espanhóis entrando com livros e preços bem legais. Mas, quando coloquei lá em cima meu título, não referia-me às possibilidades terapêuticas da cultura e sim de outras, como explico abaixo.

O título diz respeito a um caso pessoal. Alguns meses depois de minha separação, eu ainda estava profundamente deprimido e chegou a época da Feira do Livro. Não morava mais com meus filhos e tinha um enorme tempo livre ao qual estava desacostumado ou acostumado a utilizá-lo apenas para me desesperar ainda mais. Os amigos estavam meio sumidos; afinal, sabe-se que o separado adquire uma espécie de hanseníase contagiosa a alguns, ele(a) causa medo, algo do gênero se-aconteceu-a-ele(a)-pode-acontecer-a-mim-e-eu-não-quero. Porém, decidi que ia voltar a aparecer para as pessoas. Afinal, era a Feira! Habituei-me a ficar na frente do pavilhão de autógrafos por volta das 18h. Sim, ficava ali, como uma prostituta fazendo seu ponto. O extraordinário é que TODOS OS DIAS em que lá fui, surgiram amigos - velhos, novos ou antiqüíssimos - com os quais acabei jantando ou visitando depois. Eles sempre apareceram. Estes amigos traziam com eles outros e, quando me dei conta, estava com uma popularidade tonitruante, se comparada com a imediatamente anterior. Meu telefone voltou a tocar e pude, com mais conforto, fazer de conta que a vida estava voltando ao normal. E custou menos que qualquer psiquiatra, menos que qualquer anti-depressivo... Foi um período de recuperação e inclusão de novos amigos. Um bom período.

julho 4, 2006

Sortilégios

Passava a procissão da infância.
Foi há muito mas ainda vejo
O portão a abrir e a fechar
A alma,
E a alvoraçar de longe em longe
A água da prata,
Mas jamais a terra perdida
Onde diziam que o coração andava
À deriva,
Prometido.

O sortilégio de Évora percorre a superfície, o plano, a distância, a perene ilusão da continuidade. No fundo, o que o constrói é a equivalência silenciosa dos opostos.

De um lado, a austeridade da alvenaria e, do outro, a graciosidade das modulações pouco geométricas.

De um lado, a ordenação incerta do gradeamento e, do outro, a permanência alegórica dos volumes.

De um lado, a opulência severa dos granitos e, do outro, a nostalgia quase lírica das fontes.

De um lado, a servidão das calçadas ancestrais e, do outro, o eco imerso nas fachadas solares.

De um lado, a depuração formal das frontarias e, do outro, o barroco repousante que se espalha no dédalo das suas ruas.

De um lado a voluptuosa simetria do seu perfil e, do outro, a reiterada assimetria do floreado urbano.