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20 jun2006

Rui Parada

Praia

A água do chuveiro reflectia a temperatura do exterior. Ás três da tarde o dia não tinha muito mais onde ir em termos de calor. Regressara da praia. O ar, no interior do apartamento formava um bloco denso e mudo.

*

Na praia, não nadou nem se sentou na areia. Apenas caminhou entre a linha de detritos da maré-alta e a linha de arvoredo. O som das cigarras elevava-se para além de qualquer possível imagem que desejasse traçar na mente a respeito do seu canto.
A cerca de mil quilómetros da costa do sul da China laborava um tufão, mas sobre o horizonte as nuvens nada anunciavam e, na limpidez, pousadas na fronteira entre a água castanha do delta e o azul-cinza do mar, havia ilhas rochosas, recortadas e nítidas.
Caminhou para trás e para a frente, ao longo da extensão da baía, estudando os detritos acumulados.

*

Ia dizendo o nome dos objectos presos entre a areia ardente e a luz do sol. Enfiava-os como a peixes num arame, registando-os um a um e dando-se ao desconforto de os contemplar.

*

Sapatos. Bolbos secos de plantas. Garrafas. Frascos de medicamentos. Uma fatia de pão fossilizada. Parte de um pequeno animal de estimação. Preservativos. Bóias de rede. Sacos de plástico. Bolas de golfe. A secção de um tronco de árvore. Restos de peças de roupa. Uma enorme mandíbula de peixe. Uma mala de viagem, aberta e vazia, com um espelho embutido no forro. Um triciclo de plástico. Pensos higiénicos. Um pequeno ecrã de televisão. Recipientes de esferovite. O miolo de um livro. Punhados de uma matéria negra e viscosa. A casca de um crustáceo. Uma cadeira sem assento. Um sapato branco de mulher.

*

No chuveiro lavava o suor da quieta manhã de Domingo passada na praia. Enquanto se secava e novo suor se formava olhou o livro aberto sobre o chão, o seu papel domado pela humidade do dia correndo na ligeira brisa que agora passava entre as janelas abertas da sala e da cozinha. Olhou a página e traduziu quase automaticamente as palavras de A.R. Ammons:

«o lixo é decerto o poema do nosso tempo porque
o lixo é espiritual, credível o suficiente

para nos atrair a atenção[…]»

*

Viajando em busca de raiva sobre centenas de milhas de mar, talvez o tufão venha limpar tudo. Talvez traga nova mercadoria, continue a redigir o interminável poema, continue a compor na praia uma decoração de mobília oceânica. Devolvendo objectos e dejectos envoltos numa aura de inutilidade pura. Objectos sem objecção.


Publicado às 00:09 | Comente [6]


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