Seria a memória a brigar com o silêncio ermo
De tanta brancura,
Dizia o bardo
Que o tédio e o mel eram a mesma flor
De granito puro
Naquela cidade feita de alvenaria
E algumas
Demoradas
Chamas secretas.
Para além da cidade visível e perceptível, a das arcadas, a das ruas quase informes, a dos edifícios onde adormecem esgrafitos e dragões em ferro, há também uma Évora incorpórea, mas não menos vultuosa e elegante.
Não me refiro a uma cidade propriamente imaterial, metafísica ou espiritual, mas sim a uma Évora oclusa e recatada. Refiro-me ao labirinto dos pátios que, no seu todo, deverá absorver uma parte razoável dos mais de cem hectares que se distribuem pelo centro histórico.
Nesta outra Évora habita uma cidade em figura de concha, uma brancura imobilizada e repousada entre muros espessos e onde brota com voracidade um intenso mar de madressilvas, glicínias, tílias, buganvílias ou palmeiras.
Nesta outra cidade são muitos os poços profundos e secretos que respiram com avidez através dos seus retábulos e azulejos, caminho que a água milenarmente atravessa entre a frondosa e ínvia memória da cal.
Nesta cidade paralela, a incandescência contrasta com o alvoroço das praças, a intimidade contrasta com a passagem das ruas e a contemplação contrasta com o movimento do olhar.
Nos pátios de Évora floresce um modo de vida disseminado, uma clausura feliz e imperceptível, um abalo de mundos sem face, uma panóplia de sigilos acautelados. Nestes pátios, uma cidade multiplicada por mil brilha e perpetua-se, mas sem o habitual olhar que lhe dá a vista.
Ao contrário da Andaluzia, os pátios não espreitam entre grades para as ruas, antes hibernam entre vagas de heras e orlas obscuras, perdendo-se nos ermos húmidos das sombras que confidencialmente circulam, século após século, como se a cidade fosse um velado relógio de sol sem fim.