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13 jun2006

Nelson Saúte

O Taxista de Madrid

- Ao hotel Chamartín, por favor.
- ¿En la estacíon?
- Sí. La de los trenes.
– Improvisei do meu parco castelhano.
O homem me acolhera com bons modos, eu entrara no táxi, no meio da rua, numa hora de muito trânsito. Sorria enquanto me anichava no banco de trás, carregado e cansado, depois de um largo dia, terminado em compras, em Madrid.
-¿ De donde eres?
O motorista estava para meter conversa, pensei. É infalível: os melhores motoristas de táxi, para mim, são aqueles que são acolher os passageiros com uma boa conversa de circunstância. Na verdade, estava cansado. Mas não me desagradava a ideia de entabular uma conversa ao longo do percurso. Pelos taxistas também se conhece uma cidade. Estávamos no final do dia. Em Madrid fizera muito calor, o sol se pusera, mas ainda havia alguma luz residual nas ruas da Puerta del Sol, onde o encontrei.
- De Mozambique - respondi.
-¿ Mozambique, en África?
- Sín, muy lejo.
- Pero hablas muy bien castellano, ¿que lengua se habla en tu pais?
- Portugues.
- ¿Portugues?
- Sí.
- Como aprendiste nuestra lengua? Vives aqui?
- No. De vacaciones.
- Pero, conõ, hablas muy bien.
- Gracias. Mi mujer, sí, habla muy bien. Además, ha vivido aqui en Madrid y en Valladolid.

O homem voltou procurou sorrir através do retrovisor. À saída da pequena calle que dava acesso à praça Cibeles havia quase um congestionamento do trânsito. Tínhamos que descer até ao Banco de Espanha e apanhar a Castelhana, mas contornando a praça.
- ¿Entonces, en vacaciones?
- Me gusta Madrid, la movida, en el verano.

O taxista estava impressionado com os sacos que eu trazia. Por serem do El Corte Inglés, certamente.
- ¡Eres rico, hombre!
- ¿Rico?

O motorista não respondeu. Buzinou para um motociclista que se metera à frente. Sem blasfemar. Era um homem com uma fleuma à prova da bala. Madrid adquirira aquela cor de final do dia, uma aragem boa lá fora, com uma Castelhana que se anunciava cheia de carros.
- ¿Eres casado?
- Sí.
- Con una blanca o con una morenita como tu?
- Una negrita, muy linda. Y tengo, además, dos hijos.

O homem ficou em silêncio. Murmurou algo a propósito do trânsito. Queria prosseguir a conversa. Mas tinha que prestação atenção ao trânsito. Mas ao arrancar, de uma breve paragem, recuperou o fio à meada.
- ¿Pero no te gustan las blancas?
- ¿Como no?
- A los blancos les gustan las negras, pero a las negras no les gustan los blancos.

Agora era a minha vez de ficar em silêncio. Mas não foi por muito tempo. O trânsito abrira e agora estávamos a contornar a Praça Cibeles, diante do monumental Palacio de Comunicaciones, caminhando definitivamente para a ampla Castelhana, que tinha os seus quiosques movimentados e as esplanadas cheias de gente em divertida companhia.
- ¿Por que razóna a las blancas les gustan los negros e a las negras no les gustan los blancos?
O homem acelerou quando abriu o sinal já em plena Castelhana.
- Dicen que los morenos la tienem muy grande.
- ¿Como?
– me fiz de desententido.
- Digo: la polla.¡ La tienem muy grande!
Dei comigo numa enorme gargalhada enquanto o homem acelerava numa das faixas do amplo Paseo Castellana. Quando parámos num sinal, ao pé do hotel Intercontinental, o homem sacou de uma revista e pediu-me para que visse as fotografias. Era uma reportagem fotográfica sobre a passagem da Leni Riefenstahl pelo território dos núbios. Ela, aos 60 anos, de mãos dadas, com um preto grande e avantajado, totalmente nu, coberto apenas pelo ébano da sua condição. Em 1962, Leni conseguiu uma permissão do Governo local para viver – ou conviver? – com os núbios nos vales remotos do centro do Sudão. Não foi apenas este o facto mais curioso da sua profícua biografia, de mulher que nasceu em 1902 e morreu 101 anos depois, tendo sido dançarina, fotógrafa, cineasta. Uma mulher que aos 71 anos aprendeu diving, mas antes filmara, em 1934, o Congresso do Reich, em Nuremberga, o que arruinou, de certo modo, a sua carreira após a Grande Guerra. Mas ficaram para a História com os seus planos, os seus filmes, aquelas imagens dos jogos olímpicos de 1938, a sua vida longa, longuíssima. Pensava nisto tudo quando o homem chamou por mim, que estava absorto e espantado por aquelas imagens que revelavam uma beleza inesperada.
- Mira la polla de ese compadre. ¿no te parece muy grande?
Sorri. Deliciava-me com as fotografias da velha cineasta do nazismo. Olhei para o lado e estávamos diante do estádio Santiago Bernabéu. Apeteceu-me falar do futebol, dos insucessos do Real Madrid, da fantástica campanha do Barcelona, minha equipa e do meu filho Irati, do jogo dois dias antes entre o Barça e o Arsenal, do Thierry Henry que quase nos levava à desgraça, do grande Samuel Eto’o, enfim do Ronaldinho Gaúcho, do Deco, eu sei lá!, mas receei que o taxista fosse fanático dos merengues e assim eu acabasse com a sua fleuma.
- Bueno...- hesitei.
Não disse mais e devolvi-lhe a revista enquanto entrávamos para o túnel que dava à Praça de Castilha. Não muito tempo depois estávamos diante do hotel. Ele guardara a revista com as fotografias da Leni Riefenstahl. Perguntou-me:
- ¿Chamartín?
- Sí, gracias.

O homem saíu e veio ajudar-me a abandonar o táxi, abrindo-me a porta e segurando um dos sacos das minhas generosas compras. Paguei-lhe e antes de entrar pela porta do hotel, passei a minha mão pelo seu ombro e segredei-lhe, como quem procura consolar um amigo a braços com a maior de todas as tragédias.
- En mi pais a las morenas les encantan los blancos!


Publicado às 00:40 | Comente [4]


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