Após alguns dias de exibição pública da minha última croniqueta neste blog, surpreendi-me a levedar uma inveja razoável pela arte daqueles que conseguem utilizar este espaço para abordar temas mais assertivos – e, consequentemente, mais estimulantes para o público leitor. A inveja é um sentimento radicalmente humano e eu não nego esta minha propensão, antes a assumo plenamente e me entrego ao julgamento respectivo.
Antes que, dito isto, os leitores se precipitem na avaliação do meu carácter, permitam-me ainda que esclareça que a inveja que apascento é razoavelmente benévola, pelo que só remotamente pode ser levada em conta como pecado. Não invejo com a força de um mau-olhado, isso não. Ninguém sofrerá de “mal de inveja”, como lhe chama a minha mãe, por causa deste meu sentimento ameno e quase amorfo. Sou um invejoso débil e inconsequente, é o que é.
A despeito destas cogitações, vi, depois, que nada tinha para invejar particularmente, pois deste lado do mundo, a Norte do Equador, está precisamente a principiar a Primavera. Embora rotineiro, tal facto haveria de me proporcionar abundantes e felizes imagens para esta crónica. Afinal, os pássaros executam já acrobacias em dupla no céu matinal e gorjeiam pios nupciais no alto das árvores; os muros enchem-se do jorro colorido das buganvílias e, ainda melhor, já circulam pelas ruas e avenidas os mais ousados decotes, as saias mais curtas, belos nacos abdominais deixados ao léu, ombros clamando por sol que os faça dourados como a fruta madura. Nas esplanadas, as moças deixam as alças da indumentária descair para os ombros e aí ficam a crestar diante de um sol ainda ameno.
Sim, companheiros de crónicas, estimados leitores: também há pecado a Norte do Equador. Nós inventámos a gula, a cobiça, a inveja e as demais faltas que, aos olhos do suposto criador, são merecedoras da mortal penitência. Inventámos igualmente a luxúria e amiúde a praticamos. Desejamos veementemente e desejamos ainda mais por ser necessário atravessar, em penitente rigor, meses e meses de chuva e frio, até que a fruta mulher volte a desabrochar dos abrigos de Inverno, qual rubra e esplendorosa papoila reunida em preciosos ramalhetes.
Pequemos!