volta para a página principal | outros textos deste autor


02 mai2006

Manuel Jorge Marmelo

Também Há Pecado A Norte Do Equador

Após alguns dias de exibição pública da minha última croniqueta neste blog, surpreendi-me a levedar uma inveja razoável pela arte daqueles que conseguem utilizar este espaço para abordar temas mais assertivos – e, consequentemente, mais estimulantes para o público leitor. A inveja é um sentimento radicalmente humano e eu não nego esta minha propensão, antes a assumo plenamente e me entrego ao julgamento respectivo.

Antes que, dito isto, os leitores se precipitem na avaliação do meu carácter, permitam-me ainda que esclareça que a inveja que apascento é razoavelmente benévola, pelo que só remotamente pode ser levada em conta como pecado. Não invejo com a força de um mau-olhado, isso não. Ninguém sofrerá de “mal de inveja”, como lhe chama a minha mãe, por causa deste meu sentimento ameno e quase amorfo. Sou um invejoso débil e inconsequente, é o que é.

A despeito destas cogitações, vi, depois, que nada tinha para invejar particularmente, pois deste lado do mundo, a Norte do Equador, está precisamente a principiar a Primavera. Embora rotineiro, tal facto haveria de me proporcionar abundantes e felizes imagens para esta crónica. Afinal, os pássaros executam já acrobacias em dupla no céu matinal e gorjeiam pios nupciais no alto das árvores; os muros enchem-se do jorro colorido das buganvílias e, ainda melhor, já circulam pelas ruas e avenidas os mais ousados decotes, as saias mais curtas, belos nacos abdominais deixados ao léu, ombros clamando por sol que os faça dourados como a fruta madura. Nas esplanadas, as moças deixam as alças da indumentária descair para os ombros e aí ficam a crestar diante de um sol ainda ameno.

Sim, companheiros de crónicas, estimados leitores: também há pecado a Norte do Equador. Nós inventámos a gula, a cobiça, a inveja e as demais faltas que, aos olhos do suposto criador, são merecedoras da mortal penitência. Inventámos igualmente a luxúria e amiúde a praticamos. Desejamos veementemente e desejamos ainda mais por ser necessário atravessar, em penitente rigor, meses e meses de chuva e frio, até que a fruta mulher volte a desabrochar dos abrigos de Inverno, qual rubra e esplendorosa papoila reunida em preciosos ramalhetes.

Pequemos!


Publicado às 11:44 | Comente [5]


Autores

Milton Ribeiro
Porto Alegre / Brasil


Fal Vitiello Azevedo
São Paulo / Brasil


Luiz Ruffato
São Paulo / Brasil


Nelson Saúte
Maputo / Moçambique


Rui Parada
Macau / China


Luís Graça
Lisboa / Portugal


Manuel Jorge Marmelo
Porto / Portugal



Outros Lugares

Verbeat Blogs

O Coração Gasta-se

Rascunho



Arquivos

abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006




RSS 2.0