Aquela parte da noite chegara em que tinha lugar uma troca de civilidades com a mente. “O que será lembrado?” perguntava a mente e nenhum eco era possível pois o eu não é nem uma parede, nem um abismo, nem algo que se preste a escutar, para além do seu reflexo, qualquer voz. Muito menos é alguém, por muito que grite, que peça alimento. Quanto muito anuncia eventos, é confundido com anjos.
Num hospital chinês, a noite é a noite e o dia é o dia. Outra coisa não se deve esperar. O silêncio pertence indiscutivelmente à noite e o ruído nasce e morre com o dia. Não há escolha.
Logo após o pôr-do-sol, tomava duche na casa de banho da enfermaria. Depois das visitas da tarde, era o momento de visitar uma cadeira de plástico no centro de mosaicos anti-derrapantes. A sós, a tarefa necessitava de uma enorme quantidade de energia. Sabão, água, sabão, manusear o que restava do corpo.
Era o verão do ano em que o planeta Marte, um objecto de qualquer maneira ínfimo, abotoado incandescente no céu como uma estrela, se podia ver com uma nitidez que só homens de linguagem martelada com dificuldade e exactidão tinham antes saboreado. Homens tão primitivos que se haviam tornado irrecuperáveis. Ver Marte exigia que todas as luzes da enfermaria estivessem apagadas.
Na impecável casa de banho do hospital chinês, à altura dos olhos, tinham escrito Hospital animal uterus, na fronteira entre os mosaicos e a pintura impermeável da parede. Demorara uma semana infinita a descobrir as palavras arranhadas, minúsculas, na tinta.
Pensara primeiro que algum anterior paciente ocidental tinha deixado a inscrição para trás, como sintoma de uma doença física no momento em que esta teria, talvez, evoluído para outras paragens. Porém, a ausência de verbo e o uso de «uterus», em vez da forma mais banal «womb», pareciam apontar para um paciente oriental, habituado ao poder de solitários substantivos. Um paciente letrado.
“Substantivos poderosos como verbos,” dizia a mente, presa de zero entretenimento, de lençóis de onde todo o conforto havia sido retirado. A mente, de quem se esperava tudo. Que iniciasse os primeiros gestos, os gestos primitivos da sobrevivência. De novo. Que, novamente, mas também pela primeira vez, reconstituísse todo o corpo. Que fosse paciente.
A mente olhava Marte, antes da rotação da Terra o levar para detrás dos edifícios em outras tarefas nocturnas, e estudava as palavras no chuveiro da enfermaria vazia e, no seu interior, na margem do seu interior, o eu, rodeado de ninguém, soletrava “Está quase a chegar a morfina das 9. Hoje dormes com uma princesa turca.”
Aquela parte de si que podia apenas anunciar, saudava a chegada de alguma extinção.