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02 mai2006

Milton Ribeiro

O Parque Saint-Hilaire e Ronaldinho Gaúcho

O biólogo francês Auguste de Saint-Hilaire veio a Porto Alegre em 1820. Fez belas descrições de uma vila com três longas ruas principais ligadas por transversais. Em seus textos, encontra-se mais detalhes sobre o comércio da Rua da Praia e sobre os negros que aqui viviam como escravos, do que propriamente sobre nossa flora e fauna. Penso que sua viagem a Porto Alegre sobreviveu por uma única razão: o francês escrevia bem e realizou belos quadros da futura cidade. Por esta razão, há um enorme parque com seu nome.

Quando digo enorme, estou falando de uma área de 1.180 hectares, 940 destinados à preservação e 240 ao lazer. Afastado 17 Km do centro da cidade e estando até hoje em local pouco povoado, foi fundado em 1947. Devia ser algo espetacular para a cidade durante minha infância. Lembro que um grande programa dos finais de semana da década de 60 era ir ao Saint-Hilaire jogar futebol ou fazer um churrasco.

Faziam vinte anos que eu não ia ao parque. Neste feriado de Primeiro de Maio, fui lá com minha mulher e filha. Dia lindo, maravilhoso mesmo e lá fomos nós, armados de toalhas para pôr na grama, sanduíches, bicicletas e bebidas. A entrada, surpreendentemente, era gratuita. Dirigindo pelo parque quase vazio, fomos lendo as placas indicativas e soubemos que havia cem churrasqueiras com mesas - não precisaríamos, pois, usar nossas toalhas - e que lá havia um lago, do qual havia esquecido inteiramente. Depois do almoço, eu e minha filha andamos de bicicleta por todo o lado, subindo e descendo caminhos inteiramente desertos e que muitas vezes acabavam em bonitas paisagens que eram ignoradas por ela. Porém, após uma curva em subida, ouvimos um som longínquo. Era um samba de raiz. Avançamos naquela direção. O som da música foi logo acompanhado de um cheiro forte de churrasco, era como se estivessem assando toneladas de carne. Quando chegamos ao alto da colina, vimos uns cinqüenta carros estacionados - quase todos modelos de quinze anos ou mais - e o motivo de tanta gente reunida. Ora, os carros, as diversas churrasqueiras, todas largando no ar aquele cheiro salivante, a cerveja, as crianças, as mulheres, os homens, tudo e todos, estavam olhando para um campo de futebol.

Era um jogo do campeonato da várzea de Porto Alegre. Tudo muito organizado, com juizes uniformizados e uma torcida absolutamente dividida entre as duas equipes, mas totalmente de acordo nos quesitos cerveja, futebol e churrasco. Eu e minha filha deitamos nossas bicicletas e ficamos assistindo a partida. Eram times de faixa etária variadíssima, pois havia garotos, jovens, adultos e seniors correndo atrás da bola. Deviam ser times formados por famílias amigas. Logo lembrei de Ronaldinho Gaúcho, que, menino nascido ali perto, diz ter aprendido a driblar e a fugir das faltas jogando contra adultos - seus parentes e amigos -, no futebol de várzea e contra seus cachorros em casa. (Sim, ele disse que aprendeu a driblar enganando os dois cachorros loucos por bola que sua família tinha. Ele passava por eles mas os bichos sempre voltavam a ficar na sua frente para serem driblados novamente, mais ou menos ao estilo de Michel Salgado.) De repente, um problemão: a torcida do time branco e preto começa a gritar que os verdes estão com doze jogadores em campo. O juiz pára o jogo e começa a contar. Vejo o número quinze dos verdes sair pela lateral do campo entre os carros e pegar uma cerveja da mão de uma mulher. Os adversários o denunciam, ele abre os braços ostentando o copo com o líquido dourado, fazendo-se de salame (*). O juiz dá-lhe razão e mostra um cartão com cor parecida com a da cerveja para os reclamantes. A torcida alvi-negra aumenta o volume dos palavrões dirigidos ao árbitro; as mulheres, principalmente, elogiam a mãe da autoridade. Os verdes riem. O número quinze diz para todos ouvirem que

- porra, um homem não pode nem beber sua cervejinha tranqüilo.

Eu e minha filha também rimos. Ela está se tornando assídua freqüentadora de jogos, apesar de meu quase desestímulo por achar estranhas as mulheres que conhecem a regra do impedimento. Então, ela aponta o número dez dos verdes. Um menininho pequeno, que possui entre treze e quinze anos e que destrói a defesa adversária com dribles rápidos e passes perfeitos. Por pura simetria, conferi se o menino era dentuço. Não, tinha uma cara estranha, bonita, parecida com a do ator Benício del Toro. Os verdes ganham fácil, para irritação do de branco e preto, que se dizem roubados e fazem gestos. Quando nos levantamos para ir embora, vemos que eles vão comer e beber juntos, discutindo, ofendendo uns aos outros e rindo.

Voltamos para onde deixáramos minha mulher lendo. Ela tinha sumido! Ficamos procurando pelas redondezas, enquanto ela certamente nos observava. Quando cansou de fazer-nos de bobos, resolveu sair do esconderijo, toda sorridente, buzinando e perguntando se tínhamos ficado preocupados. Nem um pouco, engraçadinha. Depois, ela tirou uma fotografia de minha filha com o celular e fomos embora.

(*) Fazer-se de salame: o mesmo que "fazer-se de desentendido", em portoalegrês.


Publicado às 00:24 | Comente [8]


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