volta para a página principal | outros textos deste autor


16 mai2006

Luís Carmelo

Desígnios

Dizem que o Ciclope é o ferreiro
Que fez o mundo
E a grande escadaria em caracol.
Respondi que a cidade
Era o desvario que estava no olhar de Orfeu
Sob arcadas,
Cactos,
Velas e alguma resina líquida
A pairar na memória
Da sua brancura.

Évora é uma dessas cidades antigas que aprenderam a resistir às vicissitudes e às agruras sem nome.

Évora tem o teor mágico das represas que souberam transformar o seu espelho de água na quietude da arquitectura. Há qualquer coisa de inquietante, de inomeado e de transbordante a percorrer a silhueta da cidade, apesar de toda ela ter sido moldada ao sabor da aprazível paisagem que a viu nascer: uma imensa linha de fuga a escapar-se à tentação do horizonte.

Tal como um fio de prumo gigante, Évora encontra-se fiel e firmemente ancorada na terra, repartida entre três bacias hidrográficas do sul e iluminada pelos volumes de prata que a embalam na respiração há muito contida.

Jamais se virá a saber se a beleza da cidade mora no esteio das suas amuradas e velames manuelinos sem mar, ou se é simplesmente bela e hipnótica essa rara fractura com que as formas anónimas da cidade cercam e segredam o tempo.

Será esse, para sempre, um dos grandes enigmas de Évora.


Publicado às 00:59 | Comente [5]


Autores

Milton Ribeiro
Porto Alegre / Brasil


Fal Vitiello Azevedo
São Paulo / Brasil


Luiz Ruffato
São Paulo / Brasil


Nelson Saúte
Maputo / Moçambique


Rui Parada
Macau / China


Luís Graça
Lisboa / Portugal


Manuel Jorge Marmelo
Porto / Portugal



Outros Lugares

Verbeat Blogs

O Coração Gasta-se

Rascunho



Arquivos

abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006




RSS 2.0