Dizem que o Ciclope é o ferreiro
Que fez o mundo
E a grande escadaria em caracol.
Respondi que a cidade
Era o desvario que estava no olhar de Orfeu
Sob arcadas,
Cactos,
Velas e alguma resina líquida
A pairar na memória
Da sua brancura.
Évora é uma dessas cidades antigas que aprenderam a resistir às vicissitudes e às agruras sem nome.
Évora tem o teor mágico das represas que souberam transformar o seu espelho de água na quietude da arquitectura. Há qualquer coisa de inquietante, de inomeado e de transbordante a percorrer a silhueta da cidade, apesar de toda ela ter sido moldada ao sabor da aprazível paisagem que a viu nascer: uma imensa linha de fuga a escapar-se à tentação do horizonte.
Tal como um fio de prumo gigante, Évora encontra-se fiel e firmemente ancorada na terra, repartida entre três bacias hidrográficas do sul e iluminada pelos volumes de prata que a embalam na respiração há muito contida.
Jamais se virá a saber se a beleza da cidade mora no esteio das suas amuradas e velames manuelinos sem mar, ou se é simplesmente bela e hipnótica essa rara fractura com que as formas anónimas da cidade cercam e segredam o tempo.
Será esse, para sempre, um dos grandes enigmas de Évora.