Hard Times
Logo à entrada do Casino de Lisboa, um grupo de portugueses toca “blues” numa sala sobriamente decorada em tons de negro. “Hard Times”, de Eric Clapton.
Vêm aí tempos difíceis. Vêm? Não. Já aí estão.
E, tal como é apanágio dos tempos difíceis, as pessoas acreditam no milagre com a energia do desespero. Se o trabalho é um privilégio (apesar de consignado como um direito na Constituição da República), a solução pode estar na busca do impossível. Um totoloto ganho nas mesas da roleta.
Um arrepio de culpa percorre-me a espinha. Gastei 40 euros para ver um concerto de jazz no recém-aberto Casino de Lisboa, uma querida casinha negra por fora, brilhante por dentro. Um bom concerto. Stacey Kent, uma senhora voz do jazz mundial.
Segunda fila, grande plano de Stacey Kent e do seu vestido comprado de propósito para o concerto lisboeta. Florinhas primaveris por tudo quando é sítio. Uma silhueta esguia a condizer com a voz e uns olhinhos de menina reguila a transpirar ternura e simpatia.
Findo o concerto, aventurei-me pelas instalações. Espaço arejado, em que a circulação é muito fácil. Uma máquina de “slots” com temática do “Star Wars” leva-me a telefonar para o meu amigo Gastão, um fanático da série.
Por todo o lado, a expressão típica dos viciados do Casino Estoril, já “agarrados” às máquinas de Lisboa por devoção ao vício, porque não há amanhã para além das alavancas do sonho. Ando por ali sem rumo, a devorar geometrias sociais. De repente, uma mesa de roleta. Estranho. Pensei que o acesso às roletas fosse algo de mais privado, mais secreto, mais iniciático, a exigir um “dress code”, uma gravata especial, um ar de quem sabe o que anda a fazer.
Engano. Puro engano. É só estender as notas. Como por milagre, os euros transformam-se em fichas. As fichas transformam-se em fumo. O fumo transforma-se em nada. O nada em desespero. O desespero em indiferença. O dinheiro é uma ficção. Não existe. É fumo. E o fumo desaparece sem testemunhas.
Um jovem de aspecto asiático e vestuário informal perde 500 euros em menos de um fósforo. Troco olhares com um casal de namorados. Ela é um loura lindíssima. Alinhavamos dois ou três comentários.
--- O que me impressiona é a juventude dele. E já anda nisto --- diz a donzela.
Ao lado, dois amigos com cara de meros turistas exclamam:
--- Pronto. Um ordenado. Já lá vai.
--- E não fica por aqui. Vais ver.
Viu-se. O asiático continuou a dar-lhe a todo o gás, até perder o gás e os euros.
A sala das roletas é uma amálgama de civilizações e etnias. Os portugueses, mais curiosos que convictos; os chineses, perfeitamente mergulhados no espírito do jogo; os ciganos, a tilintar de oiros, mas sem marginalizar as copas, os paus e as espadas, nos jogos de cartas. Há poucos negros.
Uma loura com pinta de “stripper” domina completamente uma zona mais recuada da sala, onde o destino está nas cartas. Se bem me lembro, joga-se ali “Black Jack”. Esquece-me o jogo, fica-me na retina a loira. Russa? Ucraniana? Provavelmente. Elegante, bela, inalcançável. E ali tão perto. Olga. É o que diz na placa de identificação. Deu-me ideia de ser uma espécie de coordenadora. Está sentada num banco alto e quase a vemos como Michelle Pfeipffer a cantar “Making Whoopie” no filme “Os fabulosos irmão Baker”.
Os empregados são maioritariamente portugueses e dão as vozes muito compenetrados. Não percebo quase nada de nada. Mas sinto-me confiante. O jogo não me toca. Tocou-me “O jogador”, de Dostoievsky. Posso peregrinar pelas carpetas confortáveis que o dinheiro não me salta da carteira. Como posso aventurar-me a jogar se nem sei as regras?
Prefiro olhar gulosamente as jovens que emigram do balcão para todos os lados da sala, servindo bebidas. Essa é a minha fortuna, o meu desígnio. Sonhar com uma lotaria de seios e cabelos a esvoaçar no meu rosto, num corpo-a-corpo de delírios adjacentes ao Tejo, com a brisa a provocar-me: “Morde-a. Diz-lhe que sim. Ousa”.
Os fatinhos cor-de-rosa dos “croupier” dão-me uma louca vontade de rir. Mas contenho-me. São uma mistura de Spirou, com Pink Panther e Tenente Blueberry. Mistura de cinema de animação com banda desenhada. Talvez paire na sala a música dos Pink Martini: “Je ne veux pas travailler”.
Uma máquina de multibanco está a um canto da sala, com o olhar maléfico do computador Hal, de “2001, uma odisseia no espaço”. Maléfico? Talvez não. A máquina de multibanco é a única em que o jogo é controlável. E o dinheiro que sai é apenas aquele que pedimos. Mas a máquina de multibanco (provavelmente de uma espécie que já sabe falar: “Retire o seu dinheiro”), não é homem (ou mulher) para dizer: “Retire-se! Guarde o seu dinheiro”.
E lá vai vomitando mais euros e euros, que se dissipam como faúlhas em incêndio de Verão. Um cheiro a desgraça evapora-se até ao tecto alto e quase se ouve um violino de Grapelli a chorar a desfeita de não saber como fugir ao Destino.
Em cima da máquina, quatro copos de cerveja conversam animadamente, trocando dados e impressões sobre quem os bebeu.
Saio da sala das roletas. Dirijo-me à zona dos restaurantes. Um “manager” de “garotas de programa” senta-se à mesa e é saudado como um “habitué”. Não me custa a crer que o Casino se tenha tornado um dos seus poisos favoritos. Os ténis (fantasmagóricos de espampanância e glamour) brilham na noite. Piscam como árvores de Natal. Os músculos bem definidos colam-se sensualmente ao pullover justo. O gel nos cabelos muito pretos não protesta a sua sina.
Vou até à outra ponta da sala, com vista para a entrada. O meu olhar é atraído por uma interessante tapeçaria de Luís Filipe Abreu. Há reis e mais reis. Como nas cartas. Como nos slots. Mas os reis da tapeçaria não se mexem. Estão serenos. E profundamente ignorados. Quantos frequentadores do Casino de Lisboa sabem que a tapeçaria é de Luís Filipe Abreu? Confesso: não conheço mais nada de Luís Filipe Abreu. Sou um ignorante. Mas sinto-me bem na minha ignorância, ainda assim mais sábia que a ignorância do povo do jogo.
Para trás ficam as roletas e a sua terminologia: pleno, cavalo, rua, quadro, linha, coluna, cavalo de coluna, dúzia, cavalo de dúzia, par ou ímpar, maior ou menor, vermelho ou preto.
Ouço ainda Stacey Kent a cantar “Ma robe a fleurs”, em tom meigo e intimista. Lembro-me da sala, com as suas luzes laterais a ofuscar o público. Olho para os cartazes a anunciar o “Crazy Horse de Paris”. Imagino-me no Casino de Lisboa, completamente “agarrado” às pernas das bailarinas, a subir e a descer, com as meninas disfarçadas de soldadinhos ingleses. Relembro as imagens passadas todos os anos pelo canal de televisão Sic, na noite de “réveillon”.
Esse é o meu jogo. O jogo em que sou completamente viciado.