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maio 30, 2006

Hard Times

Logo à entrada do Casino de Lisboa, um grupo de portugueses toca “blues” numa sala sobriamente decorada em tons de negro. “Hard Times”, de Eric Clapton.

Vêm aí tempos difíceis. Vêm? Não. Já aí estão.

E, tal como é apanágio dos tempos difíceis, as pessoas acreditam no milagre com a energia do desespero. Se o trabalho é um privilégio (apesar de consignado como um direito na Constituição da República), a solução pode estar na busca do impossível. Um totoloto ganho nas mesas da roleta.

Um arrepio de culpa percorre-me a espinha. Gastei 40 euros para ver um concerto de jazz no recém-aberto Casino de Lisboa, uma querida casinha negra por fora, brilhante por dentro. Um bom concerto. Stacey Kent, uma senhora voz do jazz mundial.

Segunda fila, grande plano de Stacey Kent e do seu vestido comprado de propósito para o concerto lisboeta. Florinhas primaveris por tudo quando é sítio. Uma silhueta esguia a condizer com a voz e uns olhinhos de menina reguila a transpirar ternura e simpatia.

Findo o concerto, aventurei-me pelas instalações. Espaço arejado, em que a circulação é muito fácil. Uma máquina de “slots” com temática do “Star Wars” leva-me a telefonar para o meu amigo Gastão, um fanático da série.

Por todo o lado, a expressão típica dos viciados do Casino Estoril, já “agarrados” às máquinas de Lisboa por devoção ao vício, porque não há amanhã para além das alavancas do sonho. Ando por ali sem rumo, a devorar geometrias sociais. De repente, uma mesa de roleta. Estranho. Pensei que o acesso às roletas fosse algo de mais privado, mais secreto, mais iniciático, a exigir um “dress code”, uma gravata especial, um ar de quem sabe o que anda a fazer.

Engano. Puro engano. É só estender as notas. Como por milagre, os euros transformam-se em fichas. As fichas transformam-se em fumo. O fumo transforma-se em nada. O nada em desespero. O desespero em indiferença. O dinheiro é uma ficção. Não existe. É fumo. E o fumo desaparece sem testemunhas.

Um jovem de aspecto asiático e vestuário informal perde 500 euros em menos de um fósforo. Troco olhares com um casal de namorados. Ela é um loura lindíssima. Alinhavamos dois ou três comentários.

--- O que me impressiona é a juventude dele. E já anda nisto --- diz a donzela.

Ao lado, dois amigos com cara de meros turistas exclamam:

--- Pronto. Um ordenado. Já lá vai.
--- E não fica por aqui. Vais ver.

Viu-se. O asiático continuou a dar-lhe a todo o gás, até perder o gás e os euros.

A sala das roletas é uma amálgama de civilizações e etnias. Os portugueses, mais curiosos que convictos; os chineses, perfeitamente mergulhados no espírito do jogo; os ciganos, a tilintar de oiros, mas sem marginalizar as copas, os paus e as espadas, nos jogos de cartas. Há poucos negros.

Uma loura com pinta de “stripper” domina completamente uma zona mais recuada da sala, onde o destino está nas cartas. Se bem me lembro, joga-se ali “Black Jack”. Esquece-me o jogo, fica-me na retina a loira. Russa? Ucraniana? Provavelmente. Elegante, bela, inalcançável. E ali tão perto. Olga. É o que diz na placa de identificação. Deu-me ideia de ser uma espécie de coordenadora. Está sentada num banco alto e quase a vemos como Michelle Pfeipffer a cantar “Making Whoopie” no filme “Os fabulosos irmão Baker”.

Os empregados são maioritariamente portugueses e dão as vozes muito compenetrados. Não percebo quase nada de nada. Mas sinto-me confiante. O jogo não me toca. Tocou-me “O jogador”, de Dostoievsky. Posso peregrinar pelas carpetas confortáveis que o dinheiro não me salta da carteira. Como posso aventurar-me a jogar se nem sei as regras?

Prefiro olhar gulosamente as jovens que emigram do balcão para todos os lados da sala, servindo bebidas. Essa é a minha fortuna, o meu desígnio. Sonhar com uma lotaria de seios e cabelos a esvoaçar no meu rosto, num corpo-a-corpo de delírios adjacentes ao Tejo, com a brisa a provocar-me: “Morde-a. Diz-lhe que sim. Ousa”.

Os fatinhos cor-de-rosa dos “croupier” dão-me uma louca vontade de rir. Mas contenho-me. São uma mistura de Spirou, com Pink Panther e Tenente Blueberry. Mistura de cinema de animação com banda desenhada. Talvez paire na sala a música dos Pink Martini: “Je ne veux pas travailler”.

Uma máquina de multibanco está a um canto da sala, com o olhar maléfico do computador Hal, de “2001, uma odisseia no espaço”. Maléfico? Talvez não. A máquina de multibanco é a única em que o jogo é controlável. E o dinheiro que sai é apenas aquele que pedimos. Mas a máquina de multibanco (provavelmente de uma espécie que já sabe falar: “Retire o seu dinheiro”), não é homem (ou mulher) para dizer: “Retire-se! Guarde o seu dinheiro”.

E lá vai vomitando mais euros e euros, que se dissipam como faúlhas em incêndio de Verão. Um cheiro a desgraça evapora-se até ao tecto alto e quase se ouve um violino de Grapelli a chorar a desfeita de não saber como fugir ao Destino.

Em cima da máquina, quatro copos de cerveja conversam animadamente, trocando dados e impressões sobre quem os bebeu.

Saio da sala das roletas. Dirijo-me à zona dos restaurantes. Um “manager” de “garotas de programa” senta-se à mesa e é saudado como um “habitué”. Não me custa a crer que o Casino se tenha tornado um dos seus poisos favoritos. Os ténis (fantasmagóricos de espampanância e glamour) brilham na noite. Piscam como árvores de Natal. Os músculos bem definidos colam-se sensualmente ao pullover justo. O gel nos cabelos muito pretos não protesta a sua sina.

Vou até à outra ponta da sala, com vista para a entrada. O meu olhar é atraído por uma interessante tapeçaria de Luís Filipe Abreu. Há reis e mais reis. Como nas cartas. Como nos slots. Mas os reis da tapeçaria não se mexem. Estão serenos. E profundamente ignorados. Quantos frequentadores do Casino de Lisboa sabem que a tapeçaria é de Luís Filipe Abreu? Confesso: não conheço mais nada de Luís Filipe Abreu. Sou um ignorante. Mas sinto-me bem na minha ignorância, ainda assim mais sábia que a ignorância do povo do jogo.

Para trás ficam as roletas e a sua terminologia: pleno, cavalo, rua, quadro, linha, coluna, cavalo de coluna, dúzia, cavalo de dúzia, par ou ímpar, maior ou menor, vermelho ou preto.

Ouço ainda Stacey Kent a cantar “Ma robe a fleurs”, em tom meigo e intimista. Lembro-me da sala, com as suas luzes laterais a ofuscar o público. Olho para os cartazes a anunciar o “Crazy Horse de Paris”. Imagino-me no Casino de Lisboa, completamente “agarrado” às pernas das bailarinas, a subir e a descer, com as meninas disfarçadas de soldadinhos ingleses. Relembro as imagens passadas todos os anos pelo canal de televisão Sic, na noite de “réveillon”.

Esse é o meu jogo. O jogo em que sou completamente viciado.

maio 23, 2006

Aquele Jeitinho Fredolino de Ser

Luís Fernando Veríssimo deve ter escrito mais de dez crônicas acerca desta grande figura. Eu, aqui de baixo, escrevo a minha primeira. Fredolino Schirmer foi o proprietário, chef e maître do saudoso restaurante Floresta Negra, de Porto Alegre. A comida de Fredolino era... melhor economizar nos adjetivos. Não só o Luís Fernando ia lá, muita gente ia reverenciar as criações de Fredolino. Havia quem viajasse para conhecer o Floresta, outros atrasavam compromissos para visitá-lo e nós, que morávamos aqui, não nos incomodávamos com as longas filas para entrar no restaurante.

Conheci Fredolino numa destas filas. Ele saiu do restaurante, examinou o número de pessoas à espera - entre as quais estava eu - e berrou:

- Olha aqui, ó. Vão embora!

Não acreditei que o senhor que dissera aquilo, voltando imediatamente para o restaurante, pudesse ser o lendário Fredolino Schirmer, mas era. A cidade inteira sabia que Fredolino era um mestre da cozinha, mas que costumava tratar mal, muito mal seus clientes. O Veríssimo, que estava sempre lá, discordava. Além de exaltar a qualidade internacional de sua produção, escrevia que o dono do Floresta tinha uma espécie muito particular e incompreendida de gentileza. Eu diria que o velho Fredolino desejava apenas que as pessoas fruíssem do melhor e defendia-as agressivamente de sua própria vulgaridade. Só isso.

Mas voltemos ao restaurante: tentei novamente e consegui entrar. Já acomodados - eu, minha ex-mulher e um casal de amigos -, recebemos a atenção do maître, aquele mesmo senhor que berrara conosco na fila outro dia. Devo dizer que todos nós tínhamos um pouco de medo do velho (o Luís Fernando também, ele que negue!). Então, quase desculpando-nos por importuná-lo, pedimos nossos pratos. O meu era um linguado ao molho de maçã, coisa até então inimaginável. Minha ex me imitou, ou eu a ela, não interessa. Quando fomos servidos, ela viu Fredolino aproximar-se com uma enorme pimenteira e, ao mesmo tempo que protegia o prato com as mãos, perguntou com toda a delicadeza e receio:

- Será que vai ficar bom com pimenta?

Fredolino trovejou:

- Claro que fica bom! - e tacou-lhe enorme quantidade da coisa, enquanto ela tirava rapidamente as mãos do caminho.

Recebi outra chuva em meu linguado e afirmo-lhes: aqueles linguados não morreram em vão!

Outra vez, a mãe de uma amiga minha foi ao Floresta e - em noite de lotação completa - perguntou a Fredolino:

- Esta nata é uma coisa dos deuses! De onde o senhor tira esta maravilha?

Fredolino ignorou-a, mas logo depois ela soube que receberia uma resposta literal quando o viu avançando pelo salão com um enorme balde de plástico ornamentado por uma colherona. Mostrou-o a ela enquanto mexia a colher e disse para todo o restaurante ouvir:

- Tiro daqui, ó!

Devo dizer-lhes que esta senhora é uma mulher finíssima, educadíssima, destas que a simples idéia de estar num restaurante lotado, sendo observada pelos circunstantes enquanto olha para baixo, bem dentro do balde de nata de um Fredolino aos gritos, basta para perturbar o sono por meses.

Hoje almocei com a minha mulher e perguntei-lhe se ela o conhecera. Dez anos mais jovem do que eu e tendo passado muitos anos fora de Porto Alegre, disse-me que apenas conhecera sua fama de cozinheiro e de intratável. Mas, sendo ela também habilíssima nestas coisas de culinária, pensa que um chef tem que ter opinião e que não deve curvar-se inteiramente aos gostos pessoais dos clientes, se achar que o resultado ficará prejudicado. (Lembro-me de que quando entrei na cozinha da Claudia pela primeira vez, ela me alertou: - Este território é meu, tá?, no máximo, deixo lavar a louça, conversar e comer. Estou feliz em meu papel.) Mas ela disse mais sobre Fredolino: acredita que é normal os artistas terem certos desvios de comportamento e que o contato com certos portoalegrenses metidos poderia gerar efeitos danosos ao humor do velho. Recordo-me que alguns de nós - provincianos que tínhamos o privilégio de conviver com o mestre - pretendíamos dar palpites em seus pratos e éramos quase expulsos do Floresta Negra! Ainda está em minhas retinas as vezes em que vi Fredolino balançar negativamente a cabeça, dizendo para uma mesa de desavisados:

- Se vocês querem comer isto, erraram de restaurante. Vão embora!

Outra vez ouvi uma senhora de idade solicitar determinado prato. Como resposta, obteve esta pérola: minha senhora, na sua idade e a esta hora tardia eu não aconselharia este prato. Vou trazer-lhe outro mais leve e adequado, de minha escolha. E dirigiu-se à cozinha.

Outro fato curioso era a política de preços do Floresta. Naqueles tempos de inflação, Fredolino demorava meses para reajustá-los. Assim, nosso melhor restaurante tornava-se muito barato em alguns períodos. Porém, um belo dia, tínhamos a surpresa de ver os preços multiplicados por três ou cinco. E ai de quem reclamasse! O período mais sensacional do Floresta foi o ano de 1986. Com o congelamento de preços baixado por Dílson Funaro durante o governo Sarney, pudemos comer meses e meses no Floresta a preços módicos. Foi um ano inesquecível.

Fredolino Schirmer faleceu há uns 15 anos. Sua esposa Christa publicou um livro com as principais de receitas de seu marido o marido pela Editora Tchê!, em 1992. Para encontrá-lo, só em sebos. Como ele ficou na casa da minha ex, não tenho certeza se Christa publicou a receita do linguado com o qual sonhei esta noite.

Em tempo: acabo de encontrar uma crônica de Luís Fernando Veríssimo com referências aos grande Fredolino:

(...)

Quando conheci o Gerry Mulligan, em Porto Alegre, a fase das drogas já ficara muito, muito para trás. Ao contrário de Chet, Gerry tinha vencido sua luta contra a dependência, era um respeitável senhor de barbas brancas. E a longa sucessão de mulheres na sua vida - que incluíra a atriz Judy Holliday - tinha acabado numa bela italiana chamada Franca, que Gerry conhecera durante a gravação do seu disco com o Piazzolla, na Itália, e aposto que ficou com ele até o fim. Era evidente que a Franca tinha tudo dominado.

Depois da apresentação fomos jantar com Mulligan, mulher e trio, a convite do adido cultural americano. O melhor restaurante de Porto Alegre, na época, era o "Floresta Negra", cujo dono e maitre, "seu" Fredolino, era uma figura controvertida: muitos confundiam com rudeza o que era apenas bom humor alemão, já que as duas coisas nem sempre se distinguem. Estávamos acostumados com seu jeito, e com o fato que em noites de muito movimento a dona Christa e sua equipe, na cozinha, não davam conta, e a comida demorava.

Mas Franca não queria saber do folclore do lugar, queria alimentar o seu homem. E deu-se o choque de culturas. "Seu" Fredolino já expulsara gente do restaurante por menos do que ouviu da italiana, naquela noite. Por um momento a mesa ficou suspensa, à beira de um incidente internacional. O adido cultural e eu, representando nações neutras, ficamos calados. Mulligan nem tomara conhecimento do confronto, aquela era a área de ação da mulher. Manteve a sua pose de patriarca viking.

"Seu" Fredolino talvez tenha se dado conta de que enfrentava uma leoa, e a possibilidade de grandes estragos materiais no seu restaurante. Recuou. Ninguém foi expulso. Dali a pouco veio a comida. Estava ótima. Acho que a Franca até elogiou. As forças do Eixo estavam recompostas. Durante o jantar, não adiantou eu querer perguntar ao Mulligan sobre Zoot Sims e outros que tinham tocado com ele, inclusive o Chet Baker. Ele só queria falar no Garcia Marquez.

Eu nunca fui expulso por Fredolino. Um dia, arranquei dele uma gargalhada. Foi uma pequena glória ver a mesa me olhar boquiaberta.

O Princípio de Nirvana

Aquela parte da noite chegara em que tinha lugar uma troca de civilidades com a mente. “O que será lembrado?” perguntava a mente e nenhum eco era possível pois o eu não é nem uma parede, nem um abismo, nem algo que se preste a escutar, para além do seu reflexo, qualquer voz. Muito menos é alguém, por muito que grite, que peça alimento. Quanto muito anuncia eventos, é confundido com anjos.

Num hospital chinês, a noite é a noite e o dia é o dia. Outra coisa não se deve esperar. O silêncio pertence indiscutivelmente à noite e o ruído nasce e morre com o dia. Não há escolha.

Logo após o pôr-do-sol, tomava duche na casa de banho da enfermaria. Depois das visitas da tarde, era o momento de visitar uma cadeira de plástico no centro de mosaicos anti-derrapantes. A sós, a tarefa necessitava de uma enorme quantidade de energia. Sabão, água, sabão, manusear o que restava do corpo.

Era o verão do ano em que o planeta Marte, um objecto de qualquer maneira ínfimo, abotoado incandescente no céu como uma estrela, se podia ver com uma nitidez que só homens de linguagem martelada com dificuldade e exactidão tinham antes saboreado. Homens tão primitivos que se haviam tornado irrecuperáveis. Ver Marte exigia que todas as luzes da enfermaria estivessem apagadas.

Na impecável casa de banho do hospital chinês, à altura dos olhos, tinham escrito Hospital animal uterus, na fronteira entre os mosaicos e a pintura impermeável da parede. Demorara uma semana infinita a descobrir as palavras arranhadas, minúsculas, na tinta.

Pensara primeiro que algum anterior paciente ocidental tinha deixado a inscrição para trás, como sintoma de uma doença física no momento em que esta teria, talvez, evoluído para outras paragens. Porém, a ausência de verbo e o uso de «uterus», em vez da forma mais banal «womb», pareciam apontar para um paciente oriental, habituado ao poder de solitários substantivos. Um paciente letrado.

“Substantivos poderosos como verbos,” dizia a mente, presa de zero entretenimento, de lençóis de onde todo o conforto havia sido retirado. A mente, de quem se esperava tudo. Que iniciasse os primeiros gestos, os gestos primitivos da sobrevivência. De novo. Que, novamente, mas também pela primeira vez, reconstituísse todo o corpo. Que fosse paciente.

A mente olhava Marte, antes da rotação da Terra o levar para detrás dos edifícios em outras tarefas nocturnas, e estudava as palavras no chuveiro da enfermaria vazia e, no seu interior, na margem do seu interior, o eu, rodeado de ninguém, soletrava “Está quase a chegar a morfina das 9. Hoje dormes com uma princesa turca.”

Aquela parte de si que podia apenas anunciar, saudava a chegada de alguma extinção.

maio 16, 2006

Desígnios

Dizem que o Ciclope é o ferreiro
Que fez o mundo
E a grande escadaria em caracol.
Respondi que a cidade
Era o desvario que estava no olhar de Orfeu
Sob arcadas,
Cactos,
Velas e alguma resina líquida
A pairar na memória
Da sua brancura.

Évora é uma dessas cidades antigas que aprenderam a resistir às vicissitudes e às agruras sem nome.

Évora tem o teor mágico das represas que souberam transformar o seu espelho de água na quietude da arquitectura. Há qualquer coisa de inquietante, de inomeado e de transbordante a percorrer a silhueta da cidade, apesar de toda ela ter sido moldada ao sabor da aprazível paisagem que a viu nascer: uma imensa linha de fuga a escapar-se à tentação do horizonte.

Tal como um fio de prumo gigante, Évora encontra-se fiel e firmemente ancorada na terra, repartida entre três bacias hidrográficas do sul e iluminada pelos volumes de prata que a embalam na respiração há muito contida.

Jamais se virá a saber se a beleza da cidade mora no esteio das suas amuradas e velames manuelinos sem mar, ou se é simplesmente bela e hipnótica essa rara fractura com que as formas anónimas da cidade cercam e segredam o tempo.

Será esse, para sempre, um dos grandes enigmas de Évora.

O Dia Mais Longo

"Mã? Você já acordou? O Biel vomitou de novo”.

“Amor, você vai ter que levar os meninos, eu tenho reunião às oito.”

“Putz, custa você me telefonar de vez em quando? Nem parece que somos irmãs!”

“Ouvinte da rádio WRP, evite a Avenida Rebouças, o Serra abriu mais um buraco lá!”

“Mãe, Rebouças não é essa avenida que a gente está?”

“Olha, a festa das crianças é no sábado. A senhora foi avisada que sua colaboração será costurar as capas de 23 Tartarugas Ninja? Esperamos que a senhora entregue tudo pronto na sexta-feira à tarde”

“Atrasada, Júlia?”

“Ganhei um cd de bolero, é do seu tempo?”

“Ué, ninguém te avisou que a apresentação do projeto era hoje?”

“Opa, tá ficando fofinha, né?”

“Dona Júlia, aqui é o João de Deus, gerente da sua agência do banco. A senhora tem noção do quanto sua conta está estourada?”

“Nem entra aí, o cliente tá virado no capeta.”

“Júlia, Dr. Ismael, como vai? Olha, você pode vir ao consultório quando? Seus exames chegaram e parece que a coisa é meio séria.”

"Júlia, desliga o celular e vai lá na sala do Cleyton, ele tá soltando fogo pelas ventas e quer falar com você."

“Alô, ah, oi, ai, detesto secretária eletrônica. Júlia, aqui é a mamãe. A Cynthia vai me dar uma passagem para Miami e sua irmãs vão se cotizar para me ajudar a comprar dólares. Quanto você pode me dar? Liga pra mim, beijinho.”

“Nossa, que cara, tá doente?”

“Todos os ramais estão ocupados."

“Acho que aprendi a esquecer, a viver sem você” (por mail)

“Dona Júlia é a Arlene, Olha não tem arroz, nem feijão, nem frango, nem sopa de pacote, nem macarrão e nem molho. A senhora quer que eu faça o quê de janta? Batata? Não, acabou também.”

“Júlia, eu sou a secretária da Dra. Sônia. A Dra. não vai poder atendê-la hoje, e transferiu sua sessão para sexta-feira à tarde, tudo bem?”

“Menina, que aconteceu com seu cabelo, parece que saiu de dentro de uma garrafa!”


“Mãe, o Víctor jogou o hamster na piscina.”

“Júlia, dá pra você parar de tomar cafezinho e terminar o relatório?”

“Júlia, dá um pulinho no banheiro, sua calça tá com uma manchinha...”

“A pizzaria estava fechada, come alguma coisa por aí, eu vou levar os meninos pra jantar na minha mãe, ela tá acostumada com suas trapalhadas.”

“A senhora deixou seu carro no estacionamento 5-C? Ih, Dona, o 5-C fecha às oito da noite, agora só amanhã!”

“Eu levei pra jantar, mas banho e historinha é com você, vou ver o jogo na sala.”

“Mã, explica eletricidade, água e como avião voa ?”

“Você tava sabendo que a Clélia e o Tadeu se separaram, querida? O Tadeu tá com uma cara ótima.”

“Mã? Você tá dormindo? O Biel vomitou de novo.”

maio 9, 2006

Um mouro na Invicta


“Mouros, mouros, andamos nós a trabalhar o ano inteiro lá em cima para vocês torrarem tudo cá em baixo”.
Foi assim. Há uns anos valentes. Um adepto portista (torcedor do FC Porto) e portuense (presumo que o senhor fosse natural ou habitante da Cidade Invicta) não resistiu às provocações bem humoradas de um adepto do Sporting em pleno Estádio de Alvalade (o antigo estádio do Sporting, em Lisboa).
A discussão começara a propósito de uma jogada qualquer entre “leões” (Sporting) e “dragões” (FC Porto). Rapidamente passou do futebol para o famoso e clássico Porto—Lisboa, bem ao estilo de um duelo verbal entre cariocas e paulistas.
Esta pequena história, presenciada na bancada Superior Norte de Alvalade por um sportinguista (eu) e um portista e portuense (o meu amigo Manuel Perez), serve para ilustrar as enormes diferenças culturais que três centenas de quilómetros podem provocar.


Gosto do Porto. Do Porto-cidade de gente com o coração quente e a língua sempre afiada para um vernáculo consagrado, cujo templo é o Mercado do Bolhão, onde as vendedoras exercitam a bem-falância de insultar sem maldade, como dizia outro amigo meu, que exerce o mister de camionista.
Passei mais de dez anos sem ir ao Porto. O casamento de uma prima levou-me de volta às margens do Douro (o rio que banha a cidade, onde navegam os barcos com os tonéis do famoso Vinho do Porto).
Fiquei triste. A crise económica e as obras deram à cidade um ar ainda mais cinzento e circunspecto do que aquele que lhe era já bem tradicional.

Na Praça da Batalha, onde fiquei instalado, os toxicodependentes misturam-se com as gaivotas e os pombos (em confrontos por vezes letais para os pombos, na discussão da migalha diária); com os estudantes que desenham a fachada do imponente Teatro de S.João, enquanto a cem metros de distância a palavra “Águia” no topo de um edifício sujo é apenas um jazigo do defunto cinema onde os cartazes de “Os Vikings” (com Kirk Douglas e Tony Curtis, realizado pelo recentemente falecido Richard Fleisher) me fascinaram sem remissão.


Em pleno século XXI, há pessoas que consideram andar de skate um passatempo eticamente reprovável. Em frente ao falecido cinema, os miúdos espinoteiam alegremente, enquanto um cidadão não resiste a invectivá-los: “Vão trabalhar, caralho!”.


O Porto é agora uma cidade em que os grandes centros comerciais asfixiaram o pequeno comércio. As lojas são cada vez mais iguais. E mesmo a vetusta livraria Lello, um prodígio arquitectónico, não resiste à ignorância de algumas pessoas, porque os livros são um luxo. “A Lello? Não sei. Mas há ali uma livraria antiga”.
O Majestic, deslumbrante café no centro da cidade (na Rua de Santa Catarina, que deu origem ao pequeno poema de Jorge de Sousa Braga, chamado ‘Nos semáforos de Santa Catarina’ – ao menos os teus olhos/permanecem verdes/todo o ano) é mais frequentado por estrangeiros do que por portugueses. Paga-se 9 euros e 75 cêntimos por um “Chá à Majectic” (dá direito a chá, cacau ou leite, torradas com compota, scones e uma tarte), mas sabe-se que é apenas um investimento. A limpeza da alma também se paga. Faz muito bem ficar sentado nas mesas do Majestic a ouvir o piano e ver os empregados a circular nas suas fardas brancas, a lembrar os grumetes de navio.


À noite, sai-se do Majestic, sobe-se a Rua de Santa Catarina e corta-se à esquerda por alturas do Automóvel Clube de Portugal. Junta de Freguesia de Santo Ildefonso. Por baixo de um dos únicos edifícios construídos em Portugal para abrigar jornais (no caso o Jornal de Notícias, líder de vendas), travestis brasileiros e putas portuenses de baixo nível dividem o território numa aparente coexistência pacífica, lado a lado. Nem Santa Catarina nem Santo Ildefonso valem de nada, para as presas dos azares da vida, sejam brasileiras ou lusitanas. Os carros passam no viaduto. As putas estão paradas à chuva. A vida continua.


Alguns metros acima, o “Pérola Negra” ( há não muitos anos famoso pelos espectáculos de sexo ao vivo) converteu-se à língua inglesa e vende Table Dances a 50 euros, com entrada a 25, correspondente ao consumo mínimo. De ténis não se pode entrar. Nem tampouco de boné, gorro ou lenço na cabeça.
Fiquei à porta. Vi as fotos das strippers. Cheiro de Leste e Brasil. Mas não soube se eram apenas fotos exemplificativas ou correspondiam às strippers a trabalhar na casa.


A madrugada pode ser boa conselheira. Aconselhou-me a ler a situação. Raciocínio rápido, marcha lenta e descontraída. Podem ser uma boa combinação para evitar um assalto. Não sei se ia acontecer. Podia ter acontecido. Como um pequeno tubarão curioso, um sujeito de mau aspecto e cabelo apanhado em rabo de cavalo farejou-me a existência despistada. Talvez a burguesa exibição do meu blusão de pele proporcionasse pensamentos libidinosos ao moinante.
A precaução não deixou o pânico tomar conta de mim. A Câmara Municipal estava a cinco minutos de distância, numa avenida central agora transformada em terreno bombardeado por B-52. Ou talvez sejam apenas as crateras/cicatrizes provocadas pelas obras do Metropolitano.
Um café clássico está travestido de MacDonalds. Não chove, mas está frio. O blusão e o cachecol sabem-me bem. Regresso à Messe da Batalha com duas sanduíches de queijo embrulhadas.


Passa das duas da manhã. Leio os jornais do dia, presos a um pau, fechado a cadeado. Um hábito que não conheço em mais lado nenhum. Como se o leitor se pudesse transformar em toureiro e sacasse de meia-dúzia de verónicas (passe de toureio) para fintar as más notícias com traje de luzes.
Na secção de “Massagens”, o calor humano do Porto faz-se sentir. É uma prostituição mais aconchegante, como uma sopa dos pobres, como um pedido de desculpas, uma carícia nos cabelos encaracolados do Princípezinho de Saint-Exupéry. “O que significa cativar?”


“Universitária + amiga. Por necessidade atendem cavalheiros e casais. Show lésbico”

“25 anos. Faz convívios para poder pagar a renda. Ajude-me”

“A iniciar. Polaca. Seja educado”.

“Senhora 25 A, loira. Não sou profissional. Recebe alguns amigos em troca de pequena ajuda. Não ligue para brincar”.


Priscila, mulata brasileira, quer brincar. Gosta de sexo. É garota de programa há 7 meses. Confessa muita coisa no blog e recusa comparações com Bruna Surfistinha, que começou por se prostituir, experimentou a escrita epistolar blogueira, lançou um livro e reformou-se como celebridade nacional, sem perder a vergonha de sentir o peso da condenação familiar.
Priscila diz apenas que a sua família não pode saber.
Mas não tem medo de assumir a sua preferência clubística: Benfica. Há posts e mais posts sobre o seu clube do coração em Portugal. E nem sequer se importa que os jogadores do FC Porto que conhece pessoalmente possam ficar irritados com o facto. A ideia não é essa.
Para além do Benfica, os clientes também dão prazer a Priscila, que tem de fazer um esforço para não se deixar envolver. Priscila tem orgasmos com os clientes. Priscila precisa de 40 minutos antes de qualquer marcação. Porque não há desculpas para o desleixo e a falta de higiene. Aprendeu com os seus pais.
“O trem é bagunçado, mas mesmo assim tem gerência”.
Priscila choca-se com a falta de exigência de alguns clientes. Priscila é vaidosa. Escreve muitas vezes que é gostosa.
“ Tem uns (clientes) que não dispensam nada. Pegam tudo que é bagaceira”.

E o casamento?
A minha prima Irene pegou na faca e arrependeu-se à última da hora, olhando com alguma desconfiança para o bolo de noiva.
“Passo-lhe a palavra para cortar o bolo”. E o sabre imponente passou para as mãos do diligente funcionário do Hotel Nave.
Fui para o bar, ver um jogo de voleibol entre o Benfica e o Vitória de Guimarães. Até à hora do futebol (Sporting de Braga—Benfica) estive só. Depois o bar fervilhou de provocações, uns pelo Benfica, outros contra.


Acordei sem ressacas e fui fazer uma aula de hidroginástica para o Holmes Place da Boavista, onde encontrei um campeão de Riade (Portugal foi campeão mundial de Sub-20 na Arábia Saudita, em 1989). Como agora tenho barba, Jorge Couto não me reconheceu.
Anónimo continuei na hidroginástica. Mas a sentir o calor humano dentro de água, principalmente quando a monitora Rosália se mandou para dentro da piscina vestida e tudo, executando os exercícios com os alunos, num carnaval de ritmo e salpicos que meteu “rodinhas” e “lagartinhas”. No Holmes do Arrábida Shopping (em Gaia, do outro lado do Rio Douro) senti o mesmo calor humano dentro de água. Com um núcleo totalmente diferente.


Regressei de comboio, a ler a revista “Águas Furtadas”, cujo editor é o meu amigo Rui Amaral, que já não encontrava desde 1996. Prometi-lhe um conto.

Bamos acabar esta crónica, carago, que já bái longa.

maio 2, 2006

Também Há Pecado A Norte Do Equador

Após alguns dias de exibição pública da minha última croniqueta neste blog, surpreendi-me a levedar uma inveja razoável pela arte daqueles que conseguem utilizar este espaço para abordar temas mais assertivos – e, consequentemente, mais estimulantes para o público leitor. A inveja é um sentimento radicalmente humano e eu não nego esta minha propensão, antes a assumo plenamente e me entrego ao julgamento respectivo.

Antes que, dito isto, os leitores se precipitem na avaliação do meu carácter, permitam-me ainda que esclareça que a inveja que apascento é razoavelmente benévola, pelo que só remotamente pode ser levada em conta como pecado. Não invejo com a força de um mau-olhado, isso não. Ninguém sofrerá de “mal de inveja”, como lhe chama a minha mãe, por causa deste meu sentimento ameno e quase amorfo. Sou um invejoso débil e inconsequente, é o que é.

A despeito destas cogitações, vi, depois, que nada tinha para invejar particularmente, pois deste lado do mundo, a Norte do Equador, está precisamente a principiar a Primavera. Embora rotineiro, tal facto haveria de me proporcionar abundantes e felizes imagens para esta crónica. Afinal, os pássaros executam já acrobacias em dupla no céu matinal e gorjeiam pios nupciais no alto das árvores; os muros enchem-se do jorro colorido das buganvílias e, ainda melhor, já circulam pelas ruas e avenidas os mais ousados decotes, as saias mais curtas, belos nacos abdominais deixados ao léu, ombros clamando por sol que os faça dourados como a fruta madura. Nas esplanadas, as moças deixam as alças da indumentária descair para os ombros e aí ficam a crestar diante de um sol ainda ameno.

Sim, companheiros de crónicas, estimados leitores: também há pecado a Norte do Equador. Nós inventámos a gula, a cobiça, a inveja e as demais faltas que, aos olhos do suposto criador, são merecedoras da mortal penitência. Inventámos igualmente a luxúria e amiúde a praticamos. Desejamos veementemente e desejamos ainda mais por ser necessário atravessar, em penitente rigor, meses e meses de chuva e frio, até que a fruta mulher volte a desabrochar dos abrigos de Inverno, qual rubra e esplendorosa papoila reunida em preciosos ramalhetes.

Pequemos!

O Parque Saint-Hilaire e Ronaldinho Gaúcho

O biólogo francês Auguste de Saint-Hilaire veio a Porto Alegre em 1820. Fez belas descrições de uma vila com três longas ruas principais ligadas por transversais. Em seus textos, encontra-se mais detalhes sobre o comércio da Rua da Praia e sobre os negros que aqui viviam como escravos, do que propriamente sobre nossa flora e fauna. Penso que sua viagem a Porto Alegre sobreviveu por uma única razão: o francês escrevia bem e realizou belos quadros da futura cidade. Por esta razão, há um enorme parque com seu nome.

Quando digo enorme, estou falando de uma área de 1.180 hectares, 940 destinados à preservação e 240 ao lazer. Afastado 17 Km do centro da cidade e estando até hoje em local pouco povoado, foi fundado em 1947. Devia ser algo espetacular para a cidade durante minha infância. Lembro que um grande programa dos finais de semana da década de 60 era ir ao Saint-Hilaire jogar futebol ou fazer um churrasco.

Faziam vinte anos que eu não ia ao parque. Neste feriado de Primeiro de Maio, fui lá com minha mulher e filha. Dia lindo, maravilhoso mesmo e lá fomos nós, armados de toalhas para pôr na grama, sanduíches, bicicletas e bebidas. A entrada, surpreendentemente, era gratuita. Dirigindo pelo parque quase vazio, fomos lendo as placas indicativas e soubemos que havia cem churrasqueiras com mesas - não precisaríamos, pois, usar nossas toalhas - e que lá havia um lago, do qual havia esquecido inteiramente. Depois do almoço, eu e minha filha andamos de bicicleta por todo o lado, subindo e descendo caminhos inteiramente desertos e que muitas vezes acabavam em bonitas paisagens que eram ignoradas por ela. Porém, após uma curva em subida, ouvimos um som longínquo. Era um samba de raiz. Avançamos naquela direção. O som da música foi logo acompanhado de um cheiro forte de churrasco, era como se estivessem assando toneladas de carne. Quando chegamos ao alto da colina, vimos uns cinqüenta carros estacionados - quase todos modelos de quinze anos ou mais - e o motivo de tanta gente reunida. Ora, os carros, as diversas churrasqueiras, todas largando no ar aquele cheiro salivante, a cerveja, as crianças, as mulheres, os homens, tudo e todos, estavam olhando para um campo de futebol.

Era um jogo do campeonato da várzea de Porto Alegre. Tudo muito organizado, com juizes uniformizados e uma torcida absolutamente dividida entre as duas equipes, mas totalmente de acordo nos quesitos cerveja, futebol e churrasco. Eu e minha filha deitamos nossas bicicletas e ficamos assistindo a partida. Eram times de faixa etária variadíssima, pois havia garotos, jovens, adultos e seniors correndo atrás da bola. Deviam ser times formados por famílias amigas. Logo lembrei de Ronaldinho Gaúcho, que, menino nascido ali perto, diz ter aprendido a driblar e a fugir das faltas jogando contra adultos - seus parentes e amigos -, no futebol de várzea e contra seus cachorros em casa. (Sim, ele disse que aprendeu a driblar enganando os dois cachorros loucos por bola que sua família tinha. Ele passava por eles mas os bichos sempre voltavam a ficar na sua frente para serem driblados novamente, mais ou menos ao estilo de Michel Salgado.) De repente, um problemão: a torcida do time branco e preto começa a gritar que os verdes estão com doze jogadores em campo. O juiz pára o jogo e começa a contar. Vejo o número quinze dos verdes sair pela lateral do campo entre os carros e pegar uma cerveja da mão de uma mulher. Os adversários o denunciam, ele abre os braços ostentando o copo com o líquido dourado, fazendo-se de salame (*). O juiz dá-lhe razão e mostra um cartão com cor parecida com a da cerveja para os reclamantes. A torcida alvi-negra aumenta o volume dos palavrões dirigidos ao árbitro; as mulheres, principalmente, elogiam a mãe da autoridade. Os verdes riem. O número quinze diz para todos ouvirem que

- porra, um homem não pode nem beber sua cervejinha tranqüilo.

Eu e minha filha também rimos. Ela está se tornando assídua freqüentadora de jogos, apesar de meu quase desestímulo por achar estranhas as mulheres que conhecem a regra do impedimento. Então, ela aponta o número dez dos verdes. Um menininho pequeno, que possui entre treze e quinze anos e que destrói a defesa adversária com dribles rápidos e passes perfeitos. Por pura simetria, conferi se o menino era dentuço. Não, tinha uma cara estranha, bonita, parecida com a do ator Benício del Toro. Os verdes ganham fácil, para irritação do de branco e preto, que se dizem roubados e fazem gestos. Quando nos levantamos para ir embora, vemos que eles vão comer e beber juntos, discutindo, ofendendo uns aos outros e rindo.

Voltamos para onde deixáramos minha mulher lendo. Ela tinha sumido! Ficamos procurando pelas redondezas, enquanto ela certamente nos observava. Quando cansou de fazer-nos de bobos, resolveu sair do esconderijo, toda sorridente, buzinando e perguntando se tínhamos ficado preocupados. Nem um pouco, engraçadinha. Depois, ela tirou uma fotografia de minha filha com o celular e fomos embora.

(*) Fazer-se de salame: o mesmo que "fazer-se de desentendido", em portoalegrês.