Ela fala do Corinthians, das ruas arborizadas da Aclimação e do Fernando Pessoa com o mesmo entusiasmo. Quase o mesmo.
Mas depois dum dia infernal, às voltas com mães-de-alunos-aflitas e advogados soturnos, só o entusiasmo dela é real.
Ela sorri enquanto fala, talvez nem perceba. Faz um comentário qualquer sobre gatos, olha para mim sorrindo, e eu me sinto como a meninazinha que vai até a entrada da classe de mãos dadas com a professora - ela se lembra de que eu gosto de gatos!
Fala mais um pouquinho e Pessoa vai à missa. Ele ouve a chuva durante a missa, eu ouço a voz dela e o meu cansaço. Ouço também a voz das meninas comentando algo perto de mim, e o catálogo da Natura chama meu nome. E se eu comprasse aquele batom de 30 mangos? Meus pés doem e meu advogado me desanima.
Pessoa, pelo que eu pude ver, não prestou muita atenção à missa. Eu presto atenção nela e na sua blusa com casas de botões bordadas a mão. Ela fala algo sobre o bairro e sobre a chuva fazendo árvores caírem e as feiras livres serem transferidas, e eu me lembro de que ela é amiga do batateiro da feira. Ele também é corintiano e a chama de broto. Sim, ela é um broto. Posso vê-la, de sacola na mão, escolhendo queijos e cheirando maçãs.
Foi com ela minha primeira aula na faculdade. Era agosto, eu estava com frio e com medo, recém-saída duma crise de pânico de oito anos depois do que nunca mais fui a mesma. Nesse dia cheguei em casa pisando em flocos de algodão. Era isso o que eu queria. Era isso o que eu esperava. Um mundo com gente feito ela não poderia ser tão mau assim.
Pessoa tem razão.
A chuva está alta demais.