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11 abr2006

Luís Graça

Os Fantasmas da Cidade

Lisboa por certo terá os seus fantasmas de estimação.

É provável que passeiem de mão dada a D.Sebastião, nas manhãs de nevoeiro sobre o Tejo, órfão de um Cais das Colunas que não volta mais, para desgosto do poeta americano Charles Simic.

Lisboeta que é lisboeta sente a falta daqueles dois pilares singelos, pelintras, erectos, a assobiar indolentemente para a outra banda, Cacilhas. Mas esses dois pilares eram muito mais que dois pilares. Eram a linha de meta que definia o fim da terra e a entrada no rio. Por isso os lisboetas se sentavam nos muros, ao lado do Cais das Colunas, à espera do barco, a ler poesia, a beijar a namorada. Foi no Cais das Colunas que li pela primeira vez o poeta Jorge de Sousa Braga. No caso, “Amanhã vamos todos acordar com uma pérola no cu”. Charles Simic esteve na cidade há uns anos, para os encontros de poesia “Primavera em Lisboa”. Em pleno Castelo de S.Jorge exprimiu-me o desgosto que tinha sentido pelo desaparecimento dos pilares.

Sonho com D. Sebastião montado num dos pilares do Cais das Colunas, capacete de Valentino Rossi enfiado na cabeça, a acelerar velozmente pelos céus, pintados por Enki Bilal. Uma espécie de Mary Poppins sem vassoura, sem exército, sem “Sound of Music”, sem montanhas com flores de nomes belos e exóticos.

Sonho com D.Sebastião sentado na primeira fila do Teatro Maria Vitória, no Parque Mayer de todos os fantasmas. Aplaudindo entusiasticamente as piadas de Maria João Abreu, José Raposo ou Octávio de Matos.

Porque o Parque Mayer de hoje mais não é do que um jazigo de fantasmas. Longe vão os tempos das galas de boxe, do Paiva que alugava smokings, dos restaurantes cheios. Hoje, o Parque Mayer está refém dos políticos e dos negócios de especulação imobiliária. E Lisboa já perdeu. Nestas coisas, Lisboa perde sempre.

O “Maria Vitória”, travestido de partizan, vai ainda e sempre resistindo ao declínio anunciado do teatro de revista. As pessoas vêm de todo o lado, em excursões. Eu fui até à revista a convite de um amigo. Com aquele sabor de velório a corroer-me a alma. Até quando a revista?

No palco, as lantejoulas ainda brilham e os seios das coristas estão tapados com plumas e outros adereços típicos. Uma das coristas, russa de formação clássica, vai-se adaptando a Portugal como pode. Outra, holandesa, exibe um nome improvável no cartaz que dá para a rua e pisca o olho a uma loja de Ermenegildo Zegna.

No palco, o cantor Beto emociona-se quando Maria João Abreu lhe deseja boa sorte para o Festival da Canção. Pouco antes, José Raposo dera vida a outro fantasma de Lisboa, o poeta José Carlos Ary dos Santos, grande bebedor de gin e da vida.

No palco, Melânia Gomes (raio de nome!) e Paula Sá provam que são duas raparigas (sim, raparigas, em português de Portugal não tem mal nenhum) de talento. Escorre-me da boca um fiozinho de baba, ao pensar nos seios imaginados de Melânia.

No restaurante “A Gina” não há fantasmas. Na primeira terça-feira de cada mês reúne-se um grupo de figuras de ficção que dá pelo nome de Tertúlia Banda Desenhada de Lisboa, capitaneada pelo grande fundador Geraldes Lino. A Tertúlia dura há mais de 20 anos. São muitos meses de Parque à beira do abismo. Sem conseguir morrer, sem viver em pleno. Nas traseiras da Avenida da Liberdade.

Quase esquecemos que o Parque Mayer é uma cidade-fantasma e que o encenador Mário Alberto merecia um conjunto de very-lights para rasgar os céus em cada dia que acorda como habitante quase solitário do Parque Mayer. Morador de cidade-fantasma no centro de Lisboa merecia um conjunto de very-lights do mais alto gabarito.

Por trás do Parque Mayer, entaladas entre os fantasmas da revista e a zona mais alta da cidade, as árvores do Jardim Botânico vão-se abanando num swing decadente, ao ritmo das ausências e das saudades. Em frente, os muros do Hot Clube de Portugal zangam-se com as saudades de Luís Villas-Boas, o “Villas”, homem do jazz e da urbe. No Verão, saxofones, trompetes, contrabaixos, explodem com fumo de cigarros e invadem as ruas desertas do Parque. Todos os sons se recusam a permanecer na velha cave da Praça da Alegria. Uma praça com esquadra de polícia, pensão com águas correntes, quartel de bombeiros, ex-sede oficial de federação de futebol e clubes nocturnos com nomes como “Maxime” e “Fontória”.

Mas há uma coisa que consegue resistir nas cidades-fantasma: os restaurantes. Na Feira Popular (ainda e sempre pasto de especulação imobiliária e política), entalada entre o Campo Pequeno e o Campo Grande, os restaurantes vão alimentando o funcionalismo público à hora do almoço.

Já não existe a Feira Popular, desaparecida ao jeito do Parque Mayer, a resvalar ano após ano para um caixote do lixo de angústias que passou por cima do Poço da Morte, onde se “arriscava a vida para salvar a mesma”. Meia-dúzia de bravos encavalitados em cima de motas que andavam de lado numa espécie de redondel de “Rollerball” sem James Caan a distribuir “fruta”.

Já não há carrosséis com girafas. Já não há montanha-russa com o looping mais modesto de todas as capitais europeias, mas ainda assim capaz de fazer vomitar as sardinhas e os pimentos do jantar.

A vida está difícil. Tão difícil que o Campo Pequeno desistiu das touradas e se fez à estrada. Pôs-se a render. Abandonou as cúpulas rubras do sangue dos touros e deixou-se maquilhar de azul, para seduzir um céu primaveril. A Praça de Touros é agora um castelo medieval cercado por tapumes e muros. Vai haver uma loja de brinquedos com nome espanhol. E mais cinemas. E esplanadas. Claro que os meses passam e a Praça de Touros que vai ser centro comercial ainda não está operacional.

Sosseguem! Vai haver ainda muita cornada. Muitas senhoras de clítoris ululante, sempre pronto a fervilhar de cada vez que as locomotivas miurizadas num luto desgovernado se adentram no ventre dos forcados. Muitos trompetadas. Muitas palmas para o voo insano das bandarilhas. Muitos risos. E aquela convicção dos aficionados de que não dói nada. O touro é que é parvo. Tão parvo como os que chamam boi ao touro. Isso sim, a suprema ofensa ao animal.

Não me espantarei muito se um belo dia um belo touro entrar numa bela sala de cinema da Praça de Touros. Basta um azar, um deslize à antiga portuguesa.

Nesse dia, até os filmes de Manoel de Oliveira vão ser movimentados.


Publicado às 00:20 | Comente [5]


Autores

Milton Ribeiro
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