Quando as manhãs de domingo nascem soalheiras, o homem da bicicleta musical vai pedalar rente ao mar. De um lado para o outro, percorre o passadiço que, no Inverno, as ondas vêm lamber com as líquidas línguas de escuma que têm as marés bravas. Vai do Passeio Alegre a Matosinhos e de Matosinhos ao Passeio Alegre. Vai a volta. E, pelo caminho, espalha música e sorrisos.
Não parece ser deste mundo, o velho. Talvez não o seja, de facto. Talvez exista apenas nas manhãs soalheiras da Foz e se extinga no resto do tempo, se recolha, então, a um limbo ou fique oleando as correntes da bicicleta, cuidando dos cromados, gravando a música com que há-de espantar os que correm a aproveitar o sol dos domingos.
É apenas um homem velho, porém. Um homem velho com a sua bicicleta, sobre a qual instalou, com cordas e parafusos, uma aparelhagem de som; um homem com a bicicleta dele e a sua orquestra sinfónica privativa. Os sons que semeia na manhã da Foz saem da traquitana musical roufenhos e algo sumidos, como num rádio de pilhas, mas as melodias que traz são festivas, pairam no ar e parecem cintilar quando tocadas pelos raios do sol. É por isso, creio, que as pessoas param de caminhar e se voltam para ficarem a vê-lo passar. É por isso que os transeuntes sorriem também.
O som da sua bicicleta escuta-se ao longe, ainda antes de a vermos surgir numa curva do passeio marítimo. Quando, enfim, pode ser visto, o homem da bicicleta musical traz um rosto feliz como o dos meninos e o dos loucos. Com apenas uma mão equilibra o rumo da bicicleta. Com a outra gesticula, como se regesse uma imaginária orquestra de minúsculos músicos encavalitados na caixa musical. Gesticula e sorri, o homem, e, enchendo o peito, acompanha o tatararan! da fanfarra. Cantarola. Festeja.