O peso de um grama de heroína 999, marca birmanesa, estendido sobre uma mesa de mármore chinês no centro de uma sala, sob a luz de um mês de Verão absorvida, mais do que refractada, pelo Mar do Sul da China, é incalculável.
Um grama de heroína é apenas um evento cravejado de dobradiças. Tem as suas portas de morte, as suas amáveis recepções ao turista incauto, os seus elos de conversas curtas e repetitivas, as suas fronteiras internacionais, os seus manuais de combate na selva.
Estendido sobre uma mesa, em linhas cujo significado a direcção da leitura nunca altera, o seu corpo nada revela da fértil paz e da fértil dor com que labora.
Inala-se uma linha, acende-se um cigarro, afina-se a temperatura do ar condicionado, pensa-se – “Quando foi que, para Camilo Pessanha, o ópio deixou de ser a flor da equanimidade?”- e este pensamento é inteiramente prosaico, como a sequência de gestos domésticos das horas anteriores e das horas seguintes.
Um grama de heroína de grande pureza é um cavalheiro vivendo apenas da etiqueta de um grau zero de proselitismo. Nada tem a dizer a ninguém. Como tal, vestem-no alfaiates iguais de ódio e reverência.
Tem um fato branco, adaptado ao clima, mas totalmente desadequado às nódoas de sangue que escolhem sempre habitá-lo ao fim e ao cabo de todas as veredas que percorre e parecem nunca permanecer secretas o tempo suficiente.
Pela sua mão nesses caminhos, a forma como um cérebro entende o prazer pode tornar-se uma enciclopédia de terror: um grama de heroína de grande pureza é um cavalheiro com convites de onde a vontade nunca regressa, pois é-lhe dado ver um tempo feito por medida e incalculável e nenhuma questão lhe é colocada aonde vai. Até que muda de ser vontade, demasiado nua e descalça. Com as oitavas da voz poupando-se a pedir, deixa de ser escutada.
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No televisor da sala vive um general americano. O facto de o aparelho se ter tornado a única luz não é, de modo algum, uma metáfora.