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25 abr2006

Rui Parada

BAIXIOS

Tinham alcançado aquele ponto em que ninguém tem mais nada a perguntar a ninguém. A sua relação tinha apenas dois dias de profundidade, mas haviam ardido toda a curiosidade.
À profundidade da manhã do terceiro dia, calavam ambos a mesma visão. Podiam ver um corte longitudinal do futuro em que camadas de sexo e entretenimento se sucediam sem mistério ou fulgor, incolores e inodoras.
O quarto do hotel, como todos os quartos de hotel da cidade de Macau, independentemente da sua classificação pelo departamento de turismo do governo, respirava uso e eficácia. Recepcionistas impacientes pediam-lhes decisões de estadia de hora a hora toda a manhã.
A mulher pensava em fichas de casino. O homem pensava que teria de inventar uma nova categoria para aquela ressaca…e pensava no seu apartamento vazio…num fellatio de mulher-a-dias…em todas as horas impunes.
Durante o duche do homem, a mulher conseguira um sonho. Via um bloco de apartamentos de três andares na periferia. Via a poeira vermelha levantada pelo vento no deserto de Gobi e soprada através de cada frincha de má construção. E sonhava que se sentava na cadeira mais intocável do âmago da Cidade Proibida…e que conhecia o desfecho de cada movimento da espiral da roleta…e saboreava um pavor inteiramente novo.
“Só se pode viver em ignorância”, mastigou sem sequência o cérebro amarrotado do homem, enquanto secava o corpo. A mulher passou por ele e pôs a água a correr, detendo-se por um momento ao espelho. Ao contrário dos dias anteriores, o espelho estava limpo do olhar do homem procurando o seu. Na verdade, estava já limpo por completo de qualquer reflexo do homem.
Sob a dura água quente, apostou consigo si própria e o estalido quase imperceptível da porta da suite deu-lhe a entender que ganhara e perdera, simultaneamente


Publicado às 12:26 | Comente [2]


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