Conto-vos esta história ainda sobressaltado pelo susto, não obstante terem passado já longuíssimos anos. Aconteceu no tempo da guerra, a longa guerra dos dezasseis anos. Naquele então tudo era possível entre nós. Como, por vezes, ainda acontece hoje.
Era eu um jovem foca, saído da escola de jornalismo e sonhava com a grande reportagem. Tinha aprendido que este era o género dos géneros e queria muito praticá-lo. Naqueles anos, a publicação para onde trabalhava dedicava muito do seu espaço às questões da sociedade. Passavam por aquelas páginas histórias que retratavam um outro país para além do país sentado e burocrático que é comum ler-se nas notícias.
Por outro lado, o país era atravessado pelo zumbido tracejante das reais balas da guerra e o tropel da violência cavalgava as nossas estradas, sobretudo a Estrada Nacional Número 1, a estrada das estradas.
Já tinha acontecido o mais absurdo entre nós. Vivíamos na orgia dos massacres. Aquele massacre de Homoíne, aquelas recorrentes mortes na Maluana, as notícias que nos vinham da Zambézia, por todo o lado. A guerra tinha um rosto e matava e destruía, na sua implacável voracidade.
Também havia o mito ou a realidade dos naparamas. Digo mito mas confesso que é apenas um artifício literário pois que sobre esses legendários homens anti-balas, que enfrentavam, aqueles que empunhavam kalashis e outras armas, de peito aberto, sem nada temerem e a salvo de todas as perfurações balísticas parece que na lenda foram mais do que a própria verdade.
Quem sou eu para pôr em causa aqui aqueles mágicos guerreiros que não temiam as balas e enfrentavam-nas lembrando-me os heróicos guerreiros das histórias que eu ouvia quando vivia ali no Xitala-Mati, antigo Bairro Indígena, em casa da minha avó Angelina?
Talvez, influenciado pela descrença que muitos tinham dos naparamas, eu ocultei ao meu chefe de redacção as verdadeiras razões da minha partida em reportagem, tendo inventado uma missa importante lá na terra do meu pai, em Morrumbene, saindo à socapa, numa viagem perigosíssima, sem saber sequer se regressaria, tal era a incerteza, para aqueles que compunham as colunas, as célebres colunas que iam escoltadas para atravessar o território da violência por este país afora. Sonhava, naquela minha demanda quase juvenil, pelo entusiasmo que empregava às coisas, que teria um material que faria a minha fortuna como repórter.
Cheguei ao anoitecer e nem me dei conta de que os meus anfitriões eram estranhos e não eram como quase toda a gente que eu havia conhecido na vida. Minha grande interrogação – eu acreditava naquele tempo que um jornalista tinha que fazer grandes interrogações! – era a razão da ausência da guerra naquela porção de terra. Eu não compreendia por que razão aquela aldeia, aquela povoação, era um corpo virgem e imaculado, distraído do cerco das balas e das mortes que eram o apanágio dos nossos melhores anos.
Receberam-me bem, mesmo estranhando a minha chegada desavisada. No campo, é assim. Uma pessoa chega, tem direito a um balde de água para tomar banho, mesmo sabendo do custo que é, para este gente, muitas vezes, atravessar dias à procura do líquido mais precioso, como aqui sói dizer-se. Refrescado pelo banho, numa pequena casa de banho com paredes de caniço e uma latrina a metros, sentei-me na esteira e comi, com ansiedade, a refeição que me serviram.
A razão por que eu visitava aquela aldeia é porque estranhamente ali não havia rastos de guerra e queria muito perceber isso. A guerra passava-lhes ao lado. Os homens armados, nas ambas margens da refrega, evitavam aquele lugar. Tinham uma espécie de respeito sagrado por aquele pedaço de terra, que não o consideravam para os seus actos de profanação. Eu ouvira esta história de um velho, sem dentes, que encontrara uma vez no Hospital Central, onde fora mandado para escrever uma história sobre uma noite passada no Banco de Socorros. Minha primeira reacção foi como a de todos: incredulidade e perplexidade. Mas aquele velho deu-me as coordenadas e lá fui, tendo inventado um excelente pretexto, como já o disse, junto do meu tenebroso chefe de redacção, para que me deixasse partir.
Acontece que naquele tempo toda a gente na Redacção sabia das minhas pretensões literárias. Ao chegar com aquela história inverosímil ninguém acreditaria que ela nascera do coração de um repórter mas sim pensariam que era uma invenção do escritor que vivia no limbo da espera, sem pressa nem desespero, para um dia se revelar. Por isso, não contei nunca esta história. Embora houvesse, para além do caso dos naparamas, outras histórias fabulosas que faziam o quotidiano da nossa vida, levada a fugir de nós próprios, numa estranha dinâmica da violência.
Com o passar dos anos, a história se confundiu com ficção na minha imaginação e hoje ao revelá-la até tenho receio de que esteja a inventá-la, tanta foi a água que entretanto correu debaixo da ponte e tantas são as noites e tantos são os dias que resistimos, sobrevivemos, até aqui chegarmos.
Então, como descrevia, na noite em que cheguei à aldeia de que me falara o madala do hospital, não reparei no estranho caso. Aliás, levei muito tempo para chegar à verdade. Aqueles residentes da aldeia eram homens de poucas falas. Gastavam os seus dias no campo, a fazer machamba. Foi namorando a sua confiança como quem nada quer. Entremeando gestos de assentimento com a cabeça e os sorrisos de concordância, aprendendo a cantar as suas canções, ouvindo as histórias, ao anoitecer à volta da fogueira. A minha vida ali corria mansa e numa inapelável falta de acontecimentos. Era uma vida sem nada de relevante para contar. Eles quase me adoptavam. Sem fosse um lugar de mar ou uma ilha, dir-se-ia que eu era um náufrago que dera à costa ainda com vida. Pelo aspecto podia parecer um fugitivo. Um desses acolhidos, vítimas da guerra. Mas eu era diferentes do verdadeiros viventes daquele lugar manso, não tinha alcançado ainda uma coisa fundamental: não me desfizera da minha sombra.
Esta constatação foi-me sugerida muitos dias depois de eu lá chegar. Eu nem sequer reparara que os meus anfitriões estavam libertos das suas sombras. Passados aqueles dias, eu tinha que partir. Conversara muito, comera o bastante para aumentar de peso, mas minha presença prolongada poderia ser perigosa. Minha sombra traria os maus espíritos, eu não estava defendido, a aldeia poderia ser atacada por minha causa. Tinha que regressar à procedência.
O velho da aldeia mandou-me chamar numa dessas noites, já alguns dos convivas à volta da fogueira se haviam retirado para as suas palhotas. Recordo o seu olhar claro e tranquilo, profundo e distante. Recordo o seu rosto enrugado, o seu cabelo despenteado e branco. Recordo as suas longas mãos apoiadas sobre o cajado que o ajudava a caminhar. Recordo o seu corpo magro e a sua altura. Recordo a sua voz.
Tivemos uma longa conversa, que aqui não reproduzo, por me faltar tempo e espaço. Um dia transcrevo-a. Prometo. Foi nessa longa conversa, enquanto as últimas labaredas crepitavam no fogo distante que o velho chefe da aldeia fez aquela revelação. Os habitantes daquele lugar tinham perdido a sombra num dia de vento em que tudo desapareceu menos eles próprios. Os jornais e a rádio noticiaram que aquando daquele ciclone, o maior que apareceu nos primeiros tempos da revolução, haviam desaparecido todos os habitantes de uma aldeia que até se perdera no mapa e cujo nome fora no subsequente dilúvio. Na altura, não havia televisão e então não ficaram as imagens para a posteridade, também não se tem notícia de nenhum fotógrafo que tenha acedido à zona devastada pela calamidade. Os que apareceram, como sobreviventes, dias depois da tragédia, eram pessoas incompletas. Não tinham sombra. Tinham perdido as suas sombras. Isto, claramente, era uma maldição. Mas ele não estava autorizado pela consciência a dar conta de mais nada. Apenas queria pedir-me que deixasse a aldeia. Os seus habitantes temiam os ataques.
Foi daí que nasceu a aldeia e a lenda dos seus habitantes que caminhavam sem serem perseguidos pelas suas sombras. As autoridades, que os desconheciam, pelo que estavam fora do seu controlo, ignoravam este facto. Os homens das armas que invadiam as aldeias matando e queimando tudo à volta numa estonteante sequência de violência tinham medo de lá entrar porque temiam aquelas pessoas sem sombra. Eram piores que aqueles cujas almas tinham viajado com os espíritos. Estranho? Mesmo de um homem morto consegue-se sempre capturar a sua sombra.
(Pequeno glossário:
Foca – principiante no jornalismo.
Kalashis – refere-se às armas Kalashinkov.
Machamba – pequena área de cultivo agrícola.
Madala – velho.
Naparamas – famosos guerreiros anti-balas que surgiram durante o não menos tristemente famoso conflito armado.)