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abril 25, 2006

A terra dos homens que perderam a sombra

Conto-vos esta história ainda sobressaltado pelo susto, não obstante terem passado já longuíssimos anos. Aconteceu no tempo da guerra, a longa guerra dos dezasseis anos. Naquele então tudo era possível entre nós. Como, por vezes, ainda acontece hoje.
Era eu um jovem foca, saído da escola de jornalismo e sonhava com a grande reportagem. Tinha aprendido que este era o género dos géneros e queria muito praticá-lo. Naqueles anos, a publicação para onde trabalhava dedicava muito do seu espaço às questões da sociedade. Passavam por aquelas páginas histórias que retratavam um outro país para além do país sentado e burocrático que é comum ler-se nas notícias.
Por outro lado, o país era atravessado pelo zumbido tracejante das reais balas da guerra e o tropel da violência cavalgava as nossas estradas, sobretudo a Estrada Nacional Número 1, a estrada das estradas.
Já tinha acontecido o mais absurdo entre nós. Vivíamos na orgia dos massacres. Aquele massacre de Homoíne, aquelas recorrentes mortes na Maluana, as notícias que nos vinham da Zambézia, por todo o lado. A guerra tinha um rosto e matava e destruía, na sua implacável voracidade.
Também havia o mito ou a realidade dos naparamas. Digo mito mas confesso que é apenas um artifício literário pois que sobre esses legendários homens anti-balas, que enfrentavam, aqueles que empunhavam kalashis e outras armas, de peito aberto, sem nada temerem e a salvo de todas as perfurações balísticas parece que na lenda foram mais do que a própria verdade.
Quem sou eu para pôr em causa aqui aqueles mágicos guerreiros que não temiam as balas e enfrentavam-nas lembrando-me os heróicos guerreiros das histórias que eu ouvia quando vivia ali no Xitala-Mati, antigo Bairro Indígena, em casa da minha avó Angelina?
Talvez, influenciado pela descrença que muitos tinham dos naparamas, eu ocultei ao meu chefe de redacção as verdadeiras razões da minha partida em reportagem, tendo inventado uma missa importante lá na terra do meu pai, em Morrumbene, saindo à socapa, numa viagem perigosíssima, sem saber sequer se regressaria, tal era a incerteza, para aqueles que compunham as colunas, as célebres colunas que iam escoltadas para atravessar o território da violência por este país afora. Sonhava, naquela minha demanda quase juvenil, pelo entusiasmo que empregava às coisas, que teria um material que faria a minha fortuna como repórter.
Cheguei ao anoitecer e nem me dei conta de que os meus anfitriões eram estranhos e não eram como quase toda a gente que eu havia conhecido na vida. Minha grande interrogação – eu acreditava naquele tempo que um jornalista tinha que fazer grandes interrogações! – era a razão da ausência da guerra naquela porção de terra. Eu não compreendia por que razão aquela aldeia, aquela povoação, era um corpo virgem e imaculado, distraído do cerco das balas e das mortes que eram o apanágio dos nossos melhores anos.
Receberam-me bem, mesmo estranhando a minha chegada desavisada. No campo, é assim. Uma pessoa chega, tem direito a um balde de água para tomar banho, mesmo sabendo do custo que é, para este gente, muitas vezes, atravessar dias à procura do líquido mais precioso, como aqui sói dizer-se. Refrescado pelo banho, numa pequena casa de banho com paredes de caniço e uma latrina a metros, sentei-me na esteira e comi, com ansiedade, a refeição que me serviram.
A razão por que eu visitava aquela aldeia é porque estranhamente ali não havia rastos de guerra e queria muito perceber isso. A guerra passava-lhes ao lado. Os homens armados, nas ambas margens da refrega, evitavam aquele lugar. Tinham uma espécie de respeito sagrado por aquele pedaço de terra, que não o consideravam para os seus actos de profanação. Eu ouvira esta história de um velho, sem dentes, que encontrara uma vez no Hospital Central, onde fora mandado para escrever uma história sobre uma noite passada no Banco de Socorros. Minha primeira reacção foi como a de todos: incredulidade e perplexidade. Mas aquele velho deu-me as coordenadas e lá fui, tendo inventado um excelente pretexto, como já o disse, junto do meu tenebroso chefe de redacção, para que me deixasse partir.
Acontece que naquele tempo toda a gente na Redacção sabia das minhas pretensões literárias. Ao chegar com aquela história inverosímil ninguém acreditaria que ela nascera do coração de um repórter mas sim pensariam que era uma invenção do escritor que vivia no limbo da espera, sem pressa nem desespero, para um dia se revelar. Por isso, não contei nunca esta história. Embora houvesse, para além do caso dos naparamas, outras histórias fabulosas que faziam o quotidiano da nossa vida, levada a fugir de nós próprios, numa estranha dinâmica da violência.
Com o passar dos anos, a história se confundiu com ficção na minha imaginação e hoje ao revelá-la até tenho receio de que esteja a inventá-la, tanta foi a água que entretanto correu debaixo da ponte e tantas são as noites e tantos são os dias que resistimos, sobrevivemos, até aqui chegarmos.
Então, como descrevia, na noite em que cheguei à aldeia de que me falara o madala do hospital, não reparei no estranho caso. Aliás, levei muito tempo para chegar à verdade. Aqueles residentes da aldeia eram homens de poucas falas. Gastavam os seus dias no campo, a fazer machamba. Foi namorando a sua confiança como quem nada quer. Entremeando gestos de assentimento com a cabeça e os sorrisos de concordância, aprendendo a cantar as suas canções, ouvindo as histórias, ao anoitecer à volta da fogueira. A minha vida ali corria mansa e numa inapelável falta de acontecimentos. Era uma vida sem nada de relevante para contar. Eles quase me adoptavam. Sem fosse um lugar de mar ou uma ilha, dir-se-ia que eu era um náufrago que dera à costa ainda com vida. Pelo aspecto podia parecer um fugitivo. Um desses acolhidos, vítimas da guerra. Mas eu era diferentes do verdadeiros viventes daquele lugar manso, não tinha alcançado ainda uma coisa fundamental: não me desfizera da minha sombra.
Esta constatação foi-me sugerida muitos dias depois de eu lá chegar. Eu nem sequer reparara que os meus anfitriões estavam libertos das suas sombras. Passados aqueles dias, eu tinha que partir. Conversara muito, comera o bastante para aumentar de peso, mas minha presença prolongada poderia ser perigosa. Minha sombra traria os maus espíritos, eu não estava defendido, a aldeia poderia ser atacada por minha causa. Tinha que regressar à procedência.
O velho da aldeia mandou-me chamar numa dessas noites, já alguns dos convivas à volta da fogueira se haviam retirado para as suas palhotas. Recordo o seu olhar claro e tranquilo, profundo e distante. Recordo o seu rosto enrugado, o seu cabelo despenteado e branco. Recordo as suas longas mãos apoiadas sobre o cajado que o ajudava a caminhar. Recordo o seu corpo magro e a sua altura. Recordo a sua voz.
Tivemos uma longa conversa, que aqui não reproduzo, por me faltar tempo e espaço. Um dia transcrevo-a. Prometo. Foi nessa longa conversa, enquanto as últimas labaredas crepitavam no fogo distante que o velho chefe da aldeia fez aquela revelação. Os habitantes daquele lugar tinham perdido a sombra num dia de vento em que tudo desapareceu menos eles próprios. Os jornais e a rádio noticiaram que aquando daquele ciclone, o maior que apareceu nos primeiros tempos da revolução, haviam desaparecido todos os habitantes de uma aldeia que até se perdera no mapa e cujo nome fora no subsequente dilúvio. Na altura, não havia televisão e então não ficaram as imagens para a posteridade, também não se tem notícia de nenhum fotógrafo que tenha acedido à zona devastada pela calamidade. Os que apareceram, como sobreviventes, dias depois da tragédia, eram pessoas incompletas. Não tinham sombra. Tinham perdido as suas sombras. Isto, claramente, era uma maldição. Mas ele não estava autorizado pela consciência a dar conta de mais nada. Apenas queria pedir-me que deixasse a aldeia. Os seus habitantes temiam os ataques.
Foi daí que nasceu a aldeia e a lenda dos seus habitantes que caminhavam sem serem perseguidos pelas suas sombras. As autoridades, que os desconheciam, pelo que estavam fora do seu controlo, ignoravam este facto. Os homens das armas que invadiam as aldeias matando e queimando tudo à volta numa estonteante sequência de violência tinham medo de lá entrar porque temiam aquelas pessoas sem sombra. Eram piores que aqueles cujas almas tinham viajado com os espíritos. Estranho? Mesmo de um homem morto consegue-se sempre capturar a sua sombra.


(Pequeno glossário:
Foca – principiante no jornalismo.
Kalashis – refere-se às armas Kalashinkov.
Machamba – pequena área de cultivo agrícola.
Madala – velho.
Naparamas – famosos guerreiros anti-balas que surgiram durante o não menos tristemente famoso conflito armado.)

BAIXIOS

Tinham alcançado aquele ponto em que ninguém tem mais nada a perguntar a ninguém. A sua relação tinha apenas dois dias de profundidade, mas haviam ardido toda a curiosidade.
À profundidade da manhã do terceiro dia, calavam ambos a mesma visão. Podiam ver um corte longitudinal do futuro em que camadas de sexo e entretenimento se sucediam sem mistério ou fulgor, incolores e inodoras.
O quarto do hotel, como todos os quartos de hotel da cidade de Macau, independentemente da sua classificação pelo departamento de turismo do governo, respirava uso e eficácia. Recepcionistas impacientes pediam-lhes decisões de estadia de hora a hora toda a manhã.
A mulher pensava em fichas de casino. O homem pensava que teria de inventar uma nova categoria para aquela ressaca…e pensava no seu apartamento vazio…num fellatio de mulher-a-dias…em todas as horas impunes.
Durante o duche do homem, a mulher conseguira um sonho. Via um bloco de apartamentos de três andares na periferia. Via a poeira vermelha levantada pelo vento no deserto de Gobi e soprada através de cada frincha de má construção. E sonhava que se sentava na cadeira mais intocável do âmago da Cidade Proibida…e que conhecia o desfecho de cada movimento da espiral da roleta…e saboreava um pavor inteiramente novo.
“Só se pode viver em ignorância”, mastigou sem sequência o cérebro amarrotado do homem, enquanto secava o corpo. A mulher passou por ele e pôs a água a correr, detendo-se por um momento ao espelho. Ao contrário dos dias anteriores, o espelho estava limpo do olhar do homem procurando o seu. Na verdade, estava já limpo por completo de qualquer reflexo do homem.
Sob a dura água quente, apostou consigo si própria e o estalido quase imperceptível da porta da suite deu-lhe a entender que ganhara e perdera, simultaneamente

NON SEQUITUR SOBRE UM GRAMA DE PÓ

O peso de um grama de heroína 999, marca birmanesa, estendido sobre uma mesa de mármore chinês no centro de uma sala, sob a luz de um mês de Verão absorvida, mais do que refractada, pelo Mar do Sul da China, é incalculável.
Um grama de heroína é apenas um evento cravejado de dobradiças. Tem as suas portas de morte, as suas amáveis recepções ao turista incauto, os seus elos de conversas curtas e repetitivas, as suas fronteiras internacionais, os seus manuais de combate na selva.
Estendido sobre uma mesa, em linhas cujo significado a direcção da leitura nunca altera, o seu corpo nada revela da fértil paz e da fértil dor com que labora.
Inala-se uma linha, acende-se um cigarro, afina-se a temperatura do ar condicionado, pensa-se – “Quando foi que, para Camilo Pessanha, o ópio deixou de ser a flor da equanimidade?”- e este pensamento é inteiramente prosaico, como a sequência de gestos domésticos das horas anteriores e das horas seguintes.
Um grama de heroína de grande pureza é um cavalheiro vivendo apenas da etiqueta de um grau zero de proselitismo. Nada tem a dizer a ninguém. Como tal, vestem-no alfaiates iguais de ódio e reverência.
Tem um fato branco, adaptado ao clima, mas totalmente desadequado às nódoas de sangue que escolhem sempre habitá-lo ao fim e ao cabo de todas as veredas que percorre e parecem nunca permanecer secretas o tempo suficiente.
Pela sua mão nesses caminhos, a forma como um cérebro entende o prazer pode tornar-se uma enciclopédia de terror: um grama de heroína de grande pureza é um cavalheiro com convites de onde a vontade nunca regressa, pois é-lhe dado ver um tempo feito por medida e incalculável e nenhuma questão lhe é colocada aonde vai. Até que muda de ser vontade, demasiado nua e descalça. Com as oitavas da voz poupando-se a pedir, deixa de ser escutada.

* * *

No televisor da sala vive um general americano. O facto de o aparelho se ter tornado a única luz não é, de modo algum, uma metáfora.

abril 18, 2006

Pessoa e a Chuva

Ela fala do Corinthians, das ruas arborizadas da Aclimação e do Fernando Pessoa com o mesmo entusiasmo. Quase o mesmo.

Mas depois dum dia infernal, às voltas com mães-de-alunos-aflitas e advogados soturnos, só o entusiasmo dela é real.

Ela sorri enquanto fala, talvez nem perceba. Faz um comentário qualquer sobre gatos, olha para mim sorrindo, e eu me sinto como a meninazinha que vai até a entrada da classe de mãos dadas com a professora - ela se lembra de que eu gosto de gatos!

Fala mais um pouquinho e Pessoa vai à missa. Ele ouve a chuva durante a missa, eu ouço a voz dela e o meu cansaço. Ouço também a voz das meninas comentando algo perto de mim, e o catálogo da Natura chama meu nome. E se eu comprasse aquele batom de 30 mangos? Meus pés doem e meu advogado me desanima.

Pessoa, pelo que eu pude ver, não prestou muita atenção à missa. Eu presto atenção nela e na sua blusa com casas de botões bordadas a mão. Ela fala algo sobre o bairro e sobre a chuva fazendo árvores caírem e as feiras livres serem transferidas, e eu me lembro de que ela é amiga do batateiro da feira. Ele também é corintiano e a chama de broto. Sim, ela é um broto. Posso vê-la, de sacola na mão, escolhendo queijos e cheirando maçãs.

Foi com ela minha primeira aula na faculdade. Era agosto, eu estava com frio e com medo, recém-saída duma crise de pânico de oito anos depois do que nunca mais fui a mesma. Nesse dia cheguei em casa pisando em flocos de algodão. Era isso o que eu queria. Era isso o que eu esperava. Um mundo com gente feito ela não poderia ser tão mau assim.

Pessoa tem razão.

A chuva está alta demais.

abril 11, 2006

Os Fantasmas da Cidade

Lisboa por certo terá os seus fantasmas de estimação.

É provável que passeiem de mão dada a D.Sebastião, nas manhãs de nevoeiro sobre o Tejo, órfão de um Cais das Colunas que não volta mais, para desgosto do poeta americano Charles Simic.

Lisboeta que é lisboeta sente a falta daqueles dois pilares singelos, pelintras, erectos, a assobiar indolentemente para a outra banda, Cacilhas. Mas esses dois pilares eram muito mais que dois pilares. Eram a linha de meta que definia o fim da terra e a entrada no rio. Por isso os lisboetas se sentavam nos muros, ao lado do Cais das Colunas, à espera do barco, a ler poesia, a beijar a namorada. Foi no Cais das Colunas que li pela primeira vez o poeta Jorge de Sousa Braga. No caso, “Amanhã vamos todos acordar com uma pérola no cu”. Charles Simic esteve na cidade há uns anos, para os encontros de poesia “Primavera em Lisboa”. Em pleno Castelo de S.Jorge exprimiu-me o desgosto que tinha sentido pelo desaparecimento dos pilares.

Sonho com D. Sebastião montado num dos pilares do Cais das Colunas, capacete de Valentino Rossi enfiado na cabeça, a acelerar velozmente pelos céus, pintados por Enki Bilal. Uma espécie de Mary Poppins sem vassoura, sem exército, sem “Sound of Music”, sem montanhas com flores de nomes belos e exóticos.

Sonho com D.Sebastião sentado na primeira fila do Teatro Maria Vitória, no Parque Mayer de todos os fantasmas. Aplaudindo entusiasticamente as piadas de Maria João Abreu, José Raposo ou Octávio de Matos.

Porque o Parque Mayer de hoje mais não é do que um jazigo de fantasmas. Longe vão os tempos das galas de boxe, do Paiva que alugava smokings, dos restaurantes cheios. Hoje, o Parque Mayer está refém dos políticos e dos negócios de especulação imobiliária. E Lisboa já perdeu. Nestas coisas, Lisboa perde sempre.

O “Maria Vitória”, travestido de partizan, vai ainda e sempre resistindo ao declínio anunciado do teatro de revista. As pessoas vêm de todo o lado, em excursões. Eu fui até à revista a convite de um amigo. Com aquele sabor de velório a corroer-me a alma. Até quando a revista?

No palco, as lantejoulas ainda brilham e os seios das coristas estão tapados com plumas e outros adereços típicos. Uma das coristas, russa de formação clássica, vai-se adaptando a Portugal como pode. Outra, holandesa, exibe um nome improvável no cartaz que dá para a rua e pisca o olho a uma loja de Ermenegildo Zegna.

No palco, o cantor Beto emociona-se quando Maria João Abreu lhe deseja boa sorte para o Festival da Canção. Pouco antes, José Raposo dera vida a outro fantasma de Lisboa, o poeta José Carlos Ary dos Santos, grande bebedor de gin e da vida.

No palco, Melânia Gomes (raio de nome!) e Paula Sá provam que são duas raparigas (sim, raparigas, em português de Portugal não tem mal nenhum) de talento. Escorre-me da boca um fiozinho de baba, ao pensar nos seios imaginados de Melânia.

No restaurante “A Gina” não há fantasmas. Na primeira terça-feira de cada mês reúne-se um grupo de figuras de ficção que dá pelo nome de Tertúlia Banda Desenhada de Lisboa, capitaneada pelo grande fundador Geraldes Lino. A Tertúlia dura há mais de 20 anos. São muitos meses de Parque à beira do abismo. Sem conseguir morrer, sem viver em pleno. Nas traseiras da Avenida da Liberdade.

Quase esquecemos que o Parque Mayer é uma cidade-fantasma e que o encenador Mário Alberto merecia um conjunto de very-lights para rasgar os céus em cada dia que acorda como habitante quase solitário do Parque Mayer. Morador de cidade-fantasma no centro de Lisboa merecia um conjunto de very-lights do mais alto gabarito.

Por trás do Parque Mayer, entaladas entre os fantasmas da revista e a zona mais alta da cidade, as árvores do Jardim Botânico vão-se abanando num swing decadente, ao ritmo das ausências e das saudades. Em frente, os muros do Hot Clube de Portugal zangam-se com as saudades de Luís Villas-Boas, o “Villas”, homem do jazz e da urbe. No Verão, saxofones, trompetes, contrabaixos, explodem com fumo de cigarros e invadem as ruas desertas do Parque. Todos os sons se recusam a permanecer na velha cave da Praça da Alegria. Uma praça com esquadra de polícia, pensão com águas correntes, quartel de bombeiros, ex-sede oficial de federação de futebol e clubes nocturnos com nomes como “Maxime” e “Fontória”.

Mas há uma coisa que consegue resistir nas cidades-fantasma: os restaurantes. Na Feira Popular (ainda e sempre pasto de especulação imobiliária e política), entalada entre o Campo Pequeno e o Campo Grande, os restaurantes vão alimentando o funcionalismo público à hora do almoço.

Já não existe a Feira Popular, desaparecida ao jeito do Parque Mayer, a resvalar ano após ano para um caixote do lixo de angústias que passou por cima do Poço da Morte, onde se “arriscava a vida para salvar a mesma”. Meia-dúzia de bravos encavalitados em cima de motas que andavam de lado numa espécie de redondel de “Rollerball” sem James Caan a distribuir “fruta”.

Já não há carrosséis com girafas. Já não há montanha-russa com o looping mais modesto de todas as capitais europeias, mas ainda assim capaz de fazer vomitar as sardinhas e os pimentos do jantar.

A vida está difícil. Tão difícil que o Campo Pequeno desistiu das touradas e se fez à estrada. Pôs-se a render. Abandonou as cúpulas rubras do sangue dos touros e deixou-se maquilhar de azul, para seduzir um céu primaveril. A Praça de Touros é agora um castelo medieval cercado por tapumes e muros. Vai haver uma loja de brinquedos com nome espanhol. E mais cinemas. E esplanadas. Claro que os meses passam e a Praça de Touros que vai ser centro comercial ainda não está operacional.

Sosseguem! Vai haver ainda muita cornada. Muitas senhoras de clítoris ululante, sempre pronto a fervilhar de cada vez que as locomotivas miurizadas num luto desgovernado se adentram no ventre dos forcados. Muitos trompetadas. Muitas palmas para o voo insano das bandarilhas. Muitos risos. E aquela convicção dos aficionados de que não dói nada. O touro é que é parvo. Tão parvo como os que chamam boi ao touro. Isso sim, a suprema ofensa ao animal.

Não me espantarei muito se um belo dia um belo touro entrar numa bela sala de cinema da Praça de Touros. Basta um azar, um deslize à antiga portuguesa.

Nesse dia, até os filmes de Manoel de Oliveira vão ser movimentados.

abril 4, 2006

O homem da bicicleta musical

Quando as manhãs de domingo nascem soalheiras, o homem da bicicleta musical vai pedalar rente ao mar. De um lado para o outro, percorre o passadiço que, no Inverno, as ondas vêm lamber com as líquidas línguas de escuma que têm as marés bravas. Vai do Passeio Alegre a Matosinhos e de Matosinhos ao Passeio Alegre. Vai a volta. E, pelo caminho, espalha música e sorrisos.

Não parece ser deste mundo, o velho. Talvez não o seja, de facto. Talvez exista apenas nas manhãs soalheiras da Foz e se extinga no resto do tempo, se recolha, então, a um limbo ou fique oleando as correntes da bicicleta, cuidando dos cromados, gravando a música com que há-de espantar os que correm a aproveitar o sol dos domingos.

É apenas um homem velho, porém. Um homem velho com a sua bicicleta, sobre a qual instalou, com cordas e parafusos, uma aparelhagem de som; um homem com a bicicleta dele e a sua orquestra sinfónica privativa. Os sons que semeia na manhã da Foz saem da traquitana musical roufenhos e algo sumidos, como num rádio de pilhas, mas as melodias que traz são festivas, pairam no ar e parecem cintilar quando tocadas pelos raios do sol. É por isso, creio, que as pessoas param de caminhar e se voltam para ficarem a vê-lo passar. É por isso que os transeuntes sorriem também.

O som da sua bicicleta escuta-se ao longe, ainda antes de a vermos surgir numa curva do passeio marítimo. Quando, enfim, pode ser visto, o homem da bicicleta musical traz um rosto feliz como o dos meninos e o dos loucos. Com apenas uma mão equilibra o rumo da bicicleta. Com a outra gesticula, como se regesse uma imaginária orquestra de minúsculos músicos encavalitados na caixa musical. Gesticula e sorri, o homem, e, enchendo o peito, acompanha o tatararan! da fanfarra. Cantarola. Festeja.

Quando as Pernas e os Decotes Desaparecem

Dedicado a Nelson Saúte, que, como eu, ama Drummond.

Tom Jobim cantava as águas de março que fechariam nossos verões. Eu mentiria se as cantasse em Porto Alegre, pois, além de já estarmos em abril, não há chuvas neste final de verão. É uma seqüência de dias lindos, os tais dias lindos do mais puro azul que Drummond dizia acontecerem na segunda metade de abril. Os Dias Lindos, as Águas de Março; Drummond, Tom; grandes autores, péssimos meteorologistas.

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.
TOM JOBIM - ÁGUAS DE MARÇO

Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - OS DIAS LINDOS

Drummond tem razão, o estatuto do calor está abolido, mas erra a data. Dirão vocês que não importa, que Drummond é um dos picos da evolução humana e que a culpa deve ser do aquecimento global. Sou simpático a qualquer argumentação que enalteça o itabirano, porém lamento dizer que minha contestação aos dias lindos vai além. Saúdo-os ao mesmo tempo que lamento as perdas.

Hoje fui ao centro da cidade. Acostumei-me a caminhar pelas ruas quentes vendo as pernas e decotes das gaúchas. Ficava feliz com a crescente e elegante ousadia daquelas que mostram suas boas formas, seus bronzeados e seus seios remodelados ou originais. Também gostava da classe das mulheres que exibiam o que tinham de melhor, escondendo sob panos coloridos o indesejável, o inevitável, o irremediável ou o inexorável. Sou um admirador das artes femininas. Só que hoje o panorama era outro. Os decotes estavam mais fechados, as pernas haviam quase sumido e o colorido das roupas tendiam à diluição. Viram? O dia lindo e seus dezoito graus matinais derrubaram a libido do caminhante.

Mas quem viverá seu quadragésimo nono inverno nesta cidade, sabe que este é um fenômeno sazonal e logo nós, os homens, estas criaturas tão visuais para com o outro sexo, iremos nos readaptar. Ficaremos excitados apenas com um belo rosto e pelo prenúncio de um tornozelo. Conheço alguns que enlouquecerão por um mero salto alto. Pior, há os que abraçarão suas mulheres e amigas apenas para sentirem o aroma do perfume que acompanhará o ar expulso de suas peles pelo abraço. Voltaremos a adivinhar as formas sob as roupas e teremos vontade de levar em nossos carros as mulheres encolhidas nas paradas de ônibus. (Tratar-se-á da mais desinteressada e solidária gentileza.)

Drummond esquece-se de dizer que os dias lindos são o prenúncio de uma época em que o espírito vencerá a observação, em que a cogitação precederá o fato, em que os cobertores serão os companheiros mais adequados a quaisquer primícias e que serão jogados longe apenas durante os clímax. Os dias lindos nos fazem lembrar de que, daqui seis meses, haverá uma primavera onde as flores, os plátanos, os guapuruvus e as mulheres reapararecerão. Deslumbrantes.

Porém, o leitor atento que há dentro de mim bate em meu ombro a fim de chamar minha atenção. Diz ele que Drummond vivia no Rio de Janeiro, que lá as pernas e decotes nunca desaparecem, que este é um fenômeno gaúcho, sub-tropical e que não tenho razão em reclamar do poeta. Acabo esta crônica fazendo tamborilar os dedos da mão direita sobre a mesa. Um por um, repetidamente. É o movimento característico da contrariedade do vencido.