Quando alinhava (em verde, rubro e branco, médio-centro com funções polivalentes, número 10 das costas) pelo glorioso Ramaldense FC, o clube facultava aos seus indómitos atletas a utilização de uma peça de roupa íntima que, apesar da semelhança com as vulgares cuecas, era designada pela expressão “trusses”. Normalmente estavam pouco limpas e cheiravam à terra dos muitos pelados por onde haviam passado os valentes desportistas da agremiação e, por isso, creio que nunca cheguei a utilizar tal indumentária sob os calções negros do clube.
A palavra “trusses” ficou, porém, depositada no meu imaginário como um resíduo de ignorância, mas também como um elemento de partilha de certa fibra proletária que devia unir os intrépidos futebolistas da simpática agremiação popular. Nós éramos do Ramaldense, éramos do Porto, éramos pobres, jogávamos futebol na lama e (se os nossos princípios higiénicos fossem suficientemente abertos) usávamos trusses!
Apenas muitos anos depois, em 2005, resolvi indagar a origem da peculiar designação para as proletárias e pouco limpas cuecas ramaldenses. Talvez pela sonoridade da palavra, fui directo ao alvo: lá estava, no dicionário de Francês-Português da Porto Editora! Trousses é, afinal, a palavra que, em França, designa os calções de pajem e os calções interiores dos ginastas. Voilá! Tão franceses que nós somos no Porto...