Quero uma cota de malha, um escudo, uma espada e um capacete à viking, para poder esventrar esta Lisboa que não conheço, rodeada de betão e obras por todos os lados.
Quero poder andar pela urbe como antigamente, traçando geometrias do olhar e da vontade, livre de interesses financeiros obscuros. Esta cidade que nos estão a construir não é minha nem de ninguém. É um embuste de fancaria.
Nasci e moro nas Avenidas Novas, no centro de Lisboa.
Ainda me revolto com as práticas de labirinto que tenho de efectuar diariamente.
O escritor Mário de Carvalho confessou recentemente no encontro literário “Correntes D’Escrita” (Póvoa do Varzim, próximo do Porto) que já não percebia nada do mundo. Estou como ele. Cada vez percebo menos do mundo e da minha cidade.
Leio o jornal “Público” e caio do meu Olimpo das certezas: uma grega, que se apaixonou por um português em Londres e veio viver para Lisboa, considera que as bichas (filas, ó caras!) para os autocarros (ônibus, meus irmãos!) são muito civilizadas. E que na Grécia e em Londres não há bichas. É tudo ao molho e fé em Deus!
Ouço as conversas pelas ruas e parecem-me estranhas, praticadas por seres alienígenas que esqueceram o sentido da solidariedade. E também eu sou agora um animal desconfiado, como um esquiador que procura a trajectória ideal por entre a neve destilada no coração das pessoas. Mas pode ser que o problema seja meu.
À medida que os anos vão avançando, respiro com um prazer adicional as pequenas (grandes) pérolas de prazer que a cidade me vai proporcionando, pelo meio das melancolias do desânimo.
Uma terça-feira, saboreei um corte de cabelo da zona de Alvalade, desci a Av. João XXI e travei conhecimento espontâneo com um cão chamado “Camurça”, na Av. Roma. Ao pé de um estofador, provavelmente o dono do espécime.
O “Camurça” deve ter Setter Irlandês por progenitor, dada a forma peculiar da cauda, em sabre, a pelagem fulva acastanhada, o focinho e o temperamento dócil, irrequieto e curioso. À medida que a minha mão direita lhe acariciava o pelo de veludo, sentia o coração a foguetear-se de meiguices e um frio agradável na nuca, agora despida, após a ida ao barbeiro.
Dez minutos depois, travei conhecimento com um gato no Bairro Social, perto da Igreja de S. João de Deus. Bichano meigo, implantado do lado de fora de uma janela térrea, com grades de ferro pintadas de branco. Um bichano dócil como o “Camurça”, ávido de se esfregar nas minhas mãos e cumprindo religiosamente um “slalom” por entre as grades de ferro e os meus braços, como se estivesse na final de uma prova canina de “Agility”. Os cães e os gatos desta Lisboa em mudança são um dos meus bálsamos neste teatro da vida.
Por falar de teatro, o bom do William Shakespeare teve direito a várias peças representadas ao mesmo tempo na cidade, em Fevereiro. Deliciei-me com “Othello”, representada no Teatro da Trindade, com encenação do Joaquim Benite. E se os jovens lisboetas são agora incapazes de conter a tosse durante três horas e descobrem demasiados motivos de riso nas falas de Iago, as palavras do Mestre são --- ainda e sempre --- um bálsamo.
Saio de peito feito à noite e ao frio, acompanhado por um amigo. Disposto a redescobrir as noites do Bairro Alto. Mas a rua Diário de Notícias já não é o que era. Mudou a gerência do bar “Tertúlia”. O Eduardo e a Zita “reformaram-se” há três meses e eu sem saber!
Emigro com o João Paulo até um dos poucos restaurantes da cidade onde se pode comer às 5 da madrugada: “Os Bons Amigos”. Entretenho-me com uma tábua de queijos e um tinto acolhedor, enquanto debato a vida, as desgraças e os sonhos. Estamos sós no restaurante. No plasma, sintonizado no canal “Mezzo”, tocam violinos à desfilada.
Quando chego a casa estou reconciliado com a cidade.
O dia vai nascer.