Campainha tocando. Quem tem cachorro histérico feito eu, sabe o que isto significa: pânico e ranger de dentes, enquanto o pequeno animal pula, late, rosna, joga-se contra a porta. Demoro sólidos minutos para conseguir atender quem chama.
- Oi.
- Oi!
- Pois não?
- Tudo bom?
- Tudo.
- Você não deve se lembrar de mim, eu sou o Clécio do quarto andar.
- Oi Clécio, tudo bom? Quer entrar?
- Não, obrigado, é rápido.
- Pois não.
- Bom, é que a Copa vem aí, né?
- Certo.
- E eu e o Everaldo do 608 fizemos uns orçamentos.
- Certo.
- E achamos uma boa firma, com um preço camarada.
- Certo.
- E fechamos com eles.
- Hum. Certo. Mas orçamento do que?
- Como do que? De telão! Telão pra ver a Copa. A firma instala o telão lá no salão de festas.
- Ah, entendi.
- Então, não é só telão, né, esse orçamento inclui outras coisas.
- Outras coisas?
- É, além do telão, eles trazem um churrasqueiro, que vai fazer espetinhos de carne e de frango pro pessoal durante o jogo, e também mandam cervejas e refrigerantes. Ah, e nos intervalos, eles fornecem dvds de karaokê, sabe, pro pessoal ir se divertindo.
- Sei, sei.
- Bom, é um pacote fechado, e a gente fez o cálculo por apartamento, não por pessoa. Assim, cada apartamento tem direito a aparecer na farra com até seis pessoas. Se sua família é pequena, você pode convidar amigos e familiares. E criança até 12 anos não conta.
- Certo. Amigos. Familiares. Para ver a Copa.
- É, no salão. Com churrasco de espetinho.
- E karaokê.
- E karaokê.
- Certo.
- Bom, o total por unidade do prédio é de 398,00 reais.
- Certo.
- Você pode pagar com cheque mesmo, eu estou recolhendo, e na segunda eu mesmo faço o depósito.
- Certo.
- Depois a firma fornece recibos individuais, cada apartamento terá o seu.
- Certo.
- É isso aí.
- 400 reais pra ver a Copa.
- No telão!
- Com vocês.
- E com churrasco!
- De espetinho.
- E com karaokê.
- Olha, obrigada, viu., a mas a gente não está interessado.
- Ah?
- A gente não quer.
- Como assim?
- A gente não quer participar desse... evento.
- Mas, não, você não entendeu. Isso não é preço por jogo, é pra tooooda a Copa.
- Eu entendi.
- Mas tem churrasco, recreação.
- Eu entendi.
- Mas vocês vão achar mais divertido ver a Copa aí, sozinhos, na tevê de vocês?
- Não, a gente....
- Péra aí, qual é a tevê de vocês, é tão boa assim?
- Não, a gente...
- Poxa, qualé, sozinhos o jogo não tem a mesma graça!
- Mas...
- Poxa, eu vou ter que refazer TODO o cálculo, todo mundo vai pagar a mais por causa de vocês!
- É, mas...
- E só porque vocês são mão de vaca e querem ver a Copa sozinhos...
- Não, você não entendeu, a gente não vê a Copa.
- AAHH??
- A gente não assiste futebol.
- O QUÊ?!
- É.
- Nunca, nada?
- Nunca. Nada.
- Não, péra ai. Deixa eu falar com seu marido.
- Ele não está.
- Não, péra. Vocês não vêem jogo nenhum?
- Não.
- Nem na Copa.
- Não.
- A final?
- Não.
- Os pênaltis na final?
- Não.
- Quatro a quatro, final, o Brasil errou dois pênaltis e a Alemanha também errou dois e vocês não assistem?
- Não.
- A cidade vai parar pra assistir a Copa e vocês nem tchuns?
- Não.
Eu já decepcionei muita gente, leitor amigo. Muita. Minha mãe. Meu pai. Meu marido. E a mim mesma. Mas nunca fui olhada como esse vizinho me olhou. Com desilusão. Como se olha um caso perdido, uma alma abandonada. Um inseto afogado na piscina mereceria um olhar mais doce.
Faz uma semana que ninguém me dá bom dia nos elevadores.
Copa na Vila Sônia é coisa séria.
Entrei pra lista dos proscritos.