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março 28, 2006

Lindomar Castilho aparecia aos domingos

Não recordo a origem da sua alcunha, mas lembro que chegou um dia em nossa casa recomendado por um amigo. Também não me acode à memória o seu verdadeiro nome. Fica para sempre na minha recordação com o nome da cobra, Mamba, como era conhecido. Ainda distingo os traços da sua silhueta, era um homem alto e seco, muito direito na sua postura, sempre elegantemente vestido. Impressionavam-me as suas veias, que lhe corriam visíveis nas partes do corpo em que a sua roupa não alcançava. Gostava de andar com as mãos nos bolsos, quase sempre calçava botas. Era um homem aprumado. Sem muito esforço ganhou a simpatia de todos lá em casa e, sempre que podia, visitava-nos aos fins-de-semana.

Nacala era uma pequena cidade, mas com algum movimento. Nós vivíamos no prédio que ficava em frente da Câmara Municipal. Lembro-me sobretudo da poeira que se levantava sempre que um carro passava. Resiste ainda na minha memória a imagem das amendoeiras perfiladas, com amêndoas que nós comíamos, vezes sem conta, ao longo do ano. Também recordo jambalau, um fruto com caroço grande, assim todo preto, da árvore que havia na casa do director do Porto. Nós galgávamos aquela árvore e as nossas tardes eram de glória quando tínhamos dores de barriga por não conseguir comer mais.

Para os miúdos da nossa idade, não havia muito que fazer. Tínhamos a escola, havia a catequese na catedral que eu não frequentava, mas gostava de ir ao pátio ver as meninas a saírem, frequentávamos o Clube Ferroviário e nada mais.

Os domingos passados ao som dos estridentes decibéis, com as vozes exaltadas dos mais velhos empolgados pelo nível etílico que atingiam, animavam os meus fins-de-semana e tiravam-nos daquela modorra que se repetia. Poucas vezes saíamos da cidade. À excepção de uma épica viagem de barco à vela para Nacala-a-Velha, do lado adverso da baía, não me lembro de viajar naqueles anos. Passara por Nampula, mas sempre a caminho da capital. A despeito, ainda recordo a viagem primeira que fiz de comboio nas velhas automotoras entre Nampula e Nacala. Fascinavam-me os nomes das estações que nós escalávamos.

Mas falava do Mamba que um dia chegou à casa, trazendo notícias de familiares do Sul. Imagino que a vida dos militares fosse aborrecida na messe e sempre que podia Mamba passava connosco os domingos. Inclusive chegou de aparecer com uns colegas russos. Eu achava aquela língua maravilhosa e cheguei de aprender algumas palavras.

Entre a nossa casa e a messe ficava a residência do Administrador. As filhas do Administrador frequentavam a nossa casa. Por vezes, nós também íamos para aquele casarão. Não recordo o nome de todas, mas há uma cujo nome jamais esquecerei. Não era a mais bonita, mas a mais misteriosa. A mais bela de todas era a surda-muda. Essa, sim, era uma mulher belíssima. Cada uma tinha o seu encanto.

Mamba conheceu a Miriam num desses dias que foi lá casa visitar-nos. Nem sequer chegou a falar com ela. Parece que só teve tempo de a ver, ela já se despedia. Mas a intensidade do olhar e a brevidade daquele encontro provocaram nele uma paixão sublime pela filha da Administrador.

Ele não escondeu a sua admiração e passava os dias recitando versos para o gáudio daqueles que partilhavam com ele a alegria dos domingos na nossa casa. Aqueles dias eram longos e animados. Tocava-se sobretudo um velho gira-discos e ouviam-se canções românticas repetidamente. Lembro-me de um cantor brasileiro que se tocava persistentemente - Lindomar Castilho. Mas também Roberto Carlos, mas também Martinho da Vila. Tantos, tantos, eu sei lá!

Não me lembro de ver alguma vez Mamba fardado. Nunca apareceu lá em casa em dias em que estivesse de serviço. Recordo, a esta distância, aqueles marinheiros russos que invadiam a cidade. Ainda hoje sobrevive na memória do meu olfacto um forte odor dos perfumes que eles usavam.

Tenho presente que a filha do Administrador nunca correspondeu o amor do Mamba. Mas posso asseverar que ele viveu para esse amor para sempre. Mamba falava incansavelmente daquela mulher que o encantara e cultivava uma impenitente esperança de um dia conquistar o seu coração.

Eu era miúdo e não fazia perguntas. Não sei que argumentos Mamba usava para tentar conquistar o amor da filha do Administrador. Mandaria ele flores para ela? Enviava-lhe recados em papelinhos dobrados? Escrevia-lhe cartas? Não sei.

Recordo que toda a gente lá em casa sabia que a grande paixão do Mamba era Miriam, uma das mais velhas das seis irmãs. A mais nova talvez fosse da minha idade. A minha mãe ou a minha irmã chegou a sugerir que eu namorasse a mais nova das manas. Naquele tempo eu nem pensava nisso. Andava mais preocupado nas conversas com os meus amigos, no bando comandado pelo meu primo Marcelito, nas fisgadas que dávamos no matagal aos pássaros que nos escapavam, ou nas investidas matinais pelas barreiras em direcção à praia, de onde apenas regressávamos à tarde.

Depois havia o Clube Ferroviário e as suas lúdicas actividades. Lembro-me que ia lá praticar ginástica. Quando chegava uma visita importante, um ministro ou algo semelhante, nós íamos abrilhantar a ocasião.

Havia também aquelas histórias de lágrimas infindáveis e de canções lestas e dolentes, com cenas de perseguição em comboios em andamento, os heróis e mitos da minha infância Amitabh Bachchan, Dharmendra, Hema Maline ou Shashi Kapoor.

Também havia os westerns. Não me esqueço sobretudo do Trinitá e do Bud Spencer, que faziam as nossas delícias. Aliás, no pátio do prédio onde vivia, enquanto nos sobravam largas tardes para brincar, andávamos aos tiros como verdadeiros cowboys.

Havia ainda uns livros da colecção Arizona pelos quais comecei a aventura da leitura e a minha memória não recorta nada mais que isso. Ou melhor: havia as aulas na escola primária 7 de Abril e a esperança de entrar no secundário que funcionava no prédio Cristina.

Este era o cenário. Nada mais recordo. Para além dos domingos longos ou dos passeios pelas ruas de poeira e amendoeiras. A cidade não era muito grande e quase nos conhecíamos a todos. O meu pai trabalhava no porto, era funcionário da empresa Portos e Caminhos de Ferro e eu deambulava pelas casas dos meus amigos também eles filhos de ferro-portuários. A nossa vida era pacata demais e nada de extraordinário acontecia.

Até eu abandonar Nacala e rumar para a capital, Mamba não conseguiu a proeza de conquistar a filha do Administrador. Muitos anos depois, também ele transferido para o Sul, Mamba veio visitar-nos na nossa casa de Maputo. Recordo-me desse dia como se fosse hoje. Fazia um calor impossível, estávamos no dia de Natal. Não me ocorre o ano, mas seguramente na década de 80. Também me lembro de que acompanhei o nosso amigo militar para uma viagem improvável até à Matola, onde agora viviam o Administrador e a sua família. Naquele tempo escasseavam os transportes públicos e nós não tínhamos carro.

Ficámos ali na paragem do Anjo Voador, na Baixa, de fronte a Fortaleza, horas intermináveis à espera da carreira que ia para o Cinema 700. O autocarro nunca apareceu e nós passamos um dia de Natal ouvindo a música daqueles que festejavam com os seus altos decibéis e os bêbados que deambulavam àquela hora do dia. Esta imagem me persegue até hoje. Sem possibilidade de ir à Matola, regressámos à casa.

Foi a última vez que eu vi o Mamba e passei largos anos sem ter notícias dele. Entretanto, a filha do antigo Administrador seguiu o caminho da sua fortuna, casou-se e teve filhos e deve ser hoje uma mãe mimada e uma esposa dedicada. Por vezes cruzava com uma das irmãs, a surda-muda e ficávamos ali, na rua, a permutar sinais, eu tentando entender a linguagem dela e inventando a minha própria linguagem num código que não dominava. Ela sorria sempre e eu achava lindo aquele sorriso dela.

Mamba continuou militar. Fora colocado ao que soube em Ressano Garcia. Ao longo destes anos fui recordando a sua alegria e os seus olhos em órbita enquanto falava da sua amada. Dos nomes das garrafas de bebida que ele trazia aos domingos. Das canções dolentes do Lindomar Castilho. Dos passos em volta na sala e dos bailes improvisados na minha casa.

Um dia, há sempre um dia nisto, chegou-nos a notícia brutal e inesperada: Mamba tinha sido morto. Não havia muitos detalhes sobre a ocorrência. Sabia-se que ele estava a dormir quando o assassinaram. Nada mais. Por aqueles dias vivíamos na angústia e na esperança da paz, que não tardou a chegar. Ironicamente, Mamba morrera num tempo sem guerra.

O funeral do Mamba decorreu em Maputo. Foi num dia de verão, que fazia um calor atroz. Fui despedir-me dele como quem se despede de um herói da sua juventude. Havia muita gente e foi lá que conheci alguns dos seus familiares. Ela não casara, continuara na vida militar e morrera sem o amor de Miriam, a filha do antigo Administrador.

Mais de dez anos se passaram, entretanto. Por que razão conto esta história? Ontem sonhei com Mamba. Ou melhor: sonhei com o seu funeral. Depois da deposição de flores, antes que as pessoas se dispersassem, Miriam aproximou-se vagarosamente da sua campa e sobre a cabeceira daquela singela tumba semeou uma rosa branca. Permaneceu ali curvada em silêncio durante alguns segundos e depois seguiu o caminho traçado pelo seu destino. Quando acordei, um forte odor a violetas brotava na madrugada e sobre as janelas do quarto bátegas de chuva entoavam uma velha canção como aquelas remotas músicas que ouvíamos aos domingos.

Micrônicas: São Paulo em Minha Vida

Como primeira participação nesse espaço, permitam-me que me apresente. Sou mineiro, de um pequeno lugarejo chamado Cataguases (que, dizem, significa “terra de gente boa”), de apelido “Princesinha da Zona da Mata”. Lá vivi meus primeiros dezessete anos, tempo em que aprendi a valorizar... São Paulo! Isso mesmo! Cidade industrial, com uma vasta produção têxtil, comportava um importante núcleo do Senai, formador de operários especializados – torneiros, ajustadores-mecânicos, fresadores. Devido aos baixos salários das fábricas locais e à grande oferta de mão-de-obra, a maioria dos formados migravam para a capital paulista, que na década de 70 convivia com a atividade febril das metalúrgicas surgidas no entorno da indústria automobilística. Portanto, quase toda família cataguasense contava com um filho em São Paulo, que nas festas de fim de ano e feriados emendados voltava para rever amigos e parentes, relatando as maravilhas daquela cidade, onde nunca faltava dinheiro e vagas para quem fosse “honesto e trabalhador”. Fundou-se até mesmo um clube, a Associação dos Ex-Alunos do Senai (Aexas), cujos bailes, durante anos, atiçavam os sonhos das moças de largar a “vida medíocre e insossa” de Cataguases através de um bom casamento com os “paulistas”. Nós, os que ficávamos, conhecíamos São Paulo sem nunca ter lá pisado, só de ouvir as histórias. Havia um bairro inteiro, Ipiranga, que é como se fosse uma mera extensão de Cataguases, tantas as cartas que para lá endereçávamos. Meu irmão, para não fugir à regra, labutava em Diadema, na Conforja, “uma das únicas produtoras de aço trefilado da América Latina”, como meu pai enchia a boca para repetir aos conhecidos, admirados. Eu, que também me formei no Senai, em tornearia-mecânica, um dia vim para São Paulo. Mas eram outros tempos.

março 21, 2006

A Sede das Montadas

Desmontou e saiu. Manuseou o botão da camisa, mas não o abotoou.
Um frémito percorria as escadas exteriores do edifício de escritórios banhado pelo crepúsculo. “Criaturas sem predador”, disse-lhe o cérebro temporariamente saciado, farejando o futuro.

***

“Desmontei e saí,” finalizou o homem, veladamente medindo o efeito do episódio e das palavras em que o havia contado. O último ouvinte do balcão tocou o copo de bebida como se contivesse metal derretido.

***

Desmontou e saiu. Manuseou o botão da camisa, mas não o abotoou.
Um frémito percorria as escadas exteriores do edifício de escritórios banhado pelo crepúsculo. “Criaturas sem predador”, disse-lhe o cérebro temporariamente saciado, farejando o futuro.

***

“Desmontei e saí,” finalizou a mulher, veladamente medindo o efeito do episódio e das palavras em que o havia contado. A que se sentava à sua esquerda pousou a chávena, acariciou o telefone móvel pousado sobre o colo.

A Copa na Vila Sônia

Campainha tocando. Quem tem cachorro histérico feito eu, sabe o que isto significa: pânico e ranger de dentes, enquanto o pequeno animal pula, late, rosna, joga-se contra a porta. Demoro sólidos minutos para conseguir atender quem chama.

- Oi.
- Oi!
- Pois não?
- Tudo bom?
- Tudo.
- Você não deve se lembrar de mim, eu sou o Clécio do quarto andar.
- Oi Clécio, tudo bom? Quer entrar?
- Não, obrigado, é rápido.
- Pois não.
- Bom, é que a Copa vem aí, né?
- Certo.
- E eu e o Everaldo do 608 fizemos uns orçamentos.
- Certo.
- E achamos uma boa firma, com um preço camarada.
- Certo.
- E fechamos com eles.
- Hum. Certo. Mas orçamento do que?
- Como do que? De telão! Telão pra ver a Copa. A firma instala o telão lá no salão de festas.
- Ah, entendi.
- Então, não é só telão, né, esse orçamento inclui outras coisas.
- Outras coisas?
- É, além do telão, eles trazem um churrasqueiro, que vai fazer espetinhos de carne e de frango pro pessoal durante o jogo, e também mandam cervejas e refrigerantes. Ah, e nos intervalos, eles fornecem dvds de karaokê, sabe, pro pessoal ir se divertindo.
- Sei, sei.
- Bom, é um pacote fechado, e a gente fez o cálculo por apartamento, não por pessoa. Assim, cada apartamento tem direito a aparecer na farra com até seis pessoas. Se sua família é pequena, você pode convidar amigos e familiares. E criança até 12 anos não conta.
- Certo. Amigos. Familiares. Para ver a Copa.
- É, no salão. Com churrasco de espetinho.
- E karaokê.
- E karaokê.
- Certo.
- Bom, o total por unidade do prédio é de 398,00 reais.
- Certo.
- Você pode pagar com cheque mesmo, eu estou recolhendo, e na segunda eu mesmo faço o depósito.
- Certo.
- Depois a firma fornece recibos individuais, cada apartamento terá o seu.
- Certo.
- É isso aí.
- 400 reais pra ver a Copa.
- No telão!
- Com vocês.
- E com churrasco!
- De espetinho.
- E com karaokê.
- Olha, obrigada, viu., a mas a gente não está interessado.
- Ah?
- A gente não quer.
- Como assim?
- A gente não quer participar desse... evento.
- Mas, não, você não entendeu. Isso não é preço por jogo, é pra tooooda a Copa.
- Eu entendi.
- Mas tem churrasco, recreação.
- Eu entendi.
- Mas vocês vão achar mais divertido ver a Copa aí, sozinhos, na tevê de vocês?
- Não, a gente....
- Péra aí, qual é a tevê de vocês, é tão boa assim?
- Não, a gente...
- Poxa, qualé, sozinhos o jogo não tem a mesma graça!
- Mas...
- Poxa, eu vou ter que refazer TODO o cálculo, todo mundo vai pagar a mais por causa de vocês!
- É, mas...
- E só porque vocês são mão de vaca e querem ver a Copa sozinhos...
- Não, você não entendeu, a gente não vê a Copa.
- AAHH??
- A gente não assiste futebol.
- O QUÊ?!
- É.
- Nunca, nada?
- Nunca. Nada.
- Não, péra ai. Deixa eu falar com seu marido.
- Ele não está.
- Não, péra. Vocês não vêem jogo nenhum?
- Não.
- Nem na Copa.
- Não.
- A final?
- Não.
- Os pênaltis na final?
- Não.
- Quatro a quatro, final, o Brasil errou dois pênaltis e a Alemanha também errou dois e vocês não assistem?
- Não.
- A cidade vai parar pra assistir a Copa e vocês nem tchuns?
- Não.

Eu já decepcionei muita gente, leitor amigo. Muita. Minha mãe. Meu pai. Meu marido. E a mim mesma. Mas nunca fui olhada como esse vizinho me olhou. Com desilusão. Como se olha um caso perdido, uma alma abandonada. Um inseto afogado na piscina mereceria um olhar mais doce.
Faz uma semana que ninguém me dá bom dia nos elevadores.
Copa na Vila Sônia é coisa séria.
Entrei pra lista dos proscritos.

março 14, 2006

Quem me roubou a cidade?

Quero uma cota de malha, um escudo, uma espada e um capacete à viking, para poder esventrar esta Lisboa que não conheço, rodeada de betão e obras por todos os lados.
Quero poder andar pela urbe como antigamente, traçando geometrias do olhar e da vontade, livre de interesses financeiros obscuros. Esta cidade que nos estão a construir não é minha nem de ninguém. É um embuste de fancaria.
Nasci e moro nas Avenidas Novas, no centro de Lisboa.
Ainda me revolto com as práticas de labirinto que tenho de efectuar diariamente.

O escritor Mário de Carvalho confessou recentemente no encontro literário “Correntes D’Escrita” (Póvoa do Varzim, próximo do Porto) que já não percebia nada do mundo. Estou como ele. Cada vez percebo menos do mundo e da minha cidade.
Leio o jornal “Público” e caio do meu Olimpo das certezas: uma grega, que se apaixonou por um português em Londres e veio viver para Lisboa, considera que as bichas (filas, ó caras!) para os autocarros (ônibus, meus irmãos!) são muito civilizadas. E que na Grécia e em Londres não há bichas. É tudo ao molho e fé em Deus!
Ouço as conversas pelas ruas e parecem-me estranhas, praticadas por seres alienígenas que esqueceram o sentido da solidariedade. E também eu sou agora um animal desconfiado, como um esquiador que procura a trajectória ideal por entre a neve destilada no coração das pessoas. Mas pode ser que o problema seja meu.

À medida que os anos vão avançando, respiro com um prazer adicional as pequenas (grandes) pérolas de prazer que a cidade me vai proporcionando, pelo meio das melancolias do desânimo.
Uma terça-feira, saboreei um corte de cabelo da zona de Alvalade, desci a Av. João XXI e travei conhecimento espontâneo com um cão chamado “Camurça”, na Av. Roma. Ao pé de um estofador, provavelmente o dono do espécime.

O “Camurça” deve ter Setter Irlandês por progenitor, dada a forma peculiar da cauda, em sabre, a pelagem fulva acastanhada, o focinho e o temperamento dócil, irrequieto e curioso. À medida que a minha mão direita lhe acariciava o pelo de veludo, sentia o coração a foguetear-se de meiguices e um frio agradável na nuca, agora despida, após a ida ao barbeiro.
Dez minutos depois, travei conhecimento com um gato no Bairro Social, perto da Igreja de S. João de Deus. Bichano meigo, implantado do lado de fora de uma janela térrea, com grades de ferro pintadas de branco. Um bichano dócil como o “Camurça”, ávido de se esfregar nas minhas mãos e cumprindo religiosamente um “slalom” por entre as grades de ferro e os meus braços, como se estivesse na final de uma prova canina de “Agility”. Os cães e os gatos desta Lisboa em mudança são um dos meus bálsamos neste teatro da vida.

Por falar de teatro, o bom do William Shakespeare teve direito a várias peças representadas ao mesmo tempo na cidade, em Fevereiro. Deliciei-me com “Othello”, representada no Teatro da Trindade, com encenação do Joaquim Benite. E se os jovens lisboetas são agora incapazes de conter a tosse durante três horas e descobrem demasiados motivos de riso nas falas de Iago, as palavras do Mestre são --- ainda e sempre --- um bálsamo.
Saio de peito feito à noite e ao frio, acompanhado por um amigo. Disposto a redescobrir as noites do Bairro Alto. Mas a rua Diário de Notícias já não é o que era. Mudou a gerência do bar “Tertúlia”. O Eduardo e a Zita “reformaram-se” há três meses e eu sem saber!

Emigro com o João Paulo até um dos poucos restaurantes da cidade onde se pode comer às 5 da madrugada: “Os Bons Amigos”. Entretenho-me com uma tábua de queijos e um tinto acolhedor, enquanto debato a vida, as desgraças e os sonhos. Estamos sós no restaurante. No plasma, sintonizado no canal “Mezzo”, tocam violinos à desfilada.

Quando chego a casa estou reconciliado com a cidade.
O dia vai nascer.

março 7, 2006

Um Carnaval

Todos, ou quase todos, foram para o litoral a fim de desfrutarem seus carnavais, mas ele ficara em Porto Alegre. Nestes dias, a cidade pode ser sempre atravessada em poucos minutos de carro, pois fica esvaída de sua população. Ele sentou-se na cama, pensando que os jornais do dia seguinte estampariam a tradicional foto da Av. Ipiranga vazia, com o título "Cidade Deserta" e a seguinte legenda: "Foto da Av. Ipiranga às 16h de ontem, sábado de Carnaval".

Pegou o telefone celular e revisou a agenda de contatos. O calor de 33 graus e a umidade alta eram desaninadores. Escolheu o número da casa de uma colega de sua ex-esposa. Para sua surpresa, Maria respondeu:

- Alô?

Ele desligou o telefone, assustado com o fato de ter obtido contato tão rapidamente. Mas logo, envergonhado, refez a ligação.

- Alô - repetiu a voz de mulher.
- Gostaria de falar com a Maria.
- Sim, é ela.
- Aqui é o... Não sei se tu lembra de mim.
- Lembro, claro. Tudo bem?
- Tudo bem. Estava ligando para todos os números da agenda do celular atrás de alguém que tivesse ficado em Porto Alegre. Depois de muitas tentativas, cheguei a ti.
- Puxa! Ligaste para todos os números até o "M"?
- Sim, quase todos.
- Bom, eu fiquei. Tenho alguns plantões a cumprir no hospital; por isto, não pude viajar.
- Estava querendo conversar.
- Bom, é o que estamos fazendo.

Esta última frase não era muito promissora, mas ele seguiu falando que

- nós, provavelmente, somos os últimos representantes da civilização portoalegrense e não há nada demais ou de proibido em nos encontrarmos para tentar matar este calor com uma cerveja.

Ela o surpreendeu fazendo um convite para que ele a visitasse:

- Não tenho nada de importante para fazer até o plantão de amanhã, ia ficar em casa vendo os desfiles na TV mesmo.

Ele registrou novamente a frase nada prometedora e perguntou:

- Marcamos para que horas?
- Pode ser agora.

Melhorou, pensou ele. Hesitou entre tomar ou não um banho. Tomou e saiu.

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Sentados no sofá, travavam uma conversa assexuada. Ele tinha ficado um pouco decepcionado com o envelhecimento e o aparente cansaço da amiga e pensava que ela havia notado seu desgosto. Porém, inesperadamente, Maria fixou seu olhar no amigo, enquanto ele tergiversava sobre a música de Bach e alguns de seus simbolismos matemáticos. Ele notou a mudança de postura e concluiu que ela não responderia a mais nenhuma afirmativa e que agora teria um longo solo pela frente. Enquanto explicava-lhe que a arte da composição de Bach era tão perfeita que o alemão, por puro prazer de fazer bem feito, procurava sempre desafios adicionais para ser por eles testado, percebia a beleza dos braços de Maria, mormente durante o movimento que acabou por deixar seu cotovelo direito pousado no espaldar do sofá, e que levou sua mão desde o colo até o queixo, a fim de apoiar aquele rosto que observava-o fixamente em silêncio. Vendo Maria tirar lentamente suas sandálias, ainda sem tirar os olhos dele, citou várias obras onde as notas B-A-C-H -- como inequívoca assinatura -- apareciam em seqüência e contou-lhe das referências escondidas a vários "fatos" bíblicos, como o dos trinta dinheiros. Durante a argumentação seguinte, que o levou à constatação de que os Concertos de Brandenburgo eram o grupo de concertos mais distintos em instrumentação e estilo da história da música, Maria -- sempre com o mesmo olhar -- ajeitou seu vestido e pôs o pé esquerdo sobre o sofá, deixando à mostra o pico lustroso do joelho. Então, finalmente, ele se deu por vencido. Estendeu o braço e segurou a mão esquerda de Maria. Ela arqueou uma das sobrancelhas, retirou a outra mão de sob o queixo e sorriu levemente.

- Se não pegasse a tua mão, tu não pararias de me olhar... - disse ele.
- Foi por isto que a pegaste? Para que eu parasse de te olhar?

Apesar do tom carinhoso, não era uma pergunta muito auspiciosa e ele preferiu deixar seu olhar vagar pela sala, sempre com a mão esquerda de Maria em sua mão direita. Resolveu que, inequivocamente, seria o momento de lhe dar um beijo, não poderia deixar passar aquele momento.

Quando aproximou-se de sua boca, Maria ergueu-se subitamente, puxando-o para o alto, junto a ela. Abraçados, beijaram-se longamente.

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No quarto dela, ele passeava seus dedos lentamente sobre os seios e o ventre de Maria, notando inúmeras pequenas marcas, talvez criadas pelo excesso de sol numa pele tão branca. Ela estava falante e contava sobre sua viagem ao Egito, enquanto ele conjeturava sobre a idade de Maria analisando seus seios bem mais jovens que o rosto. Depois de reclamar dos preços egípcios, ela lhe disse que não tinha cerveja na casa e que seria necessário saírem a fim de cumprirem a pauta prevista.

Ela tomou um banho rápido e foram para a rua procurar os bares habituais. Estavam todos fechados. Finalmente, entraram num bar de bêbados de propriedade de um amigo dele, um uruguaio. O bar estava cheio e cheirava mal, eles beberam a cerveja da pauta e dirigiram-se a um cinema. O ar condicionado do cinema quase vazio congelava-os quando o personagem principal matou sua bela amante grávida, à queima-roupa, na porta do apartamento dela, com uma espingarda. Assistiram ao final do filme abraçados -- um aquecendo ao outro. Enquanto os créditos eram apresentados, faziam comentários jocosos sobre a temperatura dos cinemas de Porto Alegre e que esta eventualmente podia ser contornada prazerozamente.

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No retorno ao apartamento de Maria, ele fez o carro ziguezaguear no meio da Av. Ipiranga vazia. Estava feliz. Ela lhe preparou uma massa, feita rápida e eficientemente. Só então ele lembrou o fato de que ela conhecia sua ex-mulher, pois, inexplicavelmente, Maria começou referiu-se a ela dizendo que

- ela é estranha, com aqueles olhos de peixe morto. Engorda o currículo colocando seu nome em muitos artigos, conseguindo desse jeito viagens pagas para muitos congressos.

Aquelas eram frases nada consoladoras para quem tinha vivido 11 anos com uma mulher dona daqueles olhos e que talvez tivesse nadadeiras escondidas. Não obstante, ele riu triste do final do discurso. Pensou que estava estigmatizado como "um ex-marido" e, vendo seu humor esvair-se, decidiu que precisava conhecer outras pessoas. Ela serviu cafés para ambos e anunciou-lhe que iria outro banho. Durante a ausência, dela, ele, lentamente, foi embora.

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Com o celular desligado, dirigiu até o Morro de Santa Teresa para refletir e ver a lua espelhada no Guaíba. Ficou dentro do carro, despreocupado com os ladrões. Afinal, eles deviam estar também fazendo seu carnaval.

Acordou sozinho no mirante, com o sol batendo no carro fechado, suado e inserido em enorme, autêntica dúvida.

Trousses

Quando alinhava (em verde, rubro e branco, médio-centro com funções polivalentes, número 10 das costas) pelo glorioso Ramaldense FC, o clube facultava aos seus indómitos atletas a utilização de uma peça de roupa íntima que, apesar da semelhança com as vulgares cuecas, era designada pela expressão “trusses”. Normalmente estavam pouco limpas e cheiravam à terra dos muitos pelados por onde haviam passado os valentes desportistas da agremiação e, por isso, creio que nunca cheguei a utilizar tal indumentária sob os calções negros do clube.

A palavra “trusses” ficou, porém, depositada no meu imaginário como um resíduo de ignorância, mas também como um elemento de partilha de certa fibra proletária que devia unir os intrépidos futebolistas da simpática agremiação popular. Nós éramos do Ramaldense, éramos do Porto, éramos pobres, jogávamos futebol na lama e (se os nossos princípios higiénicos fossem suficientemente abertos) usávamos trusses!

Apenas muitos anos depois, em 2005, resolvi indagar a origem da peculiar designação para as proletárias e pouco limpas cuecas ramaldenses. Talvez pela sonoridade da palavra, fui directo ao alvo: lá estava, no dicionário de Francês-Português da Porto Editora! Trousses é, afinal, a palavra que, em França, designa os calções de pajem e os calções interiores dos ginastas. Voilá! Tão franceses que nós somos no Porto...