Lindomar Castilho aparecia aos domingos
Não recordo a origem da sua alcunha, mas lembro que chegou um dia em nossa casa recomendado por um amigo. Também não me acode à memória o seu verdadeiro nome. Fica para sempre na minha recordação com o nome da cobra, Mamba, como era conhecido. Ainda distingo os traços da sua silhueta, era um homem alto e seco, muito direito na sua postura, sempre elegantemente vestido. Impressionavam-me as suas veias, que lhe corriam visíveis nas partes do corpo em que a sua roupa não alcançava. Gostava de andar com as mãos nos bolsos, quase sempre calçava botas. Era um homem aprumado. Sem muito esforço ganhou a simpatia de todos lá em casa e, sempre que podia, visitava-nos aos fins-de-semana.
Nacala era uma pequena cidade, mas com algum movimento. Nós vivíamos no prédio que ficava em frente da Câmara Municipal. Lembro-me sobretudo da poeira que se levantava sempre que um carro passava. Resiste ainda na minha memória a imagem das amendoeiras perfiladas, com amêndoas que nós comíamos, vezes sem conta, ao longo do ano. Também recordo jambalau, um fruto com caroço grande, assim todo preto, da árvore que havia na casa do director do Porto. Nós galgávamos aquela árvore e as nossas tardes eram de glória quando tínhamos dores de barriga por não conseguir comer mais.
Para os miúdos da nossa idade, não havia muito que fazer. Tínhamos a escola, havia a catequese na catedral que eu não frequentava, mas gostava de ir ao pátio ver as meninas a saírem, frequentávamos o Clube Ferroviário e nada mais.
Os domingos passados ao som dos estridentes decibéis, com as vozes exaltadas dos mais velhos empolgados pelo nível etílico que atingiam, animavam os meus fins-de-semana e tiravam-nos daquela modorra que se repetia. Poucas vezes saíamos da cidade. À excepção de uma épica viagem de barco à vela para Nacala-a-Velha, do lado adverso da baía, não me lembro de viajar naqueles anos. Passara por Nampula, mas sempre a caminho da capital. A despeito, ainda recordo a viagem primeira que fiz de comboio nas velhas automotoras entre Nampula e Nacala. Fascinavam-me os nomes das estações que nós escalávamos.
Mas falava do Mamba que um dia chegou à casa, trazendo notícias de familiares do Sul. Imagino que a vida dos militares fosse aborrecida na messe e sempre que podia Mamba passava connosco os domingos. Inclusive chegou de aparecer com uns colegas russos. Eu achava aquela língua maravilhosa e cheguei de aprender algumas palavras.
Entre a nossa casa e a messe ficava a residência do Administrador. As filhas do Administrador frequentavam a nossa casa. Por vezes, nós também íamos para aquele casarão. Não recordo o nome de todas, mas há uma cujo nome jamais esquecerei. Não era a mais bonita, mas a mais misteriosa. A mais bela de todas era a surda-muda. Essa, sim, era uma mulher belíssima. Cada uma tinha o seu encanto.
Mamba conheceu a Miriam num desses dias que foi lá casa visitar-nos. Nem sequer chegou a falar com ela. Parece que só teve tempo de a ver, ela já se despedia. Mas a intensidade do olhar e a brevidade daquele encontro provocaram nele uma paixão sublime pela filha da Administrador.
Ele não escondeu a sua admiração e passava os dias recitando versos para o gáudio daqueles que partilhavam com ele a alegria dos domingos na nossa casa. Aqueles dias eram longos e animados. Tocava-se sobretudo um velho gira-discos e ouviam-se canções românticas repetidamente. Lembro-me de um cantor brasileiro que se tocava persistentemente - Lindomar Castilho. Mas também Roberto Carlos, mas também Martinho da Vila. Tantos, tantos, eu sei lá!
Não me lembro de ver alguma vez Mamba fardado. Nunca apareceu lá em casa em dias em que estivesse de serviço. Recordo, a esta distância, aqueles marinheiros russos que invadiam a cidade. Ainda hoje sobrevive na memória do meu olfacto um forte odor dos perfumes que eles usavam.
Tenho presente que a filha do Administrador nunca correspondeu o amor do Mamba. Mas posso asseverar que ele viveu para esse amor para sempre. Mamba falava incansavelmente daquela mulher que o encantara e cultivava uma impenitente esperança de um dia conquistar o seu coração.
Eu era miúdo e não fazia perguntas. Não sei que argumentos Mamba usava para tentar conquistar o amor da filha do Administrador. Mandaria ele flores para ela? Enviava-lhe recados em papelinhos dobrados? Escrevia-lhe cartas? Não sei.
Recordo que toda a gente lá em casa sabia que a grande paixão do Mamba era Miriam, uma das mais velhas das seis irmãs. A mais nova talvez fosse da minha idade. A minha mãe ou a minha irmã chegou a sugerir que eu namorasse a mais nova das manas. Naquele tempo eu nem pensava nisso. Andava mais preocupado nas conversas com os meus amigos, no bando comandado pelo meu primo Marcelito, nas fisgadas que dávamos no matagal aos pássaros que nos escapavam, ou nas investidas matinais pelas barreiras em direcção à praia, de onde apenas regressávamos à tarde.
Depois havia o Clube Ferroviário e as suas lúdicas actividades. Lembro-me que ia lá praticar ginástica. Quando chegava uma visita importante, um ministro ou algo semelhante, nós íamos abrilhantar a ocasião.
Havia também aquelas histórias de lágrimas infindáveis e de canções lestas e dolentes, com cenas de perseguição em comboios em andamento, os heróis e mitos da minha infância Amitabh Bachchan, Dharmendra, Hema Maline ou Shashi Kapoor.
Também havia os westerns. Não me esqueço sobretudo do Trinitá e do Bud Spencer, que faziam as nossas delícias. Aliás, no pátio do prédio onde vivia, enquanto nos sobravam largas tardes para brincar, andávamos aos tiros como verdadeiros cowboys.
Havia ainda uns livros da colecção Arizona pelos quais comecei a aventura da leitura e a minha memória não recorta nada mais que isso. Ou melhor: havia as aulas na escola primária 7 de Abril e a esperança de entrar no secundário que funcionava no prédio Cristina.
Este era o cenário. Nada mais recordo. Para além dos domingos longos ou dos passeios pelas ruas de poeira e amendoeiras. A cidade não era muito grande e quase nos conhecíamos a todos. O meu pai trabalhava no porto, era funcionário da empresa Portos e Caminhos de Ferro e eu deambulava pelas casas dos meus amigos também eles filhos de ferro-portuários. A nossa vida era pacata demais e nada de extraordinário acontecia.
Até eu abandonar Nacala e rumar para a capital, Mamba não conseguiu a proeza de conquistar a filha do Administrador. Muitos anos depois, também ele transferido para o Sul, Mamba veio visitar-nos na nossa casa de Maputo. Recordo-me desse dia como se fosse hoje. Fazia um calor impossível, estávamos no dia de Natal. Não me ocorre o ano, mas seguramente na década de 80. Também me lembro de que acompanhei o nosso amigo militar para uma viagem improvável até à Matola, onde agora viviam o Administrador e a sua família. Naquele tempo escasseavam os transportes públicos e nós não tínhamos carro.
Ficámos ali na paragem do Anjo Voador, na Baixa, de fronte a Fortaleza, horas intermináveis à espera da carreira que ia para o Cinema 700. O autocarro nunca apareceu e nós passamos um dia de Natal ouvindo a música daqueles que festejavam com os seus altos decibéis e os bêbados que deambulavam àquela hora do dia. Esta imagem me persegue até hoje. Sem possibilidade de ir à Matola, regressámos à casa.
Foi a última vez que eu vi o Mamba e passei largos anos sem ter notícias dele. Entretanto, a filha do antigo Administrador seguiu o caminho da sua fortuna, casou-se e teve filhos e deve ser hoje uma mãe mimada e uma esposa dedicada. Por vezes cruzava com uma das irmãs, a surda-muda e ficávamos ali, na rua, a permutar sinais, eu tentando entender a linguagem dela e inventando a minha própria linguagem num código que não dominava. Ela sorria sempre e eu achava lindo aquele sorriso dela.
Mamba continuou militar. Fora colocado ao que soube em Ressano Garcia. Ao longo destes anos fui recordando a sua alegria e os seus olhos em órbita enquanto falava da sua amada. Dos nomes das garrafas de bebida que ele trazia aos domingos. Das canções dolentes do Lindomar Castilho. Dos passos em volta na sala e dos bailes improvisados na minha casa.
Um dia, há sempre um dia nisto, chegou-nos a notícia brutal e inesperada: Mamba tinha sido morto. Não havia muitos detalhes sobre a ocorrência. Sabia-se que ele estava a dormir quando o assassinaram. Nada mais. Por aqueles dias vivíamos na angústia e na esperança da paz, que não tardou a chegar. Ironicamente, Mamba morrera num tempo sem guerra.
O funeral do Mamba decorreu em Maputo. Foi num dia de verão, que fazia um calor atroz. Fui despedir-me dele como quem se despede de um herói da sua juventude. Havia muita gente e foi lá que conheci alguns dos seus familiares. Ela não casara, continuara na vida militar e morrera sem o amor de Miriam, a filha do antigo Administrador.
Mais de dez anos se passaram, entretanto. Por que razão conto esta história? Ontem sonhei com Mamba. Ou melhor: sonhei com o seu funeral. Depois da deposição de flores, antes que as pessoas se dispersassem, Miriam aproximou-se vagarosamente da sua campa e sobre a cabeceira daquela singela tumba semeou uma rosa branca. Permaneceu ali curvada em silêncio durante alguns segundos e depois seguiu o caminho traçado pelo seu destino. Quando acordei, um forte odor a violetas brotava na madrugada e sobre as janelas do quarto bátegas de chuva entoavam uma velha canção como aquelas remotas músicas que ouvíamos aos domingos.