Da Travessa do Fantasma da Coca-Cola vê-se toda a cidade de Macau, colada na pele dos seus transeuntes. Por isso, talvez, a tenha trazido aqui, com a sua carne branca e o seu cérebro europeu. Ou talvez a tenha trazido aqui por me lembrar de Cinatti no verso “Eu comi uma inglesa”, de um seu poema de outro tempo e outras paragens, quando com mamilos rosa se deliciava, deliciando o espanto de uma estrangeira de ocasião; quando Portugal era a mais exótica Europa que se podia obter na Europa.
Em Macau, ao contrário do que as estatísticas indicam, não há turistas. Há o tráfico de adrenalina dos casinos e o jorro humano que os frequenta. É tudo. Mas o conhecimento desse facto tornou tão subitamente fora de lugar a presença da rapariga que aceitei a sua aproximação descuidada, avidamente britânica. Éramos, ambos, raros um ao outro. Eu, sem justificação plausível de vida-de-expatriado-na-china, imerso no meu café diário e ela, aborrecida no spleen das primeiras horas da sua day-trip de Hong Kong.
Na Travessa do Fantasma da Coca-Cola (expliquei como se chegava ao topónimo por uma tradução azarada do chinês) passaram à nossa mesa camarões ao vapor, sapo frito, ostras geladas, legumes apontados ao acaso, um Borba Reserva 1994 de confins de mercearia, sinal baço de um comércio sem nexo. Fumaram-se cigarros Davidoff. Genuínos. Bebeu-se brandy. Falso.
Faláramos demasiado baixo todo o almoço. Sem trocar nomes.
Cada um destes sinais confirmava o outro, fazendo descer, com um estampido de estafeta, o carimbo do inevitável sobre o papel das horas da tarde.
Apesar de não lhe ter tocado o corpo, jovem mas torturado por um excesso de prazeres solitários, fui a dar-lhe a sobremesa num quarto inquieto de antiga pensão de ópio. Comeu, com pausas de nicotina sem conversa, até ao pôr-do-sol, honrando simultaneamente Onan e Príapo.
Uma caixa de kleenex cada altar.
Nota: A Travessa do Fantasma da Coca-Cola foi descoberta numa tarde já longínqua pelo autor e pelo seu amigo C.M.J. Trata-se de um local que simultaneamente existe e não existe, dependendo apenas dos dotes linguísticos do viandante o encontro desse alógico observatório da putrefacta ex-cidade luso-chinesa de Macau.