volta para a página principal | outros textos deste autor


14 fev2006

Rui Parada

Travessa do fantasma da Coca-Cola

Da Travessa do Fantasma da Coca-Cola vê-se toda a cidade de Macau, colada na pele dos seus transeuntes. Por isso, talvez, a tenha trazido aqui, com a sua carne branca e o seu cérebro europeu. Ou talvez a tenha trazido aqui por me lembrar de Cinatti no verso “Eu comi uma inglesa”, de um seu poema de outro tempo e outras paragens, quando com mamilos rosa se deliciava, deliciando o espanto de uma estrangeira de ocasião; quando Portugal era a mais exótica Europa que se podia obter na Europa.

Em Macau, ao contrário do que as estatísticas indicam, não há turistas. Há o tráfico de adrenalina dos casinos e o jorro humano que os frequenta. É tudo. Mas o conhecimento desse facto tornou tão subitamente fora de lugar a presença da rapariga que aceitei a sua aproximação descuidada, avidamente britânica. Éramos, ambos, raros um ao outro. Eu, sem justificação plausível de vida-de-expatriado-na-china, imerso no meu café diário e ela, aborrecida no spleen das primeiras horas da sua day-trip de Hong Kong.

Na Travessa do Fantasma da Coca-Cola (expliquei como se chegava ao topónimo por uma tradução azarada do chinês) passaram à nossa mesa camarões ao vapor, sapo frito, ostras geladas, legumes apontados ao acaso, um Borba Reserva 1994 de confins de mercearia, sinal baço de um comércio sem nexo. Fumaram-se cigarros Davidoff. Genuínos. Bebeu-se brandy. Falso.

Faláramos demasiado baixo todo o almoço. Sem trocar nomes.

Cada um destes sinais confirmava o outro, fazendo descer, com um estampido de estafeta, o carimbo do inevitável sobre o papel das horas da tarde.

Apesar de não lhe ter tocado o corpo, jovem mas torturado por um excesso de prazeres solitários, fui a dar-lhe a sobremesa num quarto inquieto de antiga pensão de ópio. Comeu, com pausas de nicotina sem conversa, até ao pôr-do-sol, honrando simultaneamente Onan e Príapo.

Uma caixa de kleenex cada altar.


Nota: A Travessa do Fantasma da Coca-Cola foi descoberta numa tarde já longínqua pelo autor e pelo seu amigo C.M.J. Trata-se de um local que simultaneamente existe e não existe, dependendo apenas dos dotes linguísticos do viandante o encontro desse alógico observatório da putrefacta ex-cidade luso-chinesa de Macau.


Publicado às 10:30 | Comente [3]


Autores

Milton Ribeiro
Porto Alegre / Brasil


Fal Vitiello Azevedo
São Paulo / Brasil


Luiz Ruffato
São Paulo / Brasil


Nelson Saúte
Maputo / Moçambique


Rui Parada
Macau / China


Luís Graça
Lisboa / Portugal


Manuel Jorge Marmelo
Porto / Portugal



Outros Lugares

Verbeat Blogs

O Coração Gasta-se

Rascunho



Arquivos

abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006




RSS 2.0