Húmida durante semanas a fio, do opaco Verão, a cidade parecia ter convidado a abater-se sobre si a monstruosa tempestade tropical que agora laborava, alargando o fim-de-semana dos salarymen por alguns dias.
O vento subia escuras escadas de prédio, assobiava nas torneiras, aplicava-se como um diamante rombo fustigando as vidraças.
Descidas de Novosibirsk, Khabarovsk e Vladivostok as raparigas russas morriam de pé nos corredores do casino, pensamentos delicadamente torneados pelo último hit de anfetamina.
A insónia, porém, nada lhes trazia. Uma rede desfeita pelo tufão. O hotel estava vazio até às profundezas. A horda habitual ficara retida em repentinas fronteiras meteorológicas.
No piso de mármore do coffeeshop caro, ressoou uma diminuta cascata de saltos altos. Ouviu-se o toque vítreo de uns pés de cadeira arranhar o reflexo do pavimento. Um estalido de isqueiro. Som de páginas estudadas sem pressa.
Na outra direcção, embora com um alarido menor que o usual, passou um grupo de meninas chinesas, em direcção dos restaurantes da ala mais distante do átrio.
Para estas há sempre dinheiro. São mais estreitas. A pele é suave. Fingem com exactidão. Nunca aparentam a idade. Conheciam de cor o folheto da concorrência; tinham sido instruídas a ignorá-la.
Os olhos das raparigas tornaram ao interior do coffeeshop, aberto em varanda sobre o corredor. A outra russa – nunca a tinham visto - sentava-se frente a um prato de comida indistinta. Segurava um cigarro. Sem tremer. Mesmo àquela distância via-se que não tremia. Talvez sem os óculos escuros fosse diferente. O facto é que não tremia e o fumo se erguia numa linha de chumbo.
“Como se não houvesse tempestade”, pensou a mais jovem observadora.