Nós, os tripeiros, os que nasceram no Porto (ou na região em redor da cidade) e se não envergonham do sotaque que nos distingue, fazemos gala em trocar os vvv pelos bbb. Somos assim como uma aldeia do Asterix rodeada por todos os lados desse português raso que a televisão se esforça por generalizar, mas que persiste em falar como sempre falou, não torto nem direito, apenas de forma diferente. Além do mais, é óbvio que quem tem sotaque são os outros.
Lembro-me que, enquanto criança, tal particularidade era bastante apreciada pelos meus primos de Castelo de Vide, no nordeste do Alentejo, que gostavam de me exibir aos amigos como uma ave rara que falava de modo arrevesado. Quantas vezes, no jardim maior da vila, fui instado a repetir a frase “eu vi o cu à vaca”! Claro que podia caprichar e dizer a frase correctamente, encostando os dentes superiores ao lábio inferior, mas, uma e outra vez, lá repetia, para gáudio geral da canalha, aquilo que eles queriam escutar: “Eu bi o cu à baca”.