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14 fev2006

Luís Graça

Nem sequer um “beijinho”

A crise é um abutre com asas de alcatrão. Abate-se sobre Lisboa com olhos de corvo mal morto. E Poe não foi avisado de nada. Os outros dois corvos disponíveis desertaram da Nau Catrineta e as sete colinas (dizem que o número é falso, segundo os últimos estudos) de Lisboa choram baba e ranho.

E como a crise atravessa todos os sectores, nem as meretrizes escapam. À volta do Instituto Superior Técnico, uma vintena de pequenas fazem pela vida, enquanto alguns “managers” bem instalados em jeeps do último modelo bebem uma imperial no Galeto e fumam um cigarro, até ser hora de ir buscar as meninas para uma “bica” merecida ao cair das três da madrugada, antes de encerrar a manjedoura.

Eu vou amaciando a minha úlcera duodenal de estimação com longos passeios à volta do Técnico, para desmoer as lasagnas engolidas no Pasta Caffé. A temperatura anda abaixo dos dez graus, mas as miúdas fazem das tripas coração e insistem em mostrar a perna, numa demonstração de amor à camisola.

Talvez os meus passeios sejam ofensivos para quem anda a trabalhar. Afinal, sou confundido frequentemente com cliente à procura de alívio, já que os latinos diziam semen retentus venenum est.

Na volta, ando apenas às voltas e não quero intercâmbio de carnes com as assistentes sociais que se expõem à intempérie e às surpresas do quotidiano para exercer aquela que é conhecida como a mais velha profissão do mundo. Resumindo, 300 gramas de “faire le trottoir”, para aquecer a alma e encher a bolsa.

Mas se as portuguesas, as brasileiras e as africanas (serão nigerianas?) plantadas à volta do Técnico não devem conhecer a expressão “faire le trottoir”, usam com toda a propriedade o termo “beijinho” para designar a tão famosa felação, sempre em voga e de acordo com as últimas tendências da moda.

Ontem, uma miúda de uns 20 anos e olhos tristes veio ter comigo. Atravessou o passeio, pediu um cigarro, engrenou a segunda velocidade e convidou-me para “ir ao quarto”, outra expressão corrente, pelo menos tão corrente como as águas da pensão.

Declinei a oferta amavelmente. Gosto de usar veludo na voz quando vomito desilusões por cima das propostas das meninas. Ela insistiu e propôs-se mesmo fazer “um beijinho bem feitinho”. Acredito que sim. Mas continuei na minha, que não era nenhuma, no que toca a ofertantes de corpo. Expliquei-lhe que ia para casa escrever um livro.

Hoje peregrinei novamente as cercanias do Técnico oriundo do pavilhão da Luz, onde assisti à derrota do Benfica, frente aos espanhóis do Palma, em voleibol.

A menina de ontem voltou a atravessar o passeio e a desafiar-me para ir com ela. “Então, o livro, está escrito?”. Disse-lhe que não. Voltou à carga: “Nem um beijinho?”. Não.Nem um beijinho. E dou de barato que bem feitinho, que certas coisas não mudam de um dia para o outro.

Outras mudam. Se a crise no negócio do sexo “outdoors” é uma realidade, “indoors” também não se pode esconder. A Polícia Judiciária lançou uma mega-operação a bares de alterne e clubes de strip e prendeu uma série de gente. O dono dos clubes de strip mais famosos de Lisboa já mandou fechar os seus clubes. Hoje ainda havia luz no “Photus”. Por quanto tempo se poderá ler o néon a dizer “Open every day”?


Publicado às 10:35 | Comente [5]


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