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14 fev2006

Milton Ribeiro

Além da Tréplica

É sabido que desconhecidos, ao tentarem uma conversação, costumam introduzir, como que tateando o terreno a ser descoberto, um assunto neutro, algo como a previsão do tempo. É sabido também que, logo após a tréplica, a conversa derivará para qualquer outro tema mais interessante. Só em Porto Alegre é diferente. Não há aqui assunto mais fundamental do que a previsão do tempo. Somos uma cidade de meteorólogos amadores. Sempre foi assim. Mesmo antes de Bush e do efeito estufa, nosso clima já era imprevisível e existia uma real preocupação com ele. Portanto, se você vier para cá, saiba que o tempo é um grande assunto.

Também somos uma cidade pouco beneficiada pela natureza. Então, nos ufanamos de possuir o mais belo pôr-do-sol do mundo, de sermos a cidade de melhor qualidade de vida do país, o povo que mais consome livros por habitante e de termos as mais belas mulheres. O último é o único fato facilmente comprovável. Da mistura dos casais açorianos que a fundaram, dos portugueses que organizaram o mercado do porto, dos alemães que fundaram o odioso Grêmio (pretenso time de futebol), dos simpáticos sapateiros italianos que criaram o amado Internacional (O time de futebol), dos negros que o jogaram melhor e das etnias que vieram depois, nasceu este ser único: a mulher portoalegrense.

Só quem nos visita sabe como são as mulheres daqui. Nossa cidade e a de Passo Fundo, no interior do estado, são as recordistas de casamentos desfeitos no Brasil, fato estatístico de que deixa as nossas esposas perturbadas, agressivas e vingativas, mas que deixa as solteiras confiantes e que nos faz tão imensamente felizes. As estatísticas também apontam outro fato sublime: aqui, elas estão em maioria.

Os acontecimentos da vida privada das pessoas normalmente carecem de confirmação, a intimidade não costuma ir para os jornais, mesmo assim, vou dar-lhes um pequeno exemplo dos problemas que Porto Alegre pode provocar. Certa vez, veio para cá um grande jogador de futebol para o Inter: o zagueiro chileno Elias Figueroa. Ele chegou e já no aeroporto declamou Neruda. Imaginem um jogador bonito, alto, forte, moreno, com a cabeleira rebelde dos anos 70 e entonação estudada, dedicando um poema de amor à esposa Marcela, a seu lado, dentro o aeroporto, cercado por repórteres. Um bom jogador e um homem de publicidade, sem dúvida. No dia seguinte, os jornais estampavam as fotos no chileno e todos puderam ver de quem se tratavam, um e outro. Figueroa era realmente um adônis, já Marcela era uma moça simpática, bonitinha até. Porém, morando aqui, seria preciso muito mais para que o zagueiro mantivesse inexpugnável sua fidelidade. Rapidamente, ele tornou-se um símbolo tanto do Inter bicampeão brasileiro, como das mulheres que gritavam seu nome. Inabalável na defesa de seu clube, a resistência de Figueroa às portoalegrenses foi pouco a pouco tornando-se mais sorridente. Primeiro, o chileno respondia com aceninhos às fãs, depois passou a dar autógrafos perguntando carinhosamente o nome das mulheres e alongando cada diálogo muito além da tréplica. Passou até a falar sobre o tempo com elas. Neste período feliz, declamava poesias de amor nas rádios, mas agora sem dedicatórias à Marcela. Sabemos, claro, que logo ocorreria o inevitável: ele acabou por focalizar sua atenção numa misteriosa mulher que o esperava dentro de seu automóvel após os treinos.

Aquilo foi demais para Marcela. Pegou os dois filhos do casal e, encastelada no Chile, avisou ao presidente do Inter que seu marido voltaria para a casa no final do ano. Ela exigia seu retorno por motivos "de família". O fato era motivo de piadas entre os torcedores do Grêmio e de temor entre nós, os do Inter. Neste ínterim, o futebol do chileno vicejava luxuriante. Ele agregara românticos dribles a seu futebol de resultados e era mais e mais amado pela torcida que comemorava, apesar de receosa da possível vingança de Marcela. E ela veio. Foram reuniões e mais reuniões para tentar demover Dom Elias, mas ele, como bom católico, rescindiu seu contrato com o clube no final de 1976. Perdeu muito dinheiro e, justo o homem que era o terror dos atacantes, voltou para a casa feito um cachorrinho. Como é uma das glórias do clube, visita até hoje Porto Alegre, sempre vigiado pela onipresente, modesta e simpática Marcela. Em 1977, quase fomos para segunda divisão. Tudo por culpa da mulher do carro.


Publicado às 10:11 | Comente [10]


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