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fevereiro 28, 2006

Então, ainda falas dele?

Eu estava ali na esquina entre as avenidas Eduardo Mondlane e Amílcar Cabral, no coração de Maputo, alheio ao tumulto do trânsito, àquela hora da tarde,engraxando meus sapatos. Uma voz conhecida sacudiu-me da modorra:
- Morreu a filha do teu amigo! – anunciou-me, abruptamente.
Virei-me assustado e quase ia chutando o homem que se aplicava no seu ofício.
- Filha de quem?!
- Filha de Carlos Drummond de Andrade!
- Do Carlos Drummond de Andrade?!
A repetição para além de nos ajudar a assentar a incredulidade, permite-nos ganhar tempo, recuperar terreno, para perceber os fenómenos, muitas vezes tão céleres quando passam à nossa volta.
- Esse mesmo! - confirmou-me o Manuel Maurício.
Tive aquela sensação terrível que sentimos quando nos dão um murro no estômago. Drummond estava velho e doente, tinha mais de 80 anos, iria ele aguentar tamanho abalo? Maria Julieta era, ao que eu sabia, sua filha única. Eu sabia do amor que os unia. Ainda hoje vejo o poeta abraçado à filha, ambos sorrindo para a vida.
- Que tragédia! - murmurei, enquanto o engraxador da esquina terminava sua tarefa e eu lhe pagava pelo seu trabalho. Nem lembro mais quanto custava engraxar sapatos naquela época. Mas não era muito. Umas moedas.
O Manuel era um daqueles meus muitos amigos que sabiam da minha admiração pelo Drummond, pois que lhe falava vezes sem conta, até à exaustão, deste meu “demónio tutelar” (como diria Gabriel Garcia Márquez).
De facto, eu nunca privara com Drummond, nossa relação provinha dos livros, que eu lia e espalhava pelos amigos.
Ganhei a conta dessa admiração partilhada alguns livros de presente de Drummond. Uma dessas relíquias foi a Noémia de Sousa, uma diva da nossa literatura, falecida há poucos anos, que me ofereceu no primeiro dia em que nos encontramos, em Lisboa. Ela insistira que me queria dar uma lembrança para assinalar aquele dia. Indagado sobre minhas preferências, o nome do itabirano foi o cimeiro. Noémia ofereceu-me uma antologia. Esse como os outros títulos guardo-os ciosamente.
O resto da história já toda a gente sabe. O “meu amigo Drummond” não resistiu à morte da filha. Quinze dias depois ele escrevia a última página da sua vida e zarpava em busca de Maria Julieta nas brumas da eternidade. Isto aconteceu, já lá vão quase vinte anos.
Aqui, em Moçambique, o Brasil representa um grande fascínio para nós. Uma vez entrevistei o Ruy Guerra, moçambicano, português e brasileiro, homem da primeira linhagem do Novo Cinema Brasileiro. Minha questão era simples:
- Como é que você chega ao Brasil e inova o cinema brasileiro?
- Em Moçambique, nós nos preparávamos para amar o Brasil.
Comigo aconteceu o mesmo. Aprendi o ofício da crónica com fabulosos contadores de histórias brasileiros. Já falei do velho Drummond, mas falta referir aqui Ruben Braga, Paulo Mendes Campos ou Fernando Sabino. Essa é a minha gente. A minha família são os escritores, os poetas, os cantadores. Mais de metade da minha música aqui em casa é brasileira.
Mais: minha casa, a 22,5 kms da cidade de Maputo, fica num bairro chamado Belo Horizonte, virado para os montes Libombos, na zona fronteiriça com a Swazilândia e a África do Sul. Da minha varanda vejo um pôr-de-sol do mais deslumbrante de África.
Não foi o caso de hoje. Acabo de regressar de um jantar e lá reencontrei um amigo dos anos 80. A meio da conversa, recordando os velhos tempos, de garotos pendurados nos muros da tarde e do tédio, sua memória puxou pelo velho poeta:
- Então, o Drummond de Andrade, ainda falas dele?

fevereiro 21, 2006

O Inventário

Carteira, óculos de sol, batom com tampa, chaves da casa da mamãe, medalha de Santa Terezinha. Onde está o papel do estacionamento? Maldita calçada cheia de buracos, isso aqui não é a Avenida mais rica, da cidade mais rica, do país mais rico da América do Sul. Essa gente precisa do quê, dum empréstimo para comentar a calçada? Livro de crônicas do Veríssimo, maço de cigarros vazio, maço de cigarros cheio. Eu não vou chorar. Não vou chorar por você, Paulo, não no meio da calçada da Avenida Paulista, não agora, não nessa vida, não por você. Eu não posso me dar ao luxo de chorar por você. Adesivo que eu comprei de um surdo-mudo no farol, batom sem tampa e o barulho das moedas no fundo da bolsa. Que droga, onde foi parar aquele papelzinho amarelo do estacionamento? E por que eu estou tão nervosa? Não foi para isso que eu vim? E eu não percebi direitinho o que estava acontecendo? A distância, a falta de tempo, as viagens com a família, as intermináveis reuniões. Ainda ouço a voz odiosa da secretária: “Dr. Paulo não pode atendê-la. Sim, ele ainda está em reunião. É, eu sei que ele está em reunião há dez horas, mas ele é um homem importante, fazer o quê? Sim, eu anoto, vou colocar na pilha junto com seus outros recados”. O Dr. Paulo teve tantas reuniões nas últimas semanas que deve ter resolvido todos os problemas do mundo. Burra, burra, burra. No que você pensou que estava se metendo? Achou que ia ser engraçado? Achou que todo esse tempo tendo casos com homens casados você nunca iria se apaixonar por nenhum deles? E agora que você se apaixonou e está aí, debaixo desse sol inexplicável para um começo de agosto, fazendo esse papel patético no meio da calçada da Avenida Paulista, espera que alguém tenha pena de você? Ninguém, meu amor, ninguém tem pena da, na linguagem da sua avó, outra. Sua mãe deve ter alguns termos mais claros. A mulher dele, se soubesse de você, teria alguns im-pu-bli-cá-veis. E com razão, devo acrescentar, toda, toda razão. Folheto de propaganda política com o telefone de alguém anotado num canto a lápis de olho, bloquinho de post-it, chicletes, livro de contos do Nelson de Oliveira, celular, bateria do celular, recarregador de celular para carro e a conta do celular que venceu dia 25 e você se esqueceu de pagar. Eu tenho que ter posto o papel do estacionamento por aqui. Sublima os vendedores ambulantes de bilhete de loteria e a cara de riso dos boys encarando você, e tenta lembrar de tudo o que você fez. Parei o carro na porta do estacionamento, peguei o maldito papelzinho amarelo e fui com ele na mão até o restaurante. Entrei, o Paulo já estava lá. Ele se levantou para me beijar, puxou a cadeira para mim. Sentei, tirei os óculos escuros, abri a bolsa e joguei aqui dentro os óculos e o papel. Joguei as coisas dentro da bolsa e fiz o quê? Olhei para o Paulo, que falava sem parar sobre as filhas, sobre um concurso cretino de jardinagem que a mulher dele havia vencido no final de semana, e dos planos deles para a reforma da casa de Caraguá. Os planos deles. Planos. Sejamos francas, sua tonta, você achava mesmo que ele iria se separar dela? Nunca. Nem em um milhão de anos. Nem que Cristo viesse à Terra. Nem que chovesse canivete. Você, o oráculo das moças que têm casos. Você, sua arrogante, com suas regras prontas. “Nunca telefone”, “Não ouça histórias sobre filhos”, “Não se envolva em problemas domésticos”, “Não deixe que ele fale mal da esposa”. Você, que sabia tanto, que entendia tanto, tão sábia, tão segura, tão superior. Você, que dizia conhecer truques que nem haviam sido inventados ainda. Você não tem competência nem para encontrar uma porra de um comprovante de estacionamento, e fica aí, ditando regras, tendo certezas. E agora, hum? Vai fazer o quê com seu sonhozinho de criar os filhos dele numa montanha, com a música do Waltons de fundo? Vai fazer o quê, agora que você finalmente acordou, ou melhor, foi acordada - um pouco de perspectiva histórica, por favor - para o fato de que ele não é o Richard Gere, que você não é a Julia Roberts e que vocês não estão em Los Angeles? Porque, meu amor, claro que foi nisso que você pensou, claro que foi nisso que você quis acreditar, e eu não sei? E eu não te conheço? Outro maço de cigarros, você está fumando demais. O isqueiro que você ganhou dele. Lembra? Da última viagem que ele fez com a família para Aruba. Talão de cheques solto, carteira, bolsinha de moedas vazia, claro, estão todas no fundo da bolsa, pó compacto, chupeta. Chupeta? Você teve um filho sem eu saber? De quem será isso? Montes de canetas com tampa e sem tampa. Trata de encontrar esse papel cretino e resista à tentação de colocar a culpa no Paulo. Você só ia ficar mais patética se virasse uma daquelas mulheres frágeis, medrosas, cegas e iludidas, que terminam as histórias balbuciando um estúpido mas ele disse. A culpa é sua, só sua. Você tem 30 anos, CPF e plano de saúde. É você que tem que se responsabilizar por sua vida e suas escolhas. E o Paulo, você sabe, foi uma escolha sua. Todos os outros também o foram, mas com o Paulo você resolveu pagar para ver. E, Cristo, como viu. Sua agenda cheias de papeizinhos misteriosos! Deve estar aqui. Não, não, esse não é, não também. Não está na agenda. Não está na bolsinha de maquiagem? Meu Deus, que sol! Para que uma bolsinha de maquiagem se você tem tanta maquiagem solta na bolsa? Graças a Deus você não chorou na frente dele. Não chorou quando ele disse que ele e a mulher conversaram muito e estavam dispostos a se permitirem uma segunda chance. Não chorou quando ele disse que gostaria muito de continuar a vê-la, desde que você entendesse, sem qualquer compromisso O grande sacana. Mas o melhor de tudo foi que nem biquinho você fez quando ele disse que você havia sido muito importante na vida dele e que você era muito nova e muito simpática e com certeza encontraria um homem que a merecesse e valorizasse. Eles sabem o quanto dói e fazem de propósito, ou é sem querer que eles nos arrasam com uma frase dessas? Você sorriu, balançou a cabeça com gravidade e desejou boa sorte nessa tentativa, deixando claro que não, não ficariam mágoas, afinal, eram ambos adultos e sabiam que o final seria assim. E quando você abriu sua carteira e deixou dinheiro suficiente para pagar uns dez martínis? Essa foi digna do Oscar. Você se levantou com classe, se despediu com classe, caminhou até a porta de vidro com classe e, por isso, essa cena assombrosa no guichê do estacionamento, apavorando executivos, ciganos e garotos e garotas que passam para pegar o metrô, está quase perdoada. Ah! Claro, você colocou o papelzinho no bolso do casaco! Isso, entregue o papel para a moça. Tudo bem, pode, mas uma lágrima só, agora pode. Sem ruídos. OK, duas lágrimas, tudo bem. Pronto, seu carro chegou. Vai embora para casa, que você tem uma porção de coisas para resolver hoje. Boa garota. Engata a primeira, sem ela engatada não adianta apertar o acelerador. Isso. E enquanto você segue o fluxo do trânsito Paulista afora, até entrar na Rebouças, pensa que o manobrista deve ter adorado o isqueiro folheado a ouro com uma palmeira em alto-relevo.

Tempestade

Húmida durante semanas a fio, do opaco Verão, a cidade parecia ter convidado a abater-se sobre si a monstruosa tempestade tropical que agora laborava, alargando o fim-de-semana dos salarymen por alguns dias.

O vento subia escuras escadas de prédio, assobiava nas torneiras, aplicava-se como um diamante rombo fustigando as vidraças.

Descidas de Novosibirsk, Khabarovsk e Vladivostok as raparigas russas morriam de pé nos corredores do casino, pensamentos delicadamente torneados pelo último hit de anfetamina.

A insónia, porém, nada lhes trazia. Uma rede desfeita pelo tufão. O hotel estava vazio até às profundezas. A horda habitual ficara retida em repentinas fronteiras meteorológicas.

No piso de mármore do coffeeshop caro, ressoou uma diminuta cascata de saltos altos. Ouviu-se o toque vítreo de uns pés de cadeira arranhar o reflexo do pavimento. Um estalido de isqueiro. Som de páginas estudadas sem pressa.

Na outra direcção, embora com um alarido menor que o usual, passou um grupo de meninas chinesas, em direcção dos restaurantes da ala mais distante do átrio.

Para estas há sempre dinheiro. São mais estreitas. A pele é suave. Fingem com exactidão. Nunca aparentam a idade. Conheciam de cor o folheto da concorrência; tinham sido instruídas a ignorá-la.

Os olhos das raparigas tornaram ao interior do coffeeshop, aberto em varanda sobre o corredor. A outra russa – nunca a tinham visto - sentava-se frente a um prato de comida indistinta. Segurava um cigarro. Sem tremer. Mesmo àquela distância via-se que não tremia. Talvez sem os óculos escuros fosse diferente. O facto é que não tremia e o fumo se erguia numa linha de chumbo.

“Como se não houvesse tempestade”, pensou a mais jovem observadora.

fevereiro 14, 2006

Os vvv pelos bbb

Nós, os tripeiros, os que nasceram no Porto (ou na região em redor da cidade) e se não envergonham do sotaque que nos distingue, fazemos gala em trocar os vvv pelos bbb. Somos assim como uma aldeia do Asterix rodeada por todos os lados desse português raso que a televisão se esforça por generalizar, mas que persiste em falar como sempre falou, não torto nem direito, apenas de forma diferente. Além do mais, é óbvio que quem tem sotaque são os outros.

Lembro-me que, enquanto criança, tal particularidade era bastante apreciada pelos meus primos de Castelo de Vide, no nordeste do Alentejo, que gostavam de me exibir aos amigos como uma ave rara que falava de modo arrevesado. Quantas vezes, no jardim maior da vila, fui instado a repetir a frase “eu vi o cu à vaca”! Claro que podia caprichar e dizer a frase correctamente, encostando os dentes superiores ao lábio inferior, mas, uma e outra vez, lá repetia, para gáudio geral da canalha, aquilo que eles queriam escutar: “Eu bi o cu à baca”.

Nem sequer um “beijinho”

A crise é um abutre com asas de alcatrão. Abate-se sobre Lisboa com olhos de corvo mal morto. E Poe não foi avisado de nada. Os outros dois corvos disponíveis desertaram da Nau Catrineta e as sete colinas (dizem que o número é falso, segundo os últimos estudos) de Lisboa choram baba e ranho.

E como a crise atravessa todos os sectores, nem as meretrizes escapam. À volta do Instituto Superior Técnico, uma vintena de pequenas fazem pela vida, enquanto alguns “managers” bem instalados em jeeps do último modelo bebem uma imperial no Galeto e fumam um cigarro, até ser hora de ir buscar as meninas para uma “bica” merecida ao cair das três da madrugada, antes de encerrar a manjedoura.

Eu vou amaciando a minha úlcera duodenal de estimação com longos passeios à volta do Técnico, para desmoer as lasagnas engolidas no Pasta Caffé. A temperatura anda abaixo dos dez graus, mas as miúdas fazem das tripas coração e insistem em mostrar a perna, numa demonstração de amor à camisola.

Talvez os meus passeios sejam ofensivos para quem anda a trabalhar. Afinal, sou confundido frequentemente com cliente à procura de alívio, já que os latinos diziam semen retentus venenum est.

Na volta, ando apenas às voltas e não quero intercâmbio de carnes com as assistentes sociais que se expõem à intempérie e às surpresas do quotidiano para exercer aquela que é conhecida como a mais velha profissão do mundo. Resumindo, 300 gramas de “faire le trottoir”, para aquecer a alma e encher a bolsa.

Mas se as portuguesas, as brasileiras e as africanas (serão nigerianas?) plantadas à volta do Técnico não devem conhecer a expressão “faire le trottoir”, usam com toda a propriedade o termo “beijinho” para designar a tão famosa felação, sempre em voga e de acordo com as últimas tendências da moda.

Ontem, uma miúda de uns 20 anos e olhos tristes veio ter comigo. Atravessou o passeio, pediu um cigarro, engrenou a segunda velocidade e convidou-me para “ir ao quarto”, outra expressão corrente, pelo menos tão corrente como as águas da pensão.

Declinei a oferta amavelmente. Gosto de usar veludo na voz quando vomito desilusões por cima das propostas das meninas. Ela insistiu e propôs-se mesmo fazer “um beijinho bem feitinho”. Acredito que sim. Mas continuei na minha, que não era nenhuma, no que toca a ofertantes de corpo. Expliquei-lhe que ia para casa escrever um livro.

Hoje peregrinei novamente as cercanias do Técnico oriundo do pavilhão da Luz, onde assisti à derrota do Benfica, frente aos espanhóis do Palma, em voleibol.

A menina de ontem voltou a atravessar o passeio e a desafiar-me para ir com ela. “Então, o livro, está escrito?”. Disse-lhe que não. Voltou à carga: “Nem um beijinho?”. Não.Nem um beijinho. E dou de barato que bem feitinho, que certas coisas não mudam de um dia para o outro.

Outras mudam. Se a crise no negócio do sexo “outdoors” é uma realidade, “indoors” também não se pode esconder. A Polícia Judiciária lançou uma mega-operação a bares de alterne e clubes de strip e prendeu uma série de gente. O dono dos clubes de strip mais famosos de Lisboa já mandou fechar os seus clubes. Hoje ainda havia luz no “Photus”. Por quanto tempo se poderá ler o néon a dizer “Open every day”?

Travessa do fantasma da Coca-Cola

Da Travessa do Fantasma da Coca-Cola vê-se toda a cidade de Macau, colada na pele dos seus transeuntes. Por isso, talvez, a tenha trazido aqui, com a sua carne branca e o seu cérebro europeu. Ou talvez a tenha trazido aqui por me lembrar de Cinatti no verso “Eu comi uma inglesa”, de um seu poema de outro tempo e outras paragens, quando com mamilos rosa se deliciava, deliciando o espanto de uma estrangeira de ocasião; quando Portugal era a mais exótica Europa que se podia obter na Europa.

Em Macau, ao contrário do que as estatísticas indicam, não há turistas. Há o tráfico de adrenalina dos casinos e o jorro humano que os frequenta. É tudo. Mas o conhecimento desse facto tornou tão subitamente fora de lugar a presença da rapariga que aceitei a sua aproximação descuidada, avidamente britânica. Éramos, ambos, raros um ao outro. Eu, sem justificação plausível de vida-de-expatriado-na-china, imerso no meu café diário e ela, aborrecida no spleen das primeiras horas da sua day-trip de Hong Kong.

Na Travessa do Fantasma da Coca-Cola (expliquei como se chegava ao topónimo por uma tradução azarada do chinês) passaram à nossa mesa camarões ao vapor, sapo frito, ostras geladas, legumes apontados ao acaso, um Borba Reserva 1994 de confins de mercearia, sinal baço de um comércio sem nexo. Fumaram-se cigarros Davidoff. Genuínos. Bebeu-se brandy. Falso.

Faláramos demasiado baixo todo o almoço. Sem trocar nomes.

Cada um destes sinais confirmava o outro, fazendo descer, com um estampido de estafeta, o carimbo do inevitável sobre o papel das horas da tarde.

Apesar de não lhe ter tocado o corpo, jovem mas torturado por um excesso de prazeres solitários, fui a dar-lhe a sobremesa num quarto inquieto de antiga pensão de ópio. Comeu, com pausas de nicotina sem conversa, até ao pôr-do-sol, honrando simultaneamente Onan e Príapo.

Uma caixa de kleenex cada altar.


Nota: A Travessa do Fantasma da Coca-Cola foi descoberta numa tarde já longínqua pelo autor e pelo seu amigo C.M.J. Trata-se de um local que simultaneamente existe e não existe, dependendo apenas dos dotes linguísticos do viandante o encontro desse alógico observatório da putrefacta ex-cidade luso-chinesa de Macau.

O homem que restou da sombra

- Estou a apodrecer vivo.

Olhei para trás e dei de chofre com o homem que dissera aquela frase. Mais do que uma pessoa parecia um fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixadamente. Tinha um olhar que encenava a sua própria tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e abanava ao leve passar do vento. Findava a manhã com sol e algum frio naquele sábado. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.

Estávamos os dois em plena avenida Samora Machel, na baixa de Maputo. A cidade imitava o bulício de outros dias. Interrompi meus pensamentos sobre o esqueleto do prédio Pott, que também apodrecia - como as palavras pungentes do homem que parara diante de mim -, resistindo as suas paredes mijadas e defecadas, sujas e ultrajadas, depois de longos anos de abandono. Também o prédio, cuja construção começara em 1905, 100 anos antes justamente, se queixava das mazelas do corpo. Deixei-me do corpo de betão e dediquei-me àquele homem que entrara na minha solidão.

Eu estava à espera que o Moisés e os seus companheiros acabassem de lavar o meu carro. Pensava vagarosamente sobre as mutações constantes da cidade. Lá do alto da avenida surgia, hierático, o edificio da Câmara Municipal, vulgo Conselho Executivo, terminologia que veio a reboque da revolução.

- O senhor doutor não está a ver quem sou eu?

Não hesitei em ser sincero:

- A cara não me é estranha. O nome não me lembro, seguramente.

Fixei a sua expressão sofredora. Era um homem escuro, demasiadamente escuro. Magro, pelo pescoço se advinhavam as marcas das veias. No olhar, a sombra dele próprio. Fiquei aturdido perante aquela imagem, de um homem que sobrara naquele esqueleto, da vida que resistia naquela expressão.

- Estou a sofrer, senhor doutor.

Nada disse. Permaneci em silêncio.

- Estou a vir do hospital, tenho bolhas por todo o corpo...

Sem acabar a frase, baixou-se vagarosamente e puxou as calças pela bainha. Fiz-lhe um sinal com as mãos e a cabeça:

- Não precisa, meu caro senhor.

De nada me valeu a advertência. O homem mostrou as suas partes íntimas, naquele instante breve entre a sua primeira frase e o meu inescondível espanto.

- Está a ver? Tenho o corpo todo assim. Preciso de 70 mil meticais para o hospital. Não posso prometer, mas um dia eu vou pagar.

É usual, por estes dias, encontrar na rua, gente que tudo faz para mostrar suas incapacidades, na desesperada tentativa de pedir. A profissão de pedinte ocupa muitos de nós nas ruas. Até crianças vão para a rua para se valerem do bom espírito dos incautos. Nestas circunstâncias, minha atitude normal seria refugiar-me:

- Não tenho.

Mas aquele mapa do sofrimento impresso naquele corpo deixou-me desassossegado. Suas mãos tinham manchas que denunciavam a doença. A doença, digo, sem a nomear. Aqui, entre nós, é assim: todos sabemos, sussurramos, não dizemos alto. Parece que nomear algo é chamar a desgraça para nossa casa. Imaginei que doença era, mas nada disse.

O homem tinha os ombros recurvos, que os fez dobrar para intensificar a sensação da dor, perante meu indisfarçavel espanto. Pensei comigo: por que razão não darei os 70 mil meticais?

Provavelmente, o destino daquele dinheiro seria bem outro do que o hospital. Mas lá tranquilizei minha consciência por estar a partilhar com o próximo as parcas benesses que me couberam neste mundo.

- Muito obrigado. Nem sei como lhe agradecer, doutor.
- Não tem que me agradecer. Desejo-lhe rápidas melhoras.

O homem baixou-se numa vênia, o movimento foi feito com a lentidão das forças que lhe restavam. Vestia uma camisa às riscas, de flanela, uma camisola por dentro, umas calças jeans, sapados pretos e meias grossas igualmente escuras. Olhei outra vez para a sua mão e tornei a reparar nas manchas que lhe brotavam daquela zona do corpo.

Enquanto o bulício da cidade se imiscuía nos meus pensamentos, deixei-me por uns momentos fixado na imagem daquele homem que dobrava a esquina da Zedequias Maganhela, em direcção ao Mercado Central, o famoso Bazar da Baixa. Eu continuava ali na Samora Machel, ouvindo ao longe as buzinas dos carros, o trânsito caótico do meio dia, da cidade toda que descera à baixa, dos carros que não tinham onde estacionar, porque a praça 25 de Junho, onde muitos estacionam, estava encerrada.

Neste dia de hoje não havia a feira do artesanato. Nem me lembrei quando ali cheguei. A praça está em obra. Finalmente, vamos descançar do martírio daqueles buracos, pensei. Olhando para a enorme mancha de gente e de carros que se cruzavam numa azáfama naquela hora do sábado. Não me lembro agora se os semáforos funcionavam. Creio que não. O normal, por estes dias, é ter os semáforos avariados.

O homem que entrara sem avisar na minha jornada de solidão convocou-me para o mergulho no destino e na tragédia de muitos de nós, que somos levados na fúria da pobreza e da doença. Tenho que escrever esta história, comecei a inquietar-me. Mas nada sei do personagem. Que interessa? Vou inventar-lhe uma história, um destino.

- Sou da família Nhantumbo, dissera.

Confesso que anuíra com a cabeça mas na verdade não o conhecia. A cidade é pequena, quase todos nos conhecemos, é provável que este homem tenha sido alguém que tivera ou travara algum conhecimento comigo no passado. É provável, mas não me recordo. Olhava fixadamente para o cimo da Samora Machel e tentava descortinar nas teias da memória algo que me trouxesse aquele rosto aos dias do presente.

Há muito que não escrevo, pensei, a matéria prima está aqui, nos dias que passam rente ao meu nariz. Aqui estão as histórias, as vidas destes homens desencontrados com o seu tempo. O homem tem que ter um nome e uma história. O homem tem que ter uma vida, muitas manhãs em que ele acordou, depois de sonhos e pesadelos que, por certo, atravessaram a sua trajectória até aquele encontro. O homem tem que ter sentimentos. Este homem amou e desesperou. Este homem terá filhos? Quantos mulheres ainda esperam por ele para o sustento dos filhos que chupam as tetas magras e sem leite?

Lembrei-me então da mulher grávida e imensamente magra que se cruzara comigo horas antes. Era também o mapa de uma mulher sofrida, a barriga era maior que o seu corpo e caminhava.

Como todos nós caminhámos. Deixando no caminho um pouco de nós. Aquilo que resta da nossa própria sombra.

Copos de leite

Taxista palmeirense.
O papo do cara era qualquer nota.
O rádio numa estação evangélica.
Eu no banco de trás, sublimando.
Profundos pensamentos sobre a morte da bezerra.
Avenida enorme.
Nove e tanto da manhã, sol de rachar.
Avenida implacável.
Pasta com papéis na mão.
Chegamos.
Tchau, obrigada, bom trabalho, boa sorte, vá com Deus, fique bem, olha o troco, é seu, obrigado, Deus abençoe, tchau.
Banco fechado.
Calçada irregular.
Mas muito irregular mesmo, o que será pilotar uma cadeira de rodas por aqui?
Vitrines.
Vitrines.
Vitrines.
Eu ali nas vitrines.
Pareço tão velha.
Pareço com alguém sem ilusão nenhuma nesta vida.
Mas eu tenho.
Elas estão aqui, nalgum lugar, entre as buzinas, o asfalto que derrete e o boteco onde eu entro pra tomar café com leite e comer pão na chapa.
Elas estão aqui, as minha ilusões.
Num ataque, entro na floricultura e compro um buquê de copos de leite.
Copos de leite.
Eu me sinto tão rica e sofisticada assim que saio da floricultura.
Claro que a sofisticação só dura meio quarteirão.
E daí, começo a me perguntar que diabos eu estou fazendo com aquele trambolho no colo, esse bebê indesejado, num dia de tantas coisas pra resolver na rua.
Banco aberto.
Chá de cadeira.
Café de máquina.
Bato o recorde mundial, ninguém ouviu tantos ‘um minutinho, o gerente já vem falar com você’ quanto eu.
Alvará.
Preciso fechar essa conta, Senhor Gerente.
Não, não pode.
O dono da conta morreu há quatro anos, Senhor Gerente, olha, eu tenho um alvará, eu tenho a certidão de inventariante do espólio, eu tenho o atestado de óbito.
Ele morreu, eu juro, eu juro, Senhor Gerente.
O Senhor Gerente até que acredita em mim, entende?
Mas ele não pode fazer nada e suspira ‘ah, a burocracia’.
O Senhor Gerente sacode a cabeça, enxuga o suor num lenço.
Ele vai avaliar meu caso com carinho e entra em contato comigo em dez dias.
Talvez quinze.
Mas você esperou quatro anos, não é, minha filha, você não está mais com pressa.
Não, Senhor Gerente, eu não tenho pressa nenhuma.
Bato o recorde mundial, ninguém teve tantos ‘casos estudados com carinho’ quanto eu.
Saio do banco, as flores no colo.
O calor é um soco na cara.
Novos bancos, novos alvarás, escritórios de advogados, muitos, muitos.
Trânsito.
Todas as avenidas são implacáveis.
Todas as buzinas me assustam.
Eu mal ouço meus pensamentos.
A cidade também não.
Ela não me escuta.
Ela não me dá colo.
Ela não me ampara.
Ela me pune com o calor, com motoristas de táxi irritadiços.
E com um pouco de dor.
Lá pelo quarto ou quinto táxi, esqueço minhas flores.
Meus copos de leite.
E me arrasto sem sofisticação nenhuma para o próximo compromisso.
E sem nenhuma ilusão.

Além da Tréplica

É sabido que desconhecidos, ao tentarem uma conversação, costumam introduzir, como que tateando o terreno a ser descoberto, um assunto neutro, algo como a previsão do tempo. É sabido também que, logo após a tréplica, a conversa derivará para qualquer outro tema mais interessante. Só em Porto Alegre é diferente. Não há aqui assunto mais fundamental do que a previsão do tempo. Somos uma cidade de meteorólogos amadores. Sempre foi assim. Mesmo antes de Bush e do efeito estufa, nosso clima já era imprevisível e existia uma real preocupação com ele. Portanto, se você vier para cá, saiba que o tempo é um grande assunto.

Também somos uma cidade pouco beneficiada pela natureza. Então, nos ufanamos de possuir o mais belo pôr-do-sol do mundo, de sermos a cidade de melhor qualidade de vida do país, o povo que mais consome livros por habitante e de termos as mais belas mulheres. O último é o único fato facilmente comprovável. Da mistura dos casais açorianos que a fundaram, dos portugueses que organizaram o mercado do porto, dos alemães que fundaram o odioso Grêmio (pretenso time de futebol), dos simpáticos sapateiros italianos que criaram o amado Internacional (O time de futebol), dos negros que o jogaram melhor e das etnias que vieram depois, nasceu este ser único: a mulher portoalegrense.

Só quem nos visita sabe como são as mulheres daqui. Nossa cidade e a de Passo Fundo, no interior do estado, são as recordistas de casamentos desfeitos no Brasil, fato estatístico de que deixa as nossas esposas perturbadas, agressivas e vingativas, mas que deixa as solteiras confiantes e que nos faz tão imensamente felizes. As estatísticas também apontam outro fato sublime: aqui, elas estão em maioria.

Os acontecimentos da vida privada das pessoas normalmente carecem de confirmação, a intimidade não costuma ir para os jornais, mesmo assim, vou dar-lhes um pequeno exemplo dos problemas que Porto Alegre pode provocar. Certa vez, veio para cá um grande jogador de futebol para o Inter: o zagueiro chileno Elias Figueroa. Ele chegou e já no aeroporto declamou Neruda. Imaginem um jogador bonito, alto, forte, moreno, com a cabeleira rebelde dos anos 70 e entonação estudada, dedicando um poema de amor à esposa Marcela, a seu lado, dentro o aeroporto, cercado por repórteres. Um bom jogador e um homem de publicidade, sem dúvida. No dia seguinte, os jornais estampavam as fotos no chileno e todos puderam ver de quem se tratavam, um e outro. Figueroa era realmente um adônis, já Marcela era uma moça simpática, bonitinha até. Porém, morando aqui, seria preciso muito mais para que o zagueiro mantivesse inexpugnável sua fidelidade. Rapidamente, ele tornou-se um símbolo tanto do Inter bicampeão brasileiro, como das mulheres que gritavam seu nome. Inabalável na defesa de seu clube, a resistência de Figueroa às portoalegrenses foi pouco a pouco tornando-se mais sorridente. Primeiro, o chileno respondia com aceninhos às fãs, depois passou a dar autógrafos perguntando carinhosamente o nome das mulheres e alongando cada diálogo muito além da tréplica. Passou até a falar sobre o tempo com elas. Neste período feliz, declamava poesias de amor nas rádios, mas agora sem dedicatórias à Marcela. Sabemos, claro, que logo ocorreria o inevitável: ele acabou por focalizar sua atenção numa misteriosa mulher que o esperava dentro de seu automóvel após os treinos.

Aquilo foi demais para Marcela. Pegou os dois filhos do casal e, encastelada no Chile, avisou ao presidente do Inter que seu marido voltaria para a casa no final do ano. Ela exigia seu retorno por motivos "de família". O fato era motivo de piadas entre os torcedores do Grêmio e de temor entre nós, os do Inter. Neste ínterim, o futebol do chileno vicejava luxuriante. Ele agregara românticos dribles a seu futebol de resultados e era mais e mais amado pela torcida que comemorava, apesar de receosa da possível vingança de Marcela. E ela veio. Foram reuniões e mais reuniões para tentar demover Dom Elias, mas ele, como bom católico, rescindiu seu contrato com o clube no final de 1976. Perdeu muito dinheiro e, justo o homem que era o terror dos atacantes, voltou para a casa feito um cachorrinho. Como é uma das glórias do clube, visita até hoje Porto Alegre, sempre vigiado pela onipresente, modesta e simpática Marcela. Em 1977, quase fomos para segunda divisão. Tudo por culpa da mulher do carro.