Então, ainda falas dele?
Eu estava ali na esquina entre as avenidas Eduardo Mondlane e Amílcar Cabral, no coração de Maputo, alheio ao tumulto do trânsito, àquela hora da tarde,engraxando meus sapatos. Uma voz conhecida sacudiu-me da modorra:
- Morreu a filha do teu amigo! – anunciou-me, abruptamente.
Virei-me assustado e quase ia chutando o homem que se aplicava no seu ofício.
- Filha de quem?!
- Filha de Carlos Drummond de Andrade!
- Do Carlos Drummond de Andrade?!
A repetição para além de nos ajudar a assentar a incredulidade, permite-nos ganhar tempo, recuperar terreno, para perceber os fenómenos, muitas vezes tão céleres quando passam à nossa volta.
- Esse mesmo! - confirmou-me o Manuel Maurício.
Tive aquela sensação terrível que sentimos quando nos dão um murro no estômago. Drummond estava velho e doente, tinha mais de 80 anos, iria ele aguentar tamanho abalo? Maria Julieta era, ao que eu sabia, sua filha única. Eu sabia do amor que os unia. Ainda hoje vejo o poeta abraçado à filha, ambos sorrindo para a vida.
- Que tragédia! - murmurei, enquanto o engraxador da esquina terminava sua tarefa e eu lhe pagava pelo seu trabalho. Nem lembro mais quanto custava engraxar sapatos naquela época. Mas não era muito. Umas moedas.
O Manuel era um daqueles meus muitos amigos que sabiam da minha admiração pelo Drummond, pois que lhe falava vezes sem conta, até à exaustão, deste meu “demónio tutelar” (como diria Gabriel Garcia Márquez).
De facto, eu nunca privara com Drummond, nossa relação provinha dos livros, que eu lia e espalhava pelos amigos.
Ganhei a conta dessa admiração partilhada alguns livros de presente de Drummond. Uma dessas relíquias foi a Noémia de Sousa, uma diva da nossa literatura, falecida há poucos anos, que me ofereceu no primeiro dia em que nos encontramos, em Lisboa. Ela insistira que me queria dar uma lembrança para assinalar aquele dia. Indagado sobre minhas preferências, o nome do itabirano foi o cimeiro. Noémia ofereceu-me uma antologia. Esse como os outros títulos guardo-os ciosamente.
O resto da história já toda a gente sabe. O “meu amigo Drummond” não resistiu à morte da filha. Quinze dias depois ele escrevia a última página da sua vida e zarpava em busca de Maria Julieta nas brumas da eternidade. Isto aconteceu, já lá vão quase vinte anos.
Aqui, em Moçambique, o Brasil representa um grande fascínio para nós. Uma vez entrevistei o Ruy Guerra, moçambicano, português e brasileiro, homem da primeira linhagem do Novo Cinema Brasileiro. Minha questão era simples:
- Como é que você chega ao Brasil e inova o cinema brasileiro?
- Em Moçambique, nós nos preparávamos para amar o Brasil.
Comigo aconteceu o mesmo. Aprendi o ofício da crónica com fabulosos contadores de histórias brasileiros. Já falei do velho Drummond, mas falta referir aqui Ruben Braga, Paulo Mendes Campos ou Fernando Sabino. Essa é a minha gente. A minha família são os escritores, os poetas, os cantadores. Mais de metade da minha música aqui em casa é brasileira.
Mais: minha casa, a 22,5 kms da cidade de Maputo, fica num bairro chamado Belo Horizonte, virado para os montes Libombos, na zona fronteiriça com a Swazilândia e a África do Sul. Da minha varanda vejo um pôr-de-sol do mais deslumbrante de África.
Não foi o caso de hoje. Acabo de regressar de um jantar e lá reencontrei um amigo dos anos 80. A meio da conversa, recordando os velhos tempos, de garotos pendurados nos muros da tarde e do tédio, sua memória puxou pelo velho poeta:
- Então, o Drummond de Andrade, ainda falas dele?