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janeiro 23, 2006

Aconteceu em Marliéria

1969. O resto do mundo irrompia (ou irromperia) em acontecimentos. O homem pisava na Lua. Woodstock pregava que a verdade universal e absoluta se resumia a sexo, drogas e rock n’roll. Pelé marcava seu milésimo gol. Charles Manson matava Sharon Tate. Costa e Silva editava o A1-7 e depois o 8. Jack Kerouac morria. John e Yoko se casavam. Nixon assumia nos EUA e os gays saiam da toca com a revolta de Stonewall.

Mas nada acontecia em Marliéria, MG. Lá, o ar era pesado e o tempo parecia parar. Era alto-verão, final de janeiro. Quente como o inferno. O que fazia com que ondas de calor emanassem da terra recém irrigada e se precipitassem em gotículas, molhando as pernas lisas e bem tornadas das mulheres. Isso as obrigava a usar saias leves, cada vez mais curtas, apesar dos protestos do Padre Jônatas e da Liga Rhode de Senhoras Católicas.

Karina havia acabado de voltar da capital. Olhava a pequena avenida principal de Marliéria da janela de sua casa ampla e arejada e tinha vontade de chorar. Tinha ido passar as férias com as primas em Belo Horizonte onde havia descoberto tanta coisa...praticamente um outro universo. Simplesmente se odiava por morar naquele fim-de-mundo.

Estava com 18 anos, a mesma idade das primas que já pensavam em cursar faculdade, o que era natural e perfeitamente possível para elas. Mas não para Karina. Antes de qualquer coisa precisava pensar no discurso que iria fazer para que seus pais a deixassem morar com os tios e explicar tim-tim por tim-tim os benefícios e maravilhas de se cursar Ciências Sociais. Ou seja: Praticamente impossível.

Cruzou os braços sobre o parapeito da janela e deitou lateralmente a cabeça neles, desolada, os olhos marejados, nó na garganta. Seu longo suspiro foi interrompido por um toque suave em seus dedos magros e longos. Ela se ajeitou, assustada, ficou de pé. Uma lágrima teimosa escorreu de seu olho direito até o meio de sua bochecha macia e rosada, mas ela tratou logo de limpá-la. Deu com uma família parada a frente de sua janela. Uma família esquisita. Um homem, uma mulher e dois filhos moços. Todos cabeludos e com roupas estranhas. Ela olhou de novo e viu que os garotos eram parecidíssimos. Gêmeos. Deviam ser viajantes, tinham malas nas costas estavam um pouco empoeirados, pareciam cansados e com sede.

-Pois não? – ajeitando o vestidinho branquinho de algodão.

A mulher passou na frente do homem e dos garotos e se dirigiu à ela:

-Oi, tudo beleza? Meu nome é Paloma - disse a mulher estendendo a mão para Karina. Era bonita, não muito nova. Tinha olhos verdes, cabelos negros compridos e uma flor amarela atrás da orelha esquerda.

- Nós descemos do ônibus agora, estamos fazendo uma viagem pelo Brasil...decidimos parar aqui para descansar até chegar a BH. Tem alguma pousada ou hotel bacana por aqui que não seja muito caro? – disse Paloma, fazendo uma viseira com a palma da mão direita, tentando proteger os olhos do sol escaldante.

Ok. Muita informação. Karina correu os olhos rapidamente ao redor, enxugou o suor das mãos espalmando-as e arrastando-as na saia do vestido, calçou os chinelinhos de couro e decidiu ajudar os forasteiros.

- Oi, sou Karina. Vou levar vocês até a pousada Itajubá, fica há umas duas quadras daqui, espera só um pouquinho... – sumiu da janela por instantes e apareceu na porta, descendo uma pequena escada até alcançar o nível da rua. Estendeu a mão para a mulher, que a puxou e a abraçou.

-Bacanérrimo Karina, uma brasa! – soltando-a e olhando-a nos olhos. – Esses são meus filhos Daniel e David e esse é meu companheiro, Henry. Os três são canadenses mas falam português, só que Henry arranha só um pouco. - Balbuciou algo em inglês para o loiro enorme que sorria largo e balançava afirmativamente a cabeça enquanto chacoalhava o braço magro de Karina.

E lá foram todos para a tal pousada, uma mansão que o Seu Albuquerque herdou do pai e decidiu transformar em hotel. Simples, mas confortável. Conversaram animadamente e Karina ficou sabendo que eles eram hippies e esta era a primeira vez que os filhos visitavam o país da mãe. Planejavam atravessar o Brasíl. Haviam chegado em Porto Alegre e estavam subindo. Karina olhou furtivamente para os gêmeos, Daniel e David, mas não se lembrava de quem era quem. Eram altos e pareciam fortes como o pai. Um tinha cabelos negros e olhos verdes, como os de Paloma. O outro era loiro de olhos azuis. Esta aliás, era a única diferença entre eles. Os olhos dos três se cruzavam numa tentativa de reconhecimento e identificação de interesses em comum enquanto os mais velhos tagarelavam, alheios ao flerte que corria solto.

Karina estava tímida. Alternava olhares com o loiro e o moreno e de vez em quando concordava com algum comentário de Paloma. O loiro tirou a mala das costas e abriu a camisa, deixando o peito nu. Karina viu o torso perfeito e os músculos definidos do jovem. Não era nada diferente dos corpos dos roceiros que viviam andando com a enxada no ombro e sem camisa pela cidade. Mas nenhum deles havia feito isso na frente dela. E olhando em seus olhos. Ficou desconcertada, olhou para baixo, sentiu a face enrubescer ficando quente, pelando. Levou as mãos involuntariamente às bochechas e parou na frente da pensão:

-Bem, é aqui. – disse, sem tirar os olhos do chão. Tenham uma boa estadia, até mais! – deu um tchau displicente com a mão direita e já ia dando as costas quando sentiu um puxão forte no pulso esquerdo. Virou-se. Era o moreno.

-Você podia aparecer aqui amanhã, pra mostrar a cidade pra gente – olhou para o irmão, que concordava com a cabeça.

-É..bem...eu.... – olhava para os dois, estava perdida, não sabia o que dizer ou fazer.

-Você tem telefone? Perguntou Paloma.

-Sim... – disse, quase ofegante – tenho. Engolindo em seco.

-O loiro mexeu na mala e arrumou um pedaço de papel, balbuciou novamente algo em inglês para o pai que acabou lhe emprestando uma esferográfica.

-Diz o número... – disse o loiro, pronto para anotar.

-É...é... - santodeus, esqueci o número de casa! – pensou, mas logo disse: - 57-53-09 – aliviada.

O loiro anotou, enfiou a caneta e o papel no bolso da calça jeans, olhou para Karina e sorriu.

-Vamos te ligar, hein! – Disse o moreno, subindo a escadaria da casa e entrando na pousada.

-Tá...tudo bem.... – observando os dois homens mais belos que ela já tinha visto na vida adentrarem o hall da casa.

Acenaram e entraram. Ela se virou, engolindo em seco novamente, apertando as mãos fortemente, o passo desesperado, trôpego nos paralelepípedos da rua, como se estivesse fugindo de algo ruim.

Quando chegou em casa, pousou a mão delicadamente sobre a maçaneta de ferro, apertou os lábios e sorriu.

Quem diria...algo iria acontecer em Marliéria...


(Continua)

Posted by valentina at janeiro 23, 2006 9:09 PM

Comments

Dio Santo! Por que em capítulos??? E sempre param na melhor parte!!!! Tá bom demais!!!!!

Posted by: Sandra at janeiro 23, 2006 9:20 PM

Ha ha ha, maravilha! Vai ter ménage à trois? A menina é virgem e já vai começar com dois, que sortuda.

Só não estou conseguindo ainda pronunciar direito Marliéria.

Posted by: Pele at janeiro 23, 2006 9:29 PM

Ah, essas mocinhas...

Posted by: Aran at janeiro 23, 2006 11:24 PM

Pois eh Pele....já cheguei à mesma conclusão.
Será q a sequência demora? Ai...curiosidade mata viu?!

Posted by: Paty at janeiro 24, 2006 11:57 AM

Hmmm, gostei mucho! Não vão demorar muito pra postar a continuação, né?

Posted by: Viva at janeiro 24, 2006 12:29 PM

Ah, dona Valentina... tô gostando disso aí. Não quero nem imaginar o que vai acontecer com essa menina do interior de Minas de quase 40 anos atrás.Acho que a Tradicional Família Mineira não vai poder fazer NADA pra evitar que o fogo pegue não. Ainda bem. :)

Posted by: Mônica at janeiro 24, 2006 3:13 PM

aaah, Valentina! Não pára! Não pára!

Posted by: belly at janeiro 24, 2006 4:42 PM

Canadense inglês descolado assim nunca vi nem em filme pornô !

Posted by: Ana Lucia at janeiro 24, 2006 5:08 PM