19.06.08

11 anos em 11 dias...

When will you give me the "let's just be friends" talk?

It took me 10 years to not do the same.

It's really not kinder this way.

So much I want to say I cannot find the courage.

I'd do everything different if it were up to me.

The sadness I know, do you know a piece of?

You feed it to me like a slice of sweet cake.

If it were up to me, I'd do everything different.

Is there a key to unlock this prison?

I really had hoped it would be different with you.

If it were up to me, it would be-

but is it really kinder this way?

I'd sleep but you are not next to me.

Would I stop crying if I could?

There is not enough smoke or mirrors on this whole damn planet

to make me forget what you've promised to me.

Will I never see my white horse or baby flower?

Will I never stop searching for the one to set me free?

You're not the only one who would like to fall off of this planet

and I really believed that we would jump together.

Feeling so foolish, and so much like a child.

I'd just stop breathing, if it were up to me.

Involuntary thoughts, like involuntary functions.

Necessity breeds invention.

Now tell me, what should I make of this?

If I could only SPEAK all that I'm thinking.

That which does not kill us will make us stronger,

but what about those who are better off dead?

I need a clock like I need a hole in my head.

The opposite of King Midas syndrome

where everything I touch turns simply to shit.

Drinking this wine, in lue of your breath

which is far more intoxicating, treasured, and sweet.

I would replace it for the air,

if it were up to me.

(jami denton)

Posted by cacoishak at 14:56

18.06.08

ramona herdman

It is hard, too, to be the beloved,
to kindly lie and to suspect
that you would know if this were what you wanted.

Posted by cacoishak at 9:05

29.04.08

cartas uruguaias

(...)

Em um sinal fechado, limpadores de parabrisa festejavam qualquer coisa. Irônica a euforia de quase-vagabundos do lado de fora, lutando por qualquer centavo em uma tentativa digna de ganhar dinheiro. Havia mais sorrisos do lado de fora do coletivo do que dentro. Num gesto espontâneo e de uma malandragem fora do comum na capital uruguaia, um dos limpadores de parabrisa estende o escovão e desenha um coração na janela da menina e de sua amiga gorda. Um sorriso tímido, avermelhado e tentando conter pudores deu àquele trabalhador informal uma nova graça ao dia. Talvez fosse um galanteio comum, mas que trouxe uma vida nova ao olhar dos passageiros do bonde. Pessoas se olhavam com um sorriso de surpresa que parecia raro naquela situação.

"Não se assuste, pessoa, se eu te disser que a vida é boa". Gal Fatal cantava no fone. Há cenas reais que nenhum videoclipe ou cena de filme são capazes de reproduzir.

Em Montevideo, as pessoas parecem não se importar em terem sido esquecidas pelo mundo. Com o sexto maior índice de suicídio do mundo, existem gestos que renovam o ser humano, mesmo que seja por alguns minutos.

até que enfim. marcelo damaso teve que ir pro uruguai pra tomar vergonha na cara e jogar um blog no ar. antes tarde.

Posted by cacoishak at 10:23

16.04.08

Somewhere there's a nation

Somewhere there's a nation
Who eats broken dreams for breakfast
And bathes in lost innocence.
And in this nation there are children
Who've been blinded by our failures
With no desire to fix the world we've handed them,
Broken and diseased.

Somewhere is a nation
Who relies on handouts
And spends money it doesn't have
To keep mothers with seven children
Full of anti-depressants and Jack Daniels
While their children dream of someday leaving their neighborhood
And buying a yacht.
But tell me, does welfare pay for college?

Somewhere there's a nation
Whose flag is made from the very colors
That gang wars are fought over
And blood is shed upon.
It comes to our attention
That our children are dealing with bomb threats
During the very time that they were supposed to be learning to read
But that is not of our concern
When there is a national debt larger then our country
And there are sex scandals that need to be covered up.

Somewhere is a nation
where drugs are as available as confessions to a priest
And nursery rhymes have been rated R for content.
We pride ourselves in being a free country
When we cant even choose our own ways of life
And everything we touch has a price tag on it.
So tell me, what of this is freedom?

Somewhere there is a nation where you can
Buy a drug addiction sooner then you can work at Mc Donald's
And eight year olds know how to load a rig in lees then 5 seconds.
But no need to worry about them because
The family business is rapidly growing
And such a promising one
With an exceptional meth crop this year.

Somewhere is a nation
who is not at war with any country but itself.
People sit on their fortunes and walk across freshly polished parlor floors
While others walk barefoot through dirty alleys on dark nights
Screaming for shelter and food for their families;
And it comes to the attention of those who could help
Only through after school specials and the great works of literature.

Somewhere is a nation
And in this nation we are not one people.
This is a nation where God can't be trusted
Because he's suspected of being a communist
And liberty comes half-priced, if you can afford justice.
I believe this nation is not too far from home.
Ever day it's people neglect to acknowledge it's problems
Because "it couldn't happen to us".
Not here, in the land of patriots, baseball, and apple pie.
Not in this land, America.

(colagem e poema de Jami Denton)

Posted by cacoishak at 16:45

7.04.08

seu silêncio

ele acredita que estou sentada entre raios de lua

longe daqui, cruzando o oceano
sua alma tenta não se afogar

o tempo de pai já está velho
foi por água abaixo sonhos afora
um brinde ao fim dos contos-de-fada
e aos sorrisos na hora da despedida

guardo a pose no bolso
mas não vou cair

transformou seu coração em cinzas
será que ela ainda brilha?

despencou
sua coroa quebrou
olhos aos céus
nuvens com forros de prata

livra-se da dor até o amanhecer
até ele acordar
menino te pensando um blues

atordoado feito um homem que se esconde em olhos de criança
apesar de nunca terem se conhecido
está entre as mais tristes de suas despedidas

(jami denton - em tradução livre minha)

Posted by cacoishak at 9:10

3.04.08

Da paixão e outras pulsões insistentes

Um dissílabo me persegue

Tal aquela pedra filhadaputa meticulosamente plantada e que sabe-se lá por que raios de razões drummonianas tava no meu caminho

E não fosse pela memória no meu joelho
seria só mais uma cicatriz

Mas não
Virou cansaço no meu córtex
Movimento pendular
Sistema binário
Big Crunch
Ortodoxo em Meca
Yng Yang
Pressão diastólica
e sistólica

Que não tem Rivotril ou Lacan pra dar jeito

Úlcera péptica espasmódica?
Coquetel molotov com todas as combinações possíveis de dois carbonos e uma ligação simples?
Afeto mal digerido?

Uma proto-paixão ruminante
Uma porra de pulsão insistente

Goddamn butterflies in my stomach!!!

(Agatha von Gesponser)

não sei quem é. mandou pro meu email. curti pra caralho. mandei um email de volta. não respondeu. postei.

Posted by cacoishak at 14:10

31.03.08

a poem for every living thing

Emptiness cannot exist.

Love is stronger than all things
And will destroy the darkness
Time and time again as
Planets cover themselves with
Bacterium, foliage, and life forms-
Sound breaks thru silence.

A motor in the machine of awakening.

A telepathic language,
wordless song.

A realization,
and, the reason for creation.

A determined golden chariot,
Burning through the sky, spinning
Circles around orbs.

A force stronger then all of man's armies
Or hounds of Satan.

You are not a division of myself
but, a unification.

All that I have come to know as wisdom,
You affirm.

It seems like a dream that
I'm spending with you.

The blink of an eye in the span of eternity.

Yet somehow, it is always everything.

A completeness.

An endless existence of echoing our chorus-
"I will love you
with every breath,
every heartbeat,
or fathom of
consciousness".

Life is to love you and to manifest this love.

Physically, emotionally, and spiritually
With every passing lifetime.

Forever I will find you,
To be with you,
And to know this.

(Jami Denton)

Posted by cacoishak at 19:55

20.03.08

versum se rasgum

a "nova literatura paraense" realmente promete, meus caros. abaixo, duas pequenas mostras disso. recebi alguns poemas do amigo gustavo rodrigues, da se rasgum, que - como seu cupincha marcelo damaso (conheci os dois faz alguns bons anos, quase dez, numa parada literária ministrada pelo cony) - ainda teima em não ter um blog. talvez estejam certos. fato é que me emocionei (quem disse que sou 100% viril?) ao ver esse primeiro entre os versos do cabôco. na seguida, tem mais um. boa leitura.

Convite antes do inevitável naufrágio

ou

Bora tomá uma, cabôco, qu'inda dá tempo!

A Ricardo Ishak


Recortando-se

Do próprio cancro

Segue

O ponto

Cego

Cambaleante e São

Convalesce e

Carnavalesçe

Por entre previsões e adágios estúpidos

Dos cretinos que se cotizam

Na moral dos transeuntes

Esse delírio coletivo

De veleidade e quebranto

Visito-o de longe

Lendo a lida canalha do sacana

O estulto saltimbanco

Cai e ri

Assalta bancos e bocas

Troca danças impudentes

Por malentendidos jocosos

Trepa em pódios

Salta prédios

Agarrado às rédeas régias dum sol qualquer

Como qualquer poeta qualquer

Espeta o indicador gargantas adentro

Para a redenção dos demônios

E erupção dos pecados

Um dia andará ao meu lado

O filhodaputa safado

Nossa pequena hoste há - afinal -

De se embriagar na réstia boreal

E alimentados de ódio e hóstias

Queimaremos as beatas

Nas escadarias da Fé

O filhodaputa safado

Se safará ao meu lado

Na jogatina febril

De berço e leito, cova e covil

Desses dias que nos sobram

(Ante o último soçobro)

Pois, ainda, por alguns as sinas dobram.

ooOoOoo

Arranquei todas as redes que circundavam o apartamento

O excesso de zelo do antigo inquilinato era um chute no saco

Esse fascínio fascista

Todas as crianças têm o direito natural

De voar pela janela

Posted by cacoishak at 13:21

29.02.08

pré-revolução

(...) as mulheres que descobriram o poder do sexo nunca estão muito longe do suicídio.

norman mailer, em "um sonho americano".

Posted by cacoishak at 22:50

4.02.08

apropriado

nenhuma arte é possível sem uma dança com a morte.

(erika ostrovsky, em céline e sua visão - via vonnegut)

Posted by cacoishak at 13:21

5.01.08

orimar estrada

Orimar. Bem mais que um neologismo criado pela supressão das letras e-n-l-a-l-l-a-d-e-l no título de um bolero antigo, aquele nome sintetizava um ideal construído no âmago de sua solidão. Um ideal de reencontro com as tardes de correria pelos quintais de chão batido; os banhos de rio entre meninos e peixes; a varanda da casa iluminada pela pálida luz da lua; o pai jogado no fundo da rede. O pai. Ela buscava o pai no homem por trás do nome. Orimar. Mas Orimar jamais teria mãos para enxugar as próprias lágrimas.Não havia poder algum naquelas mãos. Talvez ele não tivesse força nem para lágrimas. Ele era fraco.

foto da aniversariante de hoje (acabou, porra!), lettuce no vaz.
.
texto (um trecho apenas) de pedro vianna. leia o resto aqui.

Posted by cacoishak at 16:40

24.12.07

lovely leet'a

Amo Rita e já sei porquê. Não que não soubesse antes ou que o ato de amar sem motivos desqualifique o amor em si, mas agora dirigindo pra casa, 4 chamadas não atendidas, já sonhando com a chegada ao lar, a barrigada pós jantar gorduroso, chinês e solitário, a dose de licor nessa noite incrivelmente fria, percebo o motivo de tal verbo. Amo Rita porque nós piscamos juntos. A mulher pode não me dar alertas das ações futuras, mas a sintonia se faz na respiração, e respiração guia a pausa dos olhos, o descanso dos cílios. Comecei achando que Rita não piscava. Sabendo do impossível, daqueles que não são cegos, conclui que justamente quando eu pisco, Rita pisca também. Ao concluir, fui tomado por um fechamento da glote, tentei falar e não consegui. Rita no clássico: “engasgou?” E eu, ali, assustado na garganta, fazendo força para não piscar, querendo saber se ela é enfim, humana, não conseguindo e finalmente piscando, e concluindo que ela piscara também, e ah, sim, concluindo enfim que isso é amor.

da letícia. e é só um trecho de tudo. mas não é o único.

Posted by cacoishak at 5:15

30.10.07

jack

tive oportunidade de me levantar às 8 e meia e, em vez disso, dormi até o meio-dia, por medo de não saber o que fazer com toda essa manhã.

no livro dos sonhos.

Posted by cacoishak at 16:36

9.10.07

tudo ao mesmo tempo agora


versão 1.0 do clipe de devorados, da madame saatan. na 2.0, na qual a pris brasil já tá trabalhando, vocês terão a honra de conhecer o BODE:

e a baixocalão tá de artista novo (mais quatro, aliás, já que não atualizei nada por aqui)... diogo rustoff, carol w, vânia medeiros e rafael dambros, nessa mesma ordem:










Posted by cacoishak at 15:53

1.08.07

capítulo um

Gil detestava o cheiro do mar e queria logo sair daquela cidade. Terminou de limpar o quarto do hotel e de conferir se não havia esquecido qualquer fio de cabelo na pia ou uma marca de dedo no vidro da janela, e pensava que a polícia poderia se esforçar um pouco mais, se quisesse. Na verdade ele se considerava importante o suficiente para merecer uma atenção maior. E até onde sabia eles nunca se davam ao trabalho de procurar fios de cabelo no encanamento, ainda mais quando sequer saberiam em que hotel procurar. Olhou as horas no relógio de pulso. Tinha talvez pouco mais de quarenta minutos. Ia ficar para ver os fogos?

folhetim policial da verbeatnik olivia maia. leia o resto aqui.

Posted by cacoishak at 14:37

28.07.07

sábado, quatorze

"sim, você será assaltada. eles não pararam ali por outra razão. nem para pedir informação, nem para fuderem na parte mais escura da rua por onde você resolveu andar. certamente, eles resolveram fuder, mas você. ou melhor, a sua noite. respire fundo, acalme-se. pense na possibilidade daquela arma não ser de verdade. aliás, nem pense nisso. pense na parte do seu corpo que poderá resistir a uma balada. não, não. tudo em você parece ter amanhecido bastante vital (...)".

vai ler o resto lá no blog da karla nazareth, vai. homem de sorte, meu amigo he-man.

Posted by cacoishak at 15:10

12.07.07

feriado prolongado

"Então refiz a história quase toda. Sobrou só o protagonista em pé, com aquela cara de quem não faz idéia de que porra está acontecendo. Mas faltam alguns detalhes na trama. E eu sou meio retardada para começar história policial sem fechar a trama antes."

olivia maia

tem como, por curiosidade, não querer ler um troço desses?

Posted by cacoishak at 12:42

29.06.07

orgulho do pai

Naquela época, eu esperava pelo metrô com as mãos suadas de água fria, olhando para trás com medo que alguém me empurrasse. Síndrome do que você quiser, meu caro. Do pânico, do terror, da ansiedade, distúrbio, déficit de atenção, a porra toda que você quiser. Eu só quero dizer que por 2 segundos eu jurava que alguém ia me empurrar e morreria ali, estraçalhada pelo vagão que não teria tempo de frear. Estou sem direção e ainda nem cheguei ao ponto. Culpa dos dedos mindinhos, não me obedecem, esses putos desgraçados. Boa essa palavra: puto. ÉS UM PUTO, queria dizer para algum homem. Qualquer um, pode ser meu pai até, meu tio que tem a voz engraçada, você... Um puto, um puto.

by letícia novaes. leia o resto aqui.

Posted by cacoishak at 15:29

30.05.07

la muse is back

não poderia ter melhor notícia pra fechar o mês de maio. la muse jojo coccarelli voltou a dar baforadas verbais em seu narghee~la. oito meses de espera, assim meu inferno astral acaba de uma vez, fácil.


{skin stripper}

puxas o fio da maldade: uma ponta de lã, perdida na trama do casaco vermelho, desmancha o périplo de calor ao redor da pele. cada ponto desfeito casa com um poro fazendo bico, um baterzinho de queixo, um mamilo tensionado; arábias do umbigo sem véu, rumores sobre cotovelos, colo divulgado.

acabaria aí.

se não prosseguisses puxando o fio.

que estava de braços dados com a tez da minha nuca.

e assim começastes a desembaraçar hélices de dna; esgarçando toda pele do meu corpo; devolvendo-me para o quente carmim da veste inicial.

-- joana coccarelli

Posted by cacoishak at 16:22

16.05.07

releituras

sempre que nos agarramos às paredes do mundo, e na fase mais sombria da ressaca, eu penso em dois amigos que me aconselharam sobre vários métodos de cometer suicídio. que prova melhor de amor e companheirismo? um dos meus amigos tem cicatrizes de navalha ao longo de todo o seu braço esquerdo. o outro enfia baldes de comprimidos pra dentro de uma massa de barba preta. ambos escrevem poesia. tem qualquer coisa em escrever poesia que leva um homem pra beira do abismo. contudo, provavelmente, todos nós três viveremos até os noventa. consegue imaginar o mundo em 2010 a.d.? a forma que ele irá tomar dependerá muito do que for feito da Bomba. eu suponho que os homens estarão comendo ovos no café da manhã, terão problemas sexuais. escreverão poesia. cometerão suicídio.

do velho buk.

Posted by cacoishak at 15:35

30.04.07

meus cotos

eu curto a diana de hollanda pra caralho. isso não é novidade pra ninguém faz já um tempo. a nova é que ela não tá mais escrevendo no candeia (faz também algum tempo e faz outro tanto que eu tô de postar sobre, mas eu sou eu e não tem tempo que resolva isso). mudou. a dama, agora, escreve seus cotos aqui. e vem livro por aí, pela 7letras. não digo nada por ora - só que já li e... ah. pra que não haja dúvidas:

vivos

no espelho pálidos no escuro, johnny cash
em sua canção menos mórbida tenta matá-los.
amanhã
a quina da parede não estará disponível para o sepulcro
e a buzina misturada ao grito será barulhenta o suficiente
para não lembrarem;
os carros na cauda do tempo apagarão com força a repetição do passado,
será uma novidade:
com sua canção menos mórbida johnny cash tenta matá-los.

Posted by cacoishak at 1:20

29.04.07

Embebida

E o nítido arranjo
dos lábios, um a um,
e o despudor de vê-los
inocentes,
desnudos num
ir e vir medonho,
embebedada duma
realidade úmida
e carnuda, a coxa nua
roça pele contra pele, o quase
encontro e desencontro
de mim dentro daquela fresta
que ora sobra, ora se insinua
num abre e fecha; as pernas
embaraçadas sob a mesa,
a sombra trêmula
dos pés no chão, o torso
dele na camisa
entreaberta, a cabeleira
em caracol evoca
a noite estrelada
em Holanda brilhante
e turbulenta,
e o deleite ainda evola
feito de um gole de absinto.

(ana rüsche, sem limites de caracteres)

Posted by cacoishak at 18:07

26.04.07

falta

daquela vez vi um homem sem braço
varrendo folhas secas de uma árvore
cujos galhos haviam sido podados.
chamei minha mulher e pedi
que o fotografasse.
"o homem sem galho, a árvore
sem braços", tentei explicar.
ela não conseguiu.
parece que na hora algo
também lhe faltou.
era precisamente essa
a imagem
que eu buscava
agora.

(joca reiners terron)

Posted by cacoishak at 13:44

ode ao mattoso

o poeta glauco mattoso me mandou alguns de seus poemas de cego raivoso: "Caco, só dá inferno se o ceguinho rogar praga, como no soneto abaixo, que fiz pra outro cara. Quando o ceguinho se deixa zoar não dá inferno... (risos)".

o poema em questão:

SONETO DA MALDIÇÃO DO CEGO [1120]

Mais uma antologia se publica
e deixam-me de fora. Até de amigo
recebo tal desfeita. Mas lhes digo:
vingança é prato frio, e a mesa é rica!

Se o tema é a crueldade, a dura pica,
ou trata do homoerótico, é comigo.
Em prosa ou poesia, não mendigo
espaço: que me omitam não se explica.

Se cuidem, pois nem sempre sou de paz!
Não brinquem com um cego rancoroso!
Não sabem do que um místico é capaz!

O câncer vai pegá-los! Quando o gozo
que agora têm tornar-se dor, se faz
justiça, e lembrarão Glauco Mattoso!


mais do bardo, aqui, aqui e aqui.

Posted by cacoishak at 2:32

18.04.07

o justiceiro



Saindo do meu prédio, avisto uns caminhões tirando entulho de um terreno baldio. Adesivo de coelhinho da playboy no vidro de um, de "deus é fiel" em outro. No terceiro, O JUSTICEIRO, todo ele.

eu: "quem é o dono d'O JUSTICEIRO?"
*dos três que conversavam, um levanta a mão
ele: "é meu"
eu: "tu gosta d'O JUSTICEIRO, então?"
ele: "gosto"
*silêncio
eu: "pode crer"

moral da história: um homem que pinta seu caminhão todo de O JUSTICEIRO gosta d'O JUSTICEIRO.

(gumonstrus)

Posted by cacoishak at 2:50

12.04.07

DAS ELEGIAS: PRESENTE

Esta clareza tão viva e que é
angústia e doçura, e
desimporta o grosso escuro da
parte noite,
a tarde cursiva,
pode surda latejar na praia
onde o domingo paisana,
pode abrir seu círculo de silêncio
na face negativa
dos pátios
repletos dessa cotidianice
de sombras, gatos e frutas;
esta clareza como o
conforto da mão sobre
o liso da textura,
impensável como única,
impossível como última,
mas é tão vasta em sua evidência
que pasma e passa e como tal
mel e amargura;
esta clareza
densamente percebida, age dentro e
ao redor instiga
sua natureza
explosiva.

(joão filho)

ooOoOoo

faz tempo que não poeteio, é verdade. ando ocupado (ainda que desempregado - aceitamos ofertas). mas os versos fandangos continuam todos lá.

Posted by cacoishak at 22:41

29.03.07

caranguejo

sobejo, enquanto vejo-te
às alturas da superfície
cá, pleno em minha imundície,
à minha casa lamacenta.

adivinho se acalentas
sonhos de magnitude.
eu cá dentro mergulho, amiúde,
no açude denso do que penso.

invento verso enfurnado, mas
nunca venço o meu fado,
disfarçado no objeto direto
desse exoesqueleto: a modorra
do desejo em ofertar-te,
caranguejo, a carne íntima
que a ti desvelo.

(renato torres)

Posted by cacoishak at 22:24

12.03.07

nove meses dentro do abridor

na cama, jogo
de nomes, nomes

aventais bordados
de fome, fome

céu de porcelana
pra quebrar

casa de boneca
pra passar a noite

seu sonho
nos grampos

e pronto!
vamos apostar?

asas cortadas, aparadas
barbeado, empoado

cobro a corrida de volta
somente se você enjoar

(by paulo scott)

Posted by cacoishak at 2:34

18.02.07

Noite de Natal

Clopt! Clopt!
É a ruazinha que tosse, tosse, engasgada com o homem da muleta.
Mário Quintana

Ele agora chama a mulher de minha filha e à noite tosse seco. Eu mantenho meu sorriso emplastrado, úmido de saliva, confiante - ainda que falte mesmo o que dizer. E se tivéssemos sido namoradinhos quando crianças? O nosso acordo injusto me empanturrava de orgulho: eu pagava o lanche, o picolé de uva, e ele saía gritando pelos quartos cantos do mundo a sua namoradinha magricela dos cabelos mal-cuidados.

Andei cabisbaixa, o pescoço inclinado, melancólica. Um vento contínuo varria a rua, as calçadas. Divisei as sementinhas vermelhas como se envernizadas. Lembrei do cemitério, quando quem morreu eu nem amava e V. chorava copiosamente. Era seu pai. Uma dor maior que o amor, eu penso. Dois chumaços de algodão tampando as narinas. E, quanto às sementinhas vermelhas, diziam: Não leve para casa, nada daqui se carrega, jogue fora, vamos, jogue no chão.

Eram os fios de ovos, as cerejas, o pernil bronzeado. De salto alto, rebolava até o banheiro. Tranquei a porta e, olhando para o espelho, pensei em ti; teus beijos delicados, calmos e contínuos como os ventos deste lugar estrangeiro, Aracati? Os azulejos dos prédios, teus cílios escuros, os bicos dos meus peitos molhados, duros. Abri a porta e, emplastrada, sorri para uma desconhecida não tendo mesmo o que dizer.

Lembra do soldadinho? No colégio, eles pousavam sempre em algum lugar:
-Sobre a mesa de ping-pong.
-Sobre os livros de gramática.
-Sobre os ombros.
-Sobre os restos do picolé de uva.
Os dedos grudavam açucarados, e, como pinça, tomávamos o bicho pelas asinhas listradas tais as zebras. Eles balançavam as perninhas pretas, teus cílios escuros, e se soltássemos, fugiam desengonçados, voando.

Todos estão casados, todos sabem amar.
Eu esqueci, eu tusso.

ooOoOoo

escrito pela natércia pontes. dizendo ela, não gostou. eu, que adoro natércia quando soluça e não tinha medo de soldadinhos quando criança, aqui o publico e o torno público, entonces. meu sentimento.

Posted by cacoishak at 20:49

12.02.07

Vinicius mood

não é a luz dos seus olhos
oculta pelas pálpebras
(janelas fechadas pra dormir),
nem é o calor do seu corpo inerte, e o
ressonar sutil do seu sono com surdina.
não é pelo sorriso ao rever
no encontro das pupilas
na luz da madrugada/manhã,
nem é por nada que aconteça
no balcão do bar, num gesto
de buscar o copo que ficou longe.
não é por enumerar acontecimentos,
na tentativa falha de encontrar os
sentimentos, ocultos nas palavras,
nem é por não chorar, que não verto lágrimas,
ao te rever todo dia em minha cama.
tudo é desajeitado na tela em branco,
viver é melhor que escrever.

by pierre difol

Posted by cacoishak at 22:17

8.02.07

Que nome tem isso

À tua porta Como uma lata de sardinha enferrujada ou qualquer outra analogia dessas emprestadas das coisas gastas, uma bandeira desbotada pelo sal da monção, um pneu em alto mar é bóia, a espuma suja é furta-cor, uma madeira envernizada pela maresia e toda sorte
de resto e coral.
sou uma menininha acanhada que enxerga tudo mas não pode dispor de si no inverno.
olho: meu binóculo de brinquedo -daqueles de brinde de plástico-
as tuas belas barbas ruivas de molho
e a mão fechada,
lavada há muito.
há uma cara
meu pobre
– e cafona
peito aberto,
e as costas,
Infinitamente
Oh
vergadas.
(como só um feto
e não um ancião
pode tê-las)
a ti- tanto- fazia.
pra rimar cretinamente com a
afazia de
assassinos de filhotes de foca

E caem várias fichas
Mas (se houvesse uma)
na máquina emperrada
.
Por hora, te imito o sotaque
essa malemolência,
do tipo 4 por 4
esse freestyle de fim de festa
pra te ser cúmplice no álibi.
.
e, agora, soum bárbaro à deriva
que não dobra a crista, pede carona, pede emprestado
e não paga
.
como
a criança mais nova
admira
o guri supostamente mais esperto
e se rala.

no mais, o excesso não é bom pra nada que se pretenda poema
essa prosa vulgar
me tira o leme da mão
esquerda

e na quarta
curva
-
de topologia imprecisa
-
faço amor contigo,
conforme rezam
as especificações técnicas
para altíssimo mar

(karina jucá)

Posted by cacoishak at 23:45

2.02.07

...

É assim:
basta eu ter muita certeza. Aí ela vai lá e se joga. As minhas certezas são suicidas.

by averbuck

Posted by cacoishak at 0:33

1.02.07

carnes

carne - 1

hoje ao lado você comendo carne de todos os tipos,
Quer? Parei com a carne. Mas é o cachorrinho! No meu nariz.
interrompem minha respiração - você mete - os filezinhos.


carne - 2

mamãe não entendeu.
somente quando entrou no meu quarto. me encontrou,
e o cachorrinho; É isso mesmo, mamãe, o cachorrinho.
sentou, tirou-me os filezinhos do nariz, nem notou (o Homemeu) - Ninguém aqui fica de roupa, mamãe, quer conversar?
então mamãe só de aliança chorou seu cachorrinho e conheceu meu homem, o Homemeu.
Experimenta, experimenta o filezinho, me apelidaram poodle, que tal, ajuda, me chama assim.
mamãe me grita poodle, mamãe de cachorinho, mamãe o homem meu; Muge, mamãe, muge pra mim.

by d´hollanda

Posted by cacoishak at 15:43

PROGRAMAÇÃO DES(T/D)E IDIOTA

se erra _____ finge (mas)
ano_ta

ser __________ poeta
volt

ou __________ a

ser ______________ (F)

moda

.

by scott

Posted by cacoishak at 15:41

12.12.06

um poema de andré arruda

somos contos feitos de histórias alheias
presas a antigas narrações embalsamadas da Antiga Memória
Não passamos de contos contando estórias.

estórias são feitas de leis feitas
de personagens que são estátuas comuns
contando nossos causos respiramos atmosfera rarefeita
e mentimos como um bebum

vivemos conhecendo nossa cova
só não sabemos onde ela está feita
mas para lá rumamos instintivamente
sofisma...

da consciência dada dos fatos
o instinto de arrebatação se insinua...
o desespero de vasculhar mitos e sombras se avoluma
dores multicoloridas estalam no peito...

e começamos a ver que no pleito
de nosso picadeiro
o irreal de nosso real começa a se manifestar
como essência idiossincrática, desmistificando o Verdadeiro

quem conseguirá ir além deste ponto na transmutação?
sorte aos aventureiros de doravante!

Mas cuidado com o tamanho da queda
pois por mais que tentemos
sempre seremos contos contando estórias feito de histórias alheias
fadados a tal impropério cá estamos pela vida inteira!

E assim me resumo:

sou a união de fragmentos mnemônicos de tua dor: o que mais posso ser?
espelhos sorriem invertidos em tua alma...
apenas reverberações idiossincráticas de uma mente sem referências...

Posted by cacoishak at 20:27

9.10.06

VÉSPERA

As fotos não serão legendadas.

Se não posso escrever:
"Nós em Londres";

então não
escrevo
nada

fernanda d´umbra.

Posted by cacoishak at 11:28

atire no marião

O SOM QUE FAZ QUANDO O TACO CAI

Agora você anda triste
E sua tristeza tem um tom dramático
De mulheres do século passado
Você anda triste
Como um blues de Billie Holliday
Enquanto passa geléia importada na torrada
E passeia nos fins de tarde no seu carro blindado
E sua tristeza a impede de se sentir segura
Com tantos fotógrafos e colecionadores de escândalos
Agora você anda triste escolhendo roupas no shopping
E não gosta do que vê no espelho do provador

Daqui eu te vejo triste
Perdida numa festa que eu não quis entrar
Sua silhueta de diva lírica quase me enternece
Mas eu não pretendo perdoar suas boas intenções

E sei que sua tristeza não te impede de pensar
em viagens
a Tóquio & domingos de Páscoa

Mas eu sou um troglodita
Com uma herança maldita
Tomando chá em copos de whisky
E rezando pro dia amanhecer

Então não fica amargurada no transatlântico pra Atenas
Não se sinta autorizada a pensar em mim

Não fica triste, baby
é que antes de te conhecer
Eu já me esqueci de você

mário bortolotto


gostou do puemo? e da capa? um brinco só, diz aê? quer levar pra casa? porque tu pode levar pra casa, fácil. e com canetada do homem. não sabe como? ainda não? quer o caminho das pedras? ainda não clicou no link lá em cima? tá esperando o quê? quer que eu dê o recado por aqui mesmo? então, tá. lá vai:

próxima quarta, 11 de outubro, no espaço dos parlapatões (na praça roosevelt, 158), a partir das 19h. textos reunidos do já nascido crássico atire no dramaturgo.

e eu lá preciso recomendar? é o marião, porra.

Posted by cacoishak at 0:37

24.09.06

descarrego do dia

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

[paulo leminski, la vie en close]


um oferecimento das casas cronópios.

Posted by cacoishak at 22:09

14.09.06

um quadro. um conto. um só amor.

por andy mitchell


Cine Roxy

Quando você, encantado com os meus olhos castanhos e encovados, quando você passou a mão no meu rosto e disse baixinho tu é uma flor, quando você, de olho nos meus dentes de sabre, falhou a voz ao tentar dizer qualquer frase de amor, quando você, meu amor, meu amor, no táxi, no banco de couro escuro, lá longe, o mar e as palmeiras da Avenida Vieira Souto iluminada pelos postes amarelos, meu amor, quando você me agarrou as coxas e me beijou a boca, revolto e agitado, na rádio FM tocava música romântica e, de olhos fechados, eu soube que vivia uma história de amor.

As ondas farfalhavam brancas e o vento levantava meus cabelos enquanto o taxista procurava por entre as ruas transversais o tal restaurante Tailandês. Você completava vinte e oito anos e eu me enfeitiçava com os seus mecanismos de sedução à moda antiga: ganhei doze rosas virtuais e uma vermelha e macia.

Comemos lula perfumada e fingimos conversar qualquer coisa. Você pediu para sentar perto, mais perto, perto, perto. Eu deixei e vi que tinha olhos de cristais brilhantes, um cabelinho saindo do nariz e mãos corpulentas. Durante o jantar, alternava a lula entre os beijinhos na bochecha, perto da orelha, na maçã do rosto e na ponta do nariz. Uma delícia, à meia luz. Pedimos a conta, zarpamos para minha casa e, lá, depois de saltar do táxi sozinha, dizia adeus e sorria.

A culpa é do chapéu, meu amor. Ou quem sabe, dos seus olhos de cristais e dos meus dentes de sabre...Mas o fato é que, quando atravessamos de mãos dadas a Avenida Nossa Senhora de Copacabana vazia, vazia, tarde da noite, depois de uma sessão água com açúcar no Cine Roxy, eu olhei para a lua cinza, escondida sob o véu de uma nuvem à toa, olhei para o céu e depois para o asfalto escuro que cintilava em pedrinhas mínimas sob as luzes néon das marquises dos bingos, das casas de show e do próprio letreiro vermelho ‘Cine Roxy de Copacabana’, eu olhei para tudo isso, meu amor, e, muito tímida, olhei para você, e disse com meus olhos:

- Sim.

Mordia fininho o bico dos peitos, você revirava os olhos, iluminando a casa inteira, e dizia, baixinho, meu amor, meu amor. Passeava nua sobre o seu peito asmático, a mão, a perna, o rosto; todos nus. Enroscava sobre o colchão - como uma flor de maracujá?- enquanto você avançava a qualquer custo as mãos corpulentas e os beijos molhados por entre as transversais do meu corpo, peixe elétrico no fundo abissal do mar.

Usei os cílios como instrumentos de amor. Sorria, olhava para o céu, para a lâmpada amarela, para a rosa no vaso, para os desenhos das sombras, para as palmeiras que farfalhavam verdes lá fora, meu amor, eu sorria com os olhos e com o corpo inteiro; estrela dourada de cinco pontas, cauda de cometa e poeira lunar.

Um bando de chapéus rasgava o espaço e eu fazia carinho em você, você, você. Dormimos abraçados, alados, até um canário cantar. Quando, às oito, às nove, às dez, você acordou sobressaltado, me beijando a boca e, alegando estar atrasado, zuniu para o chuveiro, o dorso nu, asmático, sob a luz do mundo que invadia a casa, sacudia a cabeça debaixo da água gelada e energicamente esfregava o sabão madrepérola pelo corpo inteiro, do pescoço até os pés.

Da sacada da janela, com um lenço de seda, disse adeus, boa viagem, meu amor, é o fim, o fim, o fim! Você ergueu o braço, ajeitou o chapéu, mandou beijinho e zarpou montando num cavalo branco Copacabana afora, sabe-se lá para aonde, lá longe, quem sabe, - em incursão para o Pantanal?-, quem sabe, lá longe, adeus, adeus, adeus.

Esperei você sumir das vistas, esperei, esperei, esperei. Um vento forte bateu, um leão rosnou. E aí, quando os créditos subiram e invadiram a paisagem em letras garrafais, eu soube, de olhos abertos e castanhos, eu soube, meu amor, que tudo acaba nesse mundo, tudo, tudo, tudo, e mesmo sob todas as luzes, sob todas as águas turvas e palavras à toa, eu vivia uma história de amor.

por natércia pontes

Posted by cacoishak at 15:32

2.02.06

pág. 31-32

Não importava que aquilo (nosso encontro?) fosse inviável. Em princípio, a liberdade do vôo era a única condição para voar. É brega? Claro que é. Mas apostamos nisso. Eu, ainda mais tolo e caipira, apostei no amor. E ela dobrou a oferta e incluiu a tesão no jogo perdido. Grande mulher. Uma biscate. Linda, enfeitiçada.

Ter uma mulher como Joana não é algo fácil, que se resolva numa boa trepada. Ela me deu os subsídios para que eu pudesse enfrentar o pior dos meus inimigos, que era – e continua sendo – a solidão. Tive sorte porque entendi que havia me transformado num escroto. Devo isso a Joana. Sem exageros. Um amor de verdade serve para isso mesmo: para velar a si mesmo e aos nossos mais escrotos momentos de solidão. O resto é aparência, sexo, pistão, bate-e-volta. Arena de chimpanzés.

À solidão, portanto.

Que monstro é esse? A primeira providência para responder ao monstro é saber quem pergunta por ele. Se for o sujeito que há três semanas ainda acreditava (ah, que insistência...) em amor com vista para o mar, a resposta evidentemente seria luto, morte, dor e agonia: e o fracasso absoluto sob todos os aspectos. Agora, se a pergunta for respondida pelo sujeito que escreve nesse instante, a resposta é: tudo isso e mais um pouco de morte, fracasso, dor e agonia com uma bela vista para o mar encapelado do Leme. De um jeito ou de outro, o mais importante é saber que, independentemente da ocasião e apesar de quem é esse monstro e por quem ele pede, a resposta é a mesma: Joana não me quis, e acabou.


marcelo mirisola, em “joana a contragosto”.

mais familiar, impossível. vários aspectos. tomar notas.

Posted by cacoishak at 13:04

23.01.06

Last Night I Drove a Car

Last night I drove a car
not knowing how to drive
not owning a car
I drove and knocked down
people I loved
...went 120 through one town.

I stopped at Hedgeville
and slept in the back seat
...excited about my new life.

Gregory Corso


last night i crashed a car
and cracked a bank account
yet i do not know about poetry
perhaps about new lives
...and excitement

Posted by cacoishak at 11:43

16.07.05

305

quando meu querido amigo e belo ser humano glênio peres (no sentido de carregar dentro de si as melhores qualidades presenteadas aos bípedes implumes) levou-me à casa de luiz fernando veríssimo, em porto alegre, descobri um desses raros sujeitos que não temem sujeitos. glênio teve de dar uma saída e veríssimo passou dez minutos olhando para a minha cara sem dizer palavra. eu, de birra, também não disse nada, mas sofri muito. quando glênio voltou, continuamos o papo, isso é, eu e o glênio, pois o veríssimo apenas libertava - com muito favor - alguns dissílabos. veríssimo não é tímido. tímido somos nós, os alcoólatras, que não aguentamos outro ser humano ao nosso lado sem antes tomar três doses. graças a essas doses, sou famoso por meus discursos em qualquer celebração entre amigos. hábito europeu, faço isso para marcar uma data, para que no futuro as pessoas se lembrem de um momento que à época nos parecia importante. só não disse nada no enterro do meu irmão urbano numa tarde chuvosa. acho que a dor, quando não nos enlouquece, é extremamente silenciosa na sua eloqüência.

(fausto wolff, a milésima segunda noite)

Posted by cacoishak at 11:52

14.07.05

185

marko kasovof era comunista, ateu e líder da equipe búlgara de alpinismo. estavam escalando o aconcágua quando uma tempestade de neve soterrou os três companheiros de marko. ele, porém, conseguiu agarrar-se a uma raiz. jovem e forte, com uma das mãos desvencilhou-se da mochila mas perdeu a picareta. notou que a neve estava se desgrudando da raiz e logo chegaria à raiz da raiz propriamente dita. marko, em vez de apelar para marx ou lenin, fez o que qualquer ser humano já teria feito.
- deus, me salva!
em seguida, ouviu-se uma voz tonitruante que deslocou mais um pouco de neve em torno da raiz.
- mas você jamais acreditou em mim, marko. por que está apelando agora?
- perdão, eu me enganei. acredito no senhor. por favor, me salva!
- mas você acredita mesmo?
- acredito, meu deus!
- tem certeza?
- tenho, senhor.
- então larga a raiz.

(fausto wolff, a milésima segunda noite)

Posted by cacoishak at 14:02

29.10.04

- a... a... nietzsche! - god bless you...

§296

"A reputação firmada era outrora uma questão de extrema utilidade: e onde quer que a sociedade seja dominada pelo instinto de rebanho, ainda agora, para todo indiví­duo, o mais conveniente é dar seu caráter e sua ocupação como inalteráveis - mesmo se no fundo não o são. ‘Pode-se contar com ele, ele pemanece igual a si mesmo' - tal é, em todas as situações perigosas da sociedade, o elogio que tem a maior significação. A sociedade sente com satisfação que tem um instrumento de confiança, pronto a todo tempo, na virtude deste, na ambição daquele, na meditação e na paixão do terceiro - ela honra essa natureza de instrumento, esse permanecer-fiel-a-si-mesmo, essa imutabilidade de pontos de vista, esforços, e até mesmo de ví­cios, com suas honras mais altas. Uma tal estimativa, que por toda parte floresce e floresceu ao mesmo tempo que a eticidade de costume, educa ‘caracteres' e atribui a todo mudar, reaprender, tranformar-se, uma má reputação. E isto, em todo caso, por maior que seja de resto a vantagem dessa maneira de pensar, é, para o conhecimento, a mais perniciosa de todas as espécies de juí­zo geral - pois precisamente a boa vontade do conhecedor em declarar-se a todo tempo, sem esmorecimento, contra a opinião que teve até agora e em geral ser desconfiado em relação a tudo o que em nós quer firmar-se - é aqui condenada e adquire má reputação. A intenção do conhecedor, estando em contradição com a ‘reputação firmada', passa por desonrosa, enquanto a petrificação dos pontos de vista fica com toda a honra para si - sob o anátema de tal valoração temos ainda hoje de viver! Como é difí­cil viver, quando se sente o juí­zo de muitos milênios contra si e em torno de si! É provável que por muitos milênios o conhecimento esteve impregnado de má consciência e que muito desprezo próprio e secreta miséria há de ter entrado na história dos maiores espí­ritos".

(Friedrich Wilhelm Nietzsche - Livro IV, A Gaia Ciência)

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Posted by cacoishak at 14:56