20.12.07
meus dias de attorney
nesses dias em que um rato passa e dou bom-dia, chega dói pensar em quando era aprendiz de advogado na maior firma do norte e nordeste. não era mais que um mero office-boy de luxo, é verdade, mas comia e bebia e me fartava de tudo que havia do bom e do melhor na companhia de meu chefe tributarista, admirador de gramsci. tinha a obra completa do mestre na estante e refestelava seus cento e tantos quilos em sua poltrona de couro curtido com a língua presa me narrando seus dias de glória na juventude universitária. eu lá, pensando em sua mulher enquadrada no porta-retrato, não entendendo muito bem como um cara que morava na cobertura do edifício mais grão-fino da cidade e peidava ouro em pó em saquinhos de seda podia se considerar comunista. é preciso estar no olho do furacão burocrático pra poder corrompê-lo de dentro, dizia se atrapalhando nos érres. sim, sim, eu respondia estendendo o copo pra mais uma dose de seu blue label.
dias agradáveis, aqueles, no fim das contas. vou te contar... onde aprendi que a piada ensinada no curso de direito sobre a legalização da maconha era apenas uma piada e nada mais. dependesse dos causídicos já havia tanto formados ali, ninguém mais rodava em boca. o tempo, porém, passava e tudo continuava na mesma. aviões e blue label sorvido num canudo. ali, sim, não havia lei que imperasse por muito tempo. os putos eram bons no que faziam, ninguém podia afirmar o contrário. as festas que promoviam dentro e fora do escritório, no entanto, corrompiam qualquer antagônico.
foi numa dessas que comi a mulher do chefe. não a do tributarista língua-presa. essa, nunca deu as caras. as dos outros, em contrapartida, davam tudo enquanto eles se comiam entre um comentário e outro sobre instalações contemporâneas e poesia neoconcreta e uma talagada no on the rocks. clássico. era olhar prum lado e ver um galalau de metro e noventa espancando o tampo de vidro da mesa encharcada de blue label num surto carismático, olhar pro outro e sentir o cheiro de sua mulher se alastrando pelo cômodo ao tempo em que se esfregava num outro estagiário meio forrest gump na toada de frank sinatra. momento interrompido somente pelo tapa nas costas acompanhado de um tu é a bola da vez, meu garoto, vamos te lançar no mercado literário. a última bola descia trêbado as escadas de braços dados com um dos sócios. a literatura que se foda, pensei tratando de dar o fora dali.
ao lado da porta de saída, um banheiro onde entrei pra despejar o excesso de blue na privada antes de enfrentar a caminhada. não sei se a idéia de subir as escadas literárias numa só toada ou se o cheiro de bacalhau que empestava o ambiente, sei que a cabeça rodou. e, antes que pudesse alcançar a privada, o blue resolveu sair amarelo-verde por onde havia entrado, tão logo dera o primeiro passo porta adentro. no segundo, escorreguei no próprio vômito e a vontade de mijar passou. de terno preto a tricolor num estalo de dedos, escapei cambaleando. não conseguiria voltar pra casa naquele estado, fato ao qual me resignei e sentei na mureta da entrada da casa do chefe, esperando o mundo frear. quase amanhecendo. não demorou, apareceu a dona da casa com uma taça de champagne na mão. morena de seus trinta e poucos anos e sobrancelhas da malu mader, me perguntou se eu estava bem, em condições de dirigir. disse que não. deixa que eu dirijo, então, ordenando que eu entrasse no carro. não havia como fugir à lógica: era obedecer ou ser demitido.
não fomos pra muito longe, porém. já não aguentando o peso dos braços, lygia (era como a chamavam) estacionou sua paraty branca a cinco quarteirões de sua casa, ao lado do canal da doca – esgoto a céu aberto glamourizado pela prefeitura numa de suas políticas de revitalização do bairro forçadamente esnobe da cidade. nem quis tomar conhecimento do vômito, nem de label, nem de nada. nem dos atletas média-alta-alta em seu cooper matutino que passavam olhando pra dentro do carro. num pulo, foi pro banco traseiro e me puxou junto. trepamos com o sol já batendo em minha bunda pálida, fazendo a alegria dos ambulantes de semáforo que chegavam pra mais um dia de labuta.
não fui trabalhar dali a alguma horas. liguei pro tributarista língua-presa e expliquei a situação, do alto da ingenuidade que um estagiário de dezenove anos é ainda capaz de guardar em si com as têmporas estourando em ressaca de um blue label. rapaz, ele repetia. rapaz... dava pra ouvir as pedras em seu copo. acabava ali minha carreira na advocacia.
(conto meu que saiu na última edição da revista outracoisa, com a capa do goiânia noise festival - logo tasco ela aqui)
Posted by cacoishak at 15:39
18.10.07
ii se rasgum no rock

acordo às oito da manhã após três horas de sono pra mais um dia de trabalho. num sábado. de ressaca. trabalharia até às quatro da tarde, quando rumaria ao centro da cidade pra mais algumas horas de labor forçado na cobertura de uma nova edição do festival se rasgum no rock. a segunda. fossem outros tempos, ao menos o mau-humor seria garantido. mas que nada. tasco um rabo-de-arraia no chefe e caio fora antes do esperado. pra lá de zen. abro a primeira cerveja no caminho.
chego no african bar, onde de um tudo acontece. quando se tem poucos royales no bolso, então... uma maravilha. nada que se compare ao parque dos igarapés e suas trilhas no meio da mata, onde a primeira edição foi realizada. mas a gente se espreme. tudo em nome do independente. pego minha credencial – sem foto, vai a do pato donald – tudo em nome do independente.
renato reis, o despirocado das grande-angulares, é o primeiro a notar. sobrinho do tio patinhas. fossem outros tempos... mas que nada. pra lá de zen. o gaiato me puxa pro camarim do coletivo rádio cipó. uma pré do espírito que contagiaria o show no dia seguinte foi dada. efeito estufa. pra lá de zen. abro outra cerveja.
ouço os primeiros sinais de uma bateria. ou teria sido de uma guitarra? uma certeza: não se fazem cowboys como antigamente. múmias tocando chocalho, no entanto, até que soam interessantes. pura perda de tempo. e vou atrás de mais uma cerveja. e uma quinta. duas sextas. fora a sétima. tudo em nome do independente. no intuito de ficar calibrado para a quarta banda a se apresentar. filhos de empregada. um bando de frescos paraenses, tá certo. mas a chapação é garantida. por outro lado... como não é do meu feitio brincar assim com a sorte, não dispenso o melhor dos astros que me estendem tão logo a banda sobe ao palco. dona menina. sempre ela. cheia das tecnologias. todo o furdúncio de um peyote concentrado numa estrela vermelha. goela abaixo. com uma nova cerveja aberta. pra lá de zen. tudo em nome do... de quem mesmo? pato donald? dos filhos de empregada, que seja. puta show do caralho. arnaldão (o baptista) teria babado nas fronhas.
com dona menina ali, quem queria saber de festival? acabo perdendo as badaladíssimas ultraleve, turbo, johny rockstar e i.o.n. – o resto era o resto. sejamos justos: perder é uma palavra forte. estava lá de corpo. minha alma, coitada, que resolveu seguir a estrela e jazia pra além da via láctea. mãos inchadas de tanto escutar pelos poros e digitais. escracho. dona menina olhando por mim, tanto melhor. quando dava conta de escapar comigo. por vezes, não. numa dessas, perco também macaco bong (planária, da norman bates, jura de pés juntos que me viu aplaudindo do começo ao fim). eu, transmigrado, só conseguia me ver dando explicações ao segurança que havia me catado no banheiro. não era meu o saco, tentava lhe dizer, mas de mim ali na platéia. fala com ele. independente, o caralho. tudo em nome do zen-budismo. e del mister azul, quem me salva da forca.
o espetáculo, porém, não poderia parar. se havia, de fato, um cadáver em decomposição rondando, o show só terminaria quando ele se levantasse – parafraseando márvio rafael, aka marvel, da carioca cabaret – só perdeu no quesito bichona pros filhos. saio só glitter e pó de arroz, todo alegre. quando me cutucam. esse show aí tinha sido antes dos mato-grossenses. mas é? gargalho. com a boca já no gargalo. ainda nos bastidores pós-apreensão. escuto metais. saio correndo. dona menina me encontra, mezzo preocupada mezzo aos pulos com móveis coloniais. banda boa, essa de aracaju, hein? massa, né? tudo colorido. pausa pro vômito. e mais cores com cravo carbono (já tem matéria desses por aqui, falo mais nada).
de cara torta e rindo pras colunas, espero ansioso o show da norman bates. apresentariam as músicas de seu novo disco, equatorial lounge. dona menina me pede um tempo. contado no relógio. eu, sem noção das horas. acabo me perdendo, "cheio de amor pra down". supercordas em ação. não a banda, essa não veio. física quântica mesmo. madame saatan. desabo. de quatro. pra levantar só com mqn na veia. sintética nova, não. ainda por inventar. a banda mesmo. e haja porrada. telaviv ainda tocaria. eu, que não sou judeu nem nada, vou pra casa. seja ela na esquina ou no bar do parque. as últimas cervejas até o amanhecer. arroto. dona menina me faz cara feia. durmo. tudo em nome de um donald feliz.
segundo dia. domingo. eu, batendo ponto. acabo perdendo quase todas as bandas – attack fantasma, sincera e delinqüentes, pra ficar nas que importam. inclusive, a esperada nashville pussy. foda-se. nunca tive sorte com gringo. nem bebi do whisky distribuído pela vocalista nos camarins. quem precisa? chego faltando apenas quatro pra encerrar o festival. dona menina lá, curtindo desde cedo. eu, careta. pra cá de zen. tudo em nome do patrão. passando da hora de começar a trabalhar pra valer. abro a primeira cerveja da noite. então, norman bates não tinha tocado no dia anterior e acabaram de subir ao palco? impressionante isso de viagem no tempo. bora lá.
só que o espaço aqui está acabando. coisas de newton, fazer o quê? do coletivo, já fumetei acima. la pupuña deve ter bombado. cordel, sem comentários - meu fogo apagou. tentativa de mosh frustrada. saio escoltado fazendo o tê. pra já ficar nos bastidores, onde a festa terminou com cerveja de graça, muita fofoca e tietagem. sem esquecer das rodinhas, de mão em mão. mas como o que é bom sempre acaba... hora de ir. dona menina dirigindo. aguentou legal. tudo em nome do amor. acabou.
(essa "matéria" seria publicada na próxima edição da revista outracoisa. a falta de verba - consequentemente, de espaço - não permitiu que isso acontecesse. poderia publicar em algum outro canto, mas publico por aqui mesmo porque sou escroto e tava sem saco de sair por aí vendendo meu peixe - até porque a proposta do texto só se encaixaria, de fato, na outracoisa - saco, aliás, que se encheu todo - ou teria esvaziado? - de sábado pra cá... o texto, em parte, explica muito disso)
Posted by cacoishak at 3:49
5.08.07
em pasto

sabia como chegar
apenas não conseguia
ligou do celular dizendo que ia se atirar. olha pela janela agora pra tu me ver caindo. mas não encontrou a chave do cadeado que lacrava as grades da porta de vidro da sacada do décimo quinto andar. e ficava repetindo pra si mesma com o bucal do telefone na altura do peito. bois ruminam sua sorte.
bois ruminam sua sorte
não encontrou a chave que libertaria sua alma das verdades apreendidas numa tela de plasma ligada no canal carismático. levou o celular ao ventre. estabeleceu a única comunicação possível na cadeia de tempo em que era capaz de embarcar. a cada chute recebido, um soluço seco. um estampido de gente.
bois ruminam sua sorte
sabia como chegar. apenas não conseguia. não conseguia desatar os nós da garganta que se amontoavam nos pensamentos entre as ligações. entre os soluços. entre o pulo e a grade de ferro. correu até a cozinha. reconfortou-se com o brilho das gavetas escancaradas.
bois ruminam sua sorte
e um dia
ainda escreverão
que o blur foi a resposta
inglesa ao beck
desligou o telefone. vacas engendram sua morte a cada parto restabelecido.
bois ruminam sua sorte.
(mais um texto pra outracoisa. e mais um texto novo [nem tanto] por lá)
Posted by cacoishak at 8:26
20.07.07
descabaçando chico

diferente do que acontece por aí, meu pai nunca me levara a um prostíbulo. puta pra mim era Maria Madalena e olhe lá. convertida. enquanto os primos se lambuzavam com as conversas de que ontem à noite gastei quinhentos paus só com piva e black label, abstinha-me em frente à tevê nas madrugadas. barbudinho de smoking e sua salada de frutas. nem sabia o que era punheta (como é que tu bate? assim – palma da mão fechada pra cima – ou assim – palma da mão fechada pra baixo – interrogação). sem a menor inclinação pra vegetariano, cortava uma lasca de salaminho e encharcava a gengiva de conhaque roubado da mãe. desde cedo.
– não te disse pra me esperar em casa?
– quase fui.
perdi a virgindade pelo caminho. perdi o que perderia e acabei perdendo a festa. “te disse pra esperar. Perdeu.” perdi. uma sequência de agoras nãos. era mais velha, uns dois anos. e se contentou com o cachorro do vizinho que vinha lhe trazer almôndegas escaldadas todas as manhãs, tão logo o sol raiasse.
– era bangela, nem tinha perigo.
– no problemo.
voltei pra frente da tevê. zapeava o futuro e lambrisava o controle remoto de fora pra dentro com a palma da mão fechada pra baixo. assim me apetecia, como houvera recém-compreendido. com o tempo, fui aprendendo. desenroscava o bocal do telefone e o capiroto atendia do outro lado. linha cruzada.
– tá fazendo o quê? tá chiada a ligação.
– eu? acho que nada.
– tá chiada. tô indo aí.
chegou. mas já tindo ido embora. fui atrás de uma puta. o marido estava preso por tráfico de cocaína e ela era linda, como só Maria Madalena podia ter sido entre as não convertidas. ofereceu-me um trago em seu cachimbo de crack, recusado. escutei suas lamúrias chiadas do peito com o ouvido encostado em seu mamilo. em troca, cheirei seu sovaco. e fui pra casa. ainda virgem. já tinha ido embora. fui atrás.
– cachorro, não late.
da janela, as pernas abertas. era noite. indicador cruzando os lábios. “mas entra”. entrei mudo e saí calado, palitando os dentes com os fiapos que brotavam das aréolas. revestia-me do silêncio de minhas calças respingadas. ela, deitada.
– quantos anos tu tem mesmo?
– quatorze. por quê?
como se o semi-sorriso não me dissesse nada, parti. sem mais prosa, nem verso. o cabaço era meu e assim o guardei pra dois meses depois descobrir com tapinhas nas costas e sorrisos escancarados que eu, o comedor, rugia na cama que havia de a deixar toda assada.
– tem uma fila aí fora.
escapei pelos fundos, decidido a encontrar uma puta de verdade. a sete quarteirões dali. e fomos felizes, quebrando as caixas d'água das privadas com os solavancos à prestação, quando então saiamos correndo pelados pelos campos iluminados até encontrarmos uma sombra onde pudéssemos gozar na santa paz entre rangidos e um versículo e outro.
(texto escrito pra coluna na outracoisa. o novo, em pasto, já tá no ar)
Posted by cacoishak at 18:13
8.06.07
mais uma
coluna na outracoisa. outro poema inédito, pé de cabra. aí embaixo, o conto que saiu na semana passada, originalmente escrito em 2005. reescrevi e ficou assim:
leme & madalenas
suava frio, subindo a ladeira. meta número um pós-viagem: nas próximas incursões, dispensar os frutos supérfluos de minha precavida megalomania, levando na bagagem tão-somente o essencial pra boa higiene diária e as borrachudas que esquecerei de usar conforme o so nice pra chuchu fantasiado em considerações mentais que terei feito como fazia enquanto, suando frio, subia a ladeira rumo à estação do metrô.
restava-me pouco mais de 40 minutos pra chegar à rodoviária, comprar o bilhete pro rio de janeiro (certificando-me do lugar marcado ao lado), aquela mijada automática que dá adeus ao cago e embarcar tranqüilo.
já acomodado, senti a falta que fazia um cobertor. mas, na falta de um ou outro detalhe felpudo, apelar pra cara de pau não me parecia de todo absurdo. envolto pelas sombras quase apagadas do fim de tarde, um livro aberto disposto num ângulo semicerrado sobre as coxas haveria de resolver meu problema.
complicou. best-seller, chamou a atenção de uma velhinha que se levantava ao longe e ameaçava ir na nossa direção. e não foi. porque velhinha alguma não havia. mas havia um cão.
gelei quando paramos logo após a fronteira entre os estados. polícia rodoviária revistando os pertences dos passageiros e mirou certeiro, o pastor alemão. atravessou o corredor pendendo a mesma língua frouxa com que, eu já de olhos contraídos e ensaiando um lacrimejo, passou a lamber entre gemidos minha calça na altura da braguilha toda suja da porra que acabara de ejacular.
– tenho que revistá-lo, senhor. levante-se, por favor.
– à vontade.
– merda. desculpe. senhor.
– à vontade.
e o ônibus partiu. logo chegaria à maravilha que a capital me reservava. os três cigarros queimados um no rabo do outro (antes de entrar no prédio onde me esperavam), tentando esfumaçar um pouco o que então pra mim era claro o bastante a ponto de bambear as pernas e tudo mais que elas sustentavam. ao primeiro abraço e o completo torpor à primeira audição dos acordes tirados à cítara.
menino tímido que sou, de tempo em tempo pausava em vão o fluxo nervoso de palavras soltas que se sobrepunham umas às seguintes entre uma baforada e outra de minha consciência na esperança de que, de uma hora pra outra, sem mais nem menos, a tevê ligasse sozinha e nos levasse, eu e calvin, o gato castrado, pra uma dimensão segura porquanto depravada, a salvo das prendas que seríamos obrigados a pagar.
no entanto, a tevê não ligou. tarde demais. e foi dormir.
e fui me afogar um pouco no mar do leme, no intuito de exterminar os pensamentos impuros. malditos putos à prova d´água. persistiram durante a noite inteira e até a próxima. parcialmente recuperado do baque (resignado me soa um tanto mais sincero), retornaram os tremeliques e fantasias que levei dali na manhã em que, tão logo entrara no banheiro, dei de cara com a despedida escrita no espelho com batom vermelho e o cheiro de orvalho que vinha da roupa suja.
Posted by cacoishak at 23:05
26.05.07
tudo em família
a pia ainda está entupida. de cabelo, catarro, pasta de dente e pedaços de vômito. foi acumulando. fiz que não via passar. ele ia me dando com o desentupidor na cabeça, gritava alto. toda manhã era a mesma coisa. o reflexo de narciso em bolhas de gás carbônico vindas do fundo das provocações a que eu submetia todos da casa. eu, o bonitão. tentava impor minha beleza aos que não tinham espelho guardado na sacola. o tempo ia passando. acumulando. fazia que não via passar. era terapia.
tempos perdidos. a primeira lembrança que tenho de tudo é a de meu primo me dando as boas-vindas com seus companheiros na escola onde me matricularam tão logo chegara à cidade – sem pai, nem mãe que me chutassem a bunda. o homenzinho da família desarregimentada, já sem um dos dentes da frente – não demorei pra encontrar quem o fizesse. tudo em casa. e haja espancamento* no recreio. um contra a sala inteira, só me restava fugir. pra bem longe, o mais longe possível. encostava-me num canto e ficava tramando a extinção da humanidade. pura terapia.
eu, o patinho feio. orelhas de abano, sem queixo, fundo de garrafa. só fazia me foder. ainda assim. “mostra a tua, que eu mostro o meu”, eu dizia. no que ela respondia “tá, tudo bem, mas não vamos fazer nada mais que isso”. ninguém acreditava. com uma insistência fingida contra uma resistência tão quanto, deixava-me tocar um pouco aqui, acolá. acariciávamos um ao outro, o que durava até aparecer a irmã. acabava com a mágica. acabava comigo. não tardava pra recomeçar tudo de novo, portanto. e um tanto melhor, posso dizer. ficava deitado no sofá. a irmã, vestindo apenas um blusão, estirada sobre o chão – esperava a outra pegar no sono – entre new kids on the block na tevê e eu. suspendia o pedaço de pano velho até a altura do umbigo e, com as pontas dos indicadores, arregaçava a calcinha, deixando à mostra o chumaço de canela. quando, então, jogava a cabeça pra trás, encarava-me de baixo pra cima e sorria que nem cabrita com a boca inchada de tanto bater a omelete pro jantar. se eu pulasse em cima, berraria. cresceu e se formou em psicologia.
inundava um tanque cheio. e nadávamos na piscina da casa da vó. eu e o primo. eu, o retardado impulsivo. resolvi testar a nova brincadeira aprendida e espirrar água em seu rosto com as mãos fechadas. não gostou da brincadeira. com as mãos abertas contra minha cabeça, empurrou-me pro fundo. éramos só eu e ele, enfim. e afundamos, os dois. uma tragédia, não fosse o tio de roupa e tudo num mergulho, salvando os dias seguintes. mães e irmãs gritavam. a minha, recém-chegada de onde me despachara, lamuriando-se no quarto. anos depois, quebraria uma prancha de isopor no cocuruto de uma bichinha portuguesa da escola na aula de educação física. o todo-poderoso narciso. xinguei a madre superior, dando-lhe alguns tapinhas no rosto, e mandei o pai do garotão lamber suas bolas em louvor aos santos e mártires. todos umas bichas carolas, esses portugueses.
– não conta nada, pelo amor de deus.
– por que não posso contar?
– não conta...
– ele enfiou o pinto dele na minha bunda. ele e os meninos.
– mas foi ele quem quis, foi ele. disse que ia contar pra todo mundo se a gente não enfiasse nele também.
devia ter uns seis, sete anos. meio forrest gump com clara de ovos escorrendo pelos ouvidos. acostumaram-se com as brincadeiras do primo mais velho que nos trancava no quarto, iniciando-nos nos ritos da masturbação coletiva (o mais novo manejava sua verruga com as pontas dos dedos, qual uma pinça, a imagem desajeitada da compaixão) enquanto escutava eddie vedder gemendo no rádio e penteava os cabelos em frente ao espelho com a outra mão, entupindo o ralo da pia. de cabelo, catarro, porra e vinho.
só os fracos recorrem à terapia.
*também trocadilho
(coluna da semana passada na outracoisa. pois é. voltei).
Posted by cacoishak at 20:33
17.05.07
tudo em família
tá no ar a coluna da semana na outracoisa. só pra constar, fica aí embaixo a coluna da semana passada, sobre o sexo anal do biajoni.
ooOoOoo
SÓ NA BUNDINHA
– Posso fugir um pouco da regra logo na coluna de estréia e escrever sobre literatura ao invés de fazê-la?
– Como assim?
– “Sexo anal”. Escrever sobre “Sexo anal”, livro do Biajoni.
– Rapaz... conto com sua elegância.
De minha parte, toda elegância do mundo. Pernas cruzadas, inclusive, pra disfarçar a ereção. Mas que culpa tenho se a protagonista da história, Virgínia, termina o tomo soltando as pregas na pérola “o amor é um pau no meu cu!”? Que me desculpe o caro amigo Adilson, não deu pra resistir. A essa altura, já tinha aberto a braguilha umas duas ou três vezes e perdido a compostura em frente ao computador.
Sim. Trata-se de um e-book, em PDF. “Sexo anal, uma novela marrom” de Luiz Biajoni, ainda não recebeu proposta de editora que seja pra ser publicado. Injustiça das maiores já cometidas ultimamente no mercado literário brasileiro. 204 páginas em LCD prazerosamente lidas numa madrugada – ô, livrinho ruim, esse, vou te contar. Aliás, é o que também acham os que já o leram por aí. Detestaram, todos.
O autor, inclusive, jornalista e blogueiro de carteirinha (escreve em www.verbeat.org/blogs/biajoni, onde o livro pode ser baixado), pra que não duvidem, disponibilizou as opiniões em www.novelamarrom.blogspot.com. Não estou sozinho. Se até em “O Globo” já saiu crítica... e favorável. Thumbs up. Bem lá no fundo.
Falei, falei e nada disse sobre “Sexo anal” até agora. Me gustam las preliminares. Mas vamos ao ponto. Luiz Biajoni é um apaixonado pelas mulheres. Um jornalista apaixonado pelas mulheres. E é macaco velho. Entende mui bem tanto de um quanto do outro assunto. E trata com propriedade (que conhece, conhece; se participa...), ao longo do volume, do título e do subtítulo.
Não à toa, colocou Virgínia em um jornal sensacionalista do interior paulista. Não à toa, cobrindo o estupro seguido de morte de uma colegial por três fora-da-lei. Não à toa, tudo isso enquanto a moça sofre pelo término de seu relacionamento com o namorado Luiz devido a uma traição cometida por ela, que acabara caindo em tentação com seu médico proctologista durante uma consulta pra resolver seu problema de hemorróidas – que também não apareceu à toa, diga-se.
“Sexo anal, uma novela marrom”. Precisa dizer mais? Precisa. Precisa dizer que o livro passa longe de ser mera pornografia, como sugere o título. É, antes, uma história de amor contemporânea das mais belas, pra macho nenhum botar defeito. Estão lá toda a insegurança e o desnorteamento que um machão do século vinte e um pode sentir diante de sua mulher emancipada e dona de si e que, aliás, tem um emprego bem melhor que o seu.
Mas é, também, um romance social, que retrata bem os bastidores de um crime, não se limitando a estigmatizar o bandido como o sujeito mau que adora praticar o mal porque nasceu mau e pronto, cana nele – e cano adentro. Embora em nada floreie o destino de quem se mete numa roubada. Pelo contrário. O destino aqui acaba sendo dos mais cruéis, o cara brocha na hora.
Em outras palavras: brasileiro só faz levar no cu, não tem outra. Seja por prazer ou por pura falta de sorte.
Posted by cacoishak at 0:56
10.05.07
só na bundinha

a partir de hoje, toda quinta-feira, tem coluna minha no site da revista outracoisa. agradeço ao amigo adilson pereira pelo convite e prometo não decepcionar. na estréia, escrevo sobre o sexo anal, do biajoni. acho que comecei bem. confere lá.
Posted by cacoishak at 17:15