12.06.08

diários saatânicos - segunda parte

demorou, mas saiu - como tudo nessa vida quando sou eu por trás das coisas. demora. mas sai. não necessariamente nessa ordem.

Posted by cacoishak at 22:36

24.03.08

Juliana Sinimbú: do pé sujo a barba, cabelo e bigode

Mal havia nascido e já corria solto o ano de 2006, auge da biritagem de bar em bar - nenhum em especial me fazia cair de amores. O que importava era se o estabelecimento tinha cerveja gelada e barata (barata, acima de tudo). Numa dessas foi que caí no Bodega, casa nova no pedaço. A cerveja nem era tão gelada assim, pra ser sincero. O preço, apesar de deixar o sal pros quitutes da cozinha, também não tirava da boca dos clientes algo próximo de um "nossa, quase de graça, né?". Um pé-sujo dentro da média, portanto. Nada de mais. Ou quase.

Lá pela quarta ou quinta garrafa, ouvi o choro de um violão. Até aí, novamente, nada de mais. A voz que acompanhava o violão, porém, me fez virar a cabeça em direção ao palco no ato. E ah... batia certinho. Não era tão-somente uma bela voz que cantarolava Waldemar Henrique. Não, senhor. "Quem é essa?", perguntei pro bebum da mesa ao lado. "Juliana Sinimbú. Nunca ouviu falar, não?". Ao que reiterei um "não" meio sem jeito. "Pois grave esse nome, meu amigo".

Gravei. Não só o nome. O timbre de Iara havia sido incrustado entre uma sinapse e outra também, afogando os neurônios pela frente. Como se saísse no formato de seus lábios rasgados, seu canto picotava meus ouvidos. Fazia de mim gato e sapato. Fiquei sem reação. Copo cheio estacionado na mão a meio caminho da goela. Logo eu, zé-manguaça com DRT e tudo, abstêmio por conta de uma crooner de botequim.

Caí de amores. Pela crooner, pelo pé-sujo, pela cerveja nem tão gelada nem barata. Virei cliente assíduo. Batia ponto todas as quintas, quando ela cantava. E, ao longo de um ano, acompanhei a rápida evolução da mocinha, que foi lapidando seu repertório com a fina flor do cancioneiro popular brasileiro e paraoara.

Até o dia em que a Sinimbú sumiu. Pelo menos, do Bodega. "Cadê ela? Por que não canta mais aqui?". O garçon: "ih, agora ela tá chique. Só canta em teatro e bar-restaurante com ar-condicionado". Inveja é uma desgraça. Só em teatro e bar-restaurante com ar-condicionado? Pois bem. Agora, sim... bateu certinho. Barba, cabelo e bigode. Nos trinques. Um luxo só. À altura da musa.

Deixei de freqüentar o Bodega. E só não corro atrás da Sinimbú pelos teatros e bares-restaurantes com ar-condicionado da vida porque... bueno. Em teatro, não se pode beber. Já em bar-restaurante com ar-condicionado... não existe cerveja barata e nem gelada o suficiente, convenhamos.

Mas, ah, se ficasse na sarjeta, do lado de fora, tomando meus gorós sozinho e escutando a Sinimbú cantar entre um abrir de porta e outro... ah, que bela sarjeta seria.

Posted by cacoishak at 14:23

2.01.08

eurekas, guaribadas e um luxo só

Lembro bem da época em que me trancava no banheiro quando era criança e por lá ficava a tarde inteira depois da aula, ora ensaboando um tubo de ensaio, ora destroçando despertadores pra tentar consertar tudo de volta – sempre em vão. Tinha esse kit antigamente, esqueci o nome, que chegou a ser febrícula num desses verões entre os jovens cientistas do século XXI, e que vinha com umas substâncias químicas e uns materiais de laboratório. Pirava com tudo aquilo. Ficava louco até por demais, trancado naquele banheiro e misturando elementos na doida. Tudo em benefício do novo. Raspava um sabonete aqui, espremia um creme mais adiante e voilá. Pra alguma coisa aquilo prestaria.

Mais ou menos nesse mesmo período, reuni os primos – uns seis ou sete – encasquetado que estava com a idéia de formar um grupo justiceiro mirim que combatesse o crime e ajudasse senhoras a atravessar as ruas e que resgatasse seus gatinhos presos nas árvores da vizinhança - algo entre o Trem da Alegria e os Galaxy Rangers, além de mascarados (uma coisa meio bicha, agora vejo). Pra tanto, em primeiro lugar precisávamos – é claro – de meios de transportes a nossa altura e de nossos propósitos. Não de qualquer bicicleta ou skate. Isso, qualquer mortal da nossa idade tinha. Por que não uma bicicleta que também pudesse ser pedalada na água sem que toda a carcaça afundasse com o dono, mas pelo contrário? Gangue reunida, não hesitamos em usar as Monarks de nossas irmãs e as pranchas de surf de seus namorados e mais as ferramentas de nossos pais num experimento na garagem de nossa avó. Era só adaptar um pouco e os criminosos não teriam chance alguma. Batata.

Com o tempo e alguns vidros de xampu esvaziados e muitos despertadores e bicicletas sem conserto depois, fora os cascudos levados de proprietários mil, desisti de levar essa vida de inventor. Desgastava muito e acabava não trazendo contrapartida nenhuma – daí ter investido em carreiras mais promissoras como música, literatura e jornalismo. Ainda assim, não era difícil de me pegar pensando em como as engrenagens do primeiro relógio haviam sido construídas ou como Thomas Edison havia tido a brilhante idéia de inventar a lâmpada.

Um zíper, por exemplo. Imagina quantos sacos o sujeito não deve ter estourado até que, finalmente, ele pudesse fazer jus a seu primeiro eureka emitido no meio da noite – talvez, com o seu próprio preso na bugiganga? E o garfo? Acreditem, a vida antigamente não era nada fácil. Já tive a experiência de ser obrigado a comer um frango inteiro só com as mãos e metade de meus cabelos deve ter caído com a oleosidade que ficou incrustada no couro cabeludo nos dias seguintes – o não tomar banho fazia parte do experimento medieval.

Belo dia, porém, chego em casa e encontro, na caixa dos correios, um livro. "A evolução das coisas úteis", do americano Henry Petroski. Segundo o autor, o tomo tinha o propósito de explicar como "os utensílios se multiplicam e se diversificam dentro de uma lógica evolucionária, de modo tão natural quantos os organismos vivos, cada qual com sua função em algum esquema geral". Chapei. Junto com o pacote, um bilhete do meu editor: "te vira". Logo eu. Minha missão era escrever uma matéria sobre mais ou menos isso, só que diferente. "Uma espécie de passeio pela história por trás das coisas". Tá certo, pensei. E corri atrás.

O primeiro passo foi mandar um e-mail pro tal Petroski. Por que diabos alguém teria escrito um livro sobre colheres e clipes e saca-rolhas, em vez de partir pro que realmente interessava, como aviões ou a bomba atômica?

"Comecei a escrever o livro porque queria explicar como os objetos foram redesenhados em resposta a algumas falhas permanentes e reais. Quando algo não funciona direito ou mesmo quando não satisfaz o senso estético de alguém, será redesenhado. Isso é feito principalmente por engenheiros, inventores e designers industriais. Essas pessoas estão entre os críticos mais severos da tecnologia e vêem as falhas como incentivos para que funcionem melhor ou tenham uma melhor aparência", foi sua resposta.

Ah, bem. Então, a coisa toda tratava de abordar um "senso estético" também? Interessante. Eu, que sempre vi isso tudo de design com olhos reticentes, pra dizer um mínimo, fiquei meio curioso. Ainda assim. Meu negócio era a invenção em si e preferi seguir por esse caminho. Em seu livro, Petroski afirma que a necessidade não é, necessariamente, a mãe das invenções, mas o luxo. Apesar do ponto ser interessante, não sabia se concordava ou não com aquilo – proteger os pés não me parecia uma questão de sair por aí desfilando tanto quanto de evitar uma topada pelo percurso. Mas quis saber o que Henry tinha a dizer.

"Não costumamos saber que precisamos de algo até que é inventado. É a invenção que cria a necessidade, não o contrário. Consideremos o telefone celular, por exemplo. Antes de ser inventado, nenhum consumidor dizia que precisava de verdade de tal aparelho. Pessoas aceitavam o fato de que os telefones tinham de ser conectados a uma linha. Os primeiros celulares eram grandes, com poucos atrativos e a cobertura era extremamente limitada. Ter um era puro luxo. Só quando os aparelhos foram aperfeiçoados tecnicamente e feitos com um visual mais atraente é que as pessoas começaram a sentir que eles eram necessários".

Filho da mãe. Fazia sentido. Na verdade, depois disso, tudo fazia mais sentido. Até o próprio design. Antes de continuar a conversa e quebrar a cara bonito, portanto, achei por bem falar com alguém de confiança que entendesse do assunto. Jorge Sá Ribeiro, designer industrial pós-graduado em marketing. Haveria de tirar todas as minhas dúvidas antes de continuar a conversa com Henry.

"O Design, como o conhecemos, é uma ferramenta recente na história da industrialização. O que não significa que ela não existia sobre outras denominações. Design vem de desenho do latim e designo do inglês. Logo, significa a atividade de desenhar para uma finalidade ou, simplesmente, o que já foi chamado antigamente de 'arte aplicada'. O que aconteceu foi uma evolução na interpretação da atividade que 'empacotou' diversas habilidades sob uma mesma denominação e atribuiu como foco uma análise para o melhoramento do ciclo de vida do produto, desde o fornecedor de matéria prima, passando pelo produtor e principalmente pelo consumidor, até o descarte. Hoje o designer é um profissional de ciências sociais, um profissional convergente que nunca irá substituir um engenheiro, um cientista ou um marceneiro, mas que deve ser preparado para interagir com cada um deles servindo como uma ponte entre os desejos do consumidor e as limitações e possibilidade dos técnicos. Portanto, o design é uma extensão da revolução industrial nos tempos modernos", veio falando todo excitado.

Fiquei embasbacado com tanta objetividade. Pra quem jurava que isso de design era coisa das mais fúteis, que interessava somente a quem desejasse enfeitar a sala com pedaços de vidros coloridos enfiados num espeto só pra mostrar aos amigos que é chique, todas essas informações foram um verdadeiro estopim pra uma revolução dentro de minha cabeça. O design talvez pudesse mesmo ter uma função, afinal. De fato, encaixava com tudo aquilo que Petroski havia me dito e que eu tinha lido em seu livro.

Um trecho, em particular, resumia bem essa "diversificação do design". Uma reflexão de um tal Adrian Forty, pra quem havia duas maneiras de explicar esse mecanismo. "A primeira delas, apesar de um tanto circular, é que há uma evolução contínua de necessidades criadas pelo desenvolvimento de novos designs, tais como máquinas e instrumentos que são cada vez mais complexos e compactos. Os novos designs requerem, para a montagem e desmontagem, novas ferramentas, que por sua permitem que outros designs sejam criados. A segunda explicação para a grande variedade de artefatos é 'o desejo que os designers têm de expressar sua engenhosidade e talento artístico'".

Estava mais inquieto do que de costume. Por mim, pegaria um papel e uma caneta e começaria a expressar toda minha engenhosidade o quanto antes. Nesse vai-e-vem de pensamentos, porém, ocorreu-me um contraponto dos mais válidos. Em nossa conversa, Petroski atentou pro fato de que nem todos – e eu, havia pouco, era exemplo disso – eram tão chegados a essas modernices. "Algumas pessoas parecem ter um senso estético que é melhor satisfeito mais por coisas antigas do que pelas novas. Preferem designs antigos porque se sentem mais confortáveis com eles, não precisam se acostumar com algo novo ou aprender como ele funciona".

Nem preciso ir longe pra encontrar alguém assim. Nem era à toa, aliás, minha ojeriza ao novo. Lá em casa, por exemplo, a decoração é do tempo do ronca. Espelhos, sofás, estantes. Tudo data de um século ou mais. Velharia é com minha mãe mesmo. Se pergunto a ela o porquê, responde sem pestanejar: bom gosto passa longe de ser descartável, meu filho. O que logo entendo quando vejo nas casas de amigos pedaços de vidros coloridos enfiados em espetos de ferro no meio sala como se fossem o supra-sumo do design contemporâneo. Valei-me. Mil vezes a mala de viagem do século XIX aberta no meio da sala a servir como porta-garrafas de minha mãe.

A adaptação de certos objetos, aliás, é uma outra característica interessante a ser explorada nesse mundão de meu Deus do design. Pra quem vive num estado como o Pará, então, é um prato cheio.

"A cuia, por exemplo, é um objeto de origem indígena que tem como finalidade armazenamento de água e alimentos. Porém a mesma foi incorporada pelos portugueses durante a colonização com a mesma finalidade que era o armazenamento de água e alimentos. Até hoje usamos a cuia, quando queremos tomar mingau ou tacacá ou mesmo como objeto decorativo a partir da valorização do elemento étnico e do fortalecimento das atividades turística onde a cuia aparece como elemento de venda. Temos um ótimo exemplo nas cuias de Santarém, onde percebemos que um objeto indígena foi introduzido na cultura ocidental, transformada e adaptada aos moldes portugueses, fácil de ser notada na pintura e nos traços lusitanos pintados na cuia", explicou-me o antropólogo Carlos Chaves, formado em história e Mestre em História Social da Amazônia.

Eu, que não sou besta, deixei o homem falar. E fiz bem nisso. Retomamos a conversa de onde ela parou, lá atrás: "Claro que, em sociedades distintas, as necessidades sobre um aspecto cultural podem variar. Porém, quando falamos de objetos temos que perceber que há uma mesma estrutura quer envolve diferentes sociedades. Por exemplo, quando queremos armazenar água. Um ancestral nosso anterior ao hommo sapiens poderia usar um pedaço de folha para esse procedimento. Um índio da América do Sul usaria uma cuia ou armazenaria em cabaças que servem de cantil. Já nós, dependendo da quantidade que desejaríamos armazenar, usaríamos uma cisterna, uma caixa da água ou mesmo um copo. O que quero dizer é que cada sociedade confeccionou seus objetos e ferramentas para atender suas necessidades de acordo com as diferentes situações que pudessem surgir. Nesses exemplos que dei, você pode perceber que a finalidade foi a mesma: armazenar água. As ferramentas são diferentes, pois são frutos das necessidades que cada sociedade tem".

Ou seja: necessidade é que nem gosto, que, por sua vez, é que nem outras coisas. Cada um tem a sua e o seu. Ao cabo de tanto papo, pude ver que Lulu Santos é que estava certo: assim caminha a humanidade. Satisfazendo seus egos e suas precisões. Porquanto seja assim, assim será a evolução das coisas a seu redor.

Concorda comigo Mr. Petroski: "Não acredito que há um limita para a criatividade humana. Nada que já foi construído é perfeito. Então, há sempre um espaço para o aperfeiçoamento. Mesmo as coisas aperfeiçoadas não satisfarão a todos, especialmente inventores e engenheiros, que buscarão jeitos de melhorá-las ainda mais. Mesmo quando algo estiver funcionando muito bem tecnicamente, designers industriais irão tentar aperfeiçoar sua aparência para que se pareçam cada vez mais modernas. É um processo sem fim".

E, pra que não haja dúvidas, os responsáveis por essa evolução somos nós mesmos. Uma evolução tocada de nossos banheiros e garagens, destroçando as bicicletas de nossas irmãs e incendiando as cozinhas de nossas namoradas. Não é mesmo, Henry? Por supuesto: "Somos todos inventores. Consumidores são inventores quando eles levam pra casa algo da loja e adaptam-na a um propósito não pretendido ou imaginado por seus designers. Diferentes consumidores podem inventar diferentes maneiras de se usar uma mesma coisa. De fato, houve uma vez em que um consumidor comprou uma caixa de palitos de dentes e os usou pra construir maquetes de pontes; um outro, comprou a mesma caixa e usou o palito pra colocar uma quantidade pequena de cola num objeto quebrado que também era bem pequeno e, assim, consertá-lo. Sempre que usamos algo com outro propósito que não exatamente o dele, estamos agindo como inventores".

(matéria publicada na revista paraense LIVING - versão sem cortes)

Posted by cacoishak at 1:11

10.12.07

entrevista - pp condurú

Mais uma tarde de domingo na Cidade Velha, em que as famílias do bairro tombado por natureza se reúnem em frente às casas e fofocam sobre a vida alheia enquanto assam o churrasco regado à cerveja. Mais uma tarde quente e mormacenta de domingo na Cidade Velha. Não fosse em plena quarta-feira. Menos mal sendo o feriado da Adesão do Pará à Independência do Brasil. Troca-se o churrasco por uma lasanha de forno. As cervejas continuam. Comemoremos nossa liberdade, afinal. Ainda que a liberdade dos que trabalham. Livres, leves e soltos. Há quem pense não seja possível. Felizes dos que vivem à margem das impossibilidades, pois.

Toco a campainha do Casarão, espaço onde atualmente trabalha o artista plástico Pedro Paulo Condurú, o PP. Ouço uivos. Intermináveis. Os cachorros no porão não latem, cantam. Cada um numa toada. Falta-lhes um maestro. E também parecem felizes com isso. Ninguém atende à porta. O sol assando carne de cabeça. Toco de novo. Atravesso a rua e me protejo debaixo de uma sombra. Alguém aparece na janela do segundo andar. Identifico-me. A pessoa some. Reaparece já com o portão aberto. Convida-me a subir as escadas. Na sala, sentado em frente ao computador, ao me ver chegando, PP se levanta e estende a mão. Enfim, após tantos causos mal contados, estava frente a frente com o lendário pintor marginal paraense. De cara, concluo: adjetivos demais pra quem demonstra tanta substância logo numa primeira impressão. “Nem me lembrava que tinha marcado essa entrevista. Já pensou? Tiveste sorte”.

Compreensível. Faz tempo que PP não anda. Corre contra o tempo e contra todos para que tudo fique pronto até o dia 13 de setembro, quando do vernissage da exposição “À Luz do Sol”. Parte de uma série de eventos que farão a retrospectiva de seus 30 anos de carreira, reunirá algumas de suas mais de 700 pinturas na Casa das Onze Janelas, desde o primeiro desenho até as experiências na tela de um PC. Paralelo a isso, PP ministrará palestras e workshops no Instituto de Artes do Pará (IAP), órgão que também lançará, em edição de luxo, um livro com reproduções de sua obra, acompanhadas de textos críticos. Obras estas que ainda rechearão um DVD, junto com depoimentos de boêmios tarimbados como o poeta Max Martins, o fotógrafo Miguel Chikaoka, o arquiteto Paulo Cal, entre outros.

Interrompendo uma lasanha de forno entre amigos na tarde quente do feriado de quarta-feira – pausa entre um compromisso e outro –, consigo alguns minutos a sós com PP e seu copo de cerveja para conversamos sobre sua trajetória, a retrospectiva e, em meio a um realinhamento das idéias e outro, tentando tirar-lhe alguns desses acontecimentos que o tornaram lenda viva na cidade e fora dela. “Não existe esse papo de lenda, as pessoas é que não têm o que fazer e ficam inventando histórias. Tudo lenda, isso sim”.

IAP - Me fala um pouco da exposição que vai rolar em setembro.

PP - É tão legal essa exposição, que ela fala por si só. Ela tem a capacidade de envolver as pessoas de uma tal maneira, que, quem não se envolveu, é porque não entrou. É um trabalho que diz respeito às pessoas que estão nele envolvidas. Diz respeito à Belém, ao ser humano. Tem toda uma colocação humana nele. Todo esse respeito, esse comportamento vão agregando pessoas e a coisa vai tomando fôlego. A arte vai crescendo com isso, tornando-se uma expressão de todos. É legal porque cada um começa a ver coisas e partes que não via. Fico imaginando um indiozinho embaixo de uma árvore, num igarapé, com um livro desses nas mãos e viajando. Pensando assim: “mas esse pessoal de Belém é muito doido”. Isso seria bem legal.

IAP - E o que tu esperas que aconteça na cabeça desse indiozinho depois que ele conhecer teu livro?

PP - Aí é que tá. Espero que ele se valorize mais, porque esse trabalho está todo voltado pro bem do bem, não pro bem do bonzinho. É uma história assim: o que ele diz, o que ele veio a ser, é que você é legal. Não existe uma fórmula. Você é legal, então se valorize. E o indiozinho vai descobrir isso. O que eu fiz por mim... fui lá, não sabia desenhar, não tinha escola, nem nada. Mas aprende-se. Vai lá, fica o dia todo rabiscando, até tu aprenderes. É isso que eu estou passando para as pessoas. Vai lá também, risque, acredite. Então, eu acho que o mínimo que esse indiozinho vai sacar é que ele é do caralho.

IAP - Como é que foi pra tu começares a desenhar?

PP - O desenho sempre esteve na minha vida. Assim... o Presidente do Banpará e um dos Ministros da Justiça do Governo FHC eram meus vizinhos de casa, estudávamos na mesma escola, fomos escoteiros juntos. E eles faziam curso de pintura. Eu queria, só que era muito caro pros meus pais, eles tinham muitos filhos. Daí, entrei e saí. Mas fiquei com as tintas. No início, fiquei borrando. Mas a partir de 70, 72, eu passei a gostar mesmo. No livro, tem coisas dessa época, de 71. Bem legal.

IAP - Quais eram tuas influências na época? Quadrinhos, pintores?

PP - Não sei, não sei mesmo. Eu era muito ingênuo. Era uma coisa que vinha de dentro, queria me expressar. Influência nenhuma. Nada, nada... nada. Esse cigarro é teu?

IAP - Pode pegar.

PP - Não, pensei que fossem os meus. Não gosto desse.

IAP - Certo. Estava dando uma olhada no livro. Essas pinturas expressam...

PP - Não, olha. Dentro da exposição... esse livro que tu tens em mãos, por exemplo, está cheio de anotações. Esses textos estarão ao lado das obras na exposição.

(Tento ler as anotações. Não consigo me sair muito bem).

IAP - Idiota do cunhado... rabo de gato... não to conseguindo entender muito bem.

PP - Ah, tá. É porque, nessa época, o idiota do meu cunhado era meio chato e ele me mandou cortar o rabo do gato e eu cortei. E por aí vai...

IAP - Todos os quadros, então, têm uma história que será contada na exposição?

PP - É, sim. Olha, esse aqui também tem. E aquele... mas são histórias que só entram mesmo na exposição. Não entram no livro porque acho que, nessa hora, o livro tem que falar por si só, é um objeto. Não é uma amostra, que logo acaba. Vai durar pro resto da vida. Não me interessa ficar dizendo o que é e o que vai ser. A pessoa que tem que olhar e ver, curtir, viajar. Eu não vou pintar na tela o que eu poderia escrever no papel. Vou respeitar o material literário e o artístico. Não estou falando sobre escrever numa tela, coisa que já fiz e muito. Estou falando do tratamento que é dado pro papel e pra tela, diferentes. O mesmo se dá com o ferro, com o mármore. Pra cada um, tem um tratamento e tem que ser respeitado, senão tu quebras a cara. Até o sonho humano... se tu tentares pintar um sonho, tu vais quebrar a cara.

IAP - Sei... fiquei curioso pra saber um pouco mais sobre essas histórias que envolvem os quadros.

PP - É o que eu te falei. Essa exposição ficará em cartaz por quatro meses. Tu podes voltar aqui e a gente vai fazendo isso por capítulos, um por mês. Porque isso tudo reflete Belém. As pessoas não param pra ficar só nos quadros ou no livro, não tem essa. A muvuca em pauta que é legal. As pessoas sempre querem saber quem era que estava li, se teu pai, teu tio.

IAP - E os nomes serão revelados?

PP - Sim, vão. Vai ter uma pia batismal lá com o nome de todo mundo, das pessoas que ajudam, que atrapalham (risos). As anotações que estão nesse livro já estão liberadas. Se houver algum nome aí, vai sair. Mas acho que evitei isso ao máximo, acaba não sendo legal.

IAP - E o que tu acha de contar uma dessas histórias agora?

PP - Ah, eu tenho várias. Mas não, não. Isso é lenda e isso de alimentar lenda não é comigo. É que nem uma menina, restauradora, que chegou comigo dizendo que, dos artistas com quem ela trabalhou, eu sou o mais rebelde. Que eu devia me policiar e trabalhar com certos tipos de materiais. Qual resposta eu posso dar pra uma pessoa dessas? Olha, se não fosse eu, tu estarias desempregada (risos). Porra, a restauradora taí pra isso. Eu tô aqui pra aloprar.

IAP - Como se dá essa escolha dos materiais? Tu mudas constantemente?

PP - Sim, claro. Tudo ao mesmo tempo. Fiz o livro, o DVD e pinto. O computador te possibilita um mundo de coisas. Tô fazendo música, cara. Precisou de trilha pro documentário e eu tô fazendo. Nunca tinha feito música. Peguei o computador e baixei um programa. Comecei brincando, fiz umas três ou quatro. Depois, comecei a levar a sério. Fui tocando piano, fazendo melodia, bateria. Mas não me chama pra tocar piano de verdade, nem violão. Meu negócio é no computador.

IAP - Entendo... vamos falar, então, das exposições que tu já fizeste. Como o público encarava? Qual era a repercussão dos temas abordados? Me conta histórias...

PP - Ah, teve uma em que saiu uma entrevista no jornal e a exposição ficou lotada. Ela atingiu Belém em cheio. Isso foi em 1997. E eu não estava acostumado a isso. Meu trabalho nunca teve isso. Sempre fui rebelde, punk pra caralho. Mas não quero falar sobre isso, não. Não vou alimentar lenda. Tem muita coisa, muita gente tem muita história. Deixa que eles falem. Eu acho interessante a gente falar sobre fotografia. Sobre os materiais que eu uso, sobre por que eu levava essas temáticas, por que eu tomo essas atitudes e me posiciono e falo assim. Ninguém quase me pergunta sobre isso, sobre essa política...

IAP - Mas é justamente sobre isso que eu quero saber...

PP - Essa política de eu ter uma insônia e querer mostrar isso pra essas pessoas, que isso existe. Tem livro, tem exposição, não é lenda. É real. Esse é meu movimento político. Não tô aqui pra ficar levando lero, inventando história. Tá aqui, eu fiz. Se ninguém viu, eu também não. Então, pela primeira vez, eu tô vendo com todo mundo. E olha a cagada que é. Porque isso que é interessante, volta pra cidade.

IAP - Tudo bem. E como a cidade recebia tuas temáticas?

PP - Ah, era muito doido. E não só aqui. Eu viajei pra outros estados, onde fui censurado, amaldiçoado, essa coisa toda. Não tô nem aí, porque eu acredito nessa história da postura política, ética. Tudo isso reflete no meu trabalho. É Belém. É uma coisa justa. Vou teclar nisso. Mas, politicamente, acho isso tudo que acontece uma babaquice, só ladrão. E eu vou lutar contra isso e eles estão querendo me atrapalhar nesse trabalho, mas eles vão quebrar a cara.

IAP - Quem são eles?

PP - Eles são... não são do “Quem São Eles”.

IAP - E quais problemas eles te causam ou causaram?

PP - Eu chegar em São Luiz, por exemplo, porque tinha me emputecido com Belém, que era careta demais e queria um lugar pra morar. Já tinha morado no Rio, rodado um pouco. Aí, resolvi começar pelo Maranhão. Cheguei em São Luiz e o pessoal só pintava cavalinho, escadaria, praia, veleiro, mar. E, como eu já tinha feito aqui em Belém uma exposição sexual, que era muito engraçada, uma putaria do início ao fim... Belém era engraçada nessa época. Era menor, mas as pessoas eram malucas. Década de 80 no Bar do Parque. Parei de ir lá porque briguei com o cara que vendia cigarros. Toda vez, queria em enganar com 10 centavos, até que eu perguntei se eu era pai dele. Mas já fiz muita onda lá, minha vida era no Bar do Parque. Acho que umas cinco pessoas o citam nos depoimentos pro documentário. Chikaoka, Max Martins. É até engraçada a forma que eles dão esses depoimentos. Eu tive que puxar muito pra que eles falassem alguma coisa do meu trabalho. Eles se largavam... na exposição, nós passaremos esses depoimentos na íntegra. No DVD, estarão editados. Eu mesmo editei, tratei as imagens. Foram gravados numa máquina de fotografia... tecnologia é um barato. Baixo uns plug-ins lindos, maravilhosos, e me faço ficar loiro de sutiã bem rápido.

(A campainha toca. Os cachorros começam a uivar. Desculpa ideal para retornar ao foco).

IAP - Voltando pra São Luiz...

PP - Pois é. Lá, fiquei na casa de um jornalista e comecei a conhecer os artistas. Fui com dois tubos amarrados nos ombros. Um com papel em branco e o outro com trabalhos feitos. E assim fui viajar o Brasil. Isso, em 85. Daí, em São Luiz, onde foi censurada minha amostra sexual. Seria na galeria da Universidade, mas o Cônego foi lá e disse que era do diabo. Tivemos que mudar de lugar correndo, no mesmo dia. Colocamos aviso na porta avisando a mudança pra uma galeria alternativa, num casarão antigo, que era de um puta maluco. É engraçado que, até a hora da exposição, a gente ficou trancado numa suíte, sabendo que daria problema. Fomos lá, pregamos tudo com prego nas paredes, era essa a proposta. Daí, já frescaram, porque não podia furar a parede. Quando a gente viu, apareceu o Cônego dizendo que a Igreja não permitiria que a Universidade se associasse a esse tipo de coisa. Nessa hora, tinham uns repórteres do jornal do Sarney. Saiu, no Segundo Caderno, um desenho horroroso de uma mulher com uma tesoura cortando meus trabalhos com a manchete dizendo “A Censura Volta a Exibir suas Garras”. Por ser do Sarney, foi algo curioso. Mas do Maranhão fui pra Fortaleza e, de lá, acabei indo pra São Paulo direto. Demorou uns cinco anos pra eu voltar a Belém, embora viesse de vez em quando.

IAP - Por que a opção de seguir direto pra São Paulo?

PP - Eu fui de São Luiz pra Fortaleza porque o pessoal me disse... era assim: minha idéia era chegar numa cidade e as pessoas me dizerem com quem eu deveria falar na próxima cidade. Daí, em São Luiz, me disseram pra não ir a Teresina, tampouco a João Pessoa. Meu trabalho não seria aceito lá, perderia tempo e dinheiro indo pra lá. Chegando em Fortaleza, já tinha pouco dinheiro. A pessoa que ia me acolher, acabou não podendo. Me levou prum outro lugar e acabei dormindo no chão por alguns dias. Fui atrás de galerias e, nessa andança, conheci um artista plástico que morava em São Paulo, Siegbert Franklin. O trabalho dele era muito parecido com o meu. Ele adorou meu trabalho e já me apresentou pra dona da galeria, a Inês Fiúza. Vendi uma exposição inteira pra ela. Daí, o Siegbert me pegou e me levou pra uma casa chiquérrima, uma mansão. Mas não gostava muito, o pessoal era muito frio. E acabava voltando pra dormir na rede lá na casa onde estava. De todo modo, esse cara me convenceu de que o resto do Nordeste era uma merda e que minhas opções eram Vitória, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. Entre Minas e São Paulo, essa última era onde eu tinha de ir pra brigar e mostrar meu trabalho. Fui. O Siegbert me acolheu nos primeiros dias e depois fui me virando.

IAP - Como foi a experiência em São Paulo?

PP - O Siegbert me apresentou aos donos das galerias com que ele trabalhava. Só que não deu certo, era tudo muito brega. Eu não gosto de galerista, sabe. Eles adoram comprar calças de tergal, essas coisas. Eu passo. Os caras têm direito a comprar teus quadros por 50% do valor. Chega na galeria, eles ainda aumentam o valor em 10% e inflacionam tua obra. Não trabalho com galeria, é muito raro. Nunca tive sorte.

IAP - E São Paulo?

PP - Ah, lá eu era punk. Conheci muita gente legal. Mas eu era porradeiro, de virar mesa em discussão sobre arte com os artistas lá. Quebrava o pau. Foi onde aprendi a ser mais profissional, a saber o que eu queria e a expressar isso. De outra maneira, não dá certo. Não consigo ser outro. E lá eu era muito punk, fui alcoólatra. Até que eu me esbarrei num caboclo, Pena Dourada. Tenho esse lado místico. Esse caboclo deu um norte pra minha vida. Foi uma época em que eu estava muito doido mesmo, sem nó nem estribeira. Tive que fazer operação no estômago. Estava muito ruim, muito mal. Alguma coisa estava errada comigo. E eu tinha conhecido uma pessoa em 82, em Belém, mulher de um fazendeiro baiano, que havia comprado uma obra minha. Ela gostava tanto da obra que, quando se separou, foi pra São Paulo e levou o quadro com ela. Virou artista plástica e mantemos contato através de uma amiga em comum. Foi ela quem me levou pra essa Entidade. Cara, minha vida mudou todinha. Já no primeiro dia, esse caboclo me deu um norte e me disse “mermão, rasga”. Isso já foi no final de São Paulo, em 90. Então, um dia cheguei pra ele e disse “olha, eu tô indo embora pra minha terra. Tu não achas covardia?”. No que ele me respondeu “não, é melhor do que viver chorando”.

(Nisso, alguém parece. PP tira um sarro).

PP - Porra, mas tu não paras de falar, desde manhã cedo. É pra jornal, pra revista. Olha, isso já não tá muito grande? Tu estás levando problema pros teus chefes, eles vão te matar.

IAP - Problema nenhum. A gente edita. Mas só se for o caso.

PP - É legal, isso. E tem uma coisa assim, que meu trabalho... ah, o Pena Dourada. Tenho que acabar de falar dele. Ele acabou de me apitar. Tenho que pedir a benção. Ele sempre me protege, ele gosta do que eu faço. Não chama de pintura, nem de desenho. Fala “essas coisada que tu faz, essas coisada que eu não entendo”. Ele é um indiozão, dá cada porrada no peito. É um índio louco.

IAP - Um índio de São Paulo?

PP - É, mas ele me deu o Norte. Foi ele quem me deu o toque de que Belém era tudo de bom. Ele me ensinou uma coisa: “Seja feliz antes de morrer”. Antes, eu era muito impertinente. Ainda continuo tendo essas falhas humanas, mas quem não tem? Porra, eu era impertinente pra caralho. Se me irritavam, eu já ia logo pra cima. Hoje, dou até sorriso.

IAP - E essa volta pra Belém, como foi?

PP - Ah, foi legal. Como eu me visto, desde 74, com as roupas que me dão, antes eu era escorraçado da sociedade. Me viam como um hippie, um maltrapilho. Hoje, é moda. As filhas desses filhos-da-puta todos vestem minha roupa. Isso é Belém hoje. É engraçado. Como quando fomos fotografar as obras pro livro. Quem vai fotografar? Faz a lista de quem tem as obras, te lembra aí. Fulano de tal comprou esse, sicrano comprou outro. Vai na casa desses caras, liga, fala que a gente quer fotografar. Cadê os quadros? Porra, eu já me separei, ficou minha ex. Passa o telefone da ex. Porra, ficou com meu outro marido. Todo mundo que comprou na década de 80, acabou se separando na década de 90. De 95 em diante, estava despirocado o barato. Isso é Belém, socialmente falando. O comportamental sexual das pessoas. Isso é legal. Através desse trabalho, a gente viu isso claramente. O que já daria uma nova viagem, novos trabalhos.

IAP - Pois é, chegamos ao ponto. Era isso que eu estava querendo. Uma leitura tua dos teus trabalhos.

PP - Ah, mas é muita história. A gente podia ir conversando durante esses quatro meses. Mas tu estás pegando coisas que são poucos que pegam. Os caras costumam chegar e perguntar um monte de besteiras. Só faltam me perguntar se eu gosto do Calypso. E eu gosto. Vou te falar mais ainda. Fiquei fã da Joelma ainda no Fruto Sensual. Mandei comprar aquele disco que tinham as músicas das aparelhagens. Ninguém mais tinha. A única pessoa que tinha era a Úrsula Vidal, a Joelma tinha dado pra ela. Pedi pra ela copiar e ainda tenho até hoje. Escutava pra caralho. Não tenho esse mea culpa, não. Eu gosto. Só que agora tá enchendo o saco e eu não gosto mais.

IAP - Indo por esse caminho, então, do que tu gostas atualmente da cultura paraense?

PP - Égua, tem muita gente boa de tudo quanto é naipe. Na minha época, a gente contava no dedo. A gente ficava esperando um vernissage pra beber vinho de graça e nada. Isso, na década de 70. Não havia oportunidades, era uma escassez cultural. A gente aprendia tudo através dos livros como aquela coleção “Gênios da Pintura” ou cursos esporádicos, pingados aqui e ali. Ainda tinha a ditadura pra complicar. Os artistas eram todos camuflados. E nós, adolescentes, pensando que estávamos abafando, pra lá e pra cá. Nos juntávamos com artistas de outras áreas pra poder fazer, gritar. Foi quando eu parei de estudar, foi um movimento político meu, porque não acreditava naquela escola, a UFPA era uma Rede Globo. Nem sei como é hoje em dia. Na minha época, a gente era cobaia e eu mandei tudo à merda. Briguei com meia família. Só minha mãe e minha irmã mais velha falavam comigo. Meu pai já tinha falecido. O resto, tio, avó, ninguém falava comigo. Foi quando rolou minha primeira exposição, em 76. Larguei tudo pra fazer isso e me virar.

IAP - O que tu chama de te virar?

PP - Uma vida ralada mesmo. Viver de pintura não é fácil. Quando comecei esse projeto do livro, teve uma época em que fiquei seis meses com a água cortada e não tinha tempo pra parar. Eram 700 imagens que tinham que ser tratadas. Então, tomava banho na casa da vizinha, almoçava na casa dos outros. Isso é viver de arte. Até acredito em quem encara a arte como hobbie, mas acho minha consciência legal.

(essa aí também era pra ter sido publicada na revista do iap, que não saiu por falta de verba)

Posted by cacoishak at 15:59

27.11.07

de gonzo no busão

– Pois é, bicho, tão proibindo a entrada desses vendedores de bala nos ônibus de Belém.
– Como assim? Quem tá proibindo? Por quê?
– Daí, já não sei. Te vira. Descobre. Mas, prestenção... vai a caráter.

E lá foi o Caquisraque, rumo a mais uma das roubadas em que, desde pequenino, estou acostumado a me meter. Ambulante de busão por um dia, a pauta. Seus desdobramentos ficariam por minha conta e perspicácia. O importante era reconhecer o terreno. Um dia normal de trabalho como outro qualquer, a movimentação de um piquete em frente ao órgão responsável pela proibição, coquetéis molotov nas conduções em forma de protesto. Todo esse resto dependeria de uma decisão minha. Tinha dez reais no bolso e a timidez de um líder nato. Pra descobrir, era só começar.

Antes, porém, a caracterização. Camiseta do tempo do ronca, tão puída quanto o bermudão surrado de quando tinha dezessete anos, chinelas velhas deixando à mostra as unhas dos pés por cortar havia algumas semanas (fazendo par com a barba mezzo hippie da República mezzo terrorista islâmico) e um boné promocional de casa de material de construção pra proteger a calva do sol. O espelho me dava os parabéns – ainda que com certo cinismo nos olhos.

Do cínico ao estranho, foi um passo. Alguns vários, a bem da verdade, do caminho de casa até o ponto de ônibus mais próximo, sob o estranhamento dos que me conheciam da rua onde moro. Um e trinta e cinco pela passagem (em tempo: subiu quinze centavos desde então). Em minutos, chegaria à Travessa Marquês de Pombal, bem ao lado do Ver-o-Peso, onde investiria meu precioso montante em mercadoria. No trajeto, um ambulante tentou embarcar. Foi barrado. Da janela, fitei seus olhos. Era estrábico. E manso, talvez de acostumado. Não praguejou contra o motorista, nem nada. Já foi fazendo sinal pro próximo que chegava.

Desembarquei. Três lojas me ofereciam produtos dos mais variados, apesar de todas terminarem seus nomes com “caramelo”. Restavam-me oito reais e sessenta e cinco centavos. Sete e quinze, pra ser honesto. Um e cinqüenta (em tempo: subiu dez centavos), tinha investido num maço de cigarros pra agüentar o tranco numa boa – ambulante também é gente e fuma, afinal.

Após entrar e sair dos estabelecimentos várias e várias vezes, analisando preços e doces e levantando suspeitas, decidi-me por uma caixa de pastilhas de hortelã com quarenta unidades. A mais barata, por seis e setenta (em tempo: não sei quanto subiu). Cinqüenta centavos a menos do que a marca concorrente. Minha matemática: cada unidade tinha dez pastilhas; quarenta unidades, faz as contas, arredonda, uma unidade a dezessete centavos; menos de dois centavos por pastilha; dobra o preço, arredonda, quarenta centavos a unidade; faz um desconto amigo por arredondamento, três por um real e ainda sairia com cinqüenta de lucro; uns sete reais pela caixa; no dia seguinte, daria pra duas – houvesse dia seguinte.

Saí da loja com um sorriso de quem estava certo de ter feito bom negócio. Passava um pouco do meio-dia. Barriga vazia. Perto dali, um senhor vendia suco e salgado a cinqüenta centavos (em tempo: não subiu nada). Faltavam-me cinco. Meu tino pro comércio em cena novamente. Acabei inteirando com uma menta. Estômago forrado e sem mais tostão no bolso, a Avenida 16 de Novembro me parecia longa como nunca sob o sol do mercado. Não tão longa, entretanto, quanto a Almirante Barroso, meu destino e via predileta dos ambulantes. Hora de partir.

Mas, calma aí. Não tinha pensado no fundamental: um discurso. Logo eu, que sou péssimo na oratória e não levo jeito nem pra pedir passagem no meio da multidão (pânico de multidão, aliás, é o que sinto; acabo ficando paralisado no mesmo lugar). Claro que não precisava bolar um senhor tratado sobre a mazela que é isso de se viver no mundo cão roendo osso na falta de carne farta na bisteca pra lamber os beiços de gordura. O que não podia, também, era chegar lá com a cara mais lavada do mundo e simplesmente sair despejando pastilhas de hortelã no colo dos outros. Pagar uma de mudinho... talvez até emplacasse. Encenação demais pra quem nunca havia pisado num palco. Não daria, mesmo. Algum monólogo tinha de ser preparado, ainda que dos mais canalhas.

A questão era só uma: por qual linha de sermão enveredar. Imagens sentimentalóides e carregadas de emoções piegas, que despertassem a compaixão dos passageiros? Frases de impacto raivosas contra o sistema e o maldito capitalismo selvagem e seus porcos imundos que chafurdam na lavagem de dinheiro? Fazer o tipo maluco travado, engasgando nas palavras e caprichando nos cacoetes com os olhos ao jogar um dos ombros pra trás, cabeça penda? Ex-tudoquenãopresta convertido à Igreja Adventista do Sétimo Dia ou o engraçadinho gente boa que tira barato com todo mundo e das moçoilas um sorriso com a mão tampando a boca? Caso sério...

Cara de coitado, não tenho mesmo – não importava o quão farroupilha me dispusesse a ficar, meus dentes, rugas e calos continuariam em seus devidos lugares. E meu biótipo, definitivamente, não é o de um caboclo amazônico – do alto de meu metro e oitenta, tez leitosa e nariz afilado. Complicava. O discurso seria decisivo, portanto. A escolha tinha de ser batata. E rápida.

Não me permiti pensar duas vezes e decidi encarnar o desempregado de descendência mineira com sotaque nordestino, sozinho na vida e importado do sul do estado pra trabalhar como vigia noturno numa das recentes incursões comerciais de meu antigo patrão e que, chegando à cidade grande, fora dispensado sem mais nem porquê, ficando às mínguas, só com alguns trocados no bolso, os quais acabei investindo nas balas que ora vendia na esperança de juntar uma quantia que fosse pra poder comprar um bilhete de volta ao interior e recuperar a honra perdida estourando os miolos do cabra safado que havia me mandado praquele inferno. Esta última parte seria segredo, claro. Mera licença poética personalíssima pra que eu mesmo pudesse acreditar no que estaria falando e incorporar a personagem com louvor.

Se daria certo ou não, era pagar pra ver. Tanto melhor: entrar de graça, oferecendo balas. De cara, já saí dando sorte. O primeiro motorista não impôs barreiras e embarquei numa boa. Ao menos, até a roleta, onde me enrolei um pouco na hora de passar. Não podia passar, por supuesto. Não estava pagando por meu bilhete. Ambulante inexperiente, acabei entrando pela porta errada, a da frente, quando o certo seria entrar pela porta de saída e não ter de enfrentar a catraca. Perder a oportunidade do primeiro ônibus, também não perderia. Seguir adiante, custasse o que fosse. O cobrador, então, bem camarada, deu-me as duas únicas e óbvias opções: vai por cima ou por baixo, meu amigo. Se por baixo, só engatinhando. Pedi que, por favor, segurasse minha caixa de hortelãs e dei um salto. Não caí por pouco. Logo me recompus. Nada se comparado a enfrentar minha primeira platéia.

E deu branco. Todo o discurso previamente preparado, revisado e recapitulado não sei quantas vezes, desapareceu da memória tão logo levantara o rosto e encarara os passageiros. Ergui as sobrancelhas. Todos me fitavam em silêncio. Ou pedia desculpas e tratava de dar o fora dali (o ônibus em movimento) ou me virava de algum jeito. Saí-me com essa: tenho braços, pernas, saúde e disposição. Só não me perguntem por que não tenho emprego, porque essa nem eu sei responder. Mas sei vender balas de hortelã. Uma por cinqüenta, três a um real. Não pareceram gostar muito do humor negro num vendedor de balas e acabei descendo sem cliente satisfeito algum.

Ônibus seguinte, embarquei sem contratempos novamente. A proibição não parece ter surtido efeito, afinal, na Cidade Velha. Dessa vez, já escolado, consegui convencer dois passageiros a levar um pacote promocional cada. A sorte voltava a estar do meu lado. Não por muito tempo, porém. Uma questão de nos aproximarmos de Batista Campos e a magia pró-autônomo se dissipar.

Demorei até ter a chance de embarcar num outro coletivo. Ainda que por engano do motorista, pensando se tratar de um pagante como outro qualquer. Um grupo conhecido de emos, sentados no fundão, ria enquanto o condutor me apontava a câmera filmadora acoplada ao teto como forma de fiscalizar a entrada de meus colegas de atividade. Não soube me responder o porquê daquilo, nem se a proibição se restringia a menores de idade (como a Procuradoria Regional do Trabalho procura justificar a medida, segundo Delso Souza, consultor técnico da Setransbel – o sindicato patronal dos rodoviários: “a solicitação do Ministério Público já vem desde o ano passado pra não deixar a entrada de menores que vendem bala. Chamou as empresas e fez com que assinassem um termo de conduta nesse sentido”), embora acreditasse ser em razão do bem-estar dos passageiros, segundo escutara numa das reuniões do sindicato. “Vocês incomodam demais, vai descendo”, ao que agradeci e me retirei de sua condução – ou fui expelido, vez que mal colocara um pé no asfalto e ele já acelerava. Os emos vibravam.

Não foram os únicos a quase arruinar o disfarce, no entanto. Ao longo do percurso, ainda me depararia com uma antiga babá, desconsolada ao me ver naqueles trajes e situação (acabou levando dois reais de menta), e com um incrédulo Ricardo Maradei, da banda Stereoscope. Da primeira, custei um tanto pra me livrar, caprichando na atuação. Já o segundo, simplesmente ignorei e por ele fui ignorado, como, aliás, em todos nossos encontros pregressos e posteriores. Não que fosse necessário alguém, a bem da verdade, pra colocar tudo a perder. Eu próprio era auto-suficiente nesse sentido. Só o tempo de aparecer um esperto pouco além da média.

Apareceu Zé Neto. Vinte e nove anos, unhas em circunstâncias bem piores que as minhas, cabelos longos presos num coque. Desempregado faz dois anos, encontrou na venda em coletivos uma alternativa pra lá de viável no sustento da família – mulher e filha. Chega a tirar vinte, trinta reais por dia com balas de chocolate mentoladas a dez centavos cada. De fazer inveja aos quatro reais que até então levava no bolso.

Pela conversa que travamos nos vinte minutos em que esperávamos um ônibus que nos acolhesse em plena Av. Nazaré, concluí que o fracassado era eu mesmo, vez que era essa a média tirada pelos demais ambulantes (Roberto Sena, supervisor do Dieese no Pará, não soube informar o número exato de quantos estão nas ruas – pro Departamento, eles simplesmente não existem). Zé Neto, de poucas palavras e pra lá de desconfiado com tantas perguntas, mostrou-se bastante inconformado com a proibição, embora não tenha me dado muita bola quando sugeri que organizássemos uma passeata em frente a algum órgão – não havia tempo pra isso em meio à escassez de coletivos, deduzi. Um ônibus parou, enfim. O motorista consentiu que embarcássemos. Dei a vez a Zé Neto, que não estava ali a passeio. Subiu sem se despedir.

Ainda o encontraria ao longo da Almirante Barroso até o Entroncamento, meu destino final. Mas era tentar uma aproximação, pro sujeito logo se afastar. Deve também ter dado um jeito de avisar aos companheiros que havia carne nova no pedaço, que ficassem espertos. Encaravam-me de modo estranho – um cana infiltrado? Faria sentido, de acordo com Delso: “A implantação das câmeras foi idéia nossa pra conter a violência nos ônibus. A polícia não tem condições de resolver o problema sozinha, não tem como colocar um PM em cada ônibus. A experiência em São Luiz tem dois anos e vem dando certo, com resultados muito bons. Aqui, 45% da frota já possui duas câmeras instaladas que observam todo o comportamento dentro dos ônibus. A fita é recolhida e analisada por dois estagiários que fazem o monitoramento. Quando algo é detectado, encaminhamos pra polícia. Já houve uma redução de 70% dos assaltos desde a medida”.

Pois bem. Acabei observando tudo de longe. Todo o processo de persuasão e o faturamento. Conclusão: em Belém, tanto melhor se vender picolé, chopp, dessas especiarias geladas – ninguém aqui se importa com o hálito. Ou balinhas de 10, 20 centavos, com um papo pra lá de canalha. O que me leva a uma outra conclusão, ainda mais sagaz: sou um fracasso como comerciante. Não nasci pra ganhar dinheiro. Ponto.

Com a caixa de hortelã quase intocada, resolvi tomar o rumo de volta. Desta vez, a demora e as recusas compensariam. Um só motorista que me aceitasse e estaria em casa. Era só esperar. Quinze minutos. Meia Hora. Paciência esgotada. Tentei entrar em um na marra. Quase fui levado com o braço preso na porta. Xinguei o motorista e suas gerações, até a quinta. As pessoas me olhavam assustadas na parada. Baixei a cabeça, envergonhado. Um tanto puto da vida. Mais quinze minutos. Contei os borós. Daria pra pagar a passagem. Sobraria pra um maço. Embarquei no ônibus seguinte. Quem dirigia era um senhor de idade. Foi simpático na abordagem.

“A função do motorista é dirigir o carro. Ele cuida da vida de 70 pessoas, em média. Tem que estar concentrado em seu trabalho. Não dá pra ficar decidindo quem pode entrar ou não com passe livre”. As palavras de Delso ecoavam em minha cabeça. Cheguei em casa. Joguei as moedas na cama. Tomei um banho. Peguei as chaves do carro e fui tomar uns goles pra relaxar um pouco após um dia de trabalho pesado.

(essa matéria era pra ter sido publicada na revista do iap. faltou verba. a revista não saiu. desovo por aqui)

Posted by cacoishak at 4:34

15.11.07

carne de cabeça

No mike, Lázaro Magalhães postula: "Brasileiros invadem o mundo da moda / pra fazer seu tudo todinho igual". Córtex, segundo disco da paraense Cravo Carbono, rola solto e já estamos na terceira faixa – quase um samba com participação nos vocais de Sammliz, da Madame Saatan. A letra continua: "brega é ser brasileiro". Recado dado... certo? Errado. Pura ironia de quem lança mão de um caldeirão rítmico amazônico, tão em voga, pra fazer seu roquenrou todinho diferente. Brega, tecnobrega, guitarrada, zouk, carimbó... até os mais papa-chibés, acostumados aos conceitos, estranharão o que está por vir neste emaranhado vanguardista no limiar entre o regional e o popularmente brasileiro.

Mas sabem bem o que estão fazendo, esses meninos. E o fazem com a autoridade de quem já está há dez anos experimentando em estúdios e palcos e quartos de suas casas. Só na gravação de Córtex, foram três anos. "O dinheiro que tínhamos nas mãos após conseguir patrocínio com a lei de incentivo municipal era curto. Seria impossível gravar tudo o que imaginávamos no estúdio APCE de Belém. Resolvemos então racionalizar o processo, deixando para o estúdio apenas baterias, vozes, percussão e toda a produção que seria impossível ser registrada em casa", revela o vocalista.

Nesse período, Lázaro, os guitarristas Pio Lobato e Bruno Rabelo, mais o baterista de mão cheia Vovô lapidaram as faixas – algumas, já hinos em Belém – como Marx Marex, caçador dos mangues, "o cara mais moderno que já conheci / usa tecnologia de ponta pra caçar siri". Não há na cidade quem não saiba cantar. Tanto, que virou história em quadrinho pelas mãos de Marcelo Marat (os mesmos que ilustram o belo encarte do disco, dividindo espaço com fotografias de Renato Reis).

Fotos estas, aliás, que traduzem bem o espírito da banda. Abra os olhos, expanda a mente, parecem dizer. Pio com óculos de K7. Lázaro raspando os cílios com gilete. Vovô com visão de fones-de-ouvido. Bruno entreolhando-nos por fitas juninas. "Já tínhamos uma velha brodagem com o Renato Reis, nosso sexto elemento. O Renato tinha feitos algumas fotos de divulgação e surgiu a idéia de um ensaio fotográfico que pudesse resumir a idéia do disco, Córtex, cérebro, carne de cabeça. Conseguimos um apoio para entrar no estúdio da Faculdade do Pará, FAP, e passamos uma tarde fotografando cabeças. Essa era a idéia: apenas cabeças, com todo tipo de acessório possível e imaginável. O Pio não apareceu no estúdio, e o Renato acabou improvisando as últimas imagens na casa dele. Fizemos dezenas de fotos. Ficaram as melhores. Apesar dos contratempos, gostamos muito do resultado".

A cada faixa escutada, uma imagem tão estranhamente instigante quanto, a cada letra lida e ruminada – o que Lázaro escreve é poesia e das melhores feitas no país. Exemplos disso: "Seguro morreu de velho e o velho ainda rendeu o seguro", do quase afoxé Vale Quando Pesa; "Gargalo pinga água de fogo / na língua fogueira do meu assanhar", do quase zouk Arraial; "Agora me importa o vazio (meu deus é o amor)", da densa Canção à Prova D'Água; "Inventando uma dança danada / para a manifestação do nada / para a amplificação do nada", da tudo-ao-mesmo-tempo-agora Supernada; "Hoje não tem café / porque não tem açúcar", nem gás, nem copo ou água, colher ou filtro. Café BR, isso. Bregão dos bons.

Uma banda de virtuoses, poderíamos dizer. Pois não foi Pio Lobato a cabeça por trás dos Mestres da Guitarrada? Pesquisador de ritmos regionais, quem acabou levando pra banda toda uma gama de timbres e influências. Personagem principal da quarta geração dos guitarreiros, ao lado de Bruno Rabelo, outro prodígio nas guitarras e compositor único de duas das faixas: a guitarrada instrumental Alto do Bode e o samba-de-roda Aplausos de Auditório. "Mãos à palmatória", diz. Às mãos que aplaudem o Supernada.

A concepção do disco, porém, não pára por aí. "O site www.cravocarbono.com.br é a etapa seguinte do projeto do disco. É na verdade onde o disco vai terminar, e gostamos muito dessa idéia. Vamos tentar construí-lo até o início de 2008, e poderemos até contar com a ajuda de voluntários da comunidade do Cravo no Orkut. A idéia é simples: queremos um espaço para dispor, além de informações sobre a banda, acesso a todas as faixas do álbum e também a downloads das diversas trilhas separadas das músicas. Queremos que as pessoas possam baixar essas trilhas, se apropriar desses pedaços, para fazer novas músicas, intervenções, versões, o que der na telha. Haverá um espaço para postagem desses conteúdos novíssimos. Será, então, um Córtex expandido, versão 2.0, alterado por outras mentes. Nada melhor para se esperar da Internet, que já é a maior extensão de todas as nossas cabeças".

Na apresentação do encarte de Córtex, ficamos sabendo que o nome Cravo Carbono "é como se chamaria uma suposta nova droga do sertão que apareceria na floresta – uma especiaria, um emplasto, uma goma de mascar biopirateada". Ficção científica "barata de mercearia" ou não, ao fim da primeira audição, temos a impressão de que fomos, de fato, levados por um barato novo. Barato pronto pra chapar novas carnes de cabeça.

E "salve o supernada".

(resenha escrita para a nova edição da revista outracoisa, já nas bancas - foi publicado também um conto inédito meu por lá, mas pra ler esse... só comprando)

Posted by cacoishak at 13:42

2.10.07

"Não quereis ser pornográficos?"

“Vinho com leite moça é pau na coxa”. MC Colibri. “Bacalhau quer alho”. Kim Barreiros. “É o dia que a orgia tomou conta de mim”. Mr. Catra. Algumas pérolas da poesia que a música brasileira vem produzindo atualmente. Nem é preciso sair de Belém para deliciar os ouvidos. Basta um passeio de meia hora por qualquer área da cidade para que o sujeito se depare com a oferta: “quem vai querer a minha piriquita?”. Banda Ktrina. E pensar que tudo começou com Carla Perez se agachando numa boquinha de garrafa... certo? Errado. Para muito além do cancioneiro popular, faz já um tempo que o sexo e suas temáticas pornográficas não saem de nossas cabeças.

continua...

Seja num quadro de Botticelli ou num texto de Sade, ele sempre esteve lá. Com a evolução dos meios de representação, não foi de se espantar que o sexo logo se adaptasse às novas realidades, dando o pão a quem tinha fome. Há quem pense que nada mudou, porém, como o professor Charles Rojtenberg, Mestre em Sexologia, para quem “pornografia é sempre a mesma coisa. O que está mudando é que hoje temos mais acesso, sem tanta repressão. Antigamente, havia punições e o material pornográfico era proibido. Mas em se tratando de ‘sacanagens’, estas são as mesmas há séculos, não existe nada novo... só o sexo virtual”. Um grande avanço, pelo visto.

Se antes era artigo de luxo, objeto de desejo de garotos no auge das explosões hormonais, que se aventuravam em sebos em busca de indecências impressas numa revista em quadrinhos de Carlos Zéfiro, hoje o prazer está à distância de um clique. “Lembro de um garoto mais velho que havia ganhado do tio, recém-chegado do Rio de Janeiro, um baralho daqueles com imagens de pin-ups no verso. Era uma delícia. Reuníamo-nos todos em volta do tal baralho e ficávamos rindo à toa. Havia rodízio, sabe? Eu levava pra minha casa num dia, o amigo levava pra sua casa no dia seguinte. Tínhamos só que ter cuidado pra que nossos pais não descobrissem, senão a coisa ficaria feia. Era tudo muito bem escondido debaixo dos colchões”, recorda o médico Sérgio Moura, que considera a atual situação muito confortável para os adolescentes que têm acesso à Internet. “Cheguei em casa, dia desses, e entrei no quarto de meu filho de doze anos sem bater. O moleque deu um pulo da cadeira. Estava sentado em frente ao computador. Deu pra ver que estava num site de pornografia. Ainda tentei brincar, mas ele ficou sério e me pediu que respeitasse sua privacidade”.

Outro aspecto interessante dessa nova onda pornográfica, para a qual nos alerta o professor Charles, à frente do Instituto Brasileiro de Sexologia, que tem como papel levar o tema para a população carente e, com isso, reduzir o índice de gravidez precoce nas comunidades: “Devido ao atual acesso, o público é de pessoas mais novas, meninos e meninas com 8, 10, 12 anos, que entram em contato com materiais impróprios. Por isso, há a necessidade de uma educação sexual na sociedade. Infelizmente, a educação sexual é vista como algo negativo pelas políticas. Podemos falar de reprodução, mas de prazer não. A repressão ainda é forte. Os tabus são enormes”.

Foi nesse sentido que o estudante de Sociologia Pedro Fernandez escreveu sua monografia de conclusão de curso em cima do universo virtual pornográfico. “Tentei encontrar um tema que eu gostasse. Aí, decidi falar sobre a pornografia. Fiz várias pesquisas sobre o assunto. Baseado nesses estudos, tento criar um projeto inovador ao meu ver. Um portal pornográfico com base na orientação sexual. Usando o termo pornô-educação, busco mostrar que a pornografia não é mais só um sinônimo para falta de pudor ou algo negativo pra sociedade moderna. Já que, hoje, o maior número de buscas na internet é por sites de conteúdo pornográfico, por que não unir o útil ao agradável? Pois a maioria do material encontrado não tem essa vertente e acaba sendo criada por alguns que não tem a mínima idéia de como passar uma comunicação orientando o sexo com responsabilidade. Em outras palavras, será um projeto pornográfico com raiz educacional”.

UMA INDÚSTRIA PARA TODOS

Se tão logo a fotografia fora inventada, já havia imagens de mulheres nuas pulando de mãos em mãos, e os primeiros filmes com nudez foram rodados tão logo a sétima arte surgira, não se enganem: era lucrativo. Com a facilidade da propagação pela Internet, os lucros apenas aumentaram. Estima-se que a Indústria Pornográfica fature, hoje, vinte vezes mais do que nas décadas de 80 e 90 juntas. Por mais que tentem enfiar goela abaixo dos consumidores que se tratam de nus artísticos, capas da Playboy rendem uma fortuna. Quem, afinal, se interessa por arte?

“É natural que se entre no mercado pornográfico, é a biologia. Um menino de 12 anos começa a ter estímulos hormonais e impulsos sexuais que começam a dominar o seu comportamento. É natural que aconteça. As carências, a genética. As necessidades não realizadas dentro de casa. Tudo isso leva ao consumo do mercado pornográfico. As pessoas estão muito mal sexualmente e afetivamente falando. Neste caso, buscam fora o que não têm em casa”, acredita Sérgio Moura.

Carência, de fato, é a última coisa da qual reclamam os que estão no meio. Caso de Antonio Snake, conhecido ator e diretor de filme pornô de Belém: “O único vício que tenho é mulher. Esse papo de droga, cigarro, bebedeira, isso não é pra mim, não. Agora, mulher... Pode estar em Castanhal, em Bragança, a gente vai lá. Comigo não tem dessa, não”.

Foi a paixão pela fruta que levou Snake às primeiras brincadeiras entre quatro paredes até se profissionalizar: “Comecei batendo fotos das minhas namoradas e mostrando pros amigos. Quando veio um e me perguntou por que não comprava logo uma câmera e ia filmando. Achei a idéia bacana e, nas primeiras férias que tive, comprei uma. Filmava e mostrava pra eles. Eles me diziam: ‘larga isso de mão e vai fazer filme pornô de uma vez. Você não é um cara vergonhoso’. Mas só me veio mesmo a luz quando vi um documentário sobre vídeos pornôs. Os caras ganhavam grana, era fácil, papapá. Eu sabia filmar e gostava de mulher. Então, pensei, bora fazer essa parada, né? Colocava anúncios no jornal procurando quem topasse participar. Foi quando fiz meu primeiro filme: ‘Marajó, A Ilha do Amor – Devastação Anal Vol. I’. Uma época conturbada. Tive que responder quinze dias de cana. Porque você sabe, né? Belém, extremamente atrasada...”

Os problemas, no entanto, logo acabaram e Snake pôde, enfim, receber os louros pelo trabalho árduo: “Antes, eu andava doido atrás de mulher. Não era conhecido. Ninguém botava fé. Mas depois que fiz o primeiro filme e envolveu polícia, Belém toda ficou sabendo. Saí da prisão e já tinha um filme pronto. O dinheiro que investi, ganhei em dobro. Cheguei a vender muito pras locadoras. Mas daí chegou esse diabo de pirataria e muitas fecharam. O jeito foi começar a vender no site e através de anúncios em jornais, revistas. Eu não tenho distribuidora. Ainda assim, vendo de 600 a 800 cópias. Já cheguei a vender umas mil de um único filme.”.

REBULIÇOS E TROCA-TROCAS

Não são todos, porém, que curtem a idéia de uma sociedade sem maiores pudores. Na Europa, por exemplo, berço da cultura ocidental, um vídeo no YouTube intitulado "Film Lovers Will Love This!" ("Amantes de Filmes Vão Adorar Isto!"), que mostra homens e mulheres fazendo sexo de formas e em lugares diferentes, causou bastante polêmica entre os mais conservadores. A discussão foi tamanha, que acabou parando no Parlamento da União Européia, dividindo opiniões. Por motivos semelhantes no passado, o YouTube teve de proibir a veiculação de conteúdo sexual em seu domínio. Não demorou para que surgisse o PornTube e similares, destinados aos vídeos pornôs. A polêmica, entretanto, não parou por aí. Muito menos aí se restringe.

O artista plástico paulista Antonio Pinheiro já passou bons bocados por conta disso. Sua arte, segundo o próprio, longe de ser pornográfica, é autobiográfica. “Meu trabalho está no limiar da última inocência”. Ainda assim, não deixa de ser mal compreendido por muitos. “Em meus trabalhos com esperma é engraçado a reação das pessoas quando lêem a etiqueta da obra. Olham primeiro a obra e, depois que lêem a etiqueta, fazem uma cara... é muito engraçado. Não sei o que pode ser considerado pornográfico. Soube que um casal evangélico, quando fazem sexo, a mulher se cobre com um lençol para não ter contato com o corpo do marido. Neste lençol há um buraco por onde será a penetração e o marido passa um óleo no pênis para não ser um ato sujo. Mais pornográfico que isso, impossível”.

Snake também reclama de quem olha torto, mas dá seu recado: “Estamos em 2007, a geração vai mudando. É um outro pensar. A Globo fica passando sacanagem na novela o tempo todo. Não me envergonho do que eu faço, encaro como um trabalho como outro. Quantos amigos meus, na rua, na igreja – sou devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro –, já não vieram e disseram que viram meus filmes e acharam bacana? Beleza, cara. Na boa. Tem uns que chegam com algumas críticas. Pergunto logo: ‘você nunca fez isso? Então, tá fora do mercado’”.

Há também o outro lado da moeda, como aconteceu com a dançarina moderna Camila Canto, enquanto apresentava em São Paulo seu espetáculo “Pronta Para Consumo”, baseado na utopia da mulher perfeita (leia-se beleza e sexo) e mui bem recebido. “Fui ligando uma coisa à outra e vi que a mulher consome para ser consumida. O público ficava curioso de cara. Depois, ouviam a trilha sonora que era uma locução bem técnica de descrições de bonecas infláveis que peguei em sex shops virtuais. As imagens escolhidas foram muito fortes e a trilha também, de modo que comunicaram bem a idéia do solo, fazendo o público se identificar”.

Neste caso, poderíamos falar mesmo de outros lados de uma só moeda, vez que o trabalho de Camila acaba sendo uma crítica a esse mercado consumidor pornográfico. Coadjuvante da encenação, uma boneca inflável, “símbolo da objetização da mulher. De um ser humano. Acho muito louco que criem essas bonecas como o fim dos problemas dos homens, sabe? As ‘real dolls’, por exemplo, são obras de arte, extremamente realistas. Como se alguém anunciasse que as mulheres de carne e osso são um produto obsoleto. As ‘real dolls’ são eternamente perfeitas e não falam, nem dão o trabalho que uma mulher comum dá. Um horror. Fui constatando que a mulher continua num patamar muito parecido aos da antiguidade e idade média... um animal treinado”.

(matéria publicada na revista paraense de cultura e comportamento LIVING)

Posted by cacoishak at 20:42

23.08.07

pp condurú - em breve

IAP - E São Paulo?

PP - Ah, lá eu era punk. Conheci muita gente legal. Mas eu era porradeiro, de virar mesa em discussão sobre arte com os artistas lá. Quebrava o pau. Foi onde aprendi a ser mais profissional, a saber o que eu queria e a expressar isso. De outra maneira, não dá certo. Não consigo ser outro. E lá eu era muito punk, fui alcoólatra. Até que eu me esbarrei num caboclo, Pena Dourada. Tenho esse lado místico. Esse caboclo deu um norte pra minha vida. Foi uma época em que eu estava muito doido mesmo, sem nó nem estribeira. Tive que fazer operação no estômago. Estava muito ruim, muito mal. Alguma coisa estava errada comigo. E eu tinha conhecido uma pessoa em 82, em Belém, mulher de um fazendeiro baiano, que havia comprado uma obra minha. Ela gostava tanto da obra que, quando se separou, foi pra São Paulo e levou o quadro com ela. Virou artista plástica e mantemos contato através de uma amiga em comum. Foi ela quem me levou pra essa Entidade. Cara, minha vida mudou todinha. Já no primeiro dia, esse caboclo me deu um norte e me disse “mermão, rasga”. Isso já foi no final de São Paulo, em 90. Então, um dia cheguei pra ele e disse “olha, eu tô indo embora pra minha terra. Tu não achas covardia?”. No que ele me respondeu “não, é melhor do que viver chorando”.

Posted by cacoishak at 9:52

12.08.07

em breve, nas melhores revistarias...

(...)
Não me permiti pensar duas vezes e decidi encarnar o desempregado de descendência mineira com sotaque nordestino, sozinho na vida e importado do sul do estado pra trabalhar como vigia noturno numa das recentes incursões comerciais de meu antigo patrão e que, chegando à cidade grande, fora dispensado sem mais nem porquê, ficando às mínguas, só com alguns trocados no bolso, os quais acabei investindo nas balas que ora vendia na esperança de juntar uma quantia que fosse pra poder comprar um bilhete de volta ao interior e recuperar a honra perdida estourando os miolos do cabra safado que havia me mandado praquele inferno. Esta última parte seria segredo, claro. Mera licença poética personalíssima pra que eu mesmo pudesse acreditar no que estaria falando e incorporar a personagem com louvor.
(...)

Posted by cacoishak at 2:57

11.07.07

high'n'dry -belém colírio

Belem_13.jpg

Em Belém, ai de quem cair na besteira de pensar que caminhar é um desafio para as pernas tão-somente. Viver no chão não é tarefa das mais fáceis por aqui, não. Belém das calçadas desniveladas, do mau-cheiro saindo dos esgotos a céu aberto, da poluição sonora que a faz campeã nacional no assunto. Audição, olfato, tato... tudo quanto é sentido sofre pelas plagas de cá quando explorar a cidade é antes uma aventura sensorial do que mera necessidade. Que o diga o paladar com a boca cheia de sal do suor escorrido testa abaixo ao meio-dia.

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Há uma minoria privilegiada, no entanto, a quem é permitido desligar as demais funções do corpo, recostar-se num canto e se deixar flanar apenas com os olhos. Para estes poucos bem-aventurados, o caos sonoro do asfalto chega aos ouvidos como lounge music das mais suaves, o cheiro do ralo já não assusta – o vento levou; foi junto com o calor. E o passeio pela província se torna um colírio de novas perspectivas do alto de seus espigões de vinte e tantos andares.

É Belém vista por um outro ângulo, admirada de cima, o que, para um número ainda menor de pessoas, não é novidade faz tempo. Para Dona Julia Vallinoto, por exemplo, vizinha há mais de 40 anos das 189 outras famílias que residem no Edifício Manoel Pinto, nosso primeiro arranha-céu. Aos 73, encara a visão de seu 14º andar como o mantra diário que entoa através das lentes de seus óculos, ocasião em que fica “horas esquecida, contemplando a Baía, o Teatro da Paz”, principalmente após as seis da tarde, “quando as luzes se ascendem e tudo se transforma”.

Dona Julia já teve a oportunidade de subir ao 25º andar e confirma que, da cobertura, é possível se observar a cidade quase que em sua totalidade. Dos apartamentos mais baixos, porém, a história é outra de uns tempos pra cá. Os anos foram passando e a expansão imobiliária mudou o panorama. É com pesar na voz que recorda a maravilha que era morar no edifício, logo no começo, época em que figuras conhecidas da sociedade paraense habitavam seus cômodos: “Era o máximo, uma coisa mesmo, todo mundo se achava. Tínhamos uma vista mais bonita, pois não existiam tantos prédios na frente. Na Transladação, dava pra ver todos os fogos. Hoje em dia, perdemos um pouco essa visão, embora continue muito bela. É um prédio antigo, mas não tenho a intenção de sair daqui”.

Faz certo, Dona Julia. O velho Manoel pode ter perdido um tanto de seu glamour, é verdade, mas o visual permanece o mesmo. Lá estão o Ver-o-Peso e suas embarcações, as ruelas da Cidade Velha, as prostitutas da Riachuelo batendo ponto e se encontrando no Bar do Parque para uma gelada no fim do expediente. Bem lembrada, também, Nossa Senhora de Nazaré abrindo alas para Santo Eloy e as filhas de Chiquita. Difícil de imaginar, portanto, o que se passa na cabeça de uns que se jogam do prédio já conhecido pelos suicídios. “Só tendo algum problema mental. Não dá pra se atirar daqui com uma vista dessa”.

Difícil, mas não impossível. A imagem da vida concentrada que pulsa numa visão dos altos pode ser traiçoeira. Vida demais para quem tem de menos. Vida, talvez, artificial demais, contrastando com a genuinidade proporcionada pela solidão no cume da torre. Sentimento resumido na frase proferida por um amigo, há alguns anos, quando estávamos na sacada de um 21º andar, tendo o Canal da Doca como pano de chão: “Aí embaixo, há mais morte do que vida. Mais morte do que vida”.

Para o bem de todos os passantes e a saúde mental dos servidores do IML, todavia, há quem simplesmente se reconforte ao vislumbrar a movimentação das massas em solo firme. É o caso do médico Mauro Pantoja, de 47 anos, morador do 15º andar num bairro nobre de Belém. Criado em casa, sempre gostou de altura e mora em apartamento há 20 anos. Nunca abaixo do 10º andar. Dependendo do momento em que se encontra emocionalmente, Mauro se deixa levar pela imaginação enquanto observa o formigueiro de gente que vai e vem sob sua vista, fazendo Cooper ou passeando com os filhos na Praça Batista Campos.

“Cada vez mais, nosso tempo está reduzido em termos de parar em casa. Então, sempre entre uma correria e outra, é bom relaxar, recordar sobre o passado. Às vezes, acordo cedo e venho pra sacada. Assisto ao pôr-do-sol praticamente todos os dias daqui de cima. Vejo uma cidade que cresceu muito nesses últimos vinte anos. Belém, hoje, está desenvolvida, com suas avenidas e praças mais bem iluminadas, as ruas mais bem asfaltadas. A arquitetura dos prédios também traz um certo tipo de beleza. Fui criado numa época em que o contato direto com a rua era muito bom. Atualmente, já não é mais assim. Por questões até de segurança, é melhor morar em apartamento”, justifica-se como que querendo um álibi para sua opção.

O conceito de segurança para uns, porém, nem sempre é o mesmo para outros. Os néons, afinal, não piscam para todos que se debruçam em suas janelas no meio da madrugada. Tem quem acorde cedo, antes do sol raiar, e encare a altura de forma completamente diferente.

Há 23 anos, a rotina de seu Silvio Evangelista Lopes é a mesma. Sai ainda com o galo cantando de sua casa em Ananindeua, rumo à labuta. Operário da construção civil desde os 18 anos, seu Silvio acumula vários prédios em seu currículo. Lembra-se de quando as edificações não passavam dos 12 andares com uma risada. De lá para cá, esse número triplicou. Garante que não sente medo algum ao ficar dependurado do 36º andar de uma obra em andamento. Isso, ele deixa para os novatos: “Quando os mais novos chegam pra trabalhar pela primeira vez, com dezoito, dezenove anos, ficam um pouco nervosos. Com o tempo, vão se adaptando. Uma vez, um rapaz foi logo tendo cara branca, ficou bastante amedrontado. Nessas horas, não dá pra olhar pra baixo. Tem que se concentrar no trabalho e entregar pra Deus”.

Católico praticante, seu Silvio se sente realizado por aperfeiçoar o mundo que, acredita, fora feito por uma entidade superior. Mais realizado ainda por ter o privilégio de poder ver esse mundo todo de onde trabalha: “É uma emoção muito grande ver a cidade de cima, ver coisas bonitas que as pessoas lá embaixo não conseguem ver. Daqui, consigo enxergar o rio todinho, por exemplo. Vejo os aviões pousarem no aeroporto. Eu me sinto feliz por ver algo novo, que ainda não tinha visto”.

É, de fato, uma senhora vista, cheia de descobertas a cada esquina. De lá do alto, as distâncias parecem diminuir – as físicas, pelo menos. De Val-de-Cães para o Ver-o-Peso é um pulo, sim senhor. Mas não se engane. Trata-se de uma Belém rica em sinuosidades, onde as retas se curvam e as curvas formam um labirinto de anseios na mente do observador. Rica demais, até. Daí, vem o Zé Ramalho e me canta ao pé do ouvido: “Tá vendo aquele edifício, moço? Ajudei a levantar”. Seu Silvio não trocaria sua casa por um apartamento. Mas não por falta de vontade. Encara o piso ao declarar o já sabido.

“Seria uma privacidade realmente boa. Um filho meu já veio aqui pra conhecer, mas subiu só até o primeiro andar. Passou mal e quis descer. Minha esposa que teve coragem pra subir e achou maravilhoso, disse que queria um dia poder morar num desses. Eu me virei pra ela e falei que era sonhar um pouco alto... mas quem sabe um dia, né?”.

Apesar de pouco hábil com as palavras, seu Silvio parece ter certa noção das coisas. Sabe que quanto mais a cidade cresce, empurrando seus limites para o alto, a quem está embaixo resta passar rasteira nas dificuldades e tratar de empurrar seus próprios limites para lado que seja o da sobrevivência. Mas sem revolta, que isso não está de acordo com os ensinamentos divinos.

“Uma coisa que percebo são nossas árvores ficando defasadas com esses prédios. A natureza é muito boa pra Belém, ajuda no clima. A construção dos prédios prejudica um pouco isso, mas acaba compensando por ser um outro tipo de beleza. De cima, é uma visão muito bonita, de verdade”. Percebe?

Pois - bem o disse outro trovador popular do alto de sua sabedoria - na falta de colírio, o jeito é mesmo usar óculos escuros.

(versão sem cortes do frila escrito pra revista de.lovely, aqui do pará)

Posted by cacoishak at 17:18

2.07.07

pé, pra que te quero?

Imagina o quadro, mulher: vocês estão de namorico faz já alguns anos e ele te convidou, finalmente, para um jantar à luz de velas no restaurante mais badalado da cidade. Fez questão de armar toda uma cena e, ao estalar os dedos, violinos (vindos sabe-se lá de onde) começam a executar aquela música linda daquela comédia romântica a que vocês assistiram na primeira vez em que foram ao cinema juntos. Ele fica te olhando todo abestalhado e não muda a expressão, nem pisca, até levar a mão ao bolso da calça e erguer uma caixinha preta aveludada. A certeza de que é chegada a tão esperada hora só faz aumentar em teu peito, mulher, que já não suporta as palpitações. Ele, então, parte para o ataque, estende a outra mão e – surprise, surprise – agarra teu pé direito. É melhor que estejam bem cuidados...

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“Ainda não pedi o pé de ninguém em casamento. Mas já dei anel de dedo do pé pra namoradas”, confessa Ronaldo Passarinho, cineasta e, a exemplo de seu colega norte-americano Quentin Tarantino (recém-saído do armário), podólatra assumido. “Gosto de pés femininos antes mesmo de me entender por gente. Pés são zonas erógenas poderosas”.

Não adianta, portanto, mulher, ficar nessa de enrijecer o corpinho na academia ou sonhar em turbinar os air-bags, se teus pés andam aos trancos e barrancos – o acidente é iminente; o estrago, inevitável. Foi-se o tempo em que Carla Perez era rainha. O cetro de outrora de Pamela Anderson só serve, agora, de bengala para sustentar o peso das pomas. Uma Thurman já havia cantado a pedra em Pulp Fiction. Rose McGowan vem, em Grindhouse, para confirmar: homem gosta mesmo é de pé.

“Não que eu troque a mulher pelos pés. Adoro o corpo feminino dos pés à cabeça e da cabeça aos pés. Acho estranho é quem só gosta de peito e bunda e não aproveita as mãos, as pernas, as costas, o colo da mulher. E os pés, acima de tudo”. Entendemos bem, Ronaldo, não há necessidade de maiores explicações no receio de estar trocando os pés pelas mãos.

Mas o que seria um pé bem cuidado? Dentro dos padrões da Podologia, técnica de tratamento cuja popularidade vem crescendo em Belém, “seria aquele lisinho, sem calosidade nenhuma, com os dedos alinhados em ordem decrescente, que tenha o que chamamos de arco plantar, sem pontos de apoio. As unhas devem ser todas quadradinhas, sem problemas de encravação”.

Quem explica é a podóloga Edy de Moraes, que, entre uma dica e outra, segreda não serem as mulheres as únicas que buscam pelo serviço. Muito pelo contrário, aliás: “A procura dos homens por um podólogo está bem maior, em Belém, do que das mulheres. Os homens não gostam de expor isso. Então, procuram um lugar reservado pra cuidar de seus pés. Alguns vêm arrastados pelas esposas e acabam sendo mais fiéis ao tratamento do que elas próprias. Já tivemos casos, porém, até de homens que vieram escondidos de suas mulheres, indicados por amigos”.

Ao que Ronaldo franze a testa, considerando o papo um tanto suspeito: “Cuido do meu pé por higiene. Só. Pé de homem é um horror, deveria ser chamado de outra coisa pra não confundir com o pé feminino. Da minha parte, nunca teria chances com uma mulher podólatra. Tenho pés de pescador de caranguejo”.

Virilidade à parte, há aqueles que insistem em pegar uma contra-mão, para os quais pé é tudo igual, seja de homem ou de mulher. A ojeriza sentida é a mesma. Caso do universitário Flávio Barbosa, que sente “um misto de nojo e agonia. Quando alguém encosta com os pés em mim, finjo que não sinto nada. Mas trato logo de me afastar deles. Não sei quando essa repulsa por pés começou. Sei que sempre faço associação de pés com sujeira, calos, mau cheiro, suor, essas coisas. O que me incomoda não é a estética deles, mas, sim, o que eles representam pra mim. Faço o possível pra que as pessoas não percebam que eu não gosto de pés, mas evito, sem hesitar, ficar longe deles”.

A neura do moço é tanta, que nem mesmo objetos relacionados aos pés são de seu agrado: “Sapatos, meias, sandálias. Quando estão novos, não há problema. Mas quando esses objetos entram em contato com os pés, quero distância”.

É de se esperar que tamanho desgosto já tenha lhe feito passar por alguma saia justa, como quando estava apaixonado por uma namorada, “gostando muito, mesmo. Depois de uma semana de namoro, alugamos um filme e fomos para sua casa assisti-lo. No meio do filme, uma amiga dela ligou e, por isso, paramos o filme. Ela, então, ficou deitada na cama. Eu, olhando para ela enquanto falava ao telefone. Do nada, ela estende a perna e aperta o meu nariz com os dedos do pé. Não sei como ficou minha cara nessa hora. Eu entendi o gesto... acho que ela queria que isso fosse romântico, mas não consegui disfarçar. Foi horrível, nada romântico”.

Que não pensem, no entanto, que os apertos se restringem aos que não curtem umas pegadas de quando em quando. A podolotria, por sua vez, pode acabar sendo uma senhora pedra no sapato para as vítimas dos aficionados. A bailarina e coreógrafa Ana Unger que o diga: “Estávamos dançando em Santarém, eu era jovem, e a pessoa que nos convidou pra dançar lá, um senhor já de idade, após o espetáculo, aproximou-se e me perguntou se eu podia lhe fazer um favor. Respondi que sim. Perguntou, então, se eu não ficaria assustada com o que ele fosse me pedir. Já estava ficando nervosa, porque não sabia o que ele queria. Comecei, então, a fazer sinal pra minhas amigas pra que elas se aproximassem e não me deixassem sozinha com ele. Daí, ele falou que o que queria era muito simples, mas precisava que eu fizesse. Eu lá, ficando cada vez mais ansiosa. Até que ele me pediu pra que eu tirasse as sapatilhas, pois nunca tinha visto um pé de bailarina. Sua curiosidade era enorme”.

Nada impede, porém, que a abordagem seja sutil e o resultado acabe agradando o freguês. Ana conta sobre um episódio quando estava em Londres experimentando sapatilhas que haviam acabado de chegar no mercado, chamadas turning point. O criador delas estava na loja “e ficou encantado com meus pés. Era sapatilhas feitas especialmente pra quem tem esse colo do pé desenvolvido – pé forte, como chamamos. Ele quis fotografá-los pra colocar em seu catálogo e ganhei dois pares de presente”.

Dançarina num dia, modelo fotográfica em outro. Uma correria só. A vida para quem depende dos pés como instrumento de trabalho tem desses percalços. Por vezes, a beleza do resto do corpo acaba ficando em segundo plano, desde que os pés estejam nos trinques. “Cuido dos meus pés regularmente, pois trabalho com eles. Tenho de estar preparada pra quando aparecer algum convite. Além da limpeza habitual, outros cuidados são necessários. Uso bastante sapato fechado, principalmente na hora da malhação. Então, tenho sempre o cuidado de usar um anti-micótico, por exemplo. A maioria dos homens realmente olham pros pés das mulheres, sabe. Meu marido, pelo menos, elogia bastante os meus”, sorri a modelo de pés Sônia Vaz de Lins, timidamente, mostrando os seus, que se encaixam com perfeição no padrão estético defendido pela podologia.

O mesmo não pode ser dito de todas as bailarinas, como revela Ana, uma exceção apaixonada por seus pés: “Quando comecei a fazer ballet profissionalmente, usando a sapatilha de ponta por muitas horas, os problemas começaram a aparecer. Calos, bolhas d’água, o pé vai tomando uma forma diferente, as calosidades surgem, os joanetes. Eu, graças a Deus, nunca tive tanto problema, porque comecei a cuidar desde cedo. Tive uma professora em Londres que dava aulas especiais sobre como cuidar dos pés. Eram exercícios pra compensar o excesso de peso que colocamos em suas pontas. Com isso, os problemas foram diminuindo. Adoro meus pés”.

E então, mulher, aprendeste? Não te deixes pegar desprevenida, portanto. Mas presta bem atenção, não te desanimes com qualquer bobagem. Na dúvida, bom mesmo é ouvir o que um homem tem a dizer sobre o assunto: “Há pés femininos pequenos e lindos e há pés femininos grandes e belos do mesmo tanto. Tamanho não é documento. O que mais me atrai é ver que a mulher cuida bem dos pés e sabe que são armas de sedução”. Quem diz é o Passarinho, dos mais entendidos.

(versão sem cortes da matéria escrita pra de.lovely, revista sobre cultura e entretenimento, aqui do pará)

Posted by cacoishak at 20:05

27.06.07

Ah-sah-yee

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Bob Burnquist, Rob Machado, Moe Oshikiri, Kelly Slater. Esta bem poderia ser parte da lista de convidados de alguma festa badalada promovida por Paris Hilton na suíte presidencial de um dos hotéis de sua rede no sul da Califórnia (após os 23 dias de prisão). Com boa vontade, até Oprah Winfrey poderia ser jogada no bolo sem problemas. Não é o caso. Afora serem celebridades internacionais do esporte, da moda e do entretenimento, algo mais os une.

Seu Luiz está beirando a casa dos 70 anos e vive desde sempre com a família no Bairro do Guamá, numa modesta casa de alvenaria. Mantém uma funilaria básica, num cômodo adjacente feito de compensado, e nunca ouviu falar de nenhum dos nomes acima. A recíproca é mais que verdadeira. Muito embora Seu Luiz possa ter sido o vínculo primordial entre aqueles no que tange à presente questão – até agora, desconhecida. Revertamos o quadro.

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Agente principal de uma revolução que se desenrolou em surdina nas entradas de barracos espalhados pela periferia de Belém, a máquina elétrica despolpadora de açaí tornou possível que uma prática originalmente indígena – mais tarde, ribeirinha e interiorana – se tornasse tradição de toda uma sociedade, verdadeiro símbolo de sua cultura e da região.

Antes um trabalho custoso, a extração do suco do fruto pôde, enfim, ser realizada em larga escala, massificando seu consumo e abrindo as portas para sua disseminação e da herança de um povo.

Feita em um número enorme de postos de venda de pequena dimensão, comumente micro-empresas familiares caseiras e autônomas, a comercialização do suco (ou vinho, como fora batizado pelos primeiros colonizadores portugueses devido a sua coloração) do açaí concentrava-se nas áreas periféricas das grandes metrópoles amazônicas, destacadamente Belém, Manaus e Boa Vista.

Para se ter uma idéia, em 1993 havia uma estimativa de que a atividade gerava cerca de 25 mil empregos diretos e indiretos, só na capital paraense. Número que, estima-se, deve ter se triplicado na última década, com a proliferação do costume.

Entretanto, nem sempre foi assim. Segundo a antropóloga Leila Mourão, em sua tese de doutorado, “Do açaí ao palmito: uma história das permanências, tensões e rupturas no estuário paraense”, apesar das primeiras despolpadoras mecânicas utilizadas na fabricação do suco terem sido originalmente utilizadas em 1945, ainda com técnicas rudimentares, em muito semelhantes ao despolpamento manual (o que restringia o consumo do vinho às áreas rurais e periféricas, dada a sua baixa produção), esta “popularização” do açaí só veio mesmo traçar seus esboços iniciais a partir da década de 70.

Longe de ser mera coincidência, mesmo período em que a despolpadora elétrica, como a conhecemos, fora inventada nos fundos de uma oficina situada na baixada belenense, dando margem à produção em larga escala em atendimento ao mercado consumidor insipiente.

"Trabalho há mais de 40 anos fazendo essas máquinas de açaí. Quando comecei, o que existia eram aquelas máquinas de engrenagem. Fui eu quem lancei essas modernas, tirando a idéia a partir de uma furadeira comum, daquelas de bancada. Daí, achei que daria pra fazer uma máquina que nem essa aí. Então, eu eliminei as engrenagens e comecei a fazer desse tipo assim. O motor era em cima da bancada e a correia era chata. Modernizei e passei para a correia industrial, virando direto, sem precisar da engrenagem. Calculei a rotação, fiz tudo direitinho e, quando estava pronta, lancei", revela seu Luiz.

Partindo da premissa que o mestre lanterneiro idealizou sua engenhoca por volta de 1965, chega-se à suposição de que as máquinas que se tornariam populares na década de 70, muito provavelmente, eram as suas. Caboclo humilde, Seu Luiz viu a invenção se popularizar de modo desenfreado e, sem informação na época, acabou deixando o bonde passar sem se precaver legalmente. Não patenteou o feito e, hoje, sofre as consequências de ser um gênio incógnito.

Quem não soube seguir o exemplo do paraense foram os alemães da empresa Açaí GMBH, que patentearam o nome da fruta por toda a União Européia, a exemplo do que os japoneses fizeram, há alguns anos, com o Cupuaçu. Escolado, o Governo Brasileiro já entrou com processo e aguarda decisão. Mas... Açaí na Alemanha? Explica-se: quarenta anos após a revolução das máquinas despolpadoras, e vinte após ter conquistado as praias e academias do sul do país com bastante granola a tiracolo, o fruto amazônico começa a ganhar o mundo.

“Dos produtos do extrativismo, podemos relatar dois que já foram pauta de exportação com repercussão mundial: a castanha-do-pará e a borracha. Hoje, o açaí é o primeiro produto da fruticultura regional que alcança o mercado mundial. E isso sem nenhum trabalho de divulgação ou marketing da cultura, apenas avaliando-se suas propriedades nutricionais e funcionais”, relata a Dra. Ana Vânia Carvalho, pesquisadora agrônoma na Embrapa Amazônia Oriental.

O mesmo tipo de reclamação tem o empresário paraense Ben-Hur Borges, da exportadora AmazonFrut, ao considerar que “para os padrões nacionais de consumo e valor, o Açaí ainda não deve ser um dos produtos mais vendidos. Mas tenho certeza de que é o único que alcançou tanta importância sem nunca se haver feito qualquer tipo de propaganda. Nunca vi um outdoor dizendo ‘BEBA AÇAÍ’, apesar de já ter visto muita gente usando o açaí como chamariz para vender outros produtos”.

De um jeito ou de outro, fato é que o Açaí vem se alastrando com rapidez no mercado internacional, ainda que no boca-a-boca. Ou de boca em boca, por assim dizer. Recomendações como a do Dr. Nicholas Perricone, que apontou a fruta como sendo o alimento número um de uma dieta saudável no programa de Oprah Winfrey (o mais popular da televisão norte-americana), e de celebridades do esporte, afora matérias em veículos como as emissoras ABC e NBC, e os impressos Time e Washington Post, entre outros, fortalecem e difundem a imagem do Açaí entre o grande público.

Para a Dra. Ana Vânia, o que torna o Açaí tão atraente é “o fato dele possuir algumas substâncias associadas com a capacidade de atuar no metabolismo e na fisiologia humana, promovendo efeitos benéficos à saúde, podendo retardar o estabelecimento de doenças crônicas e/ou degenerativas e melhorar a qualidade e a expectativa de vida das pessoas. São efeitos que vão além da função meramente nutricional, há muito conhecida”.

Para as empresas que investem no produto, entretanto, os atrativos são outros. Os números impressionam. Pioneiros em levar o Açaí para fora do Brasil, ainda em 2000, os surfistas da Sambazon faturaram 12 milhões de dólares no ano passado com a venda de suco. Uma de suas concorrentes, a Bossa Nova Beverage não fez assim tão feio e abocanhou 4 milhões em 2006.

Visando uma fatia desse bolo, a já mencionada GMBH distribui a polpa do Açaí para 10 países europeus. Na Nova Zelândia e na Austrália, o suco fica por conta da NuFruits. E não pára por aí. A Anheuser-Busch, segunda maior fabricante de bebidas do mundo, lançou o energético de Açaí 180 Blue, enquanto a fabricante de sucos Bolthouse Farms investiu 10 milhões de dólares na inauguração de sua primeira fábrica fora dos Estados Unidos, próxima a Belém. Tamanho é o frisón, que até prêmio voltado à promoção do Açaí, o “Best Açainist”, já foi entregue no Japão pela empresa importadora Fruta Fruta.

“Consegui encontrar Açaí num shopping aqui em Vancouver, o Metrotown. Lá é vendido na tigela (como no Brasil), shot (porções menores) e ainda tem a opção de ser servido quente. Na verdade, quando cheguei do Brasil, nem imaginava que iria encontrar Açaí por aqui, não saía desesperada procurando nos lugares. Fiquei espantada e extremamente surpresa quando vi, nos supermercados inclusive, e minha primeira reação foi fotografar para mostrar aos amigos no Brasil”, confessa Ludmila Pontes, que se mudou para o Canadá após ter adquirido o hábito de tomar o suco todo santo fim-de-semana em São Paulo, onde morava com o marido.

Vivendo em Sacramento, na Califórnia, a jornalista brasileira Leila Couceiro acompanhou essa invasão de perto: “Antes, era possível se encontrar a polpa de Açaí em mercados mais voltados para alimentos orgânicos e naturais. Mas agora o Zola está mais presente nos supermercados comuns, tendo como vantagens o fato de já vir pronto para beber, além de possuir uma validade longa nas prateleiras”, afirma referindo-se à nova marca a apostar na novidade.

Aposta de risco, dependendo do ponto de vista. Leila acredita que “o sabor, descrito como uma mistura de ‘berry com chocolate’, seja bastante exótico para eles, e americano é um povo difícil de mudar de gosto. Talvez o fato de ser um anti-oxidante (e isso aparecer bem visível na caixa do suco) ajude a venda, porque anti-oxidantes agora são muito procurados como suplementos para saúde”.

No que depender, porém, de estabelecimentos como o Jamba Juice, especializado em sucos e vitamínicos, o sucesso é garantido. Ainda que seja necessário uma pequena ajuda na hora de se pronunciar o nome da especiaria amazônica. Açaí fica AH-SAH-YEE e tudo fica em casa.

Prova de que gosto não se discute, a americana Kathy Park, que viveu 8 meses no Rio de Janeiro, dá seu testemunho glutão: “Às vezes, eu comi como café de manhã e, outras vezes, como um lanche. Pode comer Açaí a qualquer hora, né? Hoje, a disponibilidade do Açaí é uma das coisas que sinto mais falta do Brasil. Quando voltei para os Estados Unidos, vi Açaí num ‘juice bar’. Voltei pra cá querendo apresentá-lo, mas era tarde. Ao longo do ano passado, vi o mercado crescendo devagar e tranquilamente. Acho que é uma questão de tempo até que os americanos o descubram de fato. As pessoas ainda o vêem como uma fruta misteriosa que é saudável. Definitivamente, ainda não faz parte do mainstream, apesar de que, quando você o menciona, alguns dizem ‘ah, sim... é aquela fruta amazônica que dizem ser boa pra sua saúde?’”.

Ao que Ben-Hur rebate, de olho no futuro, mas com um pé atrás: “Claro que outros estados produzirão e, por sua vez, terão forte concorrência com a Ásia. Quanto a nós aqui do Pará? Vamos continuar a dormir o sono dos justos com a barriga cheia de Açaí tirado na peconha, puxado na canoa, batido de qualquer jeito e cheinho, cheinho de coliformes. Afinal, nóis tamo acostumado mesmo, num é mano?”.

Seu Luiz bem sabe que sim. Um dia, quem sabe, Paris Hilton descobre.


(versão sem cortes do frila que escrevi pra living, revista sobre cultura e entretenimento aqui do pará)

Posted by cacoishak at 15:32

22.03.07

MADAME SAATAN

A caboclada está em festa. Mandaram avisar que vem da floresta um novo batuque e ai de quem não estiver em seu devido posto – vai perder. Curupira desentortou as pernas pra chegar mais rápido e entortar o cabeção numa nice. Até Matinta Pereira se animou. Deu as caras e distribuiu pra todo mundo. É fumo rolando solto na mata, seô menino. Não é todo dia que vem por terra disco que promete abalar as estruturas entre o céu e o inferno, não. Lá longe, alguém berra. Começa a pajelança. Saci se regozija num oba-oba danado. O espírito baixou. A Madame Saatan chegou. Encostado num canto, o Capiroto esboça um sorriso e bota o chibé pra dentro. Faz cara de quem gostou. A cantoria não tem hora pra acabar.

Mas voltemos um pouco no tempo. Idos de 2003, quando ainda não existia uma banda propriamente dita – afirmação (negação?) contestada, sem maiores problemas, pela moderna física quântica e sua teoria das probabilidades. Senão, vejamos.

Sammliz era (não era) Sammliz e já surtava com a lua cheia. Ícaro era (não era) Ícaro, o contrapeso, desde sempre o equilíbrio em pessoa. Edinho era (não era) Edinho, o menino virtuoso com a educação de um gentleman. Ivan era (não era) Ivan, moleque malandro do Bairro do Jurunas e exímio jogador de Copas. Os elementos estavam na ar. Faltava, portanto, tão-somente um Big-Bang, um catalisador que causasse a reação química necessária pra que as dimensões se fundissem, dando vazão a uma possibilidade nova por excelência.

O nome da substância? Paulo Santana. Dramaturgo que, na época, encenava a peça “Ubu Rei”, de Alfred Jarry (outro conturbado de berço), então rebatizada de “Ubu – Uma Odisséia em Bundalelê”. Sammliz trabalhava com o moço e não titubeou ao receber o convite pra compor a trilha da montagem. Nascia a Madame Saatan, remetendo ao célebre filme de Cecil B. DeMille. Deus não quis falar? Who cares? Deu no que falar. E muito.

Tanto, que, se a temporada de náuseas e prantos da platéia chegava ao fim, o desconforto não podia parar. Não eram poucas as mães ainda a serem assombradas. Os trabalhos estavam apenas começando. No entanto, sem maiores neuras. Tudo em seu tempo – relativo que só ele. Assim como trabalho pode se confundir com diversão. E escandalizar não passa de uma mera quebra dos paradigmas. O tal do Caos, o tal do Cosmos. Fluxo e refluxo. Mal surgiu em 2004 e “O Tao do Caos”, primeiro registro da banda em EP, reverberou o que era, até então, uma promessa e nada mais.

E, valei-me Nossa Senhora de Nazaré, o que diabos era aquilo? Mesclando letras de uma poesia tão original quanto o som calcado numa fusão de ritmos tão díspares entre si quanto heavymetal e carimbó, hardrock e lundu, baião e jazz, blues e trash – morre num metal amazônico, pro rótulo ser chamativo que dá gosto e por logo um fim às especulações –, o disquinho despertou a atenção da crítica e dos produtores na bucha, sem pestanejar.

Não demorou pros convites serem feitos e lá foi a Madame Saatan tocar por plagas desconhecidas, em importantes festivais do cenário independente, como Bananada (GO), Grito Rock (MT), Calango (MT), PMW (TO), e em casa mesmo, no Se Rasgum no Rock. Caiu de vez no gosto de santos e demônios.

Mas também, né, maninho... (e essa não é a primeira vez que digo isso). Quem tem Sammliz, não pode reclamar da vida. Nem se dar ao luxo de não aproveitar cada segundo dela. Pito e repito. Lembro-me bem do último show que vi da banda. Sammliz sambava. Pulava. Requebrava. E chorava ao microfone, exalando charme e tentação. Sentada a uma caixa de som, compartilhava momentos de intimidade com a platéia. Todos se digladiando por algumas gotas do suor da musa, sensualmente respingados por ela com as pontas dos dedos entre um suspiro e outro. Ah, se fosse só isso, porém...

Se não tivesse Ivan Vanzar fazendo de suas estripulias na bateria, inventando uma nova bossa com as baquetas, que gargalham nos tambores e no que estiver por perto – seja teto ou cabeça de menino. E o que seria dessa cozinha não fosse o baixo nervoso de Ícaro Suzuki (num frenesi estranho pra quem conhece o moço fora dos palcos; mesmo seu swing com o instrumento parece bater de frente com a esfinge aos olhos de quem o vê distante) a picotar os riffs de Edinho. Ah, se não fosse a maestria desse moleque Edinho – galã de ocasião – a injetar o sangue de quatrocentos cavalos e seus relinchos bem na jugular da criatura, devolvendo-lhe a vida esparramada qual éter pelo chão de anáguas...

Não haveria Madame Saatan. Não haveria essa dualidade monocórdia. Não haveria festa e nem a lua como a conhecemos. Não haveria “história de amor cine trash à meia-noite”. Nem o álbum homônimo que ora celebramos.

Com produção de Jera Cravo, em conexão direta com a Bahia, e a participação de Alcir Meireles na direção musical, o CD foi gravado em apenas sete dias (há quem duvide e afirme que o sétimo foi de descanso) no estúdio “O Meio do Mundo”, do ex-baixista da também paraense La Pupuña.

De onde saíram pérolas do cancioneiro prapular brasileiro – musical e poeticamente falando – como “dormindo nos braços da estátua com folhas nos dentes”, da porrada seca que é Devorados, faixa que abre o álbum. Ou “nem seus pecados são mais você”, de DUO. Chega, arrepia. Hits fáceis, já entoados pelo público nos shows. Público que delira por Diana de Messalina Blues. Bate cabeça em reverência aos soldados de Apocalipse. Isso, pra não falar do auê provocado por Cine Trash, citada acima. A surpresa fica por conta de Ela Queima, Ela Sorri, composta durante as gravações, em que encontramos uma Sammliz melancólica além da média. Simplesmente linda. Divina. Maravilhosa. Internacional.

A caboclada tem motivos de sobra pra festejar. É a Amazônia que pede passagem. Quem é rei, afinal, nunca perde a majestade. E já dizia a rainha: índio quer apito, mas também sabe gritar. Algum outro clichê aí na manga? Ou cansou da mesmice? Inúmeras são as probabilidades, não é mesmo? Pode, então, pegar a manga e começar a chupar. Transfigurou. Foi-se o tempo em que a mata era a explorada. Ela quer, agora, é explorar. O uirapuru vem cantando trazer as boas novas. Faz o pedido, que a Madame Saatan despacha.

Porque essa festa... ah, essa não tem hora mesmo pra acabar.

ooOoOoo

release escrito pro lançamento do primeiro álbum da madame saatan. fui convidado a escrever o texto de apresentação, o que me deixou bastante honrado. quem não conhece, que corra atrás.

Posted by cacoishak at 16:41

18.03.07

cel manda avisar

amanhã, às vinte horas, na livraria da travessa de ipanema, o amigo carlos eduardo lima lançará seu primeiro romance, vestido de flor, pela editora vertical. escrevi uma modesta resenha a respeito. aqui e abaixo.

ooOoOoo

Sei de uma coisa apenas: esse troço de amar e ser amado, atravessar a praça de alimentação do shopping abraçadinho à cara-metade pra depois ficar brincando de sujar a cara um do outro com os sorvetes que vieram de brinde na promoção da lanchonete fast-food – brinde este que tu fez questão de pagar sabendo que estavam te enganado (ei, acorda, seu paspalhão, estão te passando pra trás, será que não dá pra ver?!), mas pagou o dobro do preço que pagaria pelo sanduíche e o refrigerante mais a batata-frita num podrão de esquina, pagou rindo que nem um abestalhado porque ela pediu com aquela voz de siriema recém-saída do ovo que só as mulheres mais despudoradas sabem fazer quando precisam engolir o discurso pós-queima-dos-sutiãs que usam na hora do coito e nas discussões sobre religião e política; isso tudo aí de pagar uma de namoradinho, enfim, sei que isso não é pra mim.

Nem pra mim, nem pros tetos da vida. Porque isso de amor, tsk... isso acaba. “Acaba pelas circunstâncias, pela rotina, pela falta de tempo, pelo desinteresse, pela vida, pela morte. O amor acaba de qualquer jeito”, confirma-me o teto do apartamento onde mora Bernardo, o herói de um romance mela-cueca que acabou de ser lançado pela Editora Vertical. Vestido de Flor, o nome do tomo encharcado de lágrimas.

Confirmação a qual lhe retruca o tal herói: “Mas... Eu não concordo exatamente com isso”. Alter-ego escancarado de seu criador, o jornalista Carlos Eduardo Lima – que, hell well, não satisfeito em acreditar no amor, acredita também no rock’n’roll. Poutz. Não podia dar em outra, né? Dramalhão com direito a trilha sonora ao longo de todo o livro. De Engenheiros do Hawaii a Counting Crows, passando pelo Rei Robertão e os mineiros do Clube da Esquina – disco este que acaba virando o brinde lá de cima com que, a certa altura do campeonato, Bernardo presenteia Flora, admiradora involuntária de Vitor Ramil e mocinha da história.

Que, resumida, fica assim: carioca desempregado e aficionado por cultura pop, aos trinta e quatro anos ainda morando com a mãe, marca um encontro às escuras com uma desconhecida, atriz teatral curitibana e amiga de uma amiga do moço, ocasião em que ela deverá usar – adivinhem – um vestido de flor como referência pra que o rapaz a ache no meio da multidão. A isso, segue-se um emaranhado de encontros e desencontros na cidade maravilhosa, em que o pano de fundo simplesmente não importa. Afinal, estão embriagados de amor (alusão minha, concorrendo com as cinematográficas do livro). Ou, pelo menos, um deles está.

E assim se resume a história. De boa parcela da humanidade de uns tempos pra cá, a bem da verdade. Resumindo ainda mais um pouco: homem correndo atrás de mulher, que desdenha. Mas só aparentemente. Como todo bom resumo deve ser, aliás. Falso. Incompleto. Difícil, isso de falar de si próprio na terceira pessoa. Imputar suas inseguranças e jocosidades a outrem e, não obstante, fazer com que esses sentimentos soem tão eloqüentes a ponto de terceiros tomarem pra si a dor negada pelo autor.

CEL – como Carlos Eduardo Lima é conhecido por seus leitores habituais – soube realizar essa proeza. Um livro bom de se ler na praia. No ônibus. Na fila do cinema. Escrito e pra ser lido de maneira simples, quase à surdina. Sem maiores malabarismos literários. As contorções, ele deixa pro romance em si. Como todo romance deve ser, aliás. E é. Esse papo de chapado, muito reto e esticado, isso é coisa de teto mesmo. De parede, que não tem mais o que fazer na vida. De porta.

Portas... mas, afinal, que culpa temos de pertencermos, como bem o disse Alexandre Inagaki no prefácio do livro, a essa “geração de cínicos cênicos”? Talvez Flora, a atriz da trama, consiga explicar. Ou prefira continuar atrás da sua. E de Vitor Ramil.

Posted by cacoishak at 15:41

12.01.07

microfonia na rockpress

Dez pras cinco da manhã. Os pássaros que circundavam o Museu Emílio Goeldi começavam a cantar as pedras de que já era hora de bebum parar de entornar cachaça e tratar de seguir pro local combinado pra concentração da equipe do programa, às cinco em ponto. Primeira experiência de uma gravação em outro município. Brinquedo, não. Mas estavam todos muito arriados pra pensar em frio na barriga. E chegar no horário marcado. No stress, however. Breu Branco podia esperar. Eram anos de espera, afinal de contas. O Microfonia Na Estrada embarcaria dali a alguns minutos. Era só ter paciência. E um Engov na sacola.

leia o resto aqui. e morra.

Posted by cacoishak at 23:04

29.11.06

microfonia

Tá no dicionário:

mi.cro.fo.ni.a – s. f. 1. Med. Fraqueza da voz. 2. Rádio. Reflexão de um som agudo e contínuo sobre o microfone, tendo saído deste.

Que me desculpe a medicina, portanto. Pois ela definitivamente nada entende de música. Nem desse bicho esquisito que uns de maneira bem cafona ainda chamam de jovem – e aqui não consigo me deter em pensar no velho Anysio. Talvez tenha se especializado demais. A medicina, digo. E o Chico também, pra falar a verdade. Mas não a juventude. Pelo contrário. Os quartos das casas classe-média cada vez se parecem mais com verdadeiros celeiros de pequenos prodígios que de tudo um pouco entendem, sempre prestes a solucionar uma dor-de-cabeça de ocasião. Nem que a dor-de-cabeça sejam eles próprios. Microfonia, entendem?

Eu desenho, então. Ou melhor ainda. Grafito. Chamo logo o Breno Spiro pra passar essa mão de tinta. Imaginem só um cenário feito por ele sobre a arte do John Bogéa? Isso, num programa de televisão – e, u-lá-lá, independente. Todo mundo lá, inclusive, adora isso de pintar e bordar. Que o digam o fotógrafo Renato Reis, o técnico de áudio Jacob Franco e os assistentes de produção Lilia Melo, Gabriel Vasconcelos e Wellington Santos. Timaço de tarimba, esse formado pelo diretor Robson Fonseca, a produtora Zena Gorayeb e a executive producer Priscila Santos, diz aê? O assistente de palco Fabrício Bastos e a de direção Danielly Keystone estão lá pra não me deixarem mentir. Não satisfeitos, inventaram de tirar as tranças da Sammliz pra dar um novo ar cacheado à moça – de musa do rock paraense passou a apresentadora de maior sex appeal da nossa tevê. E ainda tem uma banda autoral diferente a cada programa, tocando ao vivo. Um brinco só.

Ou seja. Microfonia. Caíram na besteira de misturar skatistas, músicos, publicitários, vestibulandos, jornalistas e um emo. Já viram. Bombou.

Ainda se perguntando por quê? OK. Vamos nessa.

Lembram-se das dores-de-cabeça? Então. Quem disse que precisam de analgésico? Que nada. Carecem, sim, é de um meio em que possam se propagar num vai-e-vem danado de dúvidas e questionamentos. Estridentes que só elas. Microfonia, isso. Mas também é muito mais. É música, é esporte radical, é cinema, é literatura, é etc. Bastante et cetera, aliás. Porque esse bicho esquisito gosta de falar demais, de trocar idéias horrores e de se inquietar sempre. Tava passando da hora de alguém tentar entendê-los. Ainda que ninguém acabe se entendendo. Quem disse que não vale a pena tentar? Não eles, que cresceram aprendendo a fuçar e a remodelar tudo pela frente num legítimo do it yourself.

Que me desculpe a medicina, portanto. Pois, de fracos, eles não têm nada. O verbete da vez é reflexão.

Entenderam, agora?

Posted by cacoishak at 18:06

24.10.06

índio quer rock

and roll. porque indie é coisa de viado. saiu matéria nossa na revista outracoisa número dezessete. com fotos de mário guerrero e renato reis. tiveram que dar uma ligeira enxugada no texto, por assim dizer, mas não pega nada. vai abaixo a íntegra da bagaça. não revisada, obviamente. diz boa noite, william.

- boa noite, fátima bernardes.


ooOoOoo


Brasil, 1500. Aportava no território hoje conhecido como Bahia de todos s santos as três naus portuguesas, abarrotadas de marujos sedentos por desfrutar dos prazeres oferecidos pela terra ainda desconhecida. Mata fechada era o que podiam apurar ao longe. De onde logo saíram os nativos para recebê-los um tanto quanto calorosamente, por assim dizer. Levados pelas mãos por beldades cor-de-jambo, cujos cheiros e sabores eram da receita o mais exótico dos prazeres, adentraram a floresta. Não demorou, depararam-se com o nunca dantes visto. Festa estranha, com gente esquisita. Mas nada de birita. “Passa um cachimbão da paz pro Cabral, que daqui ele não sai mais”, disse então Abopuru, a primeira groupie genuinamente brasileira. Gostou tanto do pincel do moço que dele ganhou de presente, que acabou com ele ensaiando seus primeiros garranchos. De lá pra cá, pouca coisa mudou. Pouquíssima coisa mesmo...

Brasil, setembro de 2006. Belém. Parque dos Igarapés. I Festival de Rock Independente do Pará. Se Rasgum no Rock. Roqueiros saídos dos confins da terra brasilis, sedentos por desfrutar dos prazeres oferecidos por este solo ainda desconhecido pela maioria dos nativos que neste país se escondem, desembarcam por estas plagas sem a mínima idéia do que por eles esperam. Na bagagem, além do bom e velho rock´n´roll, alguns artefatos que, a olhos desatentos e desprovidos de um mínimo de sensibilidade, não causariam assim tanto furor. Pode ter demorado além da cota, mas finalmente a Bahia caiu. Após mais de quatrocentos anos de rixa, o Pará teve sua chance em caráter oficial de desbancar os orixás no veredicto final. Com destaque no quesito sensualidade. E em tudo mais que a criatividade pôde transformar quando os recursos que se tinham ao alcance das mãos, embora distantes de serem rústicos, eram, no entanto, escassos.

“Estamos passando uma temporada em São Paulo, temos alguns compromissos com o Sesc e tal. Então, fora o frio de são Paulo, ainda há a tensão com o PCC nas ruas e o caralho, nego fica se cuidando na hora de voltar pra casa e tudo. Daí, chega num festival desses, com esse clima, a gente até se desintoxica um pouco. Passei horas ontem no igarapé. É difícil surgir uma oportunidade de curtir uma água dessas, mais natural. Eu estava comentando com o Marcelo (Damaso, um dos organizadores do festival) que o sujeito que projetou esse parque, essa estrutura toda, se inspirou no rock´n´roll, em Woodstock. Pensa num lugar perfeito. É aqui”, desabafa Fred 04, da Mundo Livre (PE), escondendo o jogo do que realmente aconteceu nos chalés onde as bandas forasteiras, com exceção de Cachorro Grande – urtiga? –, ficaram alojadas, dentro do parque.

Com um pouco de insistência, continua: “É muito difícil a gente fazer o que está fazendo aqui, ficar os três dias acompanhando o festival, ficar no meio da galera. O fato da gente ficar hospedado dentro do parque também ajuda muito na história do intercâmbio entre as bandas. Não adianta essa coisa de e-mail, Orkut. Como disse o velho mestre Milton Santos, a verdadeira comunicação se dá no território. A comunicação cyber é uma ilusão de comunicação. Onde não tem emoção, não tem comunicação.” Agora, sim. Começou a melhorar. Mais um cutucão e o sujeito abre a boca.

“Isso aqui é pra garganta, eu fumo muito”, enrola Bactéria, tecladista do grupo, mostrando seus frascos de mel com própolis e de vitamina C, estrategicamente condicionados na mochila caso a energia pra antes e depois do show ameace falhar. Menos tenso, acaba por dar o papo: “talco pra chulé também é importantíssimo, porque senão ninguém agüenta dormir junto no mesmo quarto”. Mensagem recebida, missão cumprida. Próximo chalé.

Já entregues ao clima mormacento que lhes é tão familiar, recém-saídos de baixo das cobertas (a revista não se responsabiliza pelo conteúdo aqui exposto), os moleques do Mezatrio (AM), ao contrário de seus colegas pernambucanos, não se encabulam de expor suas perversões mais ousadas, logo de cara: se amarram num papel contact e suas mil e uma utilidades. “Filmito serve, na verdade, pra embalar comida e deixar na geladeira sem que ela fique ressacada. Mas a gente usa pra embalar os instrumentos mesmo. A gente é pobre, não tem dinheiro pra bancar Protect Bag no aeroporto, então a gente usa isso”, explica o baterista Alexandre Lins, pagando uma de loverboy intelectualóide do underground amazonense. Escroto que só ele, o baixista Silvio Neto arremata: “mas não adianta de porra nenhuma, bicho. É só pra ficar mais bonitinho na hora de baixar o produto. Sabe como é... a idéia da Cidade do Rock foi impressionante. A idéia de ter tudo aqui, restaurante, barracas, mulheres, foi muito foda. E isso tem de ficar nos próximos anos pra caracterizar o festival”. Melhor passar pro andar de baixo. O perigo ali em cima era constante, como ficou patente quando Lins quis iniciar sua tese sobre o quão prático era o tubo já gasto do papel contact.

A umidade no primeiro piso do chalé, porém, continuava. Pelo chão, sinais da orgia promovida na noite anterior pelo grupo Los Porongas (AC). “Ao lado do Bananada, em Goiânia, essa foi a recepção mais quente que a gente já teve. Acho que aqui foi até um pouco mais. Fiquei sinceramente surpreso e emocionado”. Pode não ter parecido até então, mas era pura cropofilia o discurso do baixista Márcio Magrão. “Biscoito Passatempo é a droga mais poderosa que pode existir, sabe. Você come um e não consegue mais parar de comer. Acaba trazendo algumas complicações gastro-intestinais. A mesma coisa com o amendoim que eu trouxe, me deu uma puta caganeira. Comi muito”.

Com a certeza de que, de fato, esse povo do Norte é tudo um bando de depravado desnorteado, restavam The Feitos (RJ), Bazar Pamplona (SP), Superoutro (PE) e Wander Wildner (RS). No meio do caminho pro resto dos chalés, o punk gaúcho vocifera, encerrando o assunto: “não enche, tenho que trabalhar”. Segue com sua mala de cd´s rumo ao centro do parque. A barraca de beijos do Wander seria montada. E o tempo corre. Quando, então, bate o cheiro da marola.

Completamente esquecidos do tempo e do mundo e dos noticiários da tevê, os mato-grossenses da Vanguart nem pareciam estar prestes a subir no palco. E eu, agora, peço licença pra fazer parte, em primeira pessoa explícita, da matéria e de tudo mais que rolou no mais aconchegante dos chalés do festival. Até então me acompanhando, o fotógrafo Mário Guerrero acabou perdendo a algazarra por motivos profissionais. Mais interessado em desbundar de vez, Renato Reis assume seu lugar, visivelmente ressaqueado.

Pelo menos umas quinze pessoas dos dois lados da hospedagem. Faltava só uma churrasqueira pro bacanal estar completo. Fumaça tinha. Rodinha também. Violas sendo arranhadas. Nativas nuas saindo correndo do quarto enquanto rolava a já tradicional partida de futebol de botão dos meninos. Tambores-de-bolso freneticamente batucados, despelando o couro de quem se aventurasse. Vozes por todos os cantos, falando nas línguas dos homens e dos anjos – caídos ou não –, emulando um verdadeiro ritual pagão inspirado nas rezas carismáticas dos programas de televisão. E eu no meio de tudo isso. Literalmente. Homenagem a seu gato siamês, o goleiro do time do vocalista Hélio Flanders (que trajava suas pantufas bolivianas de pêlo sintético fashion, após ter perdido suas havaianas na noite anterior em manobras arriscadas) se chamava Caco. In apuros again.

“O mais escroto é que cada jogador tem seu próprio nome. São pessoas que existiram de verdade. Ou grandes nomes do futebol ou conhecidos nossos. No time do Hélio, tem um cara que foi aluno de inglês dele, o Paulo Brustolin. O cara era manco, a gente o chama de habilidoso perneta. Engraçado foi que, um dia, a gente estava no aeroporto de São Paulo e quem aparece? Pois é...”, provoca o baterista Douglas Godoy. Mas não pára por aí: “Tem também um jogador que era do Grêmio. Não vou citar nomes, mas tem uma história de que o André Vasquez, do Sapatos Bicolores, comeu a neta dele”, prosseguiu enquanto animava a partida com seu tambor-de-bolso ganhado na véspera.

“Esse tamborzinho foi um presente de uma aí que faz parte da imprensa. No momento, ela está ocupada”, diz apontando pra moça, atracada a um dos membros de alguém da banda. “Vou levar comigo nas viagens. É bom pra acordar o povo. Acho que sou o novo tamborzinista da banda. Vou até fazer um case pra ele”.

Nesse momento, Retrato Reis chama de volta minha atenção, já então um tanto dispersa. O show da Baby Loyds, banda punk local com vinte anos de estrada, começaria seu primeiro show com nova formação. Nos dois outros dias, haviam passado Aeroplano, Turbo, Nó Cego, Buscapé Blues, Stigma, Telesonic, Álibi de Orfeu, Johny Rockstar, Norman Bates, Stereoscope, Cravo Carbono, Suzana Flag e Madame Satan. Naquele domingo, dia 3, Retalietory acabava de tocar. Faltavam Jolly Joker, Delinqüentes, I.O.N., A Euterpia, Sevilha, Coletivo Rádio Cipó e La Pupuña pra quem ainda não tinha conseguido – vai saber como e por quê – descabelar o palhaço.

Sex appeal pra isso, as bandas paraenses tinham e têm de sobra, como bem o reparou Fred 04, com quem me reencontrei a caminho dos palcos. “Acho bacana o relacionamento do público daqui com as bandas locais. É parecido com o que rolou em Recife no começo, da galera se orgulhar e dar uma moral bacana pra eles”.

Nada à toa, meu caro senhor dos mangues. Afinal, foi-se o tempo em que meros espelhos davam conta do recado na hora de fazer bonito antes do coito. O escambo, agora, é mais embaixo. Índio quer é rock. E exigem que, por favor, seja bem feito. Pois começam a perceber que o produto de troca local está cada vez se valorizando mais, especializando-se mais e ganhando mais espaço e respeito da mídia nacional. O povo da Dançum Se Rasgum fez sua parte ao organizar minuciosamente os banhos afrodisíacos da pajelança pra muvuca não se desanimar um só minuto. Agora, resta apenas ao Brasil se curvar aos encantos da floresta. E de suas nativas groupies.

Posted by cacoishak at 3:30

2.10.06

punk-love no divã

enfim, saiu. aos poucos, vai saindo. sai um pouco, entra outro. sai outro, entra mais nenhum. nem ninguém. por uma temporada que seja. por ora, é o wildner na fita. capa de outubro da rockpress.

valeu pelo espaço, claudy. luv ya.

e tá que tá, esse rio. mais um pouco e não vai dar pra controlar essa vontade louca de me casar