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11.07.07

high'n'dry -belém colírio

Belem_13.jpg

Em Belém, ai de quem cair na besteira de pensar que caminhar é um desafio para as pernas tão-somente. Viver no chão não é tarefa das mais fáceis por aqui, não. Belém das calçadas desniveladas, do mau-cheiro saindo dos esgotos a céu aberto, da poluição sonora que a faz campeã nacional no assunto. Audição, olfato, tato... tudo quanto é sentido sofre pelas plagas de cá quando explorar a cidade é antes uma aventura sensorial do que mera necessidade. Que o diga o paladar com a boca cheia de sal do suor escorrido testa abaixo ao meio-dia.

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Há uma minoria privilegiada, no entanto, a quem é permitido desligar as demais funções do corpo, recostar-se num canto e se deixar flanar apenas com os olhos. Para estes poucos bem-aventurados, o caos sonoro do asfalto chega aos ouvidos como lounge music das mais suaves, o cheiro do ralo já não assusta – o vento levou; foi junto com o calor. E o passeio pela província se torna um colírio de novas perspectivas do alto de seus espigões de vinte e tantos andares.

É Belém vista por um outro ângulo, admirada de cima, o que, para um número ainda menor de pessoas, não é novidade faz tempo. Para Dona Julia Vallinoto, por exemplo, vizinha há mais de 40 anos das 189 outras famílias que residem no Edifício Manoel Pinto, nosso primeiro arranha-céu. Aos 73, encara a visão de seu 14º andar como o mantra diário que entoa através das lentes de seus óculos, ocasião em que fica “horas esquecida, contemplando a Baía, o Teatro da Paz”, principalmente após as seis da tarde, “quando as luzes se ascendem e tudo se transforma”.

Dona Julia já teve a oportunidade de subir ao 25º andar e confirma que, da cobertura, é possível se observar a cidade quase que em sua totalidade. Dos apartamentos mais baixos, porém, a história é outra de uns tempos pra cá. Os anos foram passando e a expansão imobiliária mudou o panorama. É com pesar na voz que recorda a maravilha que era morar no edifício, logo no começo, época em que figuras conhecidas da sociedade paraense habitavam seus cômodos: “Era o máximo, uma coisa mesmo, todo mundo se achava. Tínhamos uma vista mais bonita, pois não existiam tantos prédios na frente. Na Transladação, dava pra ver todos os fogos. Hoje em dia, perdemos um pouco essa visão, embora continue muito bela. É um prédio antigo, mas não tenho a intenção de sair daqui”.

Faz certo, Dona Julia. O velho Manoel pode ter perdido um tanto de seu glamour, é verdade, mas o visual permanece o mesmo. Lá estão o Ver-o-Peso e suas embarcações, as ruelas da Cidade Velha, as prostitutas da Riachuelo batendo ponto e se encontrando no Bar do Parque para uma gelada no fim do expediente. Bem lembrada, também, Nossa Senhora de Nazaré abrindo alas para Santo Eloy e as filhas de Chiquita. Difícil de imaginar, portanto, o que se passa na cabeça de uns que se jogam do prédio já conhecido pelos suicídios. “Só tendo algum problema mental. Não dá pra se atirar daqui com uma vista dessa”.

Difícil, mas não impossível. A imagem da vida concentrada que pulsa numa visão dos altos pode ser traiçoeira. Vida demais para quem tem de menos. Vida, talvez, artificial demais, contrastando com a genuinidade proporcionada pela solidão no cume da torre. Sentimento resumido na frase proferida por um amigo, há alguns anos, quando estávamos na sacada de um 21º andar, tendo o Canal da Doca como pano de chão: “Aí embaixo, há mais morte do que vida. Mais morte do que vida”.

Para o bem de todos os passantes e a saúde mental dos servidores do IML, todavia, há quem simplesmente se reconforte ao vislumbrar a movimentação das massas em solo firme. É o caso do médico Mauro Pantoja, de 47 anos, morador do 15º andar num bairro nobre de Belém. Criado em casa, sempre gostou de altura e mora em apartamento há 20 anos. Nunca abaixo do 10º andar. Dependendo do momento em que se encontra emocionalmente, Mauro se deixa levar pela imaginação enquanto observa o formigueiro de gente que vai e vem sob sua vista, fazendo Cooper ou passeando com os filhos na Praça Batista Campos.

“Cada vez mais, nosso tempo está reduzido em termos de parar em casa. Então, sempre entre uma correria e outra, é bom relaxar, recordar sobre o passado. Às vezes, acordo cedo e venho pra sacada. Assisto ao pôr-do-sol praticamente todos os dias daqui de cima. Vejo uma cidade que cresceu muito nesses últimos vinte anos. Belém, hoje, está desenvolvida, com suas avenidas e praças mais bem iluminadas, as ruas mais bem asfaltadas. A arquitetura dos prédios também traz um certo tipo de beleza. Fui criado numa época em que o contato direto com a rua era muito bom. Atualmente, já não é mais assim. Por questões até de segurança, é melhor morar em apartamento”, justifica-se como que querendo um álibi para sua opção.

O conceito de segurança para uns, porém, nem sempre é o mesmo para outros. Os néons, afinal, não piscam para todos que se debruçam em suas janelas no meio da madrugada. Tem quem acorde cedo, antes do sol raiar, e encare a altura de forma completamente diferente.

Há 23 anos, a rotina de seu Silvio Evangelista Lopes é a mesma. Sai ainda com o galo cantando de sua casa em Ananindeua, rumo à labuta. Operário da construção civil desde os 18 anos, seu Silvio acumula vários prédios em seu currículo. Lembra-se de quando as edificações não passavam dos 12 andares com uma risada. De lá para cá, esse número triplicou. Garante que não sente medo algum ao ficar dependurado do 36º andar de uma obra em andamento. Isso, ele deixa para os novatos: “Quando os mais novos chegam pra trabalhar pela primeira vez, com dezoito, dezenove anos, ficam um pouco nervosos. Com o tempo, vão se adaptando. Uma vez, um rapaz foi logo tendo cara branca, ficou bastante amedrontado. Nessas horas, não dá pra olhar pra baixo. Tem que se concentrar no trabalho e entregar pra Deus”.

Católico praticante, seu Silvio se sente realizado por aperfeiçoar o mundo que, acredita, fora feito por uma entidade superior. Mais realizado ainda por ter o privilégio de poder ver esse mundo todo de onde trabalha: “É uma emoção muito grande ver a cidade de cima, ver coisas bonitas que as pessoas lá embaixo não conseguem ver. Daqui, consigo enxergar o rio todinho, por exemplo. Vejo os aviões pousarem no aeroporto. Eu me sinto feliz por ver algo novo, que ainda não tinha visto”.

É, de fato, uma senhora vista, cheia de descobertas a cada esquina. De lá do alto, as distâncias parecem diminuir – as físicas, pelo menos. De Val-de-Cães para o Ver-o-Peso é um pulo, sim senhor. Mas não se engane. Trata-se de uma Belém rica em sinuosidades, onde as retas se curvam e as curvas formam um labirinto de anseios na mente do observador. Rica demais, até. Daí, vem o Zé Ramalho e me canta ao pé do ouvido: “Tá vendo aquele edifício, moço? Ajudei a levantar”. Seu Silvio não trocaria sua casa por um apartamento. Mas não por falta de vontade. Encara o piso ao declarar o já sabido.

“Seria uma privacidade realmente boa. Um filho meu já veio aqui pra conhecer, mas subiu só até o primeiro andar. Passou mal e quis descer. Minha esposa que teve coragem pra subir e achou maravilhoso, disse que queria um dia poder morar num desses. Eu me virei pra ela e falei que era sonhar um pouco alto... mas quem sabe um dia, né?”.

Apesar de pouco hábil com as palavras, seu Silvio parece ter certa noção das coisas. Sabe que quanto mais a cidade cresce, empurrando seus limites para o alto, a quem está embaixo resta passar rasteira nas dificuldades e tratar de empurrar seus próprios limites para lado que seja o da sobrevivência. Mas sem revolta, que isso não está de acordo com os ensinamentos divinos.

“Uma coisa que percebo são nossas árvores ficando defasadas com esses prédios. A natureza é muito boa pra Belém, ajuda no clima. A construção dos prédios prejudica um pouco isso, mas acaba compensando por ser um outro tipo de beleza. De cima, é uma visão muito bonita, de verdade”. Percebe?

Pois - bem o disse outro trovador popular do alto de sua sabedoria - na falta de colírio, o jeito é mesmo usar óculos escuros.

(versão sem cortes do frila escrito pra revista de.lovely, aqui do pará)

Posted by cacoishak at 11.07.07 17:18