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08.06.07

mais uma

coluna na outracoisa. outro poema inédito, pé de cabra. aí embaixo, o conto que saiu na semana passada, originalmente escrito em 2005. reescrevi e ficou assim:

leme & madalenas

suava frio, subindo a ladeira. meta número um pós-viagem: nas próximas incursões, dispensar os frutos supérfluos de minha precavida megalomania, levando na bagagem tão-somente o essencial pra boa higiene diária e as borrachudas que esquecerei de usar conforme o so nice pra chuchu fantasiado em considerações mentais que terei feito como fazia enquanto, suando frio, subia a ladeira rumo à estação do metrô.

restava-me pouco mais de 40 minutos pra chegar à rodoviária, comprar o bilhete pro rio de janeiro (certificando-me do lugar marcado ao lado), aquela mijada automática que dá adeus ao cago e embarcar tranqüilo.

já acomodado, senti a falta que fazia um cobertor. mas, na falta de um ou outro detalhe felpudo, apelar pra cara de pau não me parecia de todo absurdo. envolto pelas sombras quase apagadas do fim de tarde, um livro aberto disposto num ângulo semicerrado sobre as coxas haveria de resolver meu problema.

complicou. best-seller, chamou a atenção de uma velhinha que se levantava ao longe e ameaçava ir na nossa direção. e não foi. porque velhinha alguma não havia. mas havia um cão.

gelei quando paramos logo após a fronteira entre os estados. polícia rodoviária revistando os pertences dos passageiros e mirou certeiro, o pastor alemão. atravessou o corredor pendendo a mesma língua frouxa com que, eu já de olhos contraídos e ensaiando um lacrimejo, passou a lamber entre gemidos minha calça na altura da braguilha toda suja da porra que acabara de ejacular.

– tenho que revistá-lo, senhor. levante-se, por favor.

– à vontade.

– merda. desculpe. senhor.

– à vontade.

e o ônibus partiu. logo chegaria à maravilha que a capital me reservava. os três cigarros queimados um no rabo do outro (antes de entrar no prédio onde me esperavam), tentando esfumaçar um pouco o que então pra mim era claro o bastante a ponto de bambear as pernas e tudo mais que elas sustentavam. ao primeiro abraço e o completo torpor à primeira audição dos acordes tirados à cítara.

menino tímido que sou, de tempo em tempo pausava em vão o fluxo nervoso de palavras soltas que se sobrepunham umas às seguintes entre uma baforada e outra de minha consciência na esperança de que, de uma hora pra outra, sem mais nem menos, a tevê ligasse sozinha e nos levasse, eu e calvin, o gato castrado, pra uma dimensão segura porquanto depravada, a salvo das prendas que seríamos obrigados a pagar.

no entanto, a tevê não ligou. tarde demais. e foi dormir.

e fui me afogar um pouco no mar do leme, no intuito de exterminar os pensamentos impuros. malditos putos à prova d´água. persistiram durante a noite inteira e até a próxima. parcialmente recuperado do baque (resignado me soa um tanto mais sincero), retornaram os tremeliques e fantasias que levei dali na manhã em que, tão logo entrara no banheiro, dei de cara com a despedida escrita no espelho com batom vermelho e o cheiro de orvalho que vinha da roupa suja.

Posted by cacoishak at 08.06.07 23:05