« hell ain't hot enough for me | Main | carnaval »
18.02.07
Noite de Natal
Clopt! Clopt!
É a ruazinha que tosse, tosse, engasgada com o homem da muleta.
Mário Quintana
Ele agora chama a mulher de minha filha e à noite tosse seco. Eu mantenho meu sorriso emplastrado, úmido de saliva, confiante - ainda que falte mesmo o que dizer. E se tivéssemos sido namoradinhos quando crianças? O nosso acordo injusto me empanturrava de orgulho: eu pagava o lanche, o picolé de uva, e ele saía gritando pelos quartos cantos do mundo a sua namoradinha magricela dos cabelos mal-cuidados.
Andei cabisbaixa, o pescoço inclinado, melancólica. Um vento contínuo varria a rua, as calçadas. Divisei as sementinhas vermelhas como se envernizadas. Lembrei do cemitério, quando quem morreu eu nem amava e V. chorava copiosamente. Era seu pai. Uma dor maior que o amor, eu penso. Dois chumaços de algodão tampando as narinas. E, quanto às sementinhas vermelhas, diziam: Não leve para casa, nada daqui se carrega, jogue fora, vamos, jogue no chão.
Eram os fios de ovos, as cerejas, o pernil bronzeado. De salto alto, rebolava até o banheiro. Tranquei a porta e, olhando para o espelho, pensei em ti; teus beijos delicados, calmos e contínuos como os ventos deste lugar estrangeiro, Aracati? Os azulejos dos prédios, teus cílios escuros, os bicos dos meus peitos molhados, duros. Abri a porta e, emplastrada, sorri para uma desconhecida não tendo mesmo o que dizer.
Lembra do soldadinho? No colégio, eles pousavam sempre em algum lugar:
-Sobre a mesa de ping-pong.
-Sobre os livros de gramática.
-Sobre os ombros.
-Sobre os restos do picolé de uva.
Os dedos grudavam açucarados, e, como pinça, tomávamos o bicho pelas asinhas listradas tais as zebras. Eles balançavam as perninhas pretas, teus cílios escuros, e se soltássemos, fugiam desengonçados, voando.
Todos estão casados, todos sabem amar.
Eu esqueci, eu tusso.
ooOoOoo
escrito pela natércia pontes. dizendo ela, não gostou. eu, que adoro natércia quando soluça e não tinha medo de soldadinhos quando criança, aqui o publico e o torno público, entonces. meu sentimento.
Posted by cacoishak at 18.02.07 20:49