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18.07.05

playback sessions # 8

- como assim, parou no meio?
- pois é, parei.
- não vai mais escrever?
- nem vou. bateu a descrença.
- cê tá caidaço, hein.
- percebe-se?
- nó...
- me alcança aquele vidrinho ali.
- mas cê tem certeza disso?
- disso, do que vai ser?
- do que mais?
- de qual das três, é isso?
- agora são três? desde quando?
- e não eram desde o começo?
- não eram.
- não eram? passa o vidrinho.
- não eram.
- e quem disse que eram? o vidrinho, por favor.
- faz-me rir. vai morrer assim, mesmo?
- com a pá de terra numa mão e a cachola polida na outra, dando uma de equilibrista.
- já pensou em ir comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar?
- isso é clichê barato. eu mereço mais que isso, eu acho.
- merece é um caralho na bunda. quantas vezes eu já não te disse?
- nunca nada que tenha valido, vai desculpando. não vai dar mesmo?
- é nisso que dá ser complacente. tinha era que sair rasgando o ego logo de uma vez, que é pra aprender a não fazer cara torta pra quem só te quis alforria.
- nossa mãe, hein. e agora, entro na fila ou como é que eu faço? pra quem só te quis alforria. bonito isso.
- não eram três.
- eu disse que não eram. me arruma um desses, então.
- disse sim, sempre disse, disse ainda há pouco. tem lá na dispensa, vai pegar.
- dispenso. e não disse não.
- há-há, trocadilhos infames. tá mals, hein.
- hein?
- mas será possível? o que tá acontecendo c´ocê, hein? vai, levanta a cara e olha pra mim, seu babaca, escroto de merda. tá querendo aparecer pra quem, hein? não tem mais platéia, não, seu bosta, já foi todo mundo embora, inclusive você que nem mais tá se dando conta disso. não tem mais banquinho nem violão, bateu o cansaço faz tempo, gira o pião que a véia vem quente. pensou que ia ficar nessa pro resto da vida? descrença nessas horas é uma maravilha, muito fácil isso. então, quer dizer que só porque não foi do jeitinho que cê imaginou nesse mundinho megalomaníaco que cê sempre construiu em torno d´ocê com umas pretensões que sabe deus de onde tirou a custo de nada, só porque de repente o cavalo saiu tropeçando por cima da sua cabeça mas também só porque foi você mesmo quem quis inverter a lógica do jogo, que agora de nada mais vale mais nada que cê tá vivendo?
- nossa, que nó, hein.
- cê tá achando tudo muito engraçado, não é mesmo?
- tô não, cara. tô não. mas...
- mas o quê?
- mas porra. até que tô.
- se fuder, caralho.
- não, sério. presta atenção. cê faz idéia de quantos dias eu não dirijo um carro?
- e isso lá importa?
- porra, pára um pouco e me escuta, é sério. claro que importa. eu quero, eu preciso dirigir um carro, pegar num volante e sair por aí. faz não sei quantos dias que é a mesma merda de vai andando até ali e sobe aquela escadinha, faz o contorno, passa pela passarela, pega o elevador e pronto. senão, caminha dois quarteirões e já tá no metrô, que maravilha. mais cinco estações e tudo que você sempre quis estará ao seu alcance, na maior comodidade. que coisa mais estapafúrdia é essa, vou te contar.
- cara, acorda. cê vem me falar de carro agora que tudo tá indo pelo ralo? comodidade? comodidade é exatamente isso que cê tá querendo, de preferência parcelado em cinco sem juros.
- cê não tá me entendendo...
- tô sim. e, sinceramente, isso já tá me soando peça teatral de universitário paulista, faça-me o favor.
- tá não. me entendendo, eu digo. pensa que tá, mas não tá. e não é de hoje, só fazendo pose, só pagando na mente dos outros, punhetando com a vida de todo mundo, fazendo pressão que é pra ver se sai gosminha.
- e saiu gosminha?
- tcha-tcha-tcha!
- ei, acorda! me dá isso que não tá te fazendo bem.
- é, pr´ocê tá que é uma beleza, melhor apagar. mas, então, como eu dizia. faz falta um carro, cara, não é brincadeira, não. cê pode até pensar, nossa, que impaciência, nossa, que sofreguidão desnecessária, nossa, que inocuidade pré-orçamentária de la cocha bamba dos caralho a quatro, mas qual o quê que nada. não se trata disso, absolutamente. eu tô a zero, às mínguas, nem traça quer mais me comer. sem combustível nenhum, tá ligado? e, não sei se deu pra perceber, nem é só do carro que eu tô falando...
- e nem de nada com nada, porra, se liga você.
- ai, meu caráleo. eu quero, preciso, necessito, sos, urgente, mayday.
- antes era de qualquer coisa.
- sim, antes. não agora, não mais. agora é na classe, abusando do absurdo de uma consignação infeliz e descomedida que eu nunca quis pra mim.
- antes eu pelo menos podia fazer alguma coisa pra ajudar.
- não quer nem pegar a parada pra mim na dispensa, caramba, e fica nessa agora? dá um tempo que não é pra hoje que eu tô matando, não.
- cê nem sabe o quer da vida, cara. como sou eu quem não quero pegar a parada? já perguntei, qual das três? me respondeu? nada. ficou enrolando, e são três e não são três, seriam quantas, talvez mais quatro. não tô aqui pra isso não, disso pode ter certeza, nem pelo caralho.
- tá bom, meu amor, nunca esteve não. e nunca foram três, como eu já disse ou sei lá quem foi e só você não quis escutar.
- e quem é que tá falando agora?
- como quem é que tá falando agora? não tá vendo, não? tá abusando mesmo, hein.
- cê sabe do que eu tô falando.
- eu sei? não faço idéia, honey. cê, por acaso, tem alguma idéia pra me emprestar?
- sei que cê tá falando como se tivesse falando com quem nunca falou antes de falar tanta merda despropositada de quinze minutos pra cá.
- ah, é? minha vez agora, então: levanta bem essa cara e escuta bem o que você vai me ver sentindo: sempre foi, nunca diferente, e sempre será: uma só:
- e depois dos dois pontos, vem o quê?
- amanhã eu resolvo.
- só porque você quer. toma essa chave e cai fora.
- olha que eu vou, hein.
- vai mesmo.
- tô indo.
- desaparece.
- vejam só, o gato voltou. corre atrás dele, pega logo, vai, não deixa fugir de novo, não.
- pode levar, é todo seu. só toma vergonha na cara e passa na dispensa antes e pega uma das três ou as três juntas ou nenhuma ou cê quem sabe e não se esquece do que ele come também e some logo pra nunca mais voltar.
- relaxa, beibe. não tá vendo? já passou.

Posted by cacoishak at 18.07.05 17:36