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24.03.08
Juliana Sinimbú: do pé sujo a barba, cabelo e bigode

Mal havia nascido e já corria solto o ano de 2006, auge da biritagem de bar em bar - nenhum em especial me fazia cair de amores. O que importava era se o estabelecimento tinha cerveja gelada e barata (barata, acima de tudo). Numa dessas foi que caí no Bodega, casa nova no pedaço. A cerveja nem era tão gelada assim, pra ser sincero. O preço, apesar de deixar o sal pros quitutes da cozinha, também não tirava da boca dos clientes algo próximo de um "nossa, quase de graça, né?". Um pé-sujo dentro da média, portanto. Nada de mais. Ou quase.
Lá pela quarta ou quinta garrafa, ouvi o choro de um violão. Até aí, novamente, nada de mais. A voz que acompanhava o violão, porém, me fez virar a cabeça em direção ao palco no ato. E ah... batia certinho. Não era tão-somente uma bela voz que cantarolava Waldemar Henrique. Não, senhor. "Quem é essa?", perguntei pro bebum da mesa ao lado. "Juliana Sinimbú. Nunca ouviu falar, não?". Ao que reiterei um "não" meio sem jeito. "Pois grave esse nome, meu amigo".
Gravei. Não só o nome. O timbre de Iara havia sido incrustado entre uma sinapse e outra também, afogando os neurônios pela frente. Como se saísse no formato de seus lábios rasgados, seu canto picotava meus ouvidos. Fazia de mim gato e sapato. Fiquei sem reação. Copo cheio estacionado na mão a meio caminho da goela. Logo eu, zé-manguaça com DRT e tudo, abstêmio por conta de uma crooner de botequim.
Caí de amores. Pela crooner, pelo pé-sujo, pela cerveja nem tão gelada nem barata. Virei cliente assíduo. Batia ponto todas as quintas, quando ela cantava. E, ao longo de um ano, acompanhei a rápida evolução da mocinha, que foi lapidando seu repertório com a fina flor do cancioneiro popular brasileiro e paraoara.
Até o dia em que a Sinimbú sumiu. Pelo menos, do Bodega. "Cadê ela? Por que não canta mais aqui?". O garçon: "ih, agora ela tá chique. Só canta em teatro e bar-restaurante com ar-condicionado". Inveja é uma desgraça. Só em teatro e bar-restaurante com ar-condicionado? Pois bem. Agora, sim... bateu certinho. Barba, cabelo e bigode. Nos trinques. Um luxo só. À altura da musa.
Deixei de freqüentar o Bodega. E só não corro atrás da Sinimbú pelos teatros e bares-restaurantes com ar-condicionado da vida porque... bueno. Em teatro, não se pode beber. Já em bar-restaurante com ar-condicionado... não existe cerveja barata e nem gelada o suficiente, convenhamos.
Mas, ah, se ficasse na sarjeta, do lado de fora, tomando meus gorós sozinho e escutando a Sinimbú cantar entre um abrir de porta e outro... ah, que bela sarjeta seria.
Posted by cacoishak at 24.03.08 14:23