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2.01.08
eurekas, guaribadas e um luxo só
Lembro bem da época em que me trancava no banheiro quando era criança e por lá ficava a tarde inteira depois da aula, ora ensaboando um tubo de ensaio, ora destroçando despertadores pra tentar consertar tudo de volta – sempre em vão. Tinha esse kit antigamente, esqueci o nome, que chegou a ser febrícula num desses verões entre os jovens cientistas do século XXI, e que vinha com umas substâncias químicas e uns materiais de laboratório. Pirava com tudo aquilo. Ficava louco até por demais, trancado naquele banheiro e misturando elementos na doida. Tudo em benefício do novo. Raspava um sabonete aqui, espremia um creme mais adiante e voilá. Pra alguma coisa aquilo prestaria.
Mais ou menos nesse mesmo período, reuni os primos – uns seis ou sete – encasquetado que estava com a idéia de formar um grupo justiceiro mirim que combatesse o crime e ajudasse senhoras a atravessar as ruas e que resgatasse seus gatinhos presos nas árvores da vizinhança - algo entre o Trem da Alegria e os Galaxy Rangers, além de mascarados (uma coisa meio bicha, agora vejo). Pra tanto, em primeiro lugar precisávamos – é claro – de meios de transportes a nossa altura e de nossos propósitos. Não de qualquer bicicleta ou skate. Isso, qualquer mortal da nossa idade tinha. Por que não uma bicicleta que também pudesse ser pedalada na água sem que toda a carcaça afundasse com o dono, mas pelo contrário? Gangue reunida, não hesitamos em usar as Monarks de nossas irmãs e as pranchas de surf de seus namorados e mais as ferramentas de nossos pais num experimento na garagem de nossa avó. Era só adaptar um pouco e os criminosos não teriam chance alguma. Batata.
Com o tempo e alguns vidros de xampu esvaziados e muitos despertadores e bicicletas sem conserto depois, fora os cascudos levados de proprietários mil, desisti de levar essa vida de inventor. Desgastava muito e acabava não trazendo contrapartida nenhuma – daí ter investido em carreiras mais promissoras como música, literatura e jornalismo. Ainda assim, não era difícil de me pegar pensando em como as engrenagens do primeiro relógio haviam sido construídas ou como Thomas Edison havia tido a brilhante idéia de inventar a lâmpada.
Um zíper, por exemplo. Imagina quantos sacos o sujeito não deve ter estourado até que, finalmente, ele pudesse fazer jus a seu primeiro eureka emitido no meio da noite – talvez, com o seu próprio preso na bugiganga? E o garfo? Acreditem, a vida antigamente não era nada fácil. Já tive a experiência de ser obrigado a comer um frango inteiro só com as mãos e metade de meus cabelos deve ter caído com a oleosidade que ficou incrustada no couro cabeludo nos dias seguintes – o não tomar banho fazia parte do experimento medieval.
Belo dia, porém, chego em casa e encontro, na caixa dos correios, um livro. "A evolução das coisas úteis", do americano Henry Petroski. Segundo o autor, o tomo tinha o propósito de explicar como "os utensílios se multiplicam e se diversificam dentro de uma lógica evolucionária, de modo tão natural quantos os organismos vivos, cada qual com sua função em algum esquema geral". Chapei. Junto com o pacote, um bilhete do meu editor: "te vira". Logo eu. Minha missão era escrever uma matéria sobre mais ou menos isso, só que diferente. "Uma espécie de passeio pela história por trás das coisas". Tá certo, pensei. E corri atrás.
O primeiro passo foi mandar um e-mail pro tal Petroski. Por que diabos alguém teria escrito um livro sobre colheres e clipes e saca-rolhas, em vez de partir pro que realmente interessava, como aviões ou a bomba atômica?
"Comecei a escrever o livro porque queria explicar como os objetos foram redesenhados em resposta a algumas falhas permanentes e reais. Quando algo não funciona direito ou mesmo quando não satisfaz o senso estético de alguém, será redesenhado. Isso é feito principalmente por engenheiros, inventores e designers industriais. Essas pessoas estão entre os críticos mais severos da tecnologia e vêem as falhas como incentivos para que funcionem melhor ou tenham uma melhor aparência", foi sua resposta.
Ah, bem. Então, a coisa toda tratava de abordar um "senso estético" também? Interessante. Eu, que sempre vi isso tudo de design com olhos reticentes, pra dizer um mínimo, fiquei meio curioso. Ainda assim. Meu negócio era a invenção em si e preferi seguir por esse caminho. Em seu livro, Petroski afirma que a necessidade não é, necessariamente, a mãe das invenções, mas o luxo. Apesar do ponto ser interessante, não sabia se concordava ou não com aquilo – proteger os pés não me parecia uma questão de sair por aí desfilando tanto quanto de evitar uma topada pelo percurso. Mas quis saber o que Henry tinha a dizer.
"Não costumamos saber que precisamos de algo até que é inventado. É a invenção que cria a necessidade, não o contrário. Consideremos o telefone celular, por exemplo. Antes de ser inventado, nenhum consumidor dizia que precisava de verdade de tal aparelho. Pessoas aceitavam o fato de que os telefones tinham de ser conectados a uma linha. Os primeiros celulares eram grandes, com poucos atrativos e a cobertura era extremamente limitada. Ter um era puro luxo. Só quando os aparelhos foram aperfeiçoados tecnicamente e feitos com um visual mais atraente é que as pessoas começaram a sentir que eles eram necessários".
Filho da mãe. Fazia sentido. Na verdade, depois disso, tudo fazia mais sentido. Até o próprio design. Antes de continuar a conversa e quebrar a cara bonito, portanto, achei por bem falar com alguém de confiança que entendesse do assunto. Jorge Sá Ribeiro, designer industrial pós-graduado em marketing. Haveria de tirar todas as minhas dúvidas antes de continuar a conversa com Henry.
"O Design, como o conhecemos, é uma ferramenta recente na história da industrialização. O que não significa que ela não existia sobre outras denominações. Design vem de desenho do latim e designo do inglês. Logo, significa a atividade de desenhar para uma finalidade ou, simplesmente, o que já foi chamado antigamente de 'arte aplicada'. O que aconteceu foi uma evolução na interpretação da atividade que 'empacotou' diversas habilidades sob uma mesma denominação e atribuiu como foco uma análise para o melhoramento do ciclo de vida do produto, desde o fornecedor de matéria prima, passando pelo produtor e principalmente pelo consumidor, até o descarte. Hoje o designer é um profissional de ciências sociais, um profissional convergente que nunca irá substituir um engenheiro, um cientista ou um marceneiro, mas que deve ser preparado para interagir com cada um deles servindo como uma ponte entre os desejos do consumidor e as limitações e possibilidade dos técnicos. Portanto, o design é uma extensão da revolução industrial nos tempos modernos", veio falando todo excitado.
Fiquei embasbacado com tanta objetividade. Pra quem jurava que isso de design era coisa das mais fúteis, que interessava somente a quem desejasse enfeitar a sala com pedaços de vidros coloridos enfiados num espeto só pra mostrar aos amigos que é chique, todas essas informações foram um verdadeiro estopim pra uma revolução dentro de minha cabeça. O design talvez pudesse mesmo ter uma função, afinal. De fato, encaixava com tudo aquilo que Petroski havia me dito e que eu tinha lido em seu livro.
Um trecho, em particular, resumia bem essa "diversificação do design". Uma reflexão de um tal Adrian Forty, pra quem havia duas maneiras de explicar esse mecanismo. "A primeira delas, apesar de um tanto circular, é que há uma evolução contínua de necessidades criadas pelo desenvolvimento de novos designs, tais como máquinas e instrumentos que são cada vez mais complexos e compactos. Os novos designs requerem, para a montagem e desmontagem, novas ferramentas, que por sua permitem que outros designs sejam criados. A segunda explicação para a grande variedade de artefatos é 'o desejo que os designers têm de expressar sua engenhosidade e talento artístico'".
Estava mais inquieto do que de costume. Por mim, pegaria um papel e uma caneta e começaria a expressar toda minha engenhosidade o quanto antes. Nesse vai-e-vem de pensamentos, porém, ocorreu-me um contraponto dos mais válidos. Em nossa conversa, Petroski atentou pro fato de que nem todos – e eu, havia pouco, era exemplo disso – eram tão chegados a essas modernices. "Algumas pessoas parecem ter um senso estético que é melhor satisfeito mais por coisas antigas do que pelas novas. Preferem designs antigos porque se sentem mais confortáveis com eles, não precisam se acostumar com algo novo ou aprender como ele funciona".
Nem preciso ir longe pra encontrar alguém assim. Nem era à toa, aliás, minha ojeriza ao novo. Lá em casa, por exemplo, a decoração é do tempo do ronca. Espelhos, sofás, estantes. Tudo data de um século ou mais. Velharia é com minha mãe mesmo. Se pergunto a ela o porquê, responde sem pestanejar: bom gosto passa longe de ser descartável, meu filho. O que logo entendo quando vejo nas casas de amigos pedaços de vidros coloridos enfiados em espetos de ferro no meio sala como se fossem o supra-sumo do design contemporâneo. Valei-me. Mil vezes a mala de viagem do século XIX aberta no meio da sala a servir como porta-garrafas de minha mãe.
A adaptação de certos objetos, aliás, é uma outra característica interessante a ser explorada nesse mundão de meu Deus do design. Pra quem vive num estado como o Pará, então, é um prato cheio.
"A cuia, por exemplo, é um objeto de origem indígena que tem como finalidade armazenamento de água e alimentos. Porém a mesma foi incorporada pelos portugueses durante a colonização com a mesma finalidade que era o armazenamento de água e alimentos. Até hoje usamos a cuia, quando queremos tomar mingau ou tacacá ou mesmo como objeto decorativo a partir da valorização do elemento étnico e do fortalecimento das atividades turística onde a cuia aparece como elemento de venda. Temos um ótimo exemplo nas cuias de Santarém, onde percebemos que um objeto indígena foi introduzido na cultura ocidental, transformada e adaptada aos moldes portugueses, fácil de ser notada na pintura e nos traços lusitanos pintados na cuia", explicou-me o antropólogo Carlos Chaves, formado em história e Mestre em História Social da Amazônia.
Eu, que não sou besta, deixei o homem falar. E fiz bem nisso. Retomamos a conversa de onde ela parou, lá atrás: "Claro que, em sociedades distintas, as necessidades sobre um aspecto cultural podem variar. Porém, quando falamos de objetos temos que perceber que há uma mesma estrutura quer envolve diferentes sociedades. Por exemplo, quando queremos armazenar água. Um ancestral nosso anterior ao hommo sapiens poderia usar um pedaço de folha para esse procedimento. Um índio da América do Sul usaria uma cuia ou armazenaria em cabaças que servem de cantil. Já nós, dependendo da quantidade que desejaríamos armazenar, usaríamos uma cisterna, uma caixa da água ou mesmo um copo. O que quero dizer é que cada sociedade confeccionou seus objetos e ferramentas para atender suas necessidades de acordo com as diferentes situações que pudessem surgir. Nesses exemplos que dei, você pode perceber que a finalidade foi a mesma: armazenar água. As ferramentas são diferentes, pois são frutos das necessidades que cada sociedade tem".
Ou seja: necessidade é que nem gosto, que, por sua vez, é que nem outras coisas. Cada um tem a sua e o seu. Ao cabo de tanto papo, pude ver que Lulu Santos é que estava certo: assim caminha a humanidade. Satisfazendo seus egos e suas precisões. Porquanto seja assim, assim será a evolução das coisas a seu redor.
Concorda comigo Mr. Petroski: "Não acredito que há um limita para a criatividade humana. Nada que já foi construído é perfeito. Então, há sempre um espaço para o aperfeiçoamento. Mesmo as coisas aperfeiçoadas não satisfarão a todos, especialmente inventores e engenheiros, que buscarão jeitos de melhorá-las ainda mais. Mesmo quando algo estiver funcionando muito bem tecnicamente, designers industriais irão tentar aperfeiçoar sua aparência para que se pareçam cada vez mais modernas. É um processo sem fim".
E, pra que não haja dúvidas, os responsáveis por essa evolução somos nós mesmos. Uma evolução tocada de nossos banheiros e garagens, destroçando as bicicletas de nossas irmãs e incendiando as cozinhas de nossas namoradas. Não é mesmo, Henry? Por supuesto: "Somos todos inventores. Consumidores são inventores quando eles levam pra casa algo da loja e adaptam-na a um propósito não pretendido ou imaginado por seus designers. Diferentes consumidores podem inventar diferentes maneiras de se usar uma mesma coisa. De fato, houve uma vez em que um consumidor comprou uma caixa de palitos de dentes e os usou pra construir maquetes de pontes; um outro, comprou a mesma caixa e usou o palito pra colocar uma quantidade pequena de cola num objeto quebrado que também era bem pequeno e, assim, consertá-lo. Sempre que usamos algo com outro propósito que não exatamente o dele, estamos agindo como inventores".
(matéria publicada na revista paraense LIVING - versão sem cortes)
Posted by cacoishak at 2.01.08 1:11