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20.12.07

meus dias de attorney

nesses dias em que um rato passa e dou bom-dia, chega dói pensar em quando era aprendiz de advogado na maior firma do norte e nordeste. não era mais que um mero office-boy de luxo, é verdade, mas comia e bebia e me fartava de tudo que havia do bom e do melhor na companhia de meu chefe tributarista, admirador de gramsci. tinha a obra completa do mestre na estante e refestelava seus cento e tantos quilos em sua poltrona de couro curtido com a língua presa me narrando seus dias de glória na juventude universitária. eu lá, pensando em sua mulher enquadrada no porta-retrato, não entendendo muito bem como um cara que morava na cobertura do edifício mais grão-fino da cidade e peidava ouro em pó em saquinhos de seda podia se considerar comunista. é preciso estar no olho do furacão burocrático pra poder corrompê-lo de dentro, dizia se atrapalhando nos érres. sim, sim, eu respondia estendendo o copo pra mais uma dose de seu blue label.

dias agradáveis, aqueles, no fim das contas. vou te contar... onde aprendi que a piada ensinada no curso de direito sobre a legalização da maconha era apenas uma piada e nada mais. dependesse dos causídicos já havia tanto formados ali, ninguém mais rodava em boca. o tempo, porém, passava e tudo continuava na mesma. aviões e blue label sorvido num canudo. ali, sim, não havia lei que imperasse por muito tempo. os putos eram bons no que faziam, ninguém podia afirmar o contrário. as festas que promoviam dentro e fora do escritório, no entanto, corrompiam qualquer antagônico.

foi numa dessas que comi a mulher do chefe. não a do tributarista língua-presa. essa, nunca deu as caras. as dos outros, em contrapartida, davam tudo enquanto eles se comiam entre um comentário e outro sobre instalações contemporâneas e poesia neoconcreta e uma talagada no on the rocks. clássico. era olhar prum lado e ver um galalau de metro e noventa espancando o tampo de vidro da mesa encharcada de blue label num surto carismático, olhar pro outro e sentir o cheiro de sua mulher se alastrando pelo cômodo ao tempo em que se esfregava num outro estagiário meio forrest gump na toada de frank sinatra. momento interrompido somente pelo tapa nas costas acompanhado de um tu é a bola da vez, meu garoto, vamos te lançar no mercado literário. a última bola descia trêbado as escadas de braços dados com um dos sócios. a literatura que se foda, pensei tratando de dar o fora dali.

ao lado da porta de saída, um banheiro onde entrei pra despejar o excesso de blue na privada antes de enfrentar a caminhada. não sei se a idéia de subir as escadas literárias numa só toada ou se o cheiro de bacalhau que empestava o ambiente, sei que a cabeça rodou. e, antes que pudesse alcançar a privada, o blue resolveu sair amarelo-verde por onde havia entrado, tão logo dera o primeiro passo porta adentro. no segundo, escorreguei no próprio vômito e a vontade de mijar passou. de terno preto a tricolor num estalo de dedos, escapei cambaleando. não conseguiria voltar pra casa naquele estado, fato ao qual me resignei e sentei na mureta da entrada da casa do chefe, esperando o mundo frear. quase amanhecendo. não demorou, apareceu a dona da casa com uma taça de champagne na mão. morena de seus trinta e poucos anos e sobrancelhas da malu mader, me perguntou se eu estava bem, em condições de dirigir. disse que não. deixa que eu dirijo, então, ordenando que eu entrasse no carro. não havia como fugir à lógica: era obedecer ou ser demitido.

não fomos pra muito longe, porém. já não aguentando o peso dos braços, lygia (era como a chamavam) estacionou sua paraty branca a cinco quarteirões de sua casa, ao lado do canal da doca – esgoto a céu aberto glamourizado pela prefeitura numa de suas políticas de revitalização do bairro forçadamente esnobe da cidade. nem quis tomar conhecimento do vômito, nem de label, nem de nada. nem dos atletas média-alta-alta em seu cooper matutino que passavam olhando pra dentro do carro. num pulo, foi pro banco traseiro e me puxou junto. trepamos com o sol já batendo em minha bunda pálida, fazendo a alegria dos ambulantes de semáforo que chegavam pra mais um dia de labuta.

não fui trabalhar dali a alguma horas. liguei pro tributarista língua-presa e expliquei a situação, do alto da ingenuidade que um estagiário de dezenove anos é ainda capaz de guardar em si com as têmporas estourando em ressaca de um blue label. rapaz, ele repetia. rapaz... dava pra ouvir as pedras em seu copo. acabava ali minha carreira na advocacia.

(conto meu que saiu na última edição da revista outracoisa, com a capa do goiânia noise festival - logo tasco ela aqui)

Posted by cacoishak at 20.12.07 15:39