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15.11.07
carne de cabeça

No mike, Lázaro Magalhães postula: "Brasileiros invadem o mundo da moda / pra fazer seu tudo todinho igual". Córtex, segundo disco da paraense Cravo Carbono, rola solto e já estamos na terceira faixa – quase um samba com participação nos vocais de Sammliz, da Madame Saatan. A letra continua: "brega é ser brasileiro". Recado dado... certo? Errado. Pura ironia de quem lança mão de um caldeirão rítmico amazônico, tão em voga, pra fazer seu roquenrou todinho diferente. Brega, tecnobrega, guitarrada, zouk, carimbó... até os mais papa-chibés, acostumados aos conceitos, estranharão o que está por vir neste emaranhado vanguardista no limiar entre o regional e o popularmente brasileiro.
Mas sabem bem o que estão fazendo, esses meninos. E o fazem com a autoridade de quem já está há dez anos experimentando em estúdios e palcos e quartos de suas casas. Só na gravação de Córtex, foram três anos. "O dinheiro que tínhamos nas mãos após conseguir patrocínio com a lei de incentivo municipal era curto. Seria impossível gravar tudo o que imaginávamos no estúdio APCE de Belém. Resolvemos então racionalizar o processo, deixando para o estúdio apenas baterias, vozes, percussão e toda a produção que seria impossível ser registrada em casa", revela o vocalista.
Nesse período, Lázaro, os guitarristas Pio Lobato e Bruno Rabelo, mais o baterista de mão cheia Vovô lapidaram as faixas – algumas, já hinos em Belém – como Marx Marex, caçador dos mangues, "o cara mais moderno que já conheci / usa tecnologia de ponta pra caçar siri". Não há na cidade quem não saiba cantar. Tanto, que virou história em quadrinho pelas mãos de Marcelo Marat (os mesmos que ilustram o belo encarte do disco, dividindo espaço com fotografias de Renato Reis).
Fotos estas, aliás, que traduzem bem o espírito da banda. Abra os olhos, expanda a mente, parecem dizer. Pio com óculos de K7. Lázaro raspando os cílios com gilete. Vovô com visão de fones-de-ouvido. Bruno entreolhando-nos por fitas juninas. "Já tínhamos uma velha brodagem com o Renato Reis, nosso sexto elemento. O Renato tinha feitos algumas fotos de divulgação e surgiu a idéia de um ensaio fotográfico que pudesse resumir a idéia do disco, Córtex, cérebro, carne de cabeça. Conseguimos um apoio para entrar no estúdio da Faculdade do Pará, FAP, e passamos uma tarde fotografando cabeças. Essa era a idéia: apenas cabeças, com todo tipo de acessório possível e imaginável. O Pio não apareceu no estúdio, e o Renato acabou improvisando as últimas imagens na casa dele. Fizemos dezenas de fotos. Ficaram as melhores. Apesar dos contratempos, gostamos muito do resultado".
A cada faixa escutada, uma imagem tão estranhamente instigante quanto, a cada letra lida e ruminada – o que Lázaro escreve é poesia e das melhores feitas no país. Exemplos disso: "Seguro morreu de velho e o velho ainda rendeu o seguro", do quase afoxé Vale Quando Pesa; "Gargalo pinga água de fogo / na língua fogueira do meu assanhar", do quase zouk Arraial; "Agora me importa o vazio (meu deus é o amor)", da densa Canção à Prova D'Água; "Inventando uma dança danada / para a manifestação do nada / para a amplificação do nada", da tudo-ao-mesmo-tempo-agora Supernada; "Hoje não tem café / porque não tem açúcar", nem gás, nem copo ou água, colher ou filtro. Café BR, isso. Bregão dos bons.
Uma banda de virtuoses, poderíamos dizer. Pois não foi Pio Lobato a cabeça por trás dos Mestres da Guitarrada? Pesquisador de ritmos regionais, quem acabou levando pra banda toda uma gama de timbres e influências. Personagem principal da quarta geração dos guitarreiros, ao lado de Bruno Rabelo, outro prodígio nas guitarras e compositor único de duas das faixas: a guitarrada instrumental Alto do Bode e o samba-de-roda Aplausos de Auditório. "Mãos à palmatória", diz. Às mãos que aplaudem o Supernada.
A concepção do disco, porém, não pára por aí. "O site www.cravocarbono.com.br é a etapa seguinte do projeto do disco. É na verdade onde o disco vai terminar, e gostamos muito dessa idéia. Vamos tentar construí-lo até o início de 2008, e poderemos até contar com a ajuda de voluntários da comunidade do Cravo no Orkut. A idéia é simples: queremos um espaço para dispor, além de informações sobre a banda, acesso a todas as faixas do álbum e também a downloads das diversas trilhas separadas das músicas. Queremos que as pessoas possam baixar essas trilhas, se apropriar desses pedaços, para fazer novas músicas, intervenções, versões, o que der na telha. Haverá um espaço para postagem desses conteúdos novíssimos. Será, então, um Córtex expandido, versão 2.0, alterado por outras mentes. Nada melhor para se esperar da Internet, que já é a maior extensão de todas as nossas cabeças".
Na apresentação do encarte de Córtex, ficamos sabendo que o nome Cravo Carbono "é como se chamaria uma suposta nova droga do sertão que apareceria na floresta – uma especiaria, um emplasto, uma goma de mascar biopirateada". Ficção científica "barata de mercearia" ou não, ao fim da primeira audição, temos a impressão de que fomos, de fato, levados por um barato novo. Barato pronto pra chapar novas carnes de cabeça.
E "salve o supernada".
(resenha escrita para a nova edição da revista outracoisa, já nas bancas - foi publicado também um conto inédito meu por lá, mas pra ler esse... só comprando)
Posted by cacoishak at 15.11.07 13:42