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2.10.07
"Não quereis ser pornográficos?"
“Vinho com leite moça é pau na coxa”. MC Colibri. “Bacalhau quer alho”. Kim Barreiros. “É o dia que a orgia tomou conta de mim”. Mr. Catra. Algumas pérolas da poesia que a música brasileira vem produzindo atualmente. Nem é preciso sair de Belém para deliciar os ouvidos. Basta um passeio de meia hora por qualquer área da cidade para que o sujeito se depare com a oferta: “quem vai querer a minha piriquita?”. Banda Ktrina. E pensar que tudo começou com Carla Perez se agachando numa boquinha de garrafa... certo? Errado. Para muito além do cancioneiro popular, faz já um tempo que o sexo e suas temáticas pornográficas não saem de nossas cabeças.
Seja num quadro de Botticelli ou num texto de Sade, ele sempre esteve lá. Com a evolução dos meios de representação, não foi de se espantar que o sexo logo se adaptasse às novas realidades, dando o pão a quem tinha fome. Há quem pense que nada mudou, porém, como o professor Charles Rojtenberg, Mestre em Sexologia, para quem “pornografia é sempre a mesma coisa. O que está mudando é que hoje temos mais acesso, sem tanta repressão. Antigamente, havia punições e o material pornográfico era proibido. Mas em se tratando de ‘sacanagens’, estas são as mesmas há séculos, não existe nada novo... só o sexo virtual”. Um grande avanço, pelo visto.
Se antes era artigo de luxo, objeto de desejo de garotos no auge das explosões hormonais, que se aventuravam em sebos em busca de indecências impressas numa revista em quadrinhos de Carlos Zéfiro, hoje o prazer está à distância de um clique. “Lembro de um garoto mais velho que havia ganhado do tio, recém-chegado do Rio de Janeiro, um baralho daqueles com imagens de pin-ups no verso. Era uma delícia. Reuníamo-nos todos em volta do tal baralho e ficávamos rindo à toa. Havia rodízio, sabe? Eu levava pra minha casa num dia, o amigo levava pra sua casa no dia seguinte. Tínhamos só que ter cuidado pra que nossos pais não descobrissem, senão a coisa ficaria feia. Era tudo muito bem escondido debaixo dos colchões”, recorda o médico Sérgio Moura, que considera a atual situação muito confortável para os adolescentes que têm acesso à Internet. “Cheguei em casa, dia desses, e entrei no quarto de meu filho de doze anos sem bater. O moleque deu um pulo da cadeira. Estava sentado em frente ao computador. Deu pra ver que estava num site de pornografia. Ainda tentei brincar, mas ele ficou sério e me pediu que respeitasse sua privacidade”.
Outro aspecto interessante dessa nova onda pornográfica, para a qual nos alerta o professor Charles, à frente do Instituto Brasileiro de Sexologia, que tem como papel levar o tema para a população carente e, com isso, reduzir o índice de gravidez precoce nas comunidades: “Devido ao atual acesso, o público é de pessoas mais novas, meninos e meninas com 8, 10, 12 anos, que entram em contato com materiais impróprios. Por isso, há a necessidade de uma educação sexual na sociedade. Infelizmente, a educação sexual é vista como algo negativo pelas políticas. Podemos falar de reprodução, mas de prazer não. A repressão ainda é forte. Os tabus são enormes”.
Foi nesse sentido que o estudante de Sociologia Pedro Fernandez escreveu sua monografia de conclusão de curso em cima do universo virtual pornográfico. “Tentei encontrar um tema que eu gostasse. Aí, decidi falar sobre a pornografia. Fiz várias pesquisas sobre o assunto. Baseado nesses estudos, tento criar um projeto inovador ao meu ver. Um portal pornográfico com base na orientação sexual. Usando o termo pornô-educação, busco mostrar que a pornografia não é mais só um sinônimo para falta de pudor ou algo negativo pra sociedade moderna. Já que, hoje, o maior número de buscas na internet é por sites de conteúdo pornográfico, por que não unir o útil ao agradável? Pois a maioria do material encontrado não tem essa vertente e acaba sendo criada por alguns que não tem a mínima idéia de como passar uma comunicação orientando o sexo com responsabilidade. Em outras palavras, será um projeto pornográfico com raiz educacional”.
UMA INDÚSTRIA PARA TODOS
Se tão logo a fotografia fora inventada, já havia imagens de mulheres nuas pulando de mãos em mãos, e os primeiros filmes com nudez foram rodados tão logo a sétima arte surgira, não se enganem: era lucrativo. Com a facilidade da propagação pela Internet, os lucros apenas aumentaram. Estima-se que a Indústria Pornográfica fature, hoje, vinte vezes mais do que nas décadas de 80 e 90 juntas. Por mais que tentem enfiar goela abaixo dos consumidores que se tratam de nus artísticos, capas da Playboy rendem uma fortuna. Quem, afinal, se interessa por arte?
“É natural que se entre no mercado pornográfico, é a biologia. Um menino de 12 anos começa a ter estímulos hormonais e impulsos sexuais que começam a dominar o seu comportamento. É natural que aconteça. As carências, a genética. As necessidades não realizadas dentro de casa. Tudo isso leva ao consumo do mercado pornográfico. As pessoas estão muito mal sexualmente e afetivamente falando. Neste caso, buscam fora o que não têm em casa”, acredita Sérgio Moura.
Carência, de fato, é a última coisa da qual reclamam os que estão no meio. Caso de Antonio Snake, conhecido ator e diretor de filme pornô de Belém: “O único vício que tenho é mulher. Esse papo de droga, cigarro, bebedeira, isso não é pra mim, não. Agora, mulher... Pode estar em Castanhal, em Bragança, a gente vai lá. Comigo não tem dessa, não”.
Foi a paixão pela fruta que levou Snake às primeiras brincadeiras entre quatro paredes até se profissionalizar: “Comecei batendo fotos das minhas namoradas e mostrando pros amigos. Quando veio um e me perguntou por que não comprava logo uma câmera e ia filmando. Achei a idéia bacana e, nas primeiras férias que tive, comprei uma. Filmava e mostrava pra eles. Eles me diziam: ‘larga isso de mão e vai fazer filme pornô de uma vez. Você não é um cara vergonhoso’. Mas só me veio mesmo a luz quando vi um documentário sobre vídeos pornôs. Os caras ganhavam grana, era fácil, papapá. Eu sabia filmar e gostava de mulher. Então, pensei, bora fazer essa parada, né? Colocava anúncios no jornal procurando quem topasse participar. Foi quando fiz meu primeiro filme: ‘Marajó, A Ilha do Amor – Devastação Anal Vol. I’. Uma época conturbada. Tive que responder quinze dias de cana. Porque você sabe, né? Belém, extremamente atrasada...”
Os problemas, no entanto, logo acabaram e Snake pôde, enfim, receber os louros pelo trabalho árduo: “Antes, eu andava doido atrás de mulher. Não era conhecido. Ninguém botava fé. Mas depois que fiz o primeiro filme e envolveu polícia, Belém toda ficou sabendo. Saí da prisão e já tinha um filme pronto. O dinheiro que investi, ganhei em dobro. Cheguei a vender muito pras locadoras. Mas daí chegou esse diabo de pirataria e muitas fecharam. O jeito foi começar a vender no site e através de anúncios em jornais, revistas. Eu não tenho distribuidora. Ainda assim, vendo de 600 a 800 cópias. Já cheguei a vender umas mil de um único filme.”.
REBULIÇOS E TROCA-TROCAS
Não são todos, porém, que curtem a idéia de uma sociedade sem maiores pudores. Na Europa, por exemplo, berço da cultura ocidental, um vídeo no YouTube intitulado "Film Lovers Will Love This!" ("Amantes de Filmes Vão Adorar Isto!"), que mostra homens e mulheres fazendo sexo de formas e em lugares diferentes, causou bastante polêmica entre os mais conservadores. A discussão foi tamanha, que acabou parando no Parlamento da União Européia, dividindo opiniões. Por motivos semelhantes no passado, o YouTube teve de proibir a veiculação de conteúdo sexual em seu domínio. Não demorou para que surgisse o PornTube e similares, destinados aos vídeos pornôs. A polêmica, entretanto, não parou por aí. Muito menos aí se restringe.
O artista plástico paulista Antonio Pinheiro já passou bons bocados por conta disso. Sua arte, segundo o próprio, longe de ser pornográfica, é autobiográfica. “Meu trabalho está no limiar da última inocência”. Ainda assim, não deixa de ser mal compreendido por muitos. “Em meus trabalhos com esperma é engraçado a reação das pessoas quando lêem a etiqueta da obra. Olham primeiro a obra e, depois que lêem a etiqueta, fazem uma cara... é muito engraçado. Não sei o que pode ser considerado pornográfico. Soube que um casal evangélico, quando fazem sexo, a mulher se cobre com um lençol para não ter contato com o corpo do marido. Neste lençol há um buraco por onde será a penetração e o marido passa um óleo no pênis para não ser um ato sujo. Mais pornográfico que isso, impossível”.
Snake também reclama de quem olha torto, mas dá seu recado: “Estamos em 2007, a geração vai mudando. É um outro pensar. A Globo fica passando sacanagem na novela o tempo todo. Não me envergonho do que eu faço, encaro como um trabalho como outro. Quantos amigos meus, na rua, na igreja – sou devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro –, já não vieram e disseram que viram meus filmes e acharam bacana? Beleza, cara. Na boa. Tem uns que chegam com algumas críticas. Pergunto logo: ‘você nunca fez isso? Então, tá fora do mercado’”.
Há também o outro lado da moeda, como aconteceu com a dançarina moderna Camila Canto, enquanto apresentava em São Paulo seu espetáculo “Pronta Para Consumo”, baseado na utopia da mulher perfeita (leia-se beleza e sexo) e mui bem recebido. “Fui ligando uma coisa à outra e vi que a mulher consome para ser consumida. O público ficava curioso de cara. Depois, ouviam a trilha sonora que era uma locução bem técnica de descrições de bonecas infláveis que peguei em sex shops virtuais. As imagens escolhidas foram muito fortes e a trilha também, de modo que comunicaram bem a idéia do solo, fazendo o público se identificar”.
Neste caso, poderíamos falar mesmo de outros lados de uma só moeda, vez que o trabalho de Camila acaba sendo uma crítica a esse mercado consumidor pornográfico. Coadjuvante da encenação, uma boneca inflável, “símbolo da objetização da mulher. De um ser humano. Acho muito louco que criem essas bonecas como o fim dos problemas dos homens, sabe? As ‘real dolls’, por exemplo, são obras de arte, extremamente realistas. Como se alguém anunciasse que as mulheres de carne e osso são um produto obsoleto. As ‘real dolls’ são eternamente perfeitas e não falam, nem dão o trabalho que uma mulher comum dá. Um horror. Fui constatando que a mulher continua num patamar muito parecido aos da antiguidade e idade média... um animal treinado”.
(matéria publicada na revista paraense de cultura e comportamento LIVING)
Posted by cacoishak at 2.10.07 20:42