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31.10.07
entre orquídeas e samambaias
Suprema Corte permite uso ornamental da maconha na Itália
A Suprema Corte italiana decidiu nesta quarta-feira que a planta da maconha, a cannabis sativa, pode ser cultivada em pequenas plantações domésticas para ser vendida como planta ornamental, para decoração.
Com esta sentença, o tribunal confirmou a absolvição de um homem, Luciano M.,57, que vendia plantas de maconha produzidas em casa e cultivadas na banheira.
O homem tinha sido absolvido na primeira e na segunda instâncias.
A promotoria havia recorrido à Suprema Corte porque, a seu ver, não era possível defender que "uma pessoa possa cultivar licitamente plantas de cannabis com uma finalidade ornamental, enquanto a legislação considera perigosa para a saúde toda forma de difusão da droga".
Os juízes da Suprema Corte, no entanto, rejeitaram essa tese, considerando-a infundada e destacaram que o "cultivo de plantas, das quais podem ser extraídas substâncias entorpecentes, que não se configure como cultivo no sentido técnico-agrário, permanece no âmbito do cultivo doméstico" e não constitui crime.
"É bonito saber que o Supremo ama a natureza, a beleza e as virtudes terapêuticas do mundo vegetal. Não podemos apreciar mais o sinal verde dado pela corte ao cultivo da cannabis para uso ornamental", disse o senador do partido Verde italiano, Gianpaolo Silvestri.
Já a vice-presidente dos deputados do partido Forza Italia (direita), Isabella Berolini, considerou a sentença "desconcertante".
"Infelizmente não é o primeiro pronunciamento do tipo de um tribunal italiano", acrescentou.
Posted by cacoishak at 23:01
30.10.07
jack
tive oportunidade de me levantar às 8 e meia e, em vez disso, dormi até o meio-dia, por medo de não saber o que fazer com toda essa manhã.
no livro dos sonhos.
Posted by cacoishak at 16:36
29.10.07
ricardo santos

bem-vindo ao bizarro. na baixocalão.
Posted by cacoishak at 17:51
24.10.07
orfanato portátil
não o livro. mas o blog. yeah, motherfucker. tomou vergonha na cara, o puto. já tá no ar e começou causando na roosevelt. de cara, post sobre a antologia do leonard cohen que a 7letras tá publicando agora. deixo os detalhes com o homem, pois. marcelo montenegro. mestre.
Posted by cacoishak at 14:51
22.10.07
vermelho - com dedo do scott
me pergunta o que é o vermelho
que eu te digo sem pensar
o vermelho é vesgo
e faz barulho
me pergunta, então
o que é o vermelho?
é vesgo, barulhento
e tem os pêlos repicados
línguas presas
e quatro pernas compridas
duas tortas
carrega os olhos no peito
e é por isso que eu te digo
que vermelho são tijolos
estourando a cada trago
dado com os olhos
na ponta do batom
ooOoOoo
mandei o poema pro paulo scott passar uma vista grossa e voltou assim. tanto melhor.
Posted by cacoishak at 17:26
19.10.07
dois poemas
abraão
um filho sai ao pai
que fez do amor
um casamento
nasci a vingança de deus
romanos parem
seu karma
ooOoOoo
vermelho
me pergunta o que é o vermelho
que eu te digo sem pensar
que o vermelho é vesgo
e adora fazer barulho
me pergunta, então
o que é o vermelho?
é vesgo, barulhento
e tem o cabelo repicado
tem língua presa
e perna comprida
as duas tortas
e é vesgo, tudo bem
mas carrega os olhos no peito
e é por isso que eu te digo
que vermelho são tijolos
estourando na marca do cigarro
a cada trago dado com os olhos
na ponta do batom
Posted by cacoishak at 23:03
18.10.07
ii se rasgum no rock

acordo às oito da manhã após três horas de sono pra mais um dia de trabalho. num sábado. de ressaca. trabalharia até às quatro da tarde, quando rumaria ao centro da cidade pra mais algumas horas de labor forçado na cobertura de uma nova edição do festival se rasgum no rock. a segunda. fossem outros tempos, ao menos o mau-humor seria garantido. mas que nada. tasco um rabo-de-arraia no chefe e caio fora antes do esperado. pra lá de zen. abro a primeira cerveja no caminho.
chego no african bar, onde de um tudo acontece. quando se tem poucos royales no bolso, então... uma maravilha. nada que se compare ao parque dos igarapés e suas trilhas no meio da mata, onde a primeira edição foi realizada. mas a gente se espreme. tudo em nome do independente. pego minha credencial – sem foto, vai a do pato donald – tudo em nome do independente.
renato reis, o despirocado das grande-angulares, é o primeiro a notar. sobrinho do tio patinhas. fossem outros tempos... mas que nada. pra lá de zen. o gaiato me puxa pro camarim do coletivo rádio cipó. uma pré do espírito que contagiaria o show no dia seguinte foi dada. efeito estufa. pra lá de zen. abro outra cerveja.
ouço os primeiros sinais de uma bateria. ou teria sido de uma guitarra? uma certeza: não se fazem cowboys como antigamente. múmias tocando chocalho, no entanto, até que soam interessantes. pura perda de tempo. e vou atrás de mais uma cerveja. e uma quinta. duas sextas. fora a sétima. tudo em nome do independente. no intuito de ficar calibrado para a quarta banda a se apresentar. filhos de empregada. um bando de frescos paraenses, tá certo. mas a chapação é garantida. por outro lado... como não é do meu feitio brincar assim com a sorte, não dispenso o melhor dos astros que me estendem tão logo a banda sobe ao palco. dona menina. sempre ela. cheia das tecnologias. todo o furdúncio de um peyote concentrado numa estrela vermelha. goela abaixo. com uma nova cerveja aberta. pra lá de zen. tudo em nome do... de quem mesmo? pato donald? dos filhos de empregada, que seja. puta show do caralho. arnaldão (o baptista) teria babado nas fronhas.
com dona menina ali, quem queria saber de festival? acabo perdendo as badaladíssimas ultraleve, turbo, johny rockstar e i.o.n. – o resto era o resto. sejamos justos: perder é uma palavra forte. estava lá de corpo. minha alma, coitada, que resolveu seguir a estrela e jazia pra além da via láctea. mãos inchadas de tanto escutar pelos poros e digitais. escracho. dona menina olhando por mim, tanto melhor. quando dava conta de escapar comigo. por vezes, não. numa dessas, perco também macaco bong (planária, da norman bates, jura de pés juntos que me viu aplaudindo do começo ao fim). eu, transmigrado, só conseguia me ver dando explicações ao segurança que havia me catado no banheiro. não era meu o saco, tentava lhe dizer, mas de mim ali na platéia. fala com ele. independente, o caralho. tudo em nome do zen-budismo. e del mister azul, quem me salva da forca.
o espetáculo, porém, não poderia parar. se havia, de fato, um cadáver em decomposição rondando, o show só terminaria quando ele se levantasse – parafraseando márvio rafael, aka marvel, da carioca cabaret – só perdeu no quesito bichona pros filhos. saio só glitter e pó de arroz, todo alegre. quando me cutucam. esse show aí tinha sido antes dos mato-grossenses. mas é? gargalho. com a boca já no gargalo. ainda nos bastidores pós-apreensão. escuto metais. saio correndo. dona menina me encontra, mezzo preocupada mezzo aos pulos com móveis coloniais. banda boa, essa de aracaju, hein? massa, né? tudo colorido. pausa pro vômito. e mais cores com cravo carbono (já tem matéria desses por aqui, falo mais nada).
de cara torta e rindo pras colunas, espero ansioso o show da norman bates. apresentariam as músicas de seu novo disco, equatorial lounge. dona menina me pede um tempo. contado no relógio. eu, sem noção das horas. acabo me perdendo, "cheio de amor pra down". supercordas em ação. não a banda, essa não veio. física quântica mesmo. madame saatan. desabo. de quatro. pra levantar só com mqn na veia. sintética nova, não. ainda por inventar. a banda mesmo. e haja porrada. telaviv ainda tocaria. eu, que não sou judeu nem nada, vou pra casa. seja ela na esquina ou no bar do parque. as últimas cervejas até o amanhecer. arroto. dona menina me faz cara feia. durmo. tudo em nome de um donald feliz.
segundo dia. domingo. eu, batendo ponto. acabo perdendo quase todas as bandas – attack fantasma, sincera e delinqüentes, pra ficar nas que importam. inclusive, a esperada nashville pussy. foda-se. nunca tive sorte com gringo. nem bebi do whisky distribuído pela vocalista nos camarins. quem precisa? chego faltando apenas quatro pra encerrar o festival. dona menina lá, curtindo desde cedo. eu, careta. pra cá de zen. tudo em nome do patrão. passando da hora de começar a trabalhar pra valer. abro a primeira cerveja da noite. então, norman bates não tinha tocado no dia anterior e acabaram de subir ao palco? impressionante isso de viagem no tempo. bora lá.
só que o espaço aqui está acabando. coisas de newton, fazer o quê? do coletivo, já fumetei acima. la pupuña deve ter bombado. cordel, sem comentários - meu fogo apagou. tentativa de mosh frustrada. saio escoltado fazendo o tê. pra já ficar nos bastidores, onde a festa terminou com cerveja de graça, muita fofoca e tietagem. sem esquecer das rodinhas, de mão em mão. mas como o que é bom sempre acaba... hora de ir. dona menina dirigindo. aguentou legal. tudo em nome do amor. acabou.
(essa "matéria" seria publicada na próxima edição da revista outracoisa. a falta de verba - consequentemente, de espaço - não permitiu que isso acontecesse. poderia publicar em algum outro canto, mas publico por aqui mesmo porque sou escroto e tava sem saco de sair por aí vendendo meu peixe - até porque a proposta do texto só se encaixaria, de fato, na outracoisa - saco, aliás, que se encheu todo - ou teria esvaziado? - de sábado pra cá... o texto, em parte, explica muito disso)
Posted by cacoishak at 3:49
17.10.07
só dEUS salva - ou mata de vez
alguém tem me ligado desde a madrugada passada (como se fosse possível dormir, de todo modo) com aquela opção de não identificar o número de origem. não diz nada - quando muito, bufa. fico falando sozinho até desligar. hoje de manhã, ligam de novo. e, pra minha supresa, a trilha de fundo é dEUS. alguém que bem me conhece e, provavelmente, sabe bem o que venho sentindo desde sábado ou antes. errou, porém, na escolha da música. dessa vez, meu bem, não é suds & soda - a tal trilha de fundo. mas instant street:
You're probably right, seen from your side, that I've been lucky
but I've been meaning to crack all week.
Yes I've been involved, it never resolved into anything shocking.
Pains playing yoyo in my body as we speak.
And now I found something to look for, but I can't decide,
'Cause I might find that to stroll behind is better than to score.
Just like I did before.
It wouldn't be true, not towards you, to say that I'm staying.
When on every single impulse, on every other move I react.
'Cause in any old creek, with changing technique, you'll see me playing.
After any old motherfucking blow I'll be back.
We turned away from instant stuff
our cracking codes were breaking up
our words were sucked out it made them clean.
And after lowness say it
and after more let it be known
Our codes are grown into something mean.
You're probably right, as for tonight, you're making me nervous.
What is it you want me to be thinking of?
I'll put on a movie, I'll play something groovy as a matter of service
And I'll chuckle when you smile as a matter of love.
'Cause you know it's not my style to be giving up now.
And this pain in my side, I had enough.
This time I go for Instant Street
This life's a soulless excuse for all abuse and parenthesis.
The flyspecked windows and the stinking lobbies
they'll remain all the same, all the same.
This time I go. This time I go...
Posted by cacoishak at 16:47
16.10.07
anti-círio 2007
em 2007, por razões ainda não investigadas, o círio de nazaré acabou inexistindo em santa maria de belém do grão pará. pessoas desapareceram sem mais, nem porquê. as ruas ficaram desertas, cobertas apenas pelo papel picado lançado do parapeito pela ventania. por ninguém. para ninguém. ratazanas brincavam de bang-bang no meio do asfalto sem serem incomodadas. baratas faziam a festa em outro canto. nas memórias de quem acompanharia Nazica, mas perdeu o bonde deitado numa rede.
memórias estas, talvez, também inexistentes. um sonho, pelo que tudo indica. sonho acordado. ou vida dormida – tanto faz. memórias vêm e vão, de todo modo, e aquelas ficaram ali estagnadas (ou nem tanto assim), balançando pra lá e pra cá na toada dessa mesma rede.
em 2007, por razões ainda não relembradas, o círio de nazaré acabou existindo apenas num cubículo 3x4, em frente a um computador. ou dentro de uma garrafa de vodka barata. ou numa festa pra lá de estranha com gente mais esquisita ainda. ou, mesmo, no buraco de onde nunca devia ter saído. bar do parque, amanhecendo. sexta pra sábado. véspera das celebrações. mas acontece que, sim, saiu. pra não mais voltar. sumiu. e nunca mais viram a Nazica. nem as sacas e mais sacas de promessas que levara consigo.
Posted by cacoishak at 17:19
9.10.07
tudo ao mesmo tempo agora
versão 1.0 do clipe de devorados, da madame saatan. na 2.0, na qual a pris brasil já tá trabalhando, vocês terão a honra de conhecer o BODE:
e a baixocalão tá de artista novo (mais quatro, aliás, já que não atualizei nada por aqui)... diogo rustoff, carol w, vânia medeiros e rafael dambros, nessa mesma ordem:




Posted by cacoishak at 15:53
2.10.07
"Não quereis ser pornográficos?"
“Vinho com leite moça é pau na coxa”. MC Colibri. “Bacalhau quer alho”. Kim Barreiros. “É o dia que a orgia tomou conta de mim”. Mr. Catra. Algumas pérolas da poesia que a música brasileira vem produzindo atualmente. Nem é preciso sair de Belém para deliciar os ouvidos. Basta um passeio de meia hora por qualquer área da cidade para que o sujeito se depare com a oferta: “quem vai querer a minha piriquita?”. Banda Ktrina. E pensar que tudo começou com Carla Perez se agachando numa boquinha de garrafa... certo? Errado. Para muito além do cancioneiro popular, faz já um tempo que o sexo e suas temáticas pornográficas não saem de nossas cabeças.
Seja num quadro de Botticelli ou num texto de Sade, ele sempre esteve lá. Com a evolução dos meios de representação, não foi de se espantar que o sexo logo se adaptasse às novas realidades, dando o pão a quem tinha fome. Há quem pense que nada mudou, porém, como o professor Charles Rojtenberg, Mestre em Sexologia, para quem “pornografia é sempre a mesma coisa. O que está mudando é que hoje temos mais acesso, sem tanta repressão. Antigamente, havia punições e o material pornográfico era proibido. Mas em se tratando de ‘sacanagens’, estas são as mesmas há séculos, não existe nada novo... só o sexo virtual”. Um grande avanço, pelo visto.
Se antes era artigo de luxo, objeto de desejo de garotos no auge das explosões hormonais, que se aventuravam em sebos em busca de indecências impressas numa revista em quadrinhos de Carlos Zéfiro, hoje o prazer está à distância de um clique. “Lembro de um garoto mais velho que havia ganhado do tio, recém-chegado do Rio de Janeiro, um baralho daqueles com imagens de pin-ups no verso. Era uma delícia. Reuníamo-nos todos em volta do tal baralho e ficávamos rindo à toa. Havia rodízio, sabe? Eu levava pra minha casa num dia, o amigo levava pra sua casa no dia seguinte. Tínhamos só que ter cuidado pra que nossos pais não descobrissem, senão a coisa ficaria feia. Era tudo muito bem escondido debaixo dos colchões”, recorda o médico Sérgio Moura, que considera a atual situação muito confortável para os adolescentes que têm acesso à Internet. “Cheguei em casa, dia desses, e entrei no quarto de meu filho de doze anos sem bater. O moleque deu um pulo da cadeira. Estava sentado em frente ao computador. Deu pra ver que estava num site de pornografia. Ainda tentei brincar, mas ele ficou sério e me pediu que respeitasse sua privacidade”.
Outro aspecto interessante dessa nova onda pornográfica, para a qual nos alerta o professor Charles, à frente do Instituto Brasileiro de Sexologia, que tem como papel levar o tema para a população carente e, com isso, reduzir o índice de gravidez precoce nas comunidades: “Devido ao atual acesso, o público é de pessoas mais novas, meninos e meninas com 8, 10, 12 anos, que entram em contato com materiais impróprios. Por isso, há a necessidade de uma educação sexual na sociedade. Infelizmente, a educação sexual é vista como algo negativo pelas políticas. Podemos falar de reprodução, mas de prazer não. A repressão ainda é forte. Os tabus são enormes”.
Foi nesse sentido que o estudante de Sociologia Pedro Fernandez escreveu sua monografia de conclusão de curso em cima do universo virtual pornográfico. “Tentei encontrar um tema que eu gostasse. Aí, decidi falar sobre a pornografia. Fiz várias pesquisas sobre o assunto. Baseado nesses estudos, tento criar um projeto inovador ao meu ver. Um portal pornográfico com base na orientação sexual. Usando o termo pornô-educação, busco mostrar que a pornografia não é mais só um sinônimo para falta de pudor ou algo negativo pra sociedade moderna. Já que, hoje, o maior número de buscas na internet é por sites de conteúdo pornográfico, por que não unir o útil ao agradável? Pois a maioria do material encontrado não tem essa vertente e acaba sendo criada por alguns que não tem a mínima idéia de como passar uma comunicação orientando o sexo com responsabilidade. Em outras palavras, será um projeto pornográfico com raiz educacional”.
UMA INDÚSTRIA PARA TODOS
Se tão logo a fotografia fora inventada, já havia imagens de mulheres nuas pulando de mãos em mãos, e os primeiros filmes com nudez foram rodados tão logo a sétima arte surgira, não se enganem: era lucrativo. Com a facilidade da propagação pela Internet, os lucros apenas aumentaram. Estima-se que a Indústria Pornográfica fature, hoje, vinte vezes mais do que nas décadas de 80 e 90 juntas. Por mais que tentem enfiar goela abaixo dos consumidores que se tratam de nus artísticos, capas da Playboy rendem uma fortuna. Quem, afinal, se interessa por arte?
“É natural que se entre no mercado pornográfico, é a biologia. Um menino de 12 anos começa a ter estímulos hormonais e impulsos sexuais que começam a dominar o seu comportamento. É natural que aconteça. As carências, a genética. As necessidades não realizadas dentro de casa. Tudo isso leva ao consumo do mercado pornográfico. As pessoas estão muito mal sexualmente e afetivamente falando. Neste caso, buscam fora o que não têm em casa”, acredita Sérgio Moura.
Carência, de fato, é a última coisa da qual reclamam os que estão no meio. Caso de Antonio Snake, conhecido ator e diretor de filme pornô de Belém: “O único vício que tenho é mulher. Esse papo de droga, cigarro, bebedeira, isso não é pra mim, não. Agora, mulher... Pode estar em Castanhal, em Bragança, a gente vai lá. Comigo não tem dessa, não”.
Foi a paixão pela fruta que levou Snake às primeiras brincadeiras entre quatro paredes até se profissionalizar: “Comecei batendo fotos das minhas namoradas e mostrando pros amigos. Quando veio um e me perguntou por que não comprava logo uma câmera e ia filmando. Achei a idéia bacana e, nas primeiras férias que tive, comprei uma. Filmava e mostrava pra eles. Eles me diziam: ‘larga isso de mão e vai fazer filme pornô de uma vez. Você não é um cara vergonhoso’. Mas só me veio mesmo a luz quando vi um documentário sobre vídeos pornôs. Os caras ganhavam grana, era fácil, papapá. Eu sabia filmar e gostava de mulher. Então, pensei, bora fazer essa parada, né? Colocava anúncios no jornal procurando quem topasse participar. Foi quando fiz meu primeiro filme: ‘Marajó, A Ilha do Amor – Devastação Anal Vol. I’. Uma época conturbada. Tive que responder quinze dias de cana. Porque você sabe, né? Belém, extremamente atrasada...”
Os problemas, no entanto, logo acabaram e Snake pôde, enfim, receber os louros pelo trabalho árduo: “Antes, eu andava doido atrás de mulher. Não era conhecido. Ninguém botava fé. Mas depois que fiz o primeiro filme e envolveu polícia, Belém toda ficou sabendo. Saí da prisão e já tinha um filme pronto. O dinheiro que investi, ganhei em dobro. Cheguei a vender muito pras locadoras. Mas daí chegou esse diabo de pirataria e muitas fecharam. O jeito foi começar a vender no site e através de anúncios em jornais, revistas. Eu não tenho distribuidora. Ainda assim, vendo de 600 a 800 cópias. Já cheguei a vender umas mil de um único filme.”.
REBULIÇOS E TROCA-TROCAS
Não são todos, porém, que curtem a idéia de uma sociedade sem maiores pudores. Na Europa, por exemplo, berço da cultura ocidental, um vídeo no YouTube intitulado "Film Lovers Will Love This!" ("Amantes de Filmes Vão Adorar Isto!"), que mostra homens e mulheres fazendo sexo de formas e em lugares diferentes, causou bastante polêmica entre os mais conservadores. A discussão foi tamanha, que acabou parando no Parlamento da União Européia, dividindo opiniões. Por motivos semelhantes no passado, o YouTube teve de proibir a veiculação de conteúdo sexual em seu domínio. Não demorou para que surgisse o PornTube e similares, destinados aos vídeos pornôs. A polêmica, entretanto, não parou por aí. Muito menos aí se restringe.
O artista plástico paulista Antonio Pinheiro já passou bons bocados por conta disso. Sua arte, segundo o próprio, longe de ser pornográfica, é autobiográfica. “Meu trabalho está no limiar da última inocência”. Ainda assim, não deixa de ser mal compreendido por muitos. “Em meus trabalhos com esperma é engraçado a reação das pessoas quando lêem a etiqueta da obra. Olham primeiro a obra e, depois que lêem a etiqueta, fazem uma cara... é muito engraçado. Não sei o que pode ser considerado pornográfico. Soube que um casal evangélico, quando fazem sexo, a mulher se cobre com um lençol para não ter contato com o corpo do marido. Neste lençol há um buraco por onde será a penetração e o marido passa um óleo no pênis para não ser um ato sujo. Mais pornográfico que isso, impossível”.
Snake também reclama de quem olha torto, mas dá seu recado: “Estamos em 2007, a geração vai mudando. É um outro pensar. A Globo fica passando sacanagem na novela o tempo todo. Não me envergonho do que eu faço, encaro como um trabalho como outro. Quantos amigos meus, na rua, na igreja – sou devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro –, já não vieram e disseram que viram meus filmes e acharam bacana? Beleza, cara. Na boa. Tem uns que chegam com algumas críticas. Pergunto logo: ‘você nunca fez isso? Então, tá fora do mercado’”.
Há também o outro lado da moeda, como aconteceu com a dançarina moderna Camila Canto, enquanto apresentava em São Paulo seu espetáculo “Pronta Para Consumo”, baseado na utopia da mulher perfeita (leia-se beleza e sexo) e mui bem recebido. “Fui ligando uma coisa à outra e vi que a mulher consome para ser consumida. O público ficava curioso de cara. Depois, ouviam a trilha sonora que era uma locução bem técnica de descrições de bonecas infláveis que peguei em sex shops virtuais. As imagens escolhidas foram muito fortes e a trilha também, de modo que comunicaram bem a idéia do solo, fazendo o público se identificar”.
Neste caso, poderíamos falar mesmo de outros lados de uma só moeda, vez que o trabalho de Camila acaba sendo uma crítica a esse mercado consumidor pornográfico. Coadjuvante da encenação, uma boneca inflável, “símbolo da objetização da mulher. De um ser humano. Acho muito louco que criem essas bonecas como o fim dos problemas dos homens, sabe? As ‘real dolls’, por exemplo, são obras de arte, extremamente realistas. Como se alguém anunciasse que as mulheres de carne e osso são um produto obsoleto. As ‘real dolls’ são eternamente perfeitas e não falam, nem dão o trabalho que uma mulher comum dá. Um horror. Fui constatando que a mulher continua num patamar muito parecido aos da antiguidade e idade média... um animal treinado”.
(matéria publicada na revista paraense de cultura e comportamento LIVING)
Posted by cacoishak at 20:42