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4.08.07
primeiro esboço - doc círio - rejeitado
E se começasse assim: Cheiro de maré, não tinha. Mas trazia do rio a brisa de um suor respingado nos caroços de açaí simulando orvalho. Não, né? Tá mais pra colunista social alfabetizado, isso. Só pode estar de graça com minha cara, vão pensar os mais fervorosos. Vem me falar de Belém. De Fafá. De Mangueiras. Isso lá conhece a cidade? Não, meu filho. Não conhece, não. Porque não basta nascer aqui. Que o Pará é isso e aquilo outro. Nada disso. Longe de ser só oba-oba. Pra ser de Belém, tem que penar. Tem que se humilhar. Que nem pra ter sido um Beatle, segundo John. Foi crucificado. Quem podia imaginar que fosse acontecer mesmo? Dois milhões crucificados. Podia ter sido em Liverpool. Ou em Miami. Pois foi em Belém que tudo começou. Nenhum Beatle teve platéia que nem ela. Essa sim, mulher de verdade. De peito. Que põe a mesa e faz a cama, tá me entendendo? À moda antiga. E foi com ela que os homens voltaram a compartilhar a dor, como se fossem um só corpo. Compartilhavam todas as dores. As dores do parto. Um mesmo sangue. Todos ali, filhos de Deus. Legítimos, entende? E de uma mesma mãe. É... lá no fundo, uma sociedade matriarcal. Belém, onde a revolução sexual deu certo, afinal. Onde as mulheres comandam. Tudo graças a ela. A elas todas.
Posted by cacoishak at 4.08.07 12:04