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2.07.07
pé, pra que te quero?
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Imagina o quadro, mulher: vocês estão de namorico faz já alguns anos e ele te convidou, finalmente, para um jantar à luz de velas no restaurante mais badalado da cidade. Fez questão de armar toda uma cena e, ao estalar os dedos, violinos (vindos sabe-se lá de onde) começam a executar aquela música linda daquela comédia romântica a que vocês assistiram na primeira vez em que foram ao cinema juntos. Ele fica te olhando todo abestalhado e não muda a expressão, nem pisca, até levar a mão ao bolso da calça e erguer uma caixinha preta aveludada. A certeza de que é chegada a tão esperada hora só faz aumentar em teu peito, mulher, que já não suporta as palpitações. Ele, então, parte para o ataque, estende a outra mão e – surprise, surprise – agarra teu pé direito. É melhor que estejam bem cuidados...
“Ainda não pedi o pé de ninguém em casamento. Mas já dei anel de dedo do pé pra namoradas”, confessa Ronaldo Passarinho, cineasta e, a exemplo de seu colega norte-americano Quentin Tarantino (recém-saído do armário), podólatra assumido. “Gosto de pés femininos antes mesmo de me entender por gente. Pés são zonas erógenas poderosas”.
Não adianta, portanto, mulher, ficar nessa de enrijecer o corpinho na academia ou sonhar em turbinar os air-bags, se teus pés andam aos trancos e barrancos – o acidente é iminente; o estrago, inevitável. Foi-se o tempo em que Carla Perez era rainha. O cetro de outrora de Pamela Anderson só serve, agora, de bengala para sustentar o peso das pomas. Uma Thurman já havia cantado a pedra em Pulp Fiction. Rose McGowan vem, em Grindhouse, para confirmar: homem gosta mesmo é de pé.
“Não que eu troque a mulher pelos pés. Adoro o corpo feminino dos pés à cabeça e da cabeça aos pés. Acho estranho é quem só gosta de peito e bunda e não aproveita as mãos, as pernas, as costas, o colo da mulher. E os pés, acima de tudo”. Entendemos bem, Ronaldo, não há necessidade de maiores explicações no receio de estar trocando os pés pelas mãos.
Mas o que seria um pé bem cuidado? Dentro dos padrões da Podologia, técnica de tratamento cuja popularidade vem crescendo em Belém, “seria aquele lisinho, sem calosidade nenhuma, com os dedos alinhados em ordem decrescente, que tenha o que chamamos de arco plantar, sem pontos de apoio. As unhas devem ser todas quadradinhas, sem problemas de encravação”.
Quem explica é a podóloga Edy de Moraes, que, entre uma dica e outra, segreda não serem as mulheres as únicas que buscam pelo serviço. Muito pelo contrário, aliás: “A procura dos homens por um podólogo está bem maior, em Belém, do que das mulheres. Os homens não gostam de expor isso. Então, procuram um lugar reservado pra cuidar de seus pés. Alguns vêm arrastados pelas esposas e acabam sendo mais fiéis ao tratamento do que elas próprias. Já tivemos casos, porém, até de homens que vieram escondidos de suas mulheres, indicados por amigos”.
Ao que Ronaldo franze a testa, considerando o papo um tanto suspeito: “Cuido do meu pé por higiene. Só. Pé de homem é um horror, deveria ser chamado de outra coisa pra não confundir com o pé feminino. Da minha parte, nunca teria chances com uma mulher podólatra. Tenho pés de pescador de caranguejo”.
Virilidade à parte, há aqueles que insistem em pegar uma contra-mão, para os quais pé é tudo igual, seja de homem ou de mulher. A ojeriza sentida é a mesma. Caso do universitário Flávio Barbosa, que sente “um misto de nojo e agonia. Quando alguém encosta com os pés em mim, finjo que não sinto nada. Mas trato logo de me afastar deles. Não sei quando essa repulsa por pés começou. Sei que sempre faço associação de pés com sujeira, calos, mau cheiro, suor, essas coisas. O que me incomoda não é a estética deles, mas, sim, o que eles representam pra mim. Faço o possível pra que as pessoas não percebam que eu não gosto de pés, mas evito, sem hesitar, ficar longe deles”.
A neura do moço é tanta, que nem mesmo objetos relacionados aos pés são de seu agrado: “Sapatos, meias, sandálias. Quando estão novos, não há problema. Mas quando esses objetos entram em contato com os pés, quero distância”.
É de se esperar que tamanho desgosto já tenha lhe feito passar por alguma saia justa, como quando estava apaixonado por uma namorada, “gostando muito, mesmo. Depois de uma semana de namoro, alugamos um filme e fomos para sua casa assisti-lo. No meio do filme, uma amiga dela ligou e, por isso, paramos o filme. Ela, então, ficou deitada na cama. Eu, olhando para ela enquanto falava ao telefone. Do nada, ela estende a perna e aperta o meu nariz com os dedos do pé. Não sei como ficou minha cara nessa hora. Eu entendi o gesto... acho que ela queria que isso fosse romântico, mas não consegui disfarçar. Foi horrível, nada romântico”.
Que não pensem, no entanto, que os apertos se restringem aos que não curtem umas pegadas de quando em quando. A podolotria, por sua vez, pode acabar sendo uma senhora pedra no sapato para as vítimas dos aficionados. A bailarina e coreógrafa Ana Unger que o diga: “Estávamos dançando em Santarém, eu era jovem, e a pessoa que nos convidou pra dançar lá, um senhor já de idade, após o espetáculo, aproximou-se e me perguntou se eu podia lhe fazer um favor. Respondi que sim. Perguntou, então, se eu não ficaria assustada com o que ele fosse me pedir. Já estava ficando nervosa, porque não sabia o que ele queria. Comecei, então, a fazer sinal pra minhas amigas pra que elas se aproximassem e não me deixassem sozinha com ele. Daí, ele falou que o que queria era muito simples, mas precisava que eu fizesse. Eu lá, ficando cada vez mais ansiosa. Até que ele me pediu pra que eu tirasse as sapatilhas, pois nunca tinha visto um pé de bailarina. Sua curiosidade era enorme”.
Nada impede, porém, que a abordagem seja sutil e o resultado acabe agradando o freguês. Ana conta sobre um episódio quando estava em Londres experimentando sapatilhas que haviam acabado de chegar no mercado, chamadas turning point. O criador delas estava na loja “e ficou encantado com meus pés. Era sapatilhas feitas especialmente pra quem tem esse colo do pé desenvolvido – pé forte, como chamamos. Ele quis fotografá-los pra colocar em seu catálogo e ganhei dois pares de presente”.
Dançarina num dia, modelo fotográfica em outro. Uma correria só. A vida para quem depende dos pés como instrumento de trabalho tem desses percalços. Por vezes, a beleza do resto do corpo acaba ficando em segundo plano, desde que os pés estejam nos trinques. “Cuido dos meus pés regularmente, pois trabalho com eles. Tenho de estar preparada pra quando aparecer algum convite. Além da limpeza habitual, outros cuidados são necessários. Uso bastante sapato fechado, principalmente na hora da malhação. Então, tenho sempre o cuidado de usar um anti-micótico, por exemplo. A maioria dos homens realmente olham pros pés das mulheres, sabe. Meu marido, pelo menos, elogia bastante os meus”, sorri a modelo de pés Sônia Vaz de Lins, timidamente, mostrando os seus, que se encaixam com perfeição no padrão estético defendido pela podologia.
O mesmo não pode ser dito de todas as bailarinas, como revela Ana, uma exceção apaixonada por seus pés: “Quando comecei a fazer ballet profissionalmente, usando a sapatilha de ponta por muitas horas, os problemas começaram a aparecer. Calos, bolhas d’água, o pé vai tomando uma forma diferente, as calosidades surgem, os joanetes. Eu, graças a Deus, nunca tive tanto problema, porque comecei a cuidar desde cedo. Tive uma professora em Londres que dava aulas especiais sobre como cuidar dos pés. Eram exercícios pra compensar o excesso de peso que colocamos em suas pontas. Com isso, os problemas foram diminuindo. Adoro meus pés”.
E então, mulher, aprendeste? Não te deixes pegar desprevenida, portanto. Mas presta bem atenção, não te desanimes com qualquer bobagem. Na dúvida, bom mesmo é ouvir o que um homem tem a dizer sobre o assunto: “Há pés femininos pequenos e lindos e há pés femininos grandes e belos do mesmo tanto. Tamanho não é documento. O que mais me atrai é ver que a mulher cuida bem dos pés e sabe que são armas de sedução”. Quem diz é o Passarinho, dos mais entendidos.
(versão sem cortes da matéria escrita pra de.lovely, revista sobre cultura e entretenimento, aqui do pará)
Posted by cacoishak at 2.07.07 20:05