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20.07.07

descabaçando chico

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diferente do que acontece por aí, meu pai nunca me levara a um prostíbulo. puta pra mim era Maria Madalena e olhe lá. convertida. enquanto os primos se lambuzavam com as conversas de que ontem à noite gastei quinhentos paus só com piva e black label, abstinha-me em frente à tevê nas madrugadas. barbudinho de smoking e sua salada de frutas. nem sabia o que era punheta (como é que tu bate? assim – palma da mão fechada pra cima – ou assim – palma da mão fechada pra baixo – interrogação). sem a menor inclinação pra vegetariano, cortava uma lasca de salaminho e encharcava a gengiva de conhaque roubado da mãe. desde cedo.

– não te disse pra me esperar em casa?
– quase fui.

perdi a virgindade pelo caminho. perdi o que perderia e acabei perdendo a festa. “te disse pra esperar. Perdeu.” perdi. uma sequência de agoras nãos. era mais velha, uns dois anos. e se contentou com o cachorro do vizinho que vinha lhe trazer almôndegas escaldadas todas as manhãs, tão logo o sol raiasse.

– era bangela, nem tinha perigo.
– no problemo.

voltei pra frente da tevê. zapeava o futuro e lambrisava o controle remoto de fora pra dentro com a palma da mão fechada pra baixo. assim me apetecia, como houvera recém-compreendido. com o tempo, fui aprendendo. desenroscava o bocal do telefone e o capiroto atendia do outro lado. linha cruzada.

– tá fazendo o quê? tá chiada a ligação.
– eu? acho que nada.
– tá chiada. tô indo aí.

chegou. mas já tindo ido embora. fui atrás de uma puta. o marido estava preso por tráfico de cocaína e ela era linda, como só Maria Madalena podia ter sido entre as não convertidas. ofereceu-me um trago em seu cachimbo de crack, recusado. escutei suas lamúrias chiadas do peito com o ouvido encostado em seu mamilo. em troca, cheirei seu sovaco. e fui pra casa. ainda virgem. já tinha ido embora. fui atrás.

– cachorro, não late.

da janela, as pernas abertas. era noite. indicador cruzando os lábios. “mas entra”. entrei mudo e saí calado, palitando os dentes com os fiapos que brotavam das aréolas. revestia-me do silêncio de minhas calças respingadas. ela, deitada.

– quantos anos tu tem mesmo?
– quatorze. por quê?

como se o semi-sorriso não me dissesse nada, parti. sem mais prosa, nem verso. o cabaço era meu e assim o guardei pra dois meses depois descobrir com tapinhas nas costas e sorrisos escancarados que eu, o comedor, rugia na cama que havia de a deixar toda assada.

– tem uma fila aí fora.

escapei pelos fundos, decidido a encontrar uma puta de verdade. a sete quarteirões dali. e fomos felizes, quebrando as caixas d'água das privadas com os solavancos à prestação, quando então saiamos correndo pelados pelos campos iluminados até encontrarmos uma sombra onde pudéssemos gozar na santa paz entre rangidos e um versículo e outro.

(texto escrito pra coluna na outracoisa. o novo, em pasto, já tá no ar)

Posted by cacoishak at 20.07.07 18:13