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5.04.07

disco inferno

ele não sabia lá muito bem o que fazer com as garrafas que equilibrava com a vareta apoiada no umbigo à mostra na forma que tomou o vê pra baixo da camisa desabotoada. todo dia santo, ela vinha e colocava uma nova e reclamava sobre o torcicolo que sentia de tanto que ficara olhando pra cima na noite anterior e na antes dessa e na daquela e na passada e em todas as outras também, na espera de que um saca-rolhas caísse do céu em sua cabeça ou direto no coração, logo de uma vez, pra ver se o novo ainda era como antigamente. mas não caía. e ela continuava empinando o queixo, quebrando o gargalo e cortando as palavras que tentavam sair de sua boca e provocavam um engarrafamento das talagadas que iam se espremendo entre os dentes ensanguentados cerrando desejos e um descaso forçado. empinava e envaretava, empilhando as garrafas vazias na manhã seguinte a caminho da cama. ele, lá, equilibrando e pensando se um dia conseguiria dormir antes que o chão se espatifasse em cacos e o mainstream tomasse conta do barraco e fizesse o que era triste parecer ainda mais triste na ilusão de que o bonito também tem lugar num pé-sujo quase de esquina, daqueles que a gente entra por uma portinha estreita e vai se perdendo através de um corredor escuro, falhando com a única lâmpada que teima em mixar o tilintar das garrafas empilhadas.

Posted by cacoishak at 5.04.07 20:48