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22.03.07

MADAME SAATAN

A caboclada está em festa. Mandaram avisar que vem da floresta um novo batuque e ai de quem não estiver em seu devido posto – vai perder. Curupira desentortou as pernas pra chegar mais rápido e entortar o cabeção numa nice. Até Matinta Pereira se animou. Deu as caras e distribuiu pra todo mundo. É fumo rolando solto na mata, seô menino. Não é todo dia que vem por terra disco que promete abalar as estruturas entre o céu e o inferno, não. Lá longe, alguém berra. Começa a pajelança. Saci se regozija num oba-oba danado. O espírito baixou. A Madame Saatan chegou. Encostado num canto, o Capiroto esboça um sorriso e bota o chibé pra dentro. Faz cara de quem gostou. A cantoria não tem hora pra acabar.

Mas voltemos um pouco no tempo. Idos de 2003, quando ainda não existia uma banda propriamente dita – afirmação (negação?) contestada, sem maiores problemas, pela moderna física quântica e sua teoria das probabilidades. Senão, vejamos.

Sammliz era (não era) Sammliz e já surtava com a lua cheia. Ícaro era (não era) Ícaro, o contrapeso, desde sempre o equilíbrio em pessoa. Edinho era (não era) Edinho, o menino virtuoso com a educação de um gentleman. Ivan era (não era) Ivan, moleque malandro do Bairro do Jurunas e exímio jogador de Copas. Os elementos estavam na ar. Faltava, portanto, tão-somente um Big-Bang, um catalisador que causasse a reação química necessária pra que as dimensões se fundissem, dando vazão a uma possibilidade nova por excelência.

O nome da substância? Paulo Santana. Dramaturgo que, na época, encenava a peça “Ubu Rei”, de Alfred Jarry (outro conturbado de berço), então rebatizada de “Ubu – Uma Odisséia em Bundalelê”. Sammliz trabalhava com o moço e não titubeou ao receber o convite pra compor a trilha da montagem. Nascia a Madame Saatan, remetendo ao célebre filme de Cecil B. DeMille. Deus não quis falar? Who cares? Deu no que falar. E muito.

Tanto, que, se a temporada de náuseas e prantos da platéia chegava ao fim, o desconforto não podia parar. Não eram poucas as mães ainda a serem assombradas. Os trabalhos estavam apenas começando. No entanto, sem maiores neuras. Tudo em seu tempo – relativo que só ele. Assim como trabalho pode se confundir com diversão. E escandalizar não passa de uma mera quebra dos paradigmas. O tal do Caos, o tal do Cosmos. Fluxo e refluxo. Mal surgiu em 2004 e “O Tao do Caos”, primeiro registro da banda em EP, reverberou o que era, até então, uma promessa e nada mais.

E, valei-me Nossa Senhora de Nazaré, o que diabos era aquilo? Mesclando letras de uma poesia tão original quanto o som calcado numa fusão de ritmos tão díspares entre si quanto heavymetal e carimbó, hardrock e lundu, baião e jazz, blues e trash – morre num metal amazônico, pro rótulo ser chamativo que dá gosto e por logo um fim às especulações –, o disquinho despertou a atenção da crítica e dos produtores na bucha, sem pestanejar.

Não demorou pros convites serem feitos e lá foi a Madame Saatan tocar por plagas desconhecidas, em importantes festivais do cenário independente, como Bananada (GO), Grito Rock (MT), Calango (MT), PMW (TO), e em casa mesmo, no Se Rasgum no Rock. Caiu de vez no gosto de santos e demônios.

Mas também, né, maninho... (e essa não é a primeira vez que digo isso). Quem tem Sammliz, não pode reclamar da vida. Nem se dar ao luxo de não aproveitar cada segundo dela. Pito e repito. Lembro-me bem do último show que vi da banda. Sammliz sambava. Pulava. Requebrava. E chorava ao microfone, exalando charme e tentação. Sentada a uma caixa de som, compartilhava momentos de intimidade com a platéia. Todos se digladiando por algumas gotas do suor da musa, sensualmente respingados por ela com as pontas dos dedos entre um suspiro e outro. Ah, se fosse só isso, porém...

Se não tivesse Ivan Vanzar fazendo de suas estripulias na bateria, inventando uma nova bossa com as baquetas, que gargalham nos tambores e no que estiver por perto – seja teto ou cabeça de menino. E o que seria dessa cozinha não fosse o baixo nervoso de Ícaro Suzuki (num frenesi estranho pra quem conhece o moço fora dos palcos; mesmo seu swing com o instrumento parece bater de frente com a esfinge aos olhos de quem o vê distante) a picotar os riffs de Edinho. Ah, se não fosse a maestria desse moleque Edinho – galã de ocasião – a injetar o sangue de quatrocentos cavalos e seus relinchos bem na jugular da criatura, devolvendo-lhe a vida esparramada qual éter pelo chão de anáguas...

Não haveria Madame Saatan. Não haveria essa dualidade monocórdia. Não haveria festa e nem a lua como a conhecemos. Não haveria “história de amor cine trash à meia-noite”. Nem o álbum homônimo que ora celebramos.

Com produção de Jera Cravo, em conexão direta com a Bahia, e a participação de Alcir Meireles na direção musical, o CD foi gravado em apenas sete dias (há quem duvide e afirme que o sétimo foi de descanso) no estúdio “O Meio do Mundo”, do ex-baixista da também paraense La Pupuña.

De onde saíram pérolas do cancioneiro prapular brasileiro – musical e poeticamente falando – como “dormindo nos braços da estátua com folhas nos dentes”, da porrada seca que é Devorados, faixa que abre o álbum. Ou “nem seus pecados são mais você”, de DUO. Chega, arrepia. Hits fáceis, já entoados pelo público nos shows. Público que delira por Diana de Messalina Blues. Bate cabeça em reverência aos soldados de Apocalipse. Isso, pra não falar do auê provocado por Cine Trash, citada acima. A surpresa fica por conta de Ela Queima, Ela Sorri, composta durante as gravações, em que encontramos uma Sammliz melancólica além da média. Simplesmente linda. Divina. Maravilhosa. Internacional.

A caboclada tem motivos de sobra pra festejar. É a Amazônia que pede passagem. Quem é rei, afinal, nunca perde a majestade. E já dizia a rainha: índio quer apito, mas também sabe gritar. Algum outro clichê aí na manga? Ou cansou da mesmice? Inúmeras são as probabilidades, não é mesmo? Pode, então, pegar a manga e começar a chupar. Transfigurou. Foi-se o tempo em que a mata era a explorada. Ela quer, agora, é explorar. O uirapuru vem cantando trazer as boas novas. Faz o pedido, que a Madame Saatan despacha.

Porque essa festa... ah, essa não tem hora mesmo pra acabar.

ooOoOoo

release escrito pro lançamento do primeiro álbum da madame saatan. fui convidado a escrever o texto de apresentação, o que me deixou bastante honrado. quem não conhece, que corra atrás.

Posted by cacoishak at 22.03.07 16:41