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18.03.07

cel manda avisar

amanhã, às vinte horas, na livraria da travessa de ipanema, o amigo carlos eduardo lima lançará seu primeiro romance, vestido de flor, pela editora vertical. escrevi uma modesta resenha a respeito. aqui e abaixo.

ooOoOoo

Sei de uma coisa apenas: esse troço de amar e ser amado, atravessar a praça de alimentação do shopping abraçadinho à cara-metade pra depois ficar brincando de sujar a cara um do outro com os sorvetes que vieram de brinde na promoção da lanchonete fast-food – brinde este que tu fez questão de pagar sabendo que estavam te enganado (ei, acorda, seu paspalhão, estão te passando pra trás, será que não dá pra ver?!), mas pagou o dobro do preço que pagaria pelo sanduíche e o refrigerante mais a batata-frita num podrão de esquina, pagou rindo que nem um abestalhado porque ela pediu com aquela voz de siriema recém-saída do ovo que só as mulheres mais despudoradas sabem fazer quando precisam engolir o discurso pós-queima-dos-sutiãs que usam na hora do coito e nas discussões sobre religião e política; isso tudo aí de pagar uma de namoradinho, enfim, sei que isso não é pra mim.

Nem pra mim, nem pros tetos da vida. Porque isso de amor, tsk... isso acaba. “Acaba pelas circunstâncias, pela rotina, pela falta de tempo, pelo desinteresse, pela vida, pela morte. O amor acaba de qualquer jeito”, confirma-me o teto do apartamento onde mora Bernardo, o herói de um romance mela-cueca que acabou de ser lançado pela Editora Vertical. Vestido de Flor, o nome do tomo encharcado de lágrimas.

Confirmação a qual lhe retruca o tal herói: “Mas... Eu não concordo exatamente com isso”. Alter-ego escancarado de seu criador, o jornalista Carlos Eduardo Lima – que, hell well, não satisfeito em acreditar no amor, acredita também no rock’n’roll. Poutz. Não podia dar em outra, né? Dramalhão com direito a trilha sonora ao longo de todo o livro. De Engenheiros do Hawaii a Counting Crows, passando pelo Rei Robertão e os mineiros do Clube da Esquina – disco este que acaba virando o brinde lá de cima com que, a certa altura do campeonato, Bernardo presenteia Flora, admiradora involuntária de Vitor Ramil e mocinha da história.

Que, resumida, fica assim: carioca desempregado e aficionado por cultura pop, aos trinta e quatro anos ainda morando com a mãe, marca um encontro às escuras com uma desconhecida, atriz teatral curitibana e amiga de uma amiga do moço, ocasião em que ela deverá usar – adivinhem – um vestido de flor como referência pra que o rapaz a ache no meio da multidão. A isso, segue-se um emaranhado de encontros e desencontros na cidade maravilhosa, em que o pano de fundo simplesmente não importa. Afinal, estão embriagados de amor (alusão minha, concorrendo com as cinematográficas do livro). Ou, pelo menos, um deles está.

E assim se resume a história. De boa parcela da humanidade de uns tempos pra cá, a bem da verdade. Resumindo ainda mais um pouco: homem correndo atrás de mulher, que desdenha. Mas só aparentemente. Como todo bom resumo deve ser, aliás. Falso. Incompleto. Difícil, isso de falar de si próprio na terceira pessoa. Imputar suas inseguranças e jocosidades a outrem e, não obstante, fazer com que esses sentimentos soem tão eloqüentes a ponto de terceiros tomarem pra si a dor negada pelo autor.

CEL – como Carlos Eduardo Lima é conhecido por seus leitores habituais – soube realizar essa proeza. Um livro bom de se ler na praia. No ônibus. Na fila do cinema. Escrito e pra ser lido de maneira simples, quase à surdina. Sem maiores malabarismos literários. As contorções, ele deixa pro romance em si. Como todo romance deve ser, aliás. E é. Esse papo de chapado, muito reto e esticado, isso é coisa de teto mesmo. De parede, que não tem mais o que fazer na vida. De porta.

Portas... mas, afinal, que culpa temos de pertencermos, como bem o disse Alexandre Inagaki no prefácio do livro, a essa “geração de cínicos cênicos”? Talvez Flora, a atriz da trama, consiga explicar. Ou prefira continuar atrás da sua. E de Vitor Ramil.

Posted by cacoishak at 18.03.07 15:41