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17.10.06

tá chumbado, o menino

"chumbei ele. tava tenso. disse que não tinha dormido a noite toda".

sabe lá o cacete o que mais eu devo ter dito depois que os sedativos começaram a fundir a cuca. de cueca e meias e toca e um avental. deitado sobre a mesa fria de alumínio do hospital. hoje de manhã. bem cedo. claro que eu não ia dormir. sou vampiro. do bando de rê mutran - parte pobre da família (pobre filho de pai rico, ele diria, todo prosa numa citação que fui descobrir, na festa da chiquita última, ser minha. eu, de cowboy, numa das maiores e melhores festas gay do país, na companhia de três machos de carteirinha - um descamisado, outro ray banizado e, o terceiro, galã-arroz-de-festa - ymca total. pois é meu o bordão, cuspido na lata de um casal simpático no elevador do prédio do renatinho, onde passava meus primeiros dias depois de ter dado o fora de casa. carnaval de dois mil e dois - mas essa é outra história. eu pensando esse tempo todo que havia sido uma pérola dele. modéstia à parte, digna de pára-choque de caminhoneiro hômi-bode. acabou compensando o renato na chiquita com seu "tô doado" - crássico pra ficar: tô cansado, tô chapado, tô excitado, tô quebrado. tá todo ado, o garoto. todo ado. tô doado. resume bem a pendenga). pois bem. não dormi. e a anestesista jurando que eu estivesse tenso. talvez. como disse, vai saber das atrocidades que não devo ter dito a medida em que os olhos iam minguando. muitas emoções vividas nesses últimos dias. raciocínio confuso. aposto um maço como não rodei um filme de trash terror regado a muito psychobilly na mente da equipe médica. mas sobreviveram aos contos da cripta. estavam em ligeira vantagem. eu, braços e pernas amarrados à mesa, só podia devanear. mente livre, cachola fresca. e dava pra ser difente? mais um tiro apenas que me restava. os outros cinco já haviam sido disparados. uma engatilhada a cada mês. e nada de bala. era pull the trigger e pimba. miolo pra tudo quanto era lado. e chama o wolf. uma senhora roleta-russa, essa em que me meti. ainda não compreendo bem essa minha vocação pro auto-boicote. é geronimosidade demais pro cabeção. desvendo no romance, quando começar a pensar no que escrever. por enquanto, vivo. e vou me testando e testando meus limites. importa é que se foi embora el madito catéter. esse mesmo. bastante útil durante a quimioterapia. mas que tava servindo de mero body-art pra boi dormir dentro do peito nos últimos cinco meses. bomba-relógio. a qualquer momento podia ser bau-bau. tinha de ser limpo religiosamente uma vez ao mês. mas quem disse eu me prestava a isso? cinco meses. cinco tiros. nada de bala. da sexta tentativa, não escapava. bala na agulha. coágulo no coração. e piff. bar none. daí, resolvi não arriscar mais. e a-tirei essa porra do lado contrário ao coração. cansei de brincar de john wayne. clint pediu passagem. vou sentir saudades do meu terceiro mamilo. e nem um mapa pra confundir as ladys deu pra rabiscar. chumbei demais. a cruzeta não saiu. fica pra próxima encarnação. quando hei de nascer com um terceiro mamilo-pitomba de fábrica. sem motivo nenhum pras siliconizações.

Posted by cacoishak at 17.10.06 19:31