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24.10.06

índio quer rock

and roll. porque indie é coisa de viado. saiu matéria nossa na revista outracoisa número dezessete. com fotos de mário guerrero e renato reis. tiveram que dar uma ligeira enxugada no texto, por assim dizer, mas não pega nada. vai abaixo a íntegra da bagaça. não revisada, obviamente. diz boa noite, william.

- boa noite, fátima bernardes.


ooOoOoo


Brasil, 1500. Aportava no território hoje conhecido como Bahia de todos s santos as três naus portuguesas, abarrotadas de marujos sedentos por desfrutar dos prazeres oferecidos pela terra ainda desconhecida. Mata fechada era o que podiam apurar ao longe. De onde logo saíram os nativos para recebê-los um tanto quanto calorosamente, por assim dizer. Levados pelas mãos por beldades cor-de-jambo, cujos cheiros e sabores eram da receita o mais exótico dos prazeres, adentraram a floresta. Não demorou, depararam-se com o nunca dantes visto. Festa estranha, com gente esquisita. Mas nada de birita. “Passa um cachimbão da paz pro Cabral, que daqui ele não sai mais”, disse então Abopuru, a primeira groupie genuinamente brasileira. Gostou tanto do pincel do moço que dele ganhou de presente, que acabou com ele ensaiando seus primeiros garranchos. De lá pra cá, pouca coisa mudou. Pouquíssima coisa mesmo...

Brasil, setembro de 2006. Belém. Parque dos Igarapés. I Festival de Rock Independente do Pará. Se Rasgum no Rock. Roqueiros saídos dos confins da terra brasilis, sedentos por desfrutar dos prazeres oferecidos por este solo ainda desconhecido pela maioria dos nativos que neste país se escondem, desembarcam por estas plagas sem a mínima idéia do que por eles esperam. Na bagagem, além do bom e velho rock´n´roll, alguns artefatos que, a olhos desatentos e desprovidos de um mínimo de sensibilidade, não causariam assim tanto furor. Pode ter demorado além da cota, mas finalmente a Bahia caiu. Após mais de quatrocentos anos de rixa, o Pará teve sua chance em caráter oficial de desbancar os orixás no veredicto final. Com destaque no quesito sensualidade. E em tudo mais que a criatividade pôde transformar quando os recursos que se tinham ao alcance das mãos, embora distantes de serem rústicos, eram, no entanto, escassos.

“Estamos passando uma temporada em São Paulo, temos alguns compromissos com o Sesc e tal. Então, fora o frio de são Paulo, ainda há a tensão com o PCC nas ruas e o caralho, nego fica se cuidando na hora de voltar pra casa e tudo. Daí, chega num festival desses, com esse clima, a gente até se desintoxica um pouco. Passei horas ontem no igarapé. É difícil surgir uma oportunidade de curtir uma água dessas, mais natural. Eu estava comentando com o Marcelo (Damaso, um dos organizadores do festival) que o sujeito que projetou esse parque, essa estrutura toda, se inspirou no rock´n´roll, em Woodstock. Pensa num lugar perfeito. É aqui”, desabafa Fred 04, da Mundo Livre (PE), escondendo o jogo do que realmente aconteceu nos chalés onde as bandas forasteiras, com exceção de Cachorro Grande – urtiga? –, ficaram alojadas, dentro do parque.

Com um pouco de insistência, continua: “É muito difícil a gente fazer o que está fazendo aqui, ficar os três dias acompanhando o festival, ficar no meio da galera. O fato da gente ficar hospedado dentro do parque também ajuda muito na história do intercâmbio entre as bandas. Não adianta essa coisa de e-mail, Orkut. Como disse o velho mestre Milton Santos, a verdadeira comunicação se dá no território. A comunicação cyber é uma ilusão de comunicação. Onde não tem emoção, não tem comunicação.” Agora, sim. Começou a melhorar. Mais um cutucão e o sujeito abre a boca.

“Isso aqui é pra garganta, eu fumo muito”, enrola Bactéria, tecladista do grupo, mostrando seus frascos de mel com própolis e de vitamina C, estrategicamente condicionados na mochila caso a energia pra antes e depois do show ameace falhar. Menos tenso, acaba por dar o papo: “talco pra chulé também é importantíssimo, porque senão ninguém agüenta dormir junto no mesmo quarto”. Mensagem recebida, missão cumprida. Próximo chalé.

Já entregues ao clima mormacento que lhes é tão familiar, recém-saídos de baixo das cobertas (a revista não se responsabiliza pelo conteúdo aqui exposto), os moleques do Mezatrio (AM), ao contrário de seus colegas pernambucanos, não se encabulam de expor suas perversões mais ousadas, logo de cara: se amarram num papel contact e suas mil e uma utilidades. “Filmito serve, na verdade, pra embalar comida e deixar na geladeira sem que ela fique ressacada. Mas a gente usa pra embalar os instrumentos mesmo. A gente é pobre, não tem dinheiro pra bancar Protect Bag no aeroporto, então a gente usa isso”, explica o baterista Alexandre Lins, pagando uma de loverboy intelectualóide do underground amazonense. Escroto que só ele, o baixista Silvio Neto arremata: “mas não adianta de porra nenhuma, bicho. É só pra ficar mais bonitinho na hora de baixar o produto. Sabe como é... a idéia da Cidade do Rock foi impressionante. A idéia de ter tudo aqui, restaurante, barracas, mulheres, foi muito foda. E isso tem de ficar nos próximos anos pra caracterizar o festival”. Melhor passar pro andar de baixo. O perigo ali em cima era constante, como ficou patente quando Lins quis iniciar sua tese sobre o quão prático era o tubo já gasto do papel contact.

A umidade no primeiro piso do chalé, porém, continuava. Pelo chão, sinais da orgia promovida na noite anterior pelo grupo Los Porongas (AC). “Ao lado do Bananada, em Goiânia, essa foi a recepção mais quente que a gente já teve. Acho que aqui foi até um pouco mais. Fiquei sinceramente surpreso e emocionado”. Pode não ter parecido até então, mas era pura cropofilia o discurso do baixista Márcio Magrão. “Biscoito Passatempo é a droga mais poderosa que pode existir, sabe. Você come um e não consegue mais parar de comer. Acaba trazendo algumas complicações gastro-intestinais. A mesma coisa com o amendoim que eu trouxe, me deu uma puta caganeira. Comi muito”.

Com a certeza de que, de fato, esse povo do Norte é tudo um bando de depravado desnorteado, restavam The Feitos (RJ), Bazar Pamplona (SP), Superoutro (PE) e Wander Wildner (RS). No meio do caminho pro resto dos chalés, o punk gaúcho vocifera, encerrando o assunto: “não enche, tenho que trabalhar”. Segue com sua mala de cd´s rumo ao centro do parque. A barraca de beijos do Wander seria montada. E o tempo corre. Quando, então, bate o cheiro da marola.

Completamente esquecidos do tempo e do mundo e dos noticiários da tevê, os mato-grossenses da Vanguart nem pareciam estar prestes a subir no palco. E eu, agora, peço licença pra fazer parte, em primeira pessoa explícita, da matéria e de tudo mais que rolou no mais aconchegante dos chalés do festival. Até então me acompanhando, o fotógrafo Mário Guerrero acabou perdendo a algazarra por motivos profissionais. Mais interessado em desbundar de vez, Renato Reis assume seu lugar, visivelmente ressaqueado.

Pelo menos umas quinze pessoas dos dois lados da hospedagem. Faltava só uma churrasqueira pro bacanal estar completo. Fumaça tinha. Rodinha também. Violas sendo arranhadas. Nativas nuas saindo correndo do quarto enquanto rolava a já tradicional partida de futebol de botão dos meninos. Tambores-de-bolso freneticamente batucados, despelando o couro de quem se aventurasse. Vozes por todos os cantos, falando nas línguas dos homens e dos anjos – caídos ou não –, emulando um verdadeiro ritual pagão inspirado nas rezas carismáticas dos programas de televisão. E eu no meio de tudo isso. Literalmente. Homenagem a seu gato siamês, o goleiro do time do vocalista Hélio Flanders (que trajava suas pantufas bolivianas de pêlo sintético fashion, após ter perdido suas havaianas na noite anterior em manobras arriscadas) se chamava Caco. In apuros again.

“O mais escroto é que cada jogador tem seu próprio nome. São pessoas que existiram de verdade. Ou grandes nomes do futebol ou conhecidos nossos. No time do Hélio, tem um cara que foi aluno de inglês dele, o Paulo Brustolin. O cara era manco, a gente o chama de habilidoso perneta. Engraçado foi que, um dia, a gente estava no aeroporto de São Paulo e quem aparece? Pois é...”, provoca o baterista Douglas Godoy. Mas não pára por aí: “Tem também um jogador que era do Grêmio. Não vou citar nomes, mas tem uma história de que o André Vasquez, do Sapatos Bicolores, comeu a neta dele”, prosseguiu enquanto animava a partida com seu tambor-de-bolso ganhado na véspera.

“Esse tamborzinho foi um presente de uma aí que faz parte da imprensa. No momento, ela está ocupada”, diz apontando pra moça, atracada a um dos membros de alguém da banda. “Vou levar comigo nas viagens. É bom pra acordar o povo. Acho que sou o novo tamborzinista da banda. Vou até fazer um case pra ele”.

Nesse momento, Retrato Reis chama de volta minha atenção, já então um tanto dispersa. O show da Baby Loyds, banda punk local com vinte anos de estrada, começaria seu primeiro show com nova formação. Nos dois outros dias, haviam passado Aeroplano, Turbo, Nó Cego, Buscapé Blues, Stigma, Telesonic, Álibi de Orfeu, Johny Rockstar, Norman Bates, Stereoscope, Cravo Carbono, Suzana Flag e Madame Satan. Naquele domingo, dia 3, Retalietory acabava de tocar. Faltavam Jolly Joker, Delinqüentes, I.O.N., A Euterpia, Sevilha, Coletivo Rádio Cipó e La Pupuña pra quem ainda não tinha conseguido – vai saber como e por quê – descabelar o palhaço.

Sex appeal pra isso, as bandas paraenses tinham e têm de sobra, como bem o reparou Fred 04, com quem me reencontrei a caminho dos palcos. “Acho bacana o relacionamento do público daqui com as bandas locais. É parecido com o que rolou em Recife no começo, da galera se orgulhar e dar uma moral bacana pra eles”.

Nada à toa, meu caro senhor dos mangues. Afinal, foi-se o tempo em que meros espelhos davam conta do recado na hora de fazer bonito antes do coito. O escambo, agora, é mais embaixo. Índio quer é rock. E exigem que, por favor, seja bem feito. Pois começam a perceber que o produto de troca local está cada vez se valorizando mais, especializando-se mais e ganhando mais espaço e respeito da mídia nacional. O povo da Dançum Se Rasgum fez sua parte ao organizar minuciosamente os banhos afrodisíacos da pajelança pra muvuca não se desanimar um só minuto. Agora, resta apenas ao Brasil se curvar aos encantos da floresta. E de suas nativas groupies.

Posted by cacoishak at 24.10.06 3:30