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23.08.06
a gosto da vinil laranja

- E então, como vai ser?
Não ficaria surpreso fosse diferente. Tinha mudado. Reuniões já não eram suficientes pra animar o pagode e botar o carro ladeira acima. Tinha de mudar. Nessa hora, entra o som de um disco arranhando. Estoura uma voz no microfone. Pára essa porra. Que porra é essa?
- Acho que os Delinqüentes já tão tocando.
Mormaço remains. Dessa vez, como em todo sábado do agosto corrente, nas mãos de Bernie Walbenny, da Roquenroubeibe. A Gosto Do Rock, o garoto tem se aperfeiçoado na arte de fazer um bom trocadilho.
Três bandas e um DJ convidado por festa. Já haviam subido, nos fins-de-semana anteriores, Aeroplano e Álibi de Orfeu e Evil, mais Sidney Filho, AmpToy e Telesonic e Johny Rockstar, mais Nico Bates (no sábado de encerramento, 26, tocam Turbo, Stigma e Jolly Joker).
Era a vez de Jayme Catarro e sua trupe fecharem a noite, após a amapaense Stereovitrola tocar pela primeira vez em Belém. Mas antes… ah, antes. Boas-vindas dadas aos presentes e os meninos da Vinil Laranja sobem ao palco. Até aí, tudo bem. Até aí, nem eu tinha visto nada.
- Primo pela pontualidade, confessa Walbenny, todo nenenzinho-da-mãe-orgulhosa-pra-caralho-do-nenenzinho-da-mamãe.
É, mas eu não, penso todo escrotinho-cá-com-meus-botões. Mas isso também foi antes. Não. Foi depois. Depois do choque. Depois da catarse. Depois de nunca mais ter visto coisa semelhante pelas plagas das mangueiras desde a molecada doida da peça Paixão Barata & Madalenas e sua correria formiga-na-bunda ao deus-dará e como de Deus veio.
Pisamos na palafita, eu e a produtora Zena Gorayeb – skatista nas horas vagas – e demos de cara com o capeta. Eu dei. Zena ficou encabulada e de costas viradas pro pão. E dava até pra rir dele. Pena que só por três músicas – e olha que o repertório dos moleques é bom. São dez faixas túneis-do-tempo na demo de estréia, homônima, distribuída pelo selo Na Records. Ganhei, porra, no fim de tudo. Tem lá suas vantagens essa coisa de escrever.
Findo o show, nada mais a se fazer até que o próximo começasse. A bottle, will ya.
- Vamos sentar com o Sandro-K. Bom que ele não bebe.
Então, vamos. Boa gente pra caralho, o Sandro-K. Sim, ele mesmo, da Baby Loyds. Sim, essa mesma, produzida pela Zena. E nos sentamos com o punk. Straight-edge já há algum tempo, que fique claro. E, agora, empresário que é no ramo varejista, também pai dos emos da cidade. Não demorou pra que eles começassem a aparecer em nossa volta. Aos montes. Pela segunda vez na noite, o capeta dava as caras. Como diria Walbenny, "isso é roquenroubeibe!". E eu me vi em apuros. Cadê a Zena nessas horas?, vocês se perguntam. Nem eu sabia.
Ligo pro Cunhado Godinho, em busca de ajuda. Tentativa frustrada.
- Cara, e como são as meninas que estão com eles?
- Como são? São emas, porra!
Quando Bruno Folha, baixista da Vinil, provavelmente atraído pelo cheiro de enxofre, junta-se ao camarim do fashion week – têm bons corações, coitados. Sandro-K que o diga. Sigamos o exemplo do velho X.
- Cadê o peladão? Quero falar com ele. Com vocês.
E me aparece Andro Felipe. Tudo bem que tinha pau pequeno. Mas era pintoso, o sujeito. Deu até pra esquecer dos emos.
- Não ficaria surpreso em descobrir que vocês se conheceram numa fila de banheiro e resolveram começar a banda. Mas também acho isso pouco provável. Então, conta aí como foi.
- Bem, eu conheci o Folha (baixista-cueca) na oitava série e ficamos amigos depois dele abdicar do rap e começar a escutar Beatles. O Saul (Smith, guitarra-condicionador-de-cabelo) conheci quando fazíamos teatro juntos. Aí, ele dizia: "pô cara, bora formar uma banda?". Bem... deu no que deu, certo? Ficamos quase um ano sem batera, só tocando nas violas, quando a ex-namorada do Saul falou: "ah, eu tenho um irmão que toca bateria". Quase a gente bate nela por ter ocultado isso por tanto tempo. Então, o Douglas (Brasil, bateria-frita) veio de New York (Baião) pra tocar na "Putrefação da Carnificina de Jesus", antigo nome da banda. E hoje somos a Vinil Laranja.
- O som de vocês lembra em muito os das primeiras bandas independentes americanas que rolavam nas rádios universitárias. Vocês cresceram ouvindo o quê em CD? E depois, quando redescobriram o vinil?
- Cara, ouvimos varias coisas... vou citar uma pequena lista: Queens of the Stone Age (Intromissão do Jornalista: nas mãos de criança, dá nisso), Foo Fighters, Nirvana, Beatles, The Cure, Blink 182, Frank Sinatra, Strokes, Johny Rock Star, U2 e muitas outras coisas... (I. do J.: tá explicado?) hum, hum... Arcade Fire é muito legal também.
- E por que as letras são em inglês? Vocês pensam em compor na língua pátria ou foda-se a língua pátria? Aliás, por que diabos o nome é em português? E qual foi a liga com esse vinil laranja?
- Bem... as letras são em inglês simplesmente por fluir melhor pra gente dessa forma. Não digo foda-se a nossa língua, mas por enquanto estamos em uma linha e não queremos quebrar (vamos compor em francês e alemão em breve). O nome surgiu por causa de tapiocas com manteiga e suco de laranja, pô, é óbvio. Sem esquecer do filme De Volta Para o Futuro e Laranja Mecânica.
- Difícil fazer isso em Belém, né? Rock alternativo. E em inglês... o exterior é o caminho, a começar pelas Guianas?
- Caraca, nós pensamos e sonhamos muito em sair pra mostrar nosso trabalho fora do nosso território. Acreditamos, às vezes, que poderia ser até mais fácil fora. Belém tem ótimas bandas, só que com muitas dificuldades (essas que só são superadas quando se sobe num palco, pois vale a pena). Esperamos ajuda de fora e oportunidades para crescermos cada vez mais. Nós apenas queremos fazer rock'n'roll pra sempre.
- Ter pau pequeno influenciou na decisão de começar uma banda? By the way... que porra foi aquela no Mormaço? Calor (frio?!) ou rock? E não vem me dizer que tamanho não faz diferença...
- O Mormaço foi um show muito legal, realizei um sonho antigo. Essas coisas acontecem na Vinil (realizar sonhos). Gostamos de nos acariciar e eu sou a favor do nudismo. Estamos apenas vivendo essa vida, sabe? Queremos jogar o dado de marfim pra quebrar e não pra ganhar. Coisas acontecem no palco. MUITAS COISAS. Como se diz: "quando nada faz sentido, vire minha noiva e faça amor comigo". O Saul (The Lion) sempre me pega com essa frase. E, hey... meu pau não é pequeno (7cm). É normal.
- Sim, sim. Não foi a primeira vez que vocês deram um puta show no palco. A performance conta muito nas apresentações de vocês. Fosse na cama, seria auto-explanatório. Mas, porra, a música de vocês é massa mesmo, tem grandeza. Por que disso, então?
- Não escolhemos quando vamos fazer coisas belas (loucuras para leigos), ensaiamos e tentamos compor dando o máximo do nosso potencial, SEMPRE. somos super amigos e isso ajuda muito em tudo, queremos tocar e tocar. Acho que fazemos por diversão e auto-satisfação e homo-auto-satisfação.
- Qual vai ser daqui pra frente? Vocês já têm uma demo... e agora, pensam no quê?
- Lançamos uma demo no início desse ano e, ano que vem, vamos juntar as coisas pra começarmos a gravar o CD novo, talvez no inicio de 2008 ou final de
2007. E vamos botar pra quebrar, oh yeah.
Time to go to bed. Não sem antes beber um pouco mais, curtir com quem tinha de ser curtido numa magistral auto-curtição e dormir ao volante pra acordar com a buzina na testa do dia seguinte.
ooOoOoo
Links da Vinil Laranja:
http://br.geocities.com/vinil_laranja
http://www.fotolog.com/vinil_laranja
ooOoOoo
originalmente publicado em rockpress.
Posted by cacoishak at 23.08.06 2:45